guarda baixa

Sempre me perguntei por que alguns cineastas, após realizarem grandes filmes no passado, verdadeiros clássicos do cinema, dirigem produções tão fracas quando chegam à velhice. Isso quando nem esperam amadurecer para começar a manchar a própria filmografia lançando trabalhos medíocres. Esse também é um fato que vejo com uma frequência ainda maior no cenário musical. Muitas bandas ou artistas-solo que revolucionaram a música quando jovens não conseguiram manter o mesmo nível após alguns anos de carreira. Até na literatura há os que também ficam eternamente marcados pelo livro de estreia.

Esse é um assunto que muitas vezes orbitou em rodas de conversas e eu nunca soube apontar uma razão para esse “fenômeno”. No entanto, há algumas semanas atrás, encontrei a resposta assistindo a vídeos de Leandro Karnal que, de tão óbvia, me passou despercebida. Esses artistas caíram na terrível zona de conforto. Tentei encontrar o vídeo para transcrever as palavras de Karnal, mas não encontrei. É um vídeo em que ele usa a expressão “baixar a guarda”. De toda forma, encontrei outras palestras em que ele novamente disserta sobre o tema.

Para Karnal, é natural do ser humano buscar zonas de conforto, pois elas fazem com que não gastemos energia pessoal e cerebral. Porém, para todos aqueles que se dedicam ao estudo de carreira, a zona de conforto é a grande armadilha da vida. Ela nos diz para relaxarmos, para ficarmos bem porque “chegamos lá”. Entretanto, toda vez que acreditamos ter “chegado lá”, começamos a diminuir a potência de tudo aquilo que podemos fazer. Zona de conforto é o que buscamos, mas ela também é o início do nosso declínio, afinal, ela produz a felicidade que nos leva à acomodação, que nos leva à preguiça e esta, por sua vez, nos leva ao não desenvolvimento do nosso potencial. Ou seja, aquilo que nos favorece é também aquilo que nos prejudica.

Tudo isso faz muito sentido. Estudamos, nos esforçamos e damos tudo de si quando estamos desenvolvendo nossos primeiros projetos. Queremos provar para o mundo do que somos capazes. Toda essa motivação inicial é mesmo difícil de ser mantida se já conquistamos um espaço em nossas áreas de atuação. Sempre que penso nisso, me vem à mente o exemplo de Tom Zé, que a cada novo trabalho consegue se superar. O Mestre sempre fala em uma espécie de deficiência, de dificuldade na hora de criar. Segundo ele, esse sofrimento é o que o motiva a estudar todos os dias para conseguir compor suas músicas. Além do talento natural que Tom Zé possui, acredito que essa dificuldade que ele diz ter o impulsiona em direção ao trabalho árduo dos estudos e, consequentemente, para fora de qualquer zona de conforto.

Escrevi essas linhas ao som de Raul Seixas e, coincidentemente, em sua canção ‘Eu Sou Egoísta’, ele fala, entre outras coisas, sobre zonas de conforto. É uma das minhas músicas favoritas do pai do rock brasileiro. Na letra ele diz: […] Eu sou estrela no abismo do espaço / O que eu quero é o que eu penso e o que eu faço / Onde eu tô não há bicho-papão / Eu vou sempre avante no nada infinito / Flamejando meu rock, meu grito / Minha espada é a guitarra na mão / Se o que você quer em sua vida é só paz / Muitas doçuras, seu nome em cartaz / E fica arretado se o açúcar demora / E você chora, cê reza, cê pede, implora / Enquanto eu provo sempre o vinagre e o vinho / Eu quero é ter tentação no caminho / Pois o homem é o exercício que faz […]. Estou sempre em busca dessa tentação no meio do caminho. Perder totalmente o medo da mudança é meu verdadeiro desafio. Nós somos o exercício do que fazemos.

Por fim, quero dizer que escrevi esse texto para agradecer todo o apoio durante o ano de 2016. Sou grato por cada acesso ao blogue, a cada pessoa que tirou alguns minutos do seu precioso tempo para ler meus textos, a cada pessoa que curtiu, seguiu e comentou. Muito obrigado. O que desejo para nós em 2017 e para vida toda é que não baixemos a guarda. Nunca! Feliz ano novo! Abraçaço

meus discos favoritos de 2016

Eu já havia decidido que não faria a lista dos meus discos favoritos desse ano, pois julgava não ter acompanhado bem a safra de 2016. Acontece que, de fato, não ouvi tanta música como nos anos anteriores, mas ao ver as listas de melhores do ano publicadas em vários sites, constatei que eu havia escutado muitos dos discos listados e que ainda conhecia outros que nem sequer foram citados. Dessa forma, tomei coragem para fazer a minha.

O próprio título do post já diz, mas reforço que esta é uma lista pessoal. No entanto, nem por isso me isento de críticas e sugestões. Quero mais é saber o que vocês acharam e que discos me indicam. Claro que muita gente boa ficou de fora, mas como costumo dizer, uma lista não é uma lista se não deixar de citar algo ou alguém. Eis a minha de discos favoritos de 2016:

10° Praieiro – Selvagens à Procura de Lei
Praieiro

‘Praieiro’ é um forte exemplo de como está difícil acompanhar todos os lançamentos. Selvagens à Procura de Lei é uma das minhas bandas favoritas e eu nem sabia que eles iam lançar disco novo em 2016. Quando me dei conta, os amigos estavam compartilhando as músicas nas redes sociais. Foi uma grata surpresa.

09° Atlas – Baleia
Atlas

‘Atlas’ também seguiu o exemplo de Praieiro. Os amigos compartilharam o videoclipe de ‘Volta’ nas redes sociais (por sinal um dos melhores videoclipes do ano), e só então fiquei sabendo que eles iam lançar disco novo.

08° Arco & Flecha – Iara Rennó
Arco & Flecha

A Iara Rennó foi uma descoberta de 2016. A conheci por acidente acessando um site por acaso (não lembro qual). No site havia a música ‘Mama-me’, que eu adorei logo na primeira ouvida. Fui pesquisar e descobri que ela havia lançado dois álbuns em 2016, um chamado ‘Arco’ e o outro ‘Flecha’. De tão bons, resolvi colocar os dois aqui.

07° Remonta – Liniker e os Caramelows
Remonta

Liniker já havia me ganhado com seus vídeos na internet, então ‘Remonta’ era um disco que eu já estava esperando. Ouvi logo no primeiro dia de lançamento. Lembro bem que parei tudo o que estava fazendo e fui me balançar calmamente na rede enquanto ouvia.

06° Palavras e Sonhos – Luiz Tatit
Palavras e Sonhos

Luiz Tatit é tão recluso que, por mais que eu pesquise sobre ele na internet, quase não consigo informações sobre o que anda fazendo. Descobri que o compositor havia lançado disco novo porque recebi uma notificação do Spotify por e-mail. ‘Palavras e Sonhos’ foi apresentado logo no início do ano e, quando o ouvi, tive logo a certeza de que se fosse fazer minha lista anual de discos favoritos ele estaria entre os escolhidos.

05° Bandida – MC Carol
bandida

Eu já conhecia MC Carol, mas nunca tinha ouvido nenhuma música dela. Karol Conka havia prometido que lançaria um disco novo em 2016 (agora adiado para depois do carnaval de 2017), então eu fiquei na cola dela nas redes sociais para ouvir o disco novo assim que saísse. No entanto, o que ela acabou divulgando foi uma participação na música ‘100% Feminista’ da MC Carol, que eu ouvi e gostei muito. Dias depois, a mesma Conka divulgou que havia sido lançado ‘Bandida’, o novo disco da MC Carol, que para mim, foi um dos trabalhos mais significativos e corajosos do ano.

04° Ainda Há Tempo – Criolo
Ainda Há Tempo

‘Ainda Há Tempo’ foi lançado por Criolo em 2006, mas as canções ganharam uma roupagem completamente nova e o álbum foi relançado esse ano. As músicas ficaram tão diferentes do anterior que não consigo considerar os dois como um mesmo trabalho. Para mim, o ‘Ainda Há Tempo’ de 2006 é um e o ‘Ainda Há Tempo’ de 2016 é outro. Foi sem dúvida um dos discos que mais ouvi nesse ano – incluso na lista mesmo não sendo teoricamente um trabalho inédito.

03° Tropix – Céu
Tropix

Gosto muito da Céu, mas confesso que quase não a acompanho, mesmo apreciando todos os seus discos. Não sei praticamente nada sobre ela e isso é ótimo, afinal, só o que importa é a música. ‘Tropix’ é incrível e o ouvi muitas vezes no carro enquanto dirigia – sinal de que eu realmente aprovei.

02° MM3 – Metá Metá
MM3

Metá Metá foi outra descoberta de 2016 e até me sinto envergonhado por ter demorado tanto para conhecer essa banda. Se ‘Tropix’ tocou muito no carro, ‘MM3’ tocou até em ônibus durante viagem para outro estado. Se coloco um disco como trilha-sonora para uma viagem é porque eu mais do que gosto, amo. ‘MM3’ também foi o disco que eu mais indiquei para os amigos neste ano e que agora estou indicando para vocês.

01° Canções Eróticas de Ninar – Tom Zé
Canções Eróticas de Ninar

No ano em que Tom Zé lança disco, ninguém fica a frente dele nas minhas listas de melhores do ano. ‘Canções Eróticas de Ninar’ – por sinal, também o melhor título de 2016 – não era um disco que estava sendo esperado. Feito em segredo, só foi divulgado poucos dias antes do lançamento. Que Tom Zé é meu cantor favorito todo mundo já sabe, mas foi só em agosto que o vi ao vivo pela primeira vez. Foi em um show em João Pessoa-PB. Fui especialmente para vê-lo e realizei um dos meus maiores sonhos. Ao final do show, além de conversar com ele, ainda consegui falar com Daniel Maia, que é guitarrista e produtor dos discos do Mestre. Consegui arrancar de Daniel a confissão de que seria lançado um novo álbum em breve. Fui ao show achando que quando saísse já poderia morrer, pois finalmente havia testemunhado o Pai da Invenção em exercício. Entretanto, saí convicto de que não poderia morrer antes de ouvir o novo álbum. No final de novembro, Tom Zé ainda se apresentou em Fortaleza-CE e nem o mais otimista dos otimistas conseguiria prever que eu o veria duas vezes em um ano só. Musicalmente falando, 2016 foi mesmo muito especial.

Amor Geral - Brutown - Acústico Oficina Francisco Brennand - Boogie Naipe

Antes de finalizar, gostaria de citar rapidamente alguns discos que ficaram de fora, mas que ouvi (e gostei) bastante. Foram eles: ‘Amor Geral’, da Fernanda Abreu, ‘Brutown’, do The Baggios e ‘Acústico Oficina Francisco Brennand’, d’O Rappa – este último, em especial, eu deixei de fora por ser um disco ao vivo. Acho que também vou chorar a ausência de ‘Boogie Naipe’, do Mano Brown, que com vinte e duas faixas foi lançado a menos de um mês do fim do ano e que eu ainda não tive tempo suficiente para ouvir com calma. Para 2017, não tenho muitas expectativas, além do já citado álbum da Karol Conka e do novo trabalho do Sepultura, que está marcado para sair em 13 de janeiro. No mais, espero que tenham gostado. Até a próxima, abraçaço.

hoje eu acordei com rubem braga

“Hoje eu acordei com sono, sem vontade de acordar. O meu amor foi embora e só deixou pra mim um bilhetinho todo azul com seus garranchos”. Não era bem assim que eu pretendia iniciar esse texto, mas ao escrever “hoje eu acordei”, me veio à mente a letra de ‘Bilhetinho Azul’, do Barão Vermelho, música presente no primeiro álbum da banda lançado em 1982. Escrevi o texto ouvindo esse disco que eu adoro e que não escutava há bastante tempo. Sessão nostalgia.

Não deixa de ser verdade que hoje eu acordei com sono, afinal, eu acordo assim todos os dias. No entanto, ao levantar da cama, lembranças há muito perdidas em um passado distante despertaram também. Recordei do livro ‘200 Crônicas Escolhidas’, do escritor Rubem Braga (1913-1990), livro que ganhei ainda criança. Foi o primeiro título adulto que me lembro de ter lido, pois até então eu só havia consumido literatura infantil. O livro tem o selo de venda proibida do Ministério da Educação na capa. Ganhei-o de um tio que era professor na época – se ele o ganhou ou roubou, eu não sei, só sei que ele me deu e que eu o tenho até hoje. A capa, inclusive, tem o desenho de uma mulher nua lendo e, por isso, eu tinha vergonha de lê-lo na frente das pessoas. Se eu era criança, a minha irmã que é mais nova do que eu, era mais criança ainda, e achava a capa super engraçada.

200 Crônicas Escolhidas

Confesso que nunca entendi essa mulher nua na capa, mas o que interessa é que o li por anos e que foi lendo-o que eu tive vontade de ser escritor. A cada crônica lida, eu pensava que podia fazer igual. Fiquei apaixonado pelos textos, queria ser cronista. O primeiro blogue que tive na vida era dedicado ao gênero. Na época, eu não entendia porque lia e achava que era fácil escrever, mas hoje está claro que a genialidade de Rubem Braga fazia tudo parecer fácil, como os atletas de alto nível, que nos banham com a sensação de que é possível fazer igual. Não é que seja fácil, eles é que são bons demais.

Hoje eu não escrevo mais crônicas (eu acho), mas consigo ver uma influência muito forte do gênero em meus textos. Meu tio, que me deu esse livro, nem imagina que foi ele o responsável por despertar o amor pela leitura em mim. Antes mesmo de me dar esse do Braga, ele já havia me presenteado com vários outros, de gênero infantil. Serei eternamente grato e tratarei de contar isso para ele em breve. É uma pena que Rubem Braga não esteja mais entre nós para que eu possa lhe agradecer por me despertar o amor pela escrita. Nem quando eu li o livro seria possível, pois ele já havia morrido quando eu nasci.

Para escrever o texto, retirei da estante minha edição de ‘200 Crônicas Escolhidas’, que já está amarelada pelo tempo, para folhear. Não me lembro da última vez que fiz isso, tanto é que fiquei surpreso ao ver no sumário que eu havia marcado com um marca-texto amarelo, o título de vinte crônicas. Coisa que eu jamais faria hoje, pois não risco um livro nem que me paguem. Pelo título das crônicas marcadas, não consegui recordar se eram as que eu mais gostava. Isso eu vou descobrir em breve, pois pretendo relê-lo de cabo a rabo. Porém, achei estranho que a crônica que mais me marcou (pois me lembro dela até hoje) não estava sinalizada com marca-texto. Ela se chama ‘Rita’ e ironicamente se encontra na página de número duzentos desta edição – a reproduzi para vocês abaixo. Até a próxima, abraçaço.


RITA

No meio da noite despertei sonhando com minha filha Rita. Eu a via nitidamente, na graça de seus cinco anos.

Seus cabelos castanhos – a fita azul – o nariz reto, correto, os olhos de água, o riso fino, engraçado, brusco…

Depois um instante de seriedade; minha filha Rita encarando a vida sem medo, mas séria, com dignidade.

Rita ouvindo música; vendo campos, mares, montanhas; ouvindo de seu pai o pouco, o nada que ele sabe das coisas, mas pegando dele seu jeito de amar – sério, quieto, devagar.

Eu lhe traria cajus amarelos e vermelhos, seus olhos brilhariam de prazer. Eu lhe ensinaria a palavra cica, e também a amar os bichos tristes, a anta e a pequena cutia; e o córrego; e a nuvem tangida pela viração.

Minha filha Rita em meu sonho me sorria – com pena deste seu pai, que nunca a teve.

Janeiro, 1955

bibliofilia crônica

Peguei uma doença gravíssima. Atinge diretamente o financeiro, dói no bolso e deixa a consciência pesada. Não consigo lembrar quando começou. Quando dei por mim, estava assim. Logo eu, que durante boa parte da minha vida li livros emprestados dos amigos ou alugados em bibliotecas. Agora estou com essa mania de acumulação que chamam por bibliofilia crônica. Não tem cura, dizem. Espero que estejam enganados. Hoje, o número de livros não lidos em minha estante está bem próximo do número de livros já lidos. Em um curto espaço de tempo terei mais livros para ler do que leituras concluídas. A dependência é forte e só vai piorando com o passar dos anos. No início, nos contentamos com qualquer edição, depois passamos para o estágio de só querer uma edição específica, uma capa específica, uma tradução específica. Conforme a coleção vai crescendo, passamos a querer livros cada vez mais caros, as reedições em capa dura, os clássicos em edições de luxo, até chegar ao ponto de ansiar por raridades. Viramos ratos de sebo, verdadeiros desbravadores da Estante Virtual. Eu, por exemplo, já estou apresentando os primeiros sintomas desse último estágio da doença, se é que é o último. Algumas pessoas bem próximas a mim, outras nem tanto, estão ainda mais graves que eu. Nós doentes nos reconhecemos, nos abraçamos, nos reconfortamos, choramos juntos a mesma dor. Só um bibliófilo crônico entende o sofrimento que é salvar o endereço de uma página na Estante Virtual para comprar o livro depois e, ao voltar, constatar que ele foi adquirido por outra pessoa. Sempre fico imaginando quem foi que me causou tremenda dor. Será que é um bibliófilo também? Será que esse alguém comprou para presentear outro alguém que nem vai fazer tanta questão do livro quanto eu? Será que foi para um trabalho da universidade? Será que foi comprado sem maiores pretensões? No final, sempre prefiro acreditar que foi alguém como eu e que vai tratar o livro tão bem quanto. Só assim alimento esperanças dessa pessoa ser bem mais velha que eu, o que teoricamente aumentam as chances de ela morrer primeiro. Possibilitando, desta forma, uma nova oportunidade de adquirir o livro se o herdeiro ou a herdeira resolver se desfazer dele anunciando-o novamente na Estante Virtual. Essa agonia é bem semelhante à de ver determinado título na livraria e saber de imediato que jamais seremos um do outro. Mesmo assim prometemos, para nós mesmos e para o livro, que voltaremos para comprá-lo depois. Como se não bastasse, ainda tenho uma característica particular, ou não tão particular assim, de comprar títulos estranhos que eu mesmo nunca ouvi falar. São comprados pela intuição: um vigésimo terceiro sentido me diz que vou gostar. São escritos que eu sei que nenhum dos meus amigos gostaria de ler e que talvez até eu mesmo desgoste quando começar a folhear. Por mais tempo que eu passe sem comprar um livro novo, geralmente uma consequência da falta de dinheiro, sempre acontece uma recaída durante essas malditas promoções maravilhosas que nos permitem comprar bons livros a preços acessíveis, mas que mesmo assim nos deixam de cama, tamanha a tristeza por ainda não conseguir levar tudo. A cegueira é tão grande que nos sujeitamos a pagar um valor absurdo de frete – que daria para comprar outro livro – só para sustentar o vício. Algumas horas antes de escrever essas palavras eu tive uma recaída. Estava limpo há um mês. Sei que não é bastante tempo, mas havia prometido não comprar mais nada nesse ano. Agora é tarde para voltar atrás. Durante a próxima semana, sempre que eu estiver na rua e ver um carro dos Correios passando, irei imaginar se minha felicidade estará ali dentro rumo à minha rua, rumo à minha casa. Como quase sempre essas minhas encomendas chegam quando eu não estou presente, minha mãe é quem as recebe e as deixa sobre a mesinha de centro da sala. A mesinha deve ter meio metro de altura no máximo, mas será minha linha do horizonte sempre que eu chegar em casa. No momento passo bem, embora ainda esteja melancólico por não ter comprado todos os títulos que queria. Não posso prever quando será a próxima recaída, mas uma coisa é certa: os primeiros sintomas de abstinência vão surgir poucos minutos após retirar o invólucro dos livros novos e guardá-los na estante. Paciência.

porque não desejo filhos gays para casais homofóbicos

Certa feita, ao presenciar comentários homofóbicos vindos de um jovem casal heterossexual, pais de uma menininha linda de um aninho, relatei o ocorrido a um amigo meu, em particular. Ao ouvir a história, ele comentou o seguinte: “tomara que a filhinha deles seja lésbica para que eles aprendam a respeitar às diferenças”. A frase me deixou reflexivo.

Conhecendo bem esse meu amigo, sei que ele falou o que falou no calor do momento, pois estava revoltado com o que havia acabado de ouvir. Ele é gay, logo, não considera a homossexualidade algo ruim, então sua intenção não era atingir a criança, e sim o casal que, na cabeça dele, aprenderia a respeitar o amor entre duas pessoas do mesmo sexo quando passassem a conviver com uma lésbica dentro de casa. No entanto, eu penso diferente, pois não desejo filhos gays para casais homofóbicos.

Não acredito em castigo, maldição divina e em nada dessas bobagens para partir do pressuposto que casais homofóbicos merecem mesmo é ter filhos gays, quando na verdade é o filho gay que sofre ao nascer em um lar homofóbico. Os pais mais religiosos, na cegueira da intolerância, só conseguem enxergar o próprio “sofrimento”, perguntando-se o que fizeram para merecer isso. Os pais não religiosos também encaram a situação como uma espécie diferente de castigo, perguntando-se onde erraram na educação da criança.

Na verdade, não desejo filhos (gays ou não) para casais homofóbicos. Se o filho for hétero, são grandes as chances de ele pensar como os pais e, mesmo que não seja homofóbico e tenha amigos gays, dificilmente vai fazer algo para mudar a visão dos pais, afinal, essa não é uma causa dele. Infelizmente, ainda são poucos os héteros que lutam juntos às comunidades LGBTs contra a homofobia. Já se o filho for gay, ele vai sentir a pior dor que um homossexual pode sofrer: a violência do próprio lar. A violência e não aceitação da rua nada se compara a não aceitação familiar.

São os filhos gays que não merecem pais homofóbicos. Quando isso acontece, são enormes as chances de se repetirem casos que já vi acontecer de pais colocarem filhos no exército contra a sua vontade para “virarem homens”; pais que submetem filhos a tratamentos psicológicos quando na verdade são eles que têm problemas; pais que sujeitam os filhos a uma forte violência física e psicológica; pais que trancam os filhos dentro de casa impedindo-os de qualquer contato com o mundo; pais que expõem a sexualidade dos filhos a padres e pastores, arrancando-os à força do armário, o que resulta em uma forte humilhação social, pois é a própria pessoa quem deve decidir quando contar para todos; chegando até mesmo a casos de pais que matam os filhos por não aceitá-los como são.

De todos esses exemplos citados acima, o único que ainda não aconteceu com alguém próximo a mim foi o último, mas não são poucas as histórias de gays mortos pelos próprios pais – isso quando eles mesmos não tiram a própria vida na ânsia de ceifar esse sofrimento. Toda essa violência é fruto do preconceito, mas também de frustração. Casais homofóbicos criam a expectativa de que seus filhos serão héteros, sendo assim, quando ocorre a frustração dessa expectativa, o sofrimento para ambos é quase inevitável. Claro que o sofrimento desses pais é fruto de um “auto-problema”: o próprio preconceito. Enquanto que o sofrimento do gay é fruto do problema de terceiros: a homofobia do outro. Os pais não possuem o direito de criar expectativas com relação à sexualidade dos filhos. Ninguém escolhe ser gay, não é uma opção. Ninguém em sã consciência escolheria passar por todo esse flagelo. É óbvio ululante que nem todos passam por isso, mas é apenas uma minoria que tem a felicidade de nascer em um lar que respeita as diferenças.

Portanto, mesmo que todo filho gay mudasse a mentalidade dos pais homofóbicos, não da para ignorar que esse é um processo muito traumático, logo, não desejo que gay nenhum tenha que passar por isso. É por essa razão que as campanhas contra a homofobia, o debate sobre a identidade de gênero nas escolas e a criminalização da conduta homofóbica são cada vez mais importantes. Porém, isso é o macro e cabe a todos nós combater o micro, que é o preconceito do dia a dia presente nos comentários à mesa do jantar, no ambiente de trabalho, nas piadas homofóbicas nas rodas de conversa com os amigos… Lembre-se: a cada vinte e oito horas, um homossexual morre de forma violenta no Brasil e o país inteiro é culpado, pois o combate à homofobia é (ou deveria ser) uma luta de todos.

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minha estupidez

Fiquei sabendo através das redes sociais que Fernanda Torres estrearia essa semana no canal GNT um programa chamado Minha Estupidez. Programa esse que eu não vou assistir pois não tenho TV por assinatura em casa (nem pretendo) e porque, quando for disponibilizado na internet (se for), eu com certeza já terei esquecido. No entanto, acabei abrindo o texto que falava da estreia e me deparei com o parágrafo de outro que a própria Fernanda escreveu e enviou para jornalistas: “Eu me valho da minha ignorância, da curiosidade onívora e de uma certa franqueza, que me leva a admitir, em público, que não sei o que é solipsismo, […] além de confessar que passei três anos mentindo que havia lido ‘Viva o Povo Brasileiro’.”

Depois de passar alguns anos mentindo que havia lido o clássico de João Ubaldo Ribeiro, finalmente Fernanda o leu em 2008, e aproveitou a ocasião para entrevistar o escritor baiano para um programa que ela havia idealizado e que só agora está sendo lançado sob o título de Minha Estupidez, como citei acima. Realmente não recordo se já menti dizendo que li um livro sem ler, mas admito que são grandes as chances de isso já ter acontecido pelo menos uma vez. De toda forma, se não sei ao certo se menti sobre livros, confesso que já menti dizendo ter visto um filme que ainda não havia assistido.

Todo mundo conhece alguém que dá dicas de filmes aos amigos quando eles não sabem o que assistir. Eu sou essa pessoa. Portanto, para não decepcionar o pequeno imaginário coletivo que se formou através do meu minúsculo ciclo social em relação à minha cinefilia, existiram algumas ocasiões em que menti ao me perguntaram se vi tal filme, principalmente quando o título era um clássico. Como realmente vejo muitos longas, logo não precisei mentir tantas vezes e ninguém nunca desconfiou que eu pudesse estar faltando com a verdade. Mesmo assim, aprendi que não importa o número de filmes que você veja, alguém sempre vai te perguntar por um que você ainda não viu.

Uma das razões das minhas mentiras era mesmo para evitar a reação das pessoas, pois quando eu admitia não ter visto, elas sempre reagiam como se fosse o fim do mundo: “Como assim você não assistiu ainda? Você não é cinéfilo?”. Como se alguém tivesse a obrigação de conhecer tudo. A outra razão era por vergonha mesmo: “Como eu, um cinéfilo, ainda não vi esse filme?”. Entretanto, acredito que essa segunda razão existe muito em função da primeira, pois eu talvez não sentisse vergonha se as pessoas não me julgassem. Se eu teria deixado de mentir se não houvesse julgamento? Não sei. Todavia, não imagine que eu gostava de fazer isso pois, nas vezes em que aconteceu, corri para casa e tratei de ver o filme o mais rápido possível para que a mentira durasse pouco tempo. Conjugo os verbos no passado porque já faz alguns anos da última vez que tentei enganar os outros e a mim mesmo de que era possível conhecer tudo.

Hoje, assim como Fernanda, também me valho de minha ignorância, de minha curiosidade e de minha franqueza para admitir quando não vi tal filme ou li tal livro, mas não só isso, como admitir também o total desconhecimento de vários assuntos. Sentindo uma identificação tremenda com as palavras de Fernanda, decidi procurar pelo texto completo que ela enviou a jornalistas, mas não encontrei. Em compensação, a pesquisa me levou a algumas entrevistas interessantes da atriz e escritora sobre o programa. Porém, como ela também fala de outros assuntos e como eu adoro entrevistas, resolvi transcrever alguns trechos aqui.

Em uma delas, Fernanda, que revela sentir falta de ter cursado uma universidade, compara sua cultura geral a um queijo suíço: “É cheia de buracos. Nunca ninguém ordenou o pensamento para mim. Fui lendo e me informando, mas sem ninguém me conduzindo”. Apesar de cursar uma graduação, também sinto que muitas áreas do meu conhecimento são esburacadas. O que não me desmotiva, muito pelo contrário. Por mais trabalhoso que seja, isso me faz correr atrás dos pensamentos que possam preencher essas fendas.

Em outro momento, dessa vez sobre o processo de impeachment da presidenta Dilma, senti como se Fernanda tivesse lido os meus pensamentos: “Não conseguia escrever. Não conseguia ler. Parecia que minha vida era pautada pelo que fosse decidido em Brasília”. Foi justamente isso que aconteceu comigo durante as últimas semanas do golpe, não consegui produzir nada. Outro momento de identificação foi quando ela falou sobre opiniões formadas: “Pedem muito para a gente, que é ator, dar opinião, e a gente dá, né? Nos últimos anos, também passei a escrever em jornal e revista. Mas aprendi a dizer “Não tenho opinião sobre isso””.

Contudo, nem tudo são flores. Ao ser questionada sobre a polêmica do texto para o blog feminista Agora É Que São Elas, em que falou de “vitimização do feminismo”, ela vê como seu único erro apenas ter publicado tal texto no blog errado: “O texto era para um blog ligado a questões feministas. E eu não entendi isso. Era um lugar errado para falar da minha opinião pessoal. Eu errei. Hoje você tem que ter cuidado redobrado com o que e com quem fala. As coisas reverberam rapidamente na internet. Esse episódio me ensinou muito”. Apesar de ter se retratado depois, Fernanda diz que o ‘mea culpa’ não exclui o que ela pensa. Isso foi mesmo uma estupidez da parte dela, mas esse é assunto para outro texto.

Numa das resenhas do primeiro episódio do programa, há a transcrição do que Fernanda diz na abertura. Repito, eu não vi, então não sei se as palavras foram essas mesmo, mas o que estava escrito me chamou atenção. Diante da estante que herdou do avô, ela diz: “Esse programa nasceu desta estante aqui, de perceber que, por mais que eu tenha lido e amado os livros que eu li, eles se reduzem a isso aqui. Ou seja, nada perto do que existe pra se ler, se conhecer. Essa estante, de certa maneira, mede o tamanho da minha estupidez”. Fernanda disse, dessa vez em uma das entrevistas, que leu tanto para realizar o programa que, quanto mais lia, mais via que não sabia de nada. Ela acha que aumentou sua estupidez. Que leitor nunca sentiu isso?

Olhei então para a minha própria estante que eu já julgava ser tão pequena e, diante de todo o conhecimento da humanidade, é essa minha estante pequena que, de certa forma, também mede o meu próprio conhecimento. Embora muito em breve ela não consiga mais guardar livros novos, mesmo que ela triplique ou quadruplique de tamanho, sua pequenez não se calcula apenas metricamente. À frente de todos os livros que jamais chegarão até aqui, ou mesmo que chegassem, à frente de todos os livros que eu não vou conseguir ler antes de morrer, minha estante e meu conhecimento serão eternamente o que sempre foram: estúpidos.

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família abravanel

Durante a minha infância, quando havia apenas um único aparelho de TV em minha casa e meu pai monopolizava o controle remoto, os programas do SBT eram sempre assistidos em família. Recordo que acompanhamos algumas novelas infantis e outras estrangeiras. Digo que recordo porque ainda tenho lembranças de alguns desses momentos, mas confesso que esqueci praticamente tudo que foi assistido nesse período. Além das novelas, também assistíamos bastante aos programas dominicais.

Nessa mesma época, pela manhã, eu preferia assistir desenhos animados em outras emissoras, pois nunca gostei muito dos desenhos transmitidos pelo SBT. No entanto, sempre assistia ao Chaves, coisa que faço até hoje pela internet quando bate a saudade ou quando ligo a TV por acaso e descubro que está passando. Porém, agora posso afirmar que não assisto mais aos programas da emissora do Silvio Santos, assim como me afastei da televisão de um modo geral, mas sempre comemoro quando fico sabendo que o SBT ameaça, nem que seja por poucos minutos, a soberania da audiência da toda poderosa Rede Globo.

Não me restam dúvidas de que todo esse carinho se deve a minha admiração por Silvio Santos, quem considero o maior nome da TV brasileira entre os vivos e os mortos. Entretanto, não há admiração no mundo que não se deixe abalar por tanta coisa negativa sendo transmitida. Se não fosse a internet, muitas pessoas jamais ficariam sabendo desses casos. É por isso que acredito tanto na força do ativismo virtual, do contrário, eu mesmo não saberia de nada disso, pois não estava vendo TV quando o preconceito foi televisionado.

Sei que em trinta e cinco anos de história, muitos comentários estúpidos saíram dos programas da emissora, assim como dos programas de todas as suas concorrentes. Contudo, hoje vivemos em outros tempos e o que não repercutia negativamente décadas atrás, agora gera protestos na internet e até mesmo boicotes aos programas que ofendem minorias. A primeira dessas repercussões negativas de que tomei conhecimento aconteceu em maio deste ano. Na ocasião, Patrícia Abravanel disse que não considerava a homossexualidade algo normal. Sua declaração repercutiu nas redes sociais, mas ela não estava sozinha e quase nada se falou sobre os comentários infelizes dos outros participantes.

No Programa Silvio Santos exibido em 8 de maio, no quadro Jogo dos Pontinhos, Silvio comentou sobre filmes que trazem casais lésbicos entre seus personagens e perguntou aos participantes do quadro se eles eram contra ou a favor que duas mulheres se amassem como “marido e mulher”. A coisa já fica feia na pergunta preconceituosa do próprio apresentador. Será que é tão difícil entender que duas mulheres que se amam, não se amam como homem e mulher, e sim como duas mulheres que são?

O que veio a seguir foi um verdadeiro festival de horrores. Apesar de nem todos responderam ser contra, até quem se disse a favor o fez de forma preconceituosa. A primeira a responder foi Lívia Andrade. Ela disse ser a favor do amor entre duas mulheres, mas com ressalvas: “Eu acho bonito quando duas mulheres se amam como duas mulheres, entende? Duas mulheres fisicamente, aparentemente, como mulheres”. Para quem não entendeu, ela estava falando de feminilidade. Bem, o que eu gostaria de dizer para Lívia é que duas mulheres não precisam ser femininas só para que ela ache bonito. O amor entre duas pessoas do mesmo sexo ou até mesmo do sexo oposto só deve ser bonito aos olhos do próprio casal. Com esse discurso ignorante, Lívia demonstrou não ter o mínimo conhecimento sobre identidade de gênero. Flor, a segunda a responder, também se disse a favor, mas, além de se referir as lésbicas como “entendidas” e “sapatões”, ainda comentou que não pagaria para ver um filme com “duas aranhas se pegando”.

É lógico que Carlinhos Aguiar, o terceiro a responder, não iria perder a chance de defecar pela boca. Já era de se esperar que ele se posicionasse contra, mas como se isso não bastasse, ainda disse o seguinte: “Já não chega essas homaradas todas queimando a ruela, o que tem de homem viado aí é brincadeira. Aí ficam essas mulheres colando o velcro, vocês não me conheceram. Eu sou contra, claro que eu sou contra. Porque a partir do momento que elas me conhecessem… Eu pego essas gostosas e tiro elas dessa vida”. Ele só faltou dizer que acredita em estupro corretivo para lésbicas, mas não precisou, ficou implícito.

O humorista Alexandre Porpetone, através do seu personagem Cabrito Tévez, foi o quarto a responder. Com uma piada altamente sem graça, se disse a favor: “Eu sou a favor desde que eu possa participar da festa. Porque não sei se vocês sabem, Silvio, eu sou lésbico. Eu sou lésbico também, então eu apoio a causa”. Porpetone deve ser do tipo de cara que acredita que duas mulheres só podem se relacionar para satisfazer o fetiche dos homens. Helen Ganzarolli, a quinta a responder, também disse ser a favor, mas acredito que ela ficou com medo de que as pessoas duvidassem de sua heterossexualidade, pois achou necessário deixar bem claro que gostava de homem: “A minha opção é pelo sexo oposto, mas eu sou a favor já que é a opção de cada um. Eu gosto de homem, mas eu sou a favor de duas mulheres”. Como se não bastasse, ainda tratou orientação sexual como “opção”.

Silvio deixou Patrícia para o final, e o que já estava horrível, só piorou. A filha do patrão se posicionou contra: “Eu li numa revista que hoje um terço dos jovens se relaciona com pessoas do mesmo sexo. Um terço eu acho muito. […] Mesmo sem saber se a opção deles é real. Eles experimentam. […] Eu acho que o jovem é muito imaturo ainda para poder saber o que quer. Então a gente tem que afirmar que homem é homem e mulher é mulher, entendeu? Não acho que é legal ser super liberal. […] Não acho legal ficar considerando tudo super normal, entendeu? Eu acho que a gente tem que ensinar para os jovens de hoje que homem é homem e mulher é mulher. E se por acaso ele tiver alguma coisa dentro dele que fale diferente, aí tudo bem. Mas o que tá acontecendo hoje é que a gente está falando que tudo é normal, que tudo é bonito e o jovem naquela coisa de querer experimentar tudo acaba experimentando coisas que ele pode vir eventualmente a se arrepender depois. Então eu sou contra ficar propagando em rede nacional que isso é uma coisa super normal. Então eu sou contra”. Silvio a interrompe e pergunta: “Você falou uma coisa aí que foi uma indireta. Isso aqui que eu estou fazendo é propaganda?” Ao que ela responde: “Você está propagando sim, porque não é uma coisa normal. Hoje, eu falar que eu sou contra, eles vão me apedrejar. Eu não sou contra o homossexualismo (sic), eu sou contra falar que é normal. […] E outra, mulher com mulher não é tão legal assim, eu acho. Não tem aquele brinquedinho que a gente gosta bastante. Não dá para brincar direito”. Ao final do discurso, a plateia aplaude.

Logo após, Silvio ainda pergunta se eles são contra ou a favor de quem não acredita em deus. Não vou comentar as asneiras que eles responderam sobre isso, basta dizer que todos se posicionaram contra. A coisa desanda ainda mais quando Silvio pergunta se eles são contra ou a favor do prisioneiro que está cumprindo pena ir para casa no dia das mães ou se são contra ou a favor ter filhos antes do casamento. Não vou dissertar sobre esses outros três momentos do programa que dariam cada um, um texto próprio (se tiver estômago veja o programa inteiro aqui). Portanto, vou me ater apenas ao discurso de Patrícia.

Bem, já eu não acho normal ficar propagando preconceito em rede nacional. Assim como Helen, Patrícia tratou orientação sexual como “opção”. Chamou homossexualidade de homossexualismo e disse não considerar normal a relação entre pessoas do mesmo sexo. Ela deve fazer parte da população que ainda acha que sexo sem pau não é sexo, reduzindo todas as outras formas de relação sexual sem penetração peniana a absolutamente nada. Patrícia disse depois que foi mal interpretada, mas acredito que interpretaram muito bem o que ela quis dizer. A reação nas redes sociais foi muito importante. Ela precisava mesmo enxergar que suas palavras ofenderam sim os homossexuais, e que anormal é ter preconceito. Porém, ao contrário do que ela disse, não vamos apedrejá-la, afinal, isso é coisa de religiosos.

A repercussão foi tão grande que já no dia seguinte Patrícia veio a público pedir desculpas. Entendo perfeitamente porque a fala dela polemizou mais do que a dos outros, mas todos os sete, incluindo o próprio Silvio, erraram, e a comunidade LGBT merecia ouvir uma retratação de todos eles. Um mês antes disso acontecer, no programada de 10 de abril, Silvio já havia dito ao ator João Guilherme, de apenas catorze anos, que ele estava parecendo uma “bichinha”. Embora o comentário também tenha repercutido, nem Silvio, nem o SBT se pronunciaram sobre o ocorrido.

Espero que João Guilherme não tente moldar seu comportamento por medo de voltar a ouvir idiotices como essa. Eu estava tão confuso quando tinha catorze anos, sem saber exatamente quem eu era, que um comentário desses só faria com que eu me escondesse por trás de uma masculinidade tóxica para não ter que ouvir mais esse tipo de coisa. Lembro que quando eu tinha por volta de sete ou oito anos adorava atender ao telefone. As ligações nunca eram para mim, mas eu adorava atendê-las mesmo assim. O aparelho ficava na sala, perto da escada. Certo dia ele tocou e eu atendi, era um tio. Passei o telefone para minha mãe e ele perguntou quem era a menina que havia atendido. Minha mãe ficou super ofendida e disse que não era menina nenhuma, pois quem havia atendido era eu. Eu devia ter oito anos no máximo, e minha mãe me ordenou que eu falasse grosso para que ninguém me confundisse com uma mulher. A história se espalhou pela família e todos riram de mim. Nenhum adulto teve coragem de me defender, de dizer que eu era uma criança e que minha voz era normal. Depois disso, eu passei anos com pânico de atender ligações, e sempre que era realmente necessário realizá-lo, fazia de tudo para engrossar minha voz. Eu só tinha oito anos, porra!

Quando personalidades importantes, formadoras de opinião, esquecem que possuem um papel social na vida de muitas pessoas, passamos a correr certo tipo de perigo. Muita gente reproduz o que vê na TV, basta notar que, por maior que tenha sido a repercussão negativa de Patrícia nas redes sociais, a plateia no auditório a aplaudiu. Tenho certeza de que muita gente aplaudiu de casa também. Do sofá da sala muitos preconceituosos tiveram seus discursos de ódio fortalecidos, legitimados por uma pessoa famosa. Isso tudo aconteceu há mais de seis meses atrás, mas Patrícia já voltou aos holofotes criticando religiões africanas em um vídeo antigo que caiu na rede, em que ela culpa os problemas que assolam o continente africano ao “misticismo” da população. Nesse meio tempo, Silvio também fez comentários racistas e gordofóbicos, os últimos, inclusive, aconteceram recentemente, durante a exibição do Teleton.

Aparentemente, Silvia Abravanel, a outra filha do dono do SBT, se sentiu oprimida pelo pai e a irmã, resolvendo também aprontar as suas próprias besteiras, prestando um dos maiores desserviços que eu já vi na vida: criar, em pleno século vinte e um, uma escola de princesas. Com aulas de boas maneiras, postura corporal e etiqueta à mesa, as meninas aprenderão a se “guardar” para o príncipe encantado. Se Silvia também queria dar maus exemplos como seus familiares, conseguiu. Na verdade, foi muito além, saindo do discurso e partindo diretamente para a prática, criando uma escola que no futuro formará um exército de mulheres belas, recatadas e do lar.

Uma pesquisa realizada esse ano pelo site britânico “YouGov”, apontou Silvio Santos como a personalidade mais admirada pelos brasileiros. Prestes a completar oitenta e seis anos, Silvio está em um de seus melhores momentos como apresentador, cada vez mais solto e mais engraçado. Sei que ele é um senhor de outros tempos, mas inteligente como é, não é injusto lhe dizer que nunca é tarde para aprender. Ser quase uma unanimidade entre os brasileiros lhe reserva uma enorme responsabilidade. É um poder grande, que tanto ele quanto suas sucessoras deveriam usar justamente para combater a homofobia, o racismo, a gordofobia, o machismo, a intolerância religiosa e todo o tipo de preconceito. Para o bem ou para o mal, o SBT faz parte da história do Brasil e de muitos brasileiros, possui o segundo maior complexo televisivo da América Latina e o quarto maior do mundo, tendo sido a primeira emissora da história a transmitir sua inauguração ao vivo. Se uma emissora tão grande e tão querida continuar televisionando discursos preconceituosos para todo o país, um dia ela pode deixar de ser a TV que tem torcida para se tornar a que tem mais desafetos, podendo originar até mesmo inimigos.

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terceiro turno

Meu pai sempre foi de esquerda, embora ele não soubesse dizer exatamente o que é uma política de esquerda. No entanto, mesmo não sabendo disso e sendo de classe baixa, e talvez por ser justamente de classe baixa, sempre conseguiu identificar muito bem as desvantagens de um governo de direita. Ele sofreu na pele os dois mandatos do governo FHC. Hoje, consigo identificar certa influência de meu pai no meu posicionamento político, embora eu tenha certeza que, mesmo sem sua intervenção, ainda assim eu me identificaria com a esquerda.

Sempre gostei de votar e, em todas as eleições em que participei, jamais fiquei em cima do muro, pois sabia exatamente de que lado estava. Eu tinha apenas nove anos quando aconteceu a eleição presidencial de 2002. Acompanhei meu pai na votação e lembro claramente que durante a volta, segurando sua mão, lhe perguntei em quem ele havia votado. Ele me disse que tinha votado em Lula e me pediu segredo. Meu avô paterno (infelizmente) declarou voto em José Serra e meu pai não queria que brigassem por isso.

Durante o governo do PT a vida de minha família mudou drasticamente e conquistamos a tão sonhada ascensão social. Apesar de não ser o primeiro da família a cursar uma universidade federal, continuo até hoje sendo um dos poucos a conseguir ingressar na graduação. Apesar disso, eu não estava satisfeito com a conjuntura política desde 2013, mas jamais poderia imaginar que as coisas fossem piorar tanto.

Nas eleições deste ano, mesmo tendo candidatos de esquerda em quem votar, me senti muito mal em comparecer ao colégio eleitoral fingindo que estamos vivendo em uma democracia, fingindo que não estamos sofrendo um golpe, fingindo que não estamos sendo oprimidos por um plano de governo que não foi eleito. A vitória da direita conservadora só serviu para fortalecê-los e agravar ainda mais a nossa situação, pois eles estão encarando o resultado nas urnas como uma legitimação ao golpe. Nessas eleições não foi a esquerda quem perdeu, foi o Brasil.

Enquanto a esquerda só criticava a si mesma sem reconhecer os próprios progressos, a direita brasileira conseguiu se organizar e impor seu programa de governo. Não houve a necessidade de tanques nas ruas, o golpe midiático-parlamentar é a ditadura do século vinte e um e a ponte para o futuro do governo golpista é o novo AI-5. Temo que dois anos não seja tempo suficiente para a esquerda se renovar e barrar todo esse retrocesso que está sendo implantado. Não torço para o “quanto pior, melhor”, mas é ilusão demais acreditar que algo bom possa sair disso tudo. Os retrocessos, inclusive, já começaram (Projeto de Lei 257/2016, PEC 55, MP 746) e, a partir de agora, todo e qualquer erro é de responsabilidade da direita, afinal, derrubaram uma presidenta democraticamente eleita para assumir o poder e nada mais justo do que responderem por suas próprias falhas.

Assim como a velha mídia é culpada (pois na ânsia de acabar com o PT, fortaleceu através de seus meios de comunicação a direita brasileira), a esquerda também tem sua parcela de responsabilidade no atual cenário político. É preciso aprender com os próprios erros. Uma política de esquerda verdadeira não pode abrir mão do enfrentamento aos privilégios históricos da Casa Grande. É preciso enxergar também que candidatos evangélicos avançam mais onde o Estado é ausente. Os fundamentalistas religiosos acabaram de conquistar nada menos que a segunda capital mais importante do país, o Rio de Janeiro, apelidada agora de RIURD Janeiro (em referência à Igreja Universal do Reino de Deus).

Outro passo da esquerda é justamente parar de disputar (juntamente com a direita) o apoio das igrejas. O Estado laico está previsto na Constituição, no artigo 19, inciso I, que preconiza: “é vedado ao Poder Público estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança”.

Em ‘Terra em Transe’, filme de 1967 do diretor Glauber Rocha (1939-1981), o personagem Paulo Martins, interpretado por Jardel Filho (1927-1983), ao constatar a fraqueza de Felipe Vieira, interpretado por José Lewgoy (1920-2003), se enfurece diante da recusa do líder populista em assumir a resistência armada ao golpe de Estado e diz o que considero ser uma das frases mais emblemáticas do cinema brasileiro: “se resistirmos será o começo de nossa história”. É nisso que acredito: na resistência.

No entanto, ao contrário de Paulo Martins, não penso que a luta armada seja o caminho, pois eles também não usaram armas para impor o golpe. De toda forma, felizmente, a esquerda já está mostrando através das ocupações das escolas e universidades que haverá luta e, por isso mesmo, os golpistas farão de tudo para deslegitimar esse movimento. Para as eleições municipais, o governo soube muito bem fazer um acordo com os alunos de escolas ocupadas que eram locais de votos. Além dos estudantes liberarem os espaços necessários para as equipes do Tribunal Eleitoral, também houve a realocação das zonas eleitorais para locais provisórios.

Não se deixe enganar, a ameaça de adiar/anular o ENEM foi uma tentativa de jogar os estudantes contra a própria causa. Lembre-se: as ocupações não impediram que as eleições acontecessem. O MEC teve tempo suficiente para dialogar e realocar os alunos, mas não o fez. Não sei o quão eles foram bem sucedidos nessa tática, mas vejo que as ocupações já geraram ódio em muitas pessoas. Acho muito justo quem se preocupa com a sua formatura, mas só enxergar isso é ser individualista. Não é apenas um semestre que está em jogo, são vinte anos de retrocessos. Existem até os bem-intencionados que são contra as ocupações acreditando que enquanto alunos ocupam escolas públicas, os estudantes de colégios particulares se preparam melhor para o ENEM. Contudo, não são os direitos dos alunos ricos que estão sendo cortados.

Veja, os mesmos jovens de dezesseis anos que os golpistas dizem ser doutrinados por comunistas possuem, segundo eles, idade suficiente para serem presos quando cometem crimes. As jovens que participam das ocupações também são consideradas doutrinadas, mas se qualquer uma delas engravidar, os golpistas irão afirmar que ela sabia muito bem o que estava fazendo. Com dezesseis anos a pessoa é madura o suficiente para votar e decidir o futuro do país, mas para ocupar escolas é criança. Não importa quantas vezes os golpistas contradigam o próprio discurso, eles sempre mudarão quando lhes for conveniente.

É preciso dar voz às ocupações, aos sem-teto, ao movimento feminista, aos LGBTs, ao movimento negro. É preciso boicotar a velha mídia e dar espaço para mídia livre nas redes. Acredito muito na importância dos blogues alternativos que exercem um papel vital de contra-informação e contra-opinião. Lutar por nossos direitos não pode ser algo perigoso. O terceiro turno já começou, é preciso ocupar as ruas, agora. Avante, companheiros e companheiras!

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finais abertos

[contém revelações de enredo]

Lembro que, quando assisti ‘Central do Brasil’ com meu pai, ele se mostrou muito decepcionado com o final. Ele não se conformou em esperar quase duas horas para o filme acabar e Josué não encontrar o pai dele. E Dora? Por que ela não ficou com o menino? Tempos depois, assistimos juntos ‘Que Horas Ela Volta?’. Pelo envolvimento dele com os personagens durante todo o filme, deu para perceber que ele estava gostando muito. No entanto, quando a projeção terminou e eu lhe perguntei se ele havia gostado, ele apenas se limitou a dizer: que final feio. Conheço bem o meu pai, e não foi necessário lhe fazer perguntas para descobrir o que ele havia detestado. Foi difícil para ele ver a personagem Val terminar desempregada. E Jéssica, conseguiu ingressar na graduação?

Quando fui assistir ‘Aquarius’ no cinema, eu não estava acompanhado de ninguém. Cheguei cedo, com medo de não conseguir ingresso (eu sempre acho que não tem mais ingresso). Paguei minha entrada e fiquei esperando o filme que ainda ia demorar para começar, sentado em um banquinho do lado de fora da sala. Nesse mesmo banco estava sentada uma senhora idosa rodeada de sacolas plásticas lendo uma notícia em um jornal impresso que puxou conversa comigo. Contou-me de uma viagem que havia feito recentemente e que, devido a ela, estava usando bengala, pois havia andado tanto que ainda estava com as pernas cansadas. Era início de tarde e, segundo ela, já estava na rua desde de manhã cedinho. Ademais, ela me disse que, quando acabasse ‘Aquarius’, ainda iria ver uma mostra de filmes LGBTs que estava acontecendo no centro cultural ao lado. Confesso que fiquei com inveja de sua vitalidade. Ela até me convidou para lhe fazer companhia durante a mostra, mas quando me entregou a programação, desisti de ir por ser composta apenas de filmes que eu já havia assistido.

No pouco tempo em que ficou do meu lado, ouvi essa senhora disparar o maior número de histórias por minuto que eu já tive oportunidade de presenciar, mas tenho que admitir que estava apreciando sua companhia. Era uma pessoa muito inteligente, simpática e agradável (mesmo que tenha me assustado com seu ódio quase doentio por Dilma Rousseff, em quem, segundo ela, gostaria de dar uma surra). A senhora saiu de onde eu estava para comprar uma água e uma moça bonita e educada que havia sentado perto de nós puxou assunto comigo. Ela me contou que era atriz e eu lhe disse que fazia cinema. Conversamos então sobre testes de elenco, preparações de elenco e produções cinematográficas locais. Apesar de rápida, também foi uma conversa muito agradável. Assim como a senhora idosa e eu, ela também estava esperando a próxima sessão de ‘Aquarius’ começar.

Sem que eu nada perguntasse, a moça comentou que a atuação de Sônia Braga estava maravilhosa. Só então lhe perguntei se já havia assistido ao filme, ao que ela me revelou que aquela seria a sua terceira sessão, mas ainda não a última. Com todo o cuidado do mundo para mudar de assunto, tentei falar de outras coisas com medo de que ela me revelasse algo do filme antes mesmo de eu assisti-lo. Ela não revelou nada, mas do alto de sua empolgação, comentou: “Já estou esperando a continuação”. Como assim seria feita uma continuação de ‘Aquarius’ e eu não estava sabendo? Perguntei-lhe se ela havia visto alguma notícia sobre isso e ela negou. Ela não tinha provas de que seria produzida uma continuação, mas tinha convicções, pois reforçou sua tese: “Do jeito que o filme termina é impossível não ter uma continuação, tem que ter um ‘Aquarius 2′”. Eu nem havia assistido ao filme ainda, mas naquele exato momento eu soube que se tratava de um final aberto. Assim como a moça, que não sei o nome, pois acabamos não nos apresentando, eu não tinha provas, mas tinha convicções de que Kleber Mendonça Filho não faria uma continuação, e claro, lhe expus meu posicionamento. No entanto, a moça estava certa de seu ponto de vista tanto quanto eu estava do meu. As pessoas então começaram a entrar na sala e eu me apressei para entrar também para garantir um bom lugar. A moça, a senhora e eu sentamos em lugares diferentes e nunca mais nos encontramos. Porém, é preciso registrar que em algo eu e a moça concordamos: Sônia Braga está maravilhosa!

Minha cinefilia começou muito cedo. Eu já era cinéfilo antes mesmo de saber que essa palavra existia, e desde o início cultivei um fascínio por finais abertos. ‘Central do Brasil’ foi exibido pela primeira vez em uma mostra regional de cinema na Suíça em 16 de janeiro de 1998. No dia 19 de janeiro foi exibido no Festival Sundance de Cinema nos Estados Unidos e no dia 14 de fevereiro no Festival de Berlim, de onde saiu consagrado com o Urso de Ouro de Melhor Filme. O lançamento no Brasil ocorreu apenas no dia 3 de abril do mesmo ano. Eu tinha então quatro anos de idade. Lógico que eu só fui tomar conhecimento do filme anos depois. Cresci com ele no meu imaginário, assistindo-o repetidas vezes na Sessão da Tarde. Até hoje é um dos meus filmes favoritos, embora seja completamente diferente do tipo de filmes que gosto de ver atualmente. Claro que há um toque de nostalgia em tudo isso. Todavia, Fernanda Montenegro continua sendo minha atriz favorita, o que não se deve apenas por esse trabalho.

Não posso afirmar o ano em que vi ‘Central do Brasil’ pela primeira vez, mas sei que eu tinha por volta de dez anos, não mais que isso. Vinicius de Oliveira tinha apenas doze quando interpretou Josué no filme. Hoje, ele não é assim tão mais velho do que eu e, embora não façamos parte da mesma geração, de uma forma ou de outra, crescemos “juntos”. Durante esses anos todos, me peguei várias vezes pensando no que haveria acontecido com Dora e Josué, mas quando revejo o filme hoje em dia, nem consigo considerar mais que ele tenha um final aberto, pelo menos não tão aberto assim.

O filme de Walter Salles tem um roteiro clássico, nos apresenta uma jornada do herói com seus três atos, pontos de virada, evolução, clímax e resolução da história. Considero-o agora um filme quase “fechado”. Dora é uma vigarista que se dispõe a viajar com Josué até o nordeste do Brasil em busca do pai do garoto. Eles viajam, tornam-se amigos e passam por situações que mudam suas formas de encarar a vida. Não conseguem encontrar o pai de Josué, mas encontram os irmãos do garoto, que também são sua família. A missão de Dora está cumprida. Sei que é difícil encarar a separação dos protagonistas, mas é preciso seguir em frente. O que aconteceu com Dora, se Josué encontrou o pai ou se eles dois voltaram a se encontrar novamente, sinceramente, não importa. O filme apenas se propõe a nos apresentar esse pequeno período da vida dos dois personagens, esse momento chave, essa experiência que resultou na transformação de ambos, tornando-os pessoas melhores e mais fortes. E praticamente tudo que eu disse sobre ‘Central do Brasil’ pode ser aplicado a ‘Que Horas Ela Volta?’ e ‘Aquarius’.

Como roteiro é uma das minhas áreas de atuação, estou sempre estudando e pesquisando sobre. Já li praticamente todos os manuais de roteiro disponíveis no país e posso afirmar que eles não me ajudaram, muito pelo contrário. Manuais são ótimos para quem quer entender o que é um roteiro, para quem quer aprender como ler um roteiro, para quem quer conhecer a formatação de um roteiro, mas são igualmente péssimos na tentativa de ensinar como escrever um. Além de serem livros muito parecidos, alguns quase cópias idênticas, castram a criatividade de um roteirista. Apontam quantos atos um roteiro deve ter, quantas páginas devem conter em cada ato, a duração máxima que um filme deve respeitar, onde devem ser apresentados os pontos de virada, onde deverá ser apresentado o clímax, a forma de apresentar um personagem, a forma de estabelecer um conflito, tudo. Se todos seguissem esses manuais, todos os filmes seriam praticamente iguais. E o que é mais hipócrita nessa história toda é que os prêmios de melhor roteiro quase sempre são entregues para filmes que vão contra essas regras, que subvertem as formas tradicionais de se contar uma história. É como se esses manuais nos ensinassem a como não escrever um roteiro. Acontece, caríssimos, que prêmios não geram bilheteria, então os estúdios seguem impondo essa forma clássica que eu prefiro chamar de forma engessada de escrever roteiros.

Um centenário foi mais do que suficiente para engessar também a forma do público de consumir cinema. Os manuais servem para corresponder a todas as expectativas de quem assiste ao filme. Durante muito tempo, esses manuais só serviram para me deixar inseguro com tudo o que eu escrevia. Eu pensava que se eu não os seguisse à risca, minhas histórias iam ser consideradas péssimas. Antes de ler esses livros eu me sentia muito mais livre e tinha mais coragem de arriscar. Hoje eles ainda são um fantasma, mas já não os leio mais e tento esquecê-los. Agora leio livros de edição e montagem, pois eles não estão preocupados em apresentar uma fórmula, e sim em nos mostrar várias formas diferentes de construir uma mesma cena. E claro, sigo firme no melhor método de aprendizado de todos: assistindo ao maior número de filmes diferentes possível.

Entre as muitas barbaridades que já li em manuais de roteiro, algumas me chamaram mais atenção. Em um deles li que um filme não pode ter mais de duas horas de duração, que o final deve ser sempre feliz, pois filmes tristes deixam o público frustrado, que o filme deve sempre ter um clímax a poucos minutos do fim, que se eu estou escrevendo um roteiro é porque estou pensando em vendê-lo por uma boa quantia em dinheiro e que a melhor forma de conseguir isso é dando ao público o que ele quer ver. Sou contra todas essas estratégias comerciais. O espectador está muito acomodado; é preciso reeducá-lo apresentando coisas novas e não somente o que ele acha que quer. Este é um trabalho difícil, e da forma como o cérebro de boa parte do público está atrofiado, pode ser tarde demais para conseguir reverter essa situação.

O resultado disso é um público preguiçoso que não consegue nem realizar o esforço de fazer uso do belo presente que filmes com finais abertos nos proporcionam. Para quê imaginar o que aconteceu com Clara de ‘Aquarius’ se eu posso esperar uma sequência que responda minhas dúvidas? Esse exercício gostoso de dar continuidade às histórias dos filmes quando eles acabam eu aprendi há muito tempo com ‘Central do Brasil’. Na minha continuação, Dora e Josué nunca mais se reencontraram. Ela morreu sozinha sem nunca conseguir casar e Josué nunca encontrou o pai. Consigo até imaginar que Irene, personagem de Marília Pêra, também terminou sozinha, embora ainda tenha se relacionado com alguns homens, mas nenhum resultando em um relacionamento duradouro. Em minha continuação de ‘Que Horas Ela Volta?’ de Anna Muylaert, Val, personagem de Regina Casé, conseguiu um novo emprego e mesmo com todas as dificuldades, realizou o sonho de ver a filha formada. Jéssica, personagem de Camila Márdila, com o bom emprego que conseguiu, deu uma boa casa à sua mãe, que não precisou mais trabalhar graças ao ótimo salário da filha. Para Clara, personagem de Sônia Braga em ‘Aquarius’, não construí uma história muito otimista. Acredito que ela tenha se saído vitoriosa, mas só depois de muitos anos com o processo correndo na lenta Justiça de nosso país. O sofrimento foi longo, mas ela também causou muita dor de cabeça aos donos da construtora.

Longe de mim defender que todos os finais devam ser abertos. Esse tipo de desfecho deve ser apenas uma forma entre várias outras de se contar uma história. Que finais assim não sejam usados como justificativas para classificar um filme como ruim. O anticlímax proposital também tem o seu valor. A supervalorização da expectativa correspondida deveria ser substituída pela surpresa. O público tem que sair de sua zona de conforto e abandonar esse olhar que não se permite enxergar outras possibilidades. Nem todos os filmes precisam de uma continuação, pois eles podem (e devem) continuar dentro de nós, em nossas mentes. É divertido se surpreender, é divertido ser apresentado a coisas novas que ainda não sabemos que gostamos. Não tenho problemas com finais felizes, mas tenho pavor do “viveram felizes para sempre”. É o mesmo que matar os personagens. A vida não é feita só de sorrisos. É bom ver nossos heróis vencerem seus desafios, mas o último minuto do filme não pode significar o fim deles – a não ser que eles morram. Se o roteirista decidir por não ceifar a vida de suas criações, assim como nós, suas jornadas “continuam”, pois no fim das contas, enquanto não morrermos, todo dia é um final em aberto.

todo dia é dia de gênio

Certa feita, em uma aula de Cinema Moderno que cursei no segundo semestre do curso de Cinema, a turma assistiu ao filme ‘O Bandido da Luz Vermelha’, de 1968, do diretor Rogério Sganzerla (1946-2004). Era um seminário e havia uma equipe de cinco alunos responsável pela projeção do filme e o debate com o restante da turma sobre a importância deste longa para o cinema brasileiro moderno. Na aula da semana anterior, minha equipe havia apresentado ‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’, de 1964, do diretor Glauber Rocha (1939-1981). Ao final da aula, a professora, aproveitando a repercussão dessas duas apresentações e o fato de Sganzerla ter apenas vinte e dois anos quando dirigiu ‘O Bandido…’ e Glauber vinte e cinco anos quando lançou ‘Deus e o Diabo…’ – antes disso, tendo lançado seu primeiro longa-metragem, ‘Barravento’, em 1962, aos vinte e três anos -, soltou um comentário que até hoje julgo um tanto quanto irresponsável: “Vocês não se sentem mal por estarem na mesma faixa de idade deles e ainda não terem lançado um longa?”.

Desde o primeiro momento, eu também encarei essa pergunta como uma forma de incentivo, uma provocação, uma tentativa de nos encorajar, digamos assim, a produzirmos. Por ser uma professora e uma pessoa maravilhosa, sei que a intenção era das melhores: fazer-nos sair da teoria e partir para a prática. No entanto, a boa intenção não exclui os muitos problemas dessa pergunta-provocação-incentivo. Um deles é imediato: o sentimento de culpa e fracasso desnecessário que se instala em nossa consciência ao sermos comparados com pessoas da nossa faixa-etária mais bem sucedidas que nós.

A turma dessa disciplina era formada por alguns alunos com menos de vinte anos, a grande maioria na casa dos vinte, alguns com trinta e poucos e até aluno com mais de cinquenta anos. Diante da pergunta, todos ficaram calados, ninguém respondeu nada até eu, que sempre fui de falar muito, respondi com um “não, não me sinto mal por não ter lançado nenhum longa ainda”. Nesse momento todos os olhares se voltaram para mim e eu comecei a dar minhas justificativas, que só não transcrevo aqui porque já não lembro palavra por palavra, mas recordo de ter usado Suzana Amaral como um dos exemplos.

Suzana começou a estudar cinema quando já havia criado os nove filhos. Lançou o primeiro filme, ‘A Hora da Estrela’, um clássico do cinema brasileiro de 1985, aos cinquenta e três anos de idade, baseado na obra homônima de Clarice Lispector. Quando falei dela, um dos alunos, na época com vinte e sete ou vinte e oito anos, comentou que estava aliviado, pois ele ainda estava no tempo. O que muita gente esquece é que todo tempo é tempo. O próprio Sebastião Salgado só começou a fotografar aos vinte e nove. Não há necessidade desse tipo de comparação, principalmente quando o assunto é arte.

Agora, sempre que vejo o exemplo de um artista que começou “tarde”, lembro dessa aula. A própria concepção de “começar tarde” é errada, pois cada profissional tem o seu tempo próprio. O momento de criação de cada um é o tempo certo. É óbvio que muitos fatores nos impedem de começar antes. Artistas que conseguem reconhecimento logo no início são exceções. É difícil estudar em uma universidade um curso que não nos traz muitas ou quase nenhuma perspectivava de emprego. É como saltar sem paraquedas. Para muitos é preciso fazer outro curso antes e se profissionalizar em algo apenas para se conseguir estabilidade financeira. Para a grande maioria (e nisso me incluo), apesar de já cursar a área de interesse, é preciso trabalhar com o que não gostamos para, no futuro, finalmente conseguir trabalhar com o que queremos. Entretanto, nunca é tarde para começar.

Pode até ser desanimador fazer cinema diante de gênios como Glauber e Sganzerla, que começaram tão cedo. Para outros também pode ser desanimador ser escritor ao lado de gênios como Machado de Assis (1839-1908) e Álvares de Azevedo (1831-1852), que começaram tão jovens. Contudo, caríssimos, o fato de Suzana Amaral ter lançado o primeiro filme aos cinquenta e três, Kleber Mendonça Filho ter lançado seu primeiro longa-metragem aos quarenta e cinco anos, e Fernando Meirelles e Cláudio Assis aos quarenta e três anos, não os torna piores. O trabalho de todos eles, inclusive, é muito maduro e consistente. Sganzerla, por exemplo, nunca conseguiu fazer um filme melhor que ‘O Bandido da Luz Vermelha’, enquanto que Kleber Mendonça acaba de lançar a obra-prima ‘Aquarius’, aos quarenta e oito anos. Em 2002, quando Meirelles lançou ‘Cidade de Deus’, ele estava então com quarenta e sete.

Cora Coralina (1889-1985) e Graciliano Ramos (1892-1953) são dois gênios da literatura, tendo lançado seus primeiros livros aos setenta e seis e quarenta e um, respectivamente. Não estou dizendo que começar “tarde” é melhor, mas esse desejo de ser o mais rápido, o mais forte e o mais jovem, causa muitos problemas. No desespero de lançar logo a primeira obra, muitos artistas produzem trabalhos que com certeza seriam melhores se houvessem se dado o tempo de amadurecê-los.

Repito, nunca é tarde para começar. E nem para recomeçar. Tom Zé havia abandonado a carreira, mas conseguiu sair do ostracismo aos cinquenta e seis anos. Se já havia lançado clássicos como ‘Todos os Olhos’ (1973) e ‘Estudando o Samba’ (1976), ainda conseguiu realizar um de seus melhores trabalhos em 2012, o disco ‘Tropicália Lixo Lógico’, aos setenta e seis. Esse ano, aos oitenta, acaba de lançar o disco ‘Canções Eróticas de Ninar’, que eu ainda não ouvi e já gostei. Nada está perdido; bons trabalhos são realizados em qualquer idade. Se os artistas mais velhos nos incentivam a sempre continuar tentando, os artistas jovens não podem ser usados para nos desencorajar a produzir depois de uma determinada idade. E tenho dito: todo dia é dia de gênio.