porque não desejo filhos gays para casais homofóbicos

Certa feita, ao presenciar comentários homofóbicos vindos de um jovem casal heterossexual, pais de uma menininha linda de um aninho, relatei o ocorrido a um amigo meu, em particular. Ao ouvir a história, ele comentou o seguinte: “tomara que a filhinha deles seja lésbica para que eles aprendam a respeitar às diferenças”. A frase me deixou reflexivo.

Conhecendo bem esse meu amigo, sei que ele falou o que falou no calor do momento, pois estava revoltado com o que havia acabado de ouvir. Ele é gay, logo, não considera a homossexualidade algo ruim, então sua intenção não era atingir a criança, e sim o casal que, na cabeça dele, aprenderia a respeitar o amor entre duas pessoas do mesmo sexo quando passassem a conviver com uma lésbica dentro de casa. No entanto, eu penso diferente, pois não desejo filhos gays para casais homofóbicos.

Não acredito em castigo, maldição divina e em nada dessas bobagens para partir do pressuposto que casais homofóbicos merecem mesmo é ter filhos gays, quando na verdade é o filho gay que sofre ao nascer em um lar homofóbico. Os pais mais religiosos, na cegueira da intolerância, só conseguem enxergar o próprio “sofrimento”, perguntando-se o que fizeram para merecer isso. Os pais não religiosos também encaram a situação como uma espécie diferente de castigo, perguntando-se onde erraram na educação da criança.

Na verdade, não desejo filhos (gays ou não) para casais homofóbicos. Se o filho for hétero, são grandes as chances de ele pensar como os pais e, mesmo que não seja homofóbico e tenha amigos gays, dificilmente vai fazer algo para mudar a visão dos pais, afinal, essa não é uma causa dele. Infelizmente, ainda são poucos os héteros que lutam juntos às comunidades LGBTs contra a homofobia. Já se o filho for gay, ele vai sentir a pior dor que um homossexual pode sofrer: a violência do próprio lar. A violência e não aceitação da rua nada se compara a não aceitação familiar.

São os filhos gays que não merecem pais homofóbicos. Quando isso acontece, são enormes as chances de se repetirem casos que já vi acontecer de pais colocarem filhos no exército contra a sua vontade para “virarem homens”; pais que submetem filhos a tratamentos psicológicos quando na verdade são eles que têm problemas; pais que sujeitam os filhos a uma forte violência física e psicológica; pais que trancam os filhos dentro de casa impedindo-os de qualquer contato com o mundo; pais que expõem a sexualidade dos filhos a padres e pastores, arrancando-os à força do armário, o que resulta em uma forte humilhação social, pois é a própria pessoa quem deve decidir quando contar para todos; chegando até mesmo a casos de pais que matam os filhos por não aceitá-los como são.

De todos esses exemplos citados acima, o único que ainda não aconteceu com alguém próximo a mim foi o último, mas não são poucas as histórias de gays mortos pelos próprios pais – isso quando eles mesmos não tiram a própria vida na ânsia de ceifar esse sofrimento. Toda essa violência é fruto do preconceito, mas também de frustração. Casais homofóbicos criam a expectativa de que seus filhos serão héteros, sendo assim, quando ocorre a frustração dessa expectativa, o sofrimento para ambos é quase inevitável. Claro que o sofrimento desses pais é fruto de um “auto-problema”: o próprio preconceito. Enquanto que o sofrimento do gay é fruto do problema de terceiros: a homofobia do outro. Os pais não possuem o direito de criar expectativas com relação à sexualidade dos filhos. Ninguém escolhe ser gay, não é uma opção. Ninguém em sã consciência escolheria passar por todo esse flagelo. É óbvio ululante que nem todos passam por isso, mas é apenas uma minoria que tem a felicidade de nascer em um lar que respeita as diferenças.

Portanto, mesmo que todo filho gay mudasse a mentalidade dos pais homofóbicos, não da para ignorar que esse é um processo muito traumático, logo, não desejo que gay nenhum tenha que passar por isso. É por essa razão que as campanhas contra a homofobia, o debate sobre a identidade de gênero nas escolas e a criminalização da conduta homofóbica são cada vez mais importantes. Porém, isso é o macro e cabe a todos nós combater o micro, que é o preconceito do dia a dia presente nos comentários à mesa do jantar, no ambiente de trabalho, nas piadas homofóbicas nas rodas de conversa com os amigos… Lembre-se: a cada vinte e oito horas, um homossexual morre de forma violenta no Brasil e o país inteiro é culpado, pois o combate à homofobia é (ou deveria ser) uma luta de todos.

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minha estupidez

Fiquei sabendo através das redes sociais que Fernanda Torres estrearia essa semana no canal GNT um programa chamado Minha Estupidez. Programa esse que eu não vou assistir pois não tenho TV por assinatura em casa (nem pretendo) e porque, quando for disponibilizado na internet (se for), eu com certeza já terei esquecido. No entanto, acabei abrindo o texto que falava da estreia e me deparei com o parágrafo de outro que a própria Fernanda escreveu e enviou para jornalistas: “Eu me valho da minha ignorância, da curiosidade onívora e de uma certa franqueza, que me leva a admitir, em público, que não sei o que é solipsismo, […] além de confessar que passei três anos mentindo que havia lido ‘Viva o Povo Brasileiro’.”

Depois de passar alguns anos mentindo que havia lido o clássico de João Ubaldo Ribeiro, finalmente Fernanda o leu em 2008, e aproveitou a ocasião para entrevistar o escritor baiano para um programa que ela havia idealizado e que só agora está sendo lançado sob o título de Minha Estupidez, como citei acima. Realmente não recordo se já menti dizendo que li um livro sem ler, mas admito que são grandes as chances de isso já ter acontecido pelo menos uma vez. De toda forma, se não sei ao certo se menti sobre livros, confesso que já menti dizendo ter visto um filme que ainda não havia assistido.

Todo mundo conhece alguém que dá dicas de filmes aos amigos quando eles não sabem o que assistir. Eu sou essa pessoa. Portanto, para não decepcionar o pequeno imaginário coletivo que se formou através do meu minúsculo ciclo social em relação à minha cinefilia, existiram algumas ocasiões em que menti ao me perguntaram se vi tal filme, principalmente quando o título era um clássico. Como realmente vejo muitos longas, logo não precisei mentir tantas vezes e ninguém nunca desconfiou que eu pudesse estar faltando com a verdade. Mesmo assim, aprendi que não importa o número de filmes que você veja, alguém sempre vai te perguntar por um que você ainda não viu.

Uma das razões das minhas mentiras era mesmo para evitar a reação das pessoas, pois quando eu admitia não ter visto, elas sempre reagiam como se fosse o fim do mundo: “Como assim você não assistiu ainda? Você não é cinéfilo?”. Como se alguém tivesse a obrigação de conhecer tudo. A outra razão era por vergonha mesmo: “Como eu, um cinéfilo, ainda não vi esse filme?”. Entretanto, acredito que essa segunda razão existe muito em função da primeira, pois eu talvez não sentisse vergonha se as pessoas não me julgassem. Se eu teria deixado de mentir se não houvesse julgamento? Não sei. Todavia, não imagine que eu gostava de fazer isso pois, nas vezes em que aconteceu, corri para casa e tratei de ver o filme o mais rápido possível para que a mentira durasse pouco tempo. Conjugo os verbos no passado porque já faz alguns anos da última vez que tentei enganar os outros e a mim mesmo de que era possível conhecer tudo.

Hoje, assim como Fernanda, também me valho de minha ignorância, de minha curiosidade e de minha franqueza para admitir quando não vi tal filme ou li tal livro, mas não só isso, como admitir também o total desconhecimento de vários assuntos. Sentindo uma identificação tremenda com as palavras de Fernanda, decidi procurar pelo texto completo que ela enviou a jornalistas, mas não encontrei. Em compensação, a pesquisa me levou a algumas entrevistas interessantes da atriz e escritora sobre o programa. Porém, como ela também fala de outros assuntos e como eu adoro entrevistas, resolvi transcrever alguns trechos aqui.

Em uma delas, Fernanda, que revela sentir falta de ter cursado uma universidade, compara sua cultura geral a um queijo suíço: “É cheia de buracos. Nunca ninguém ordenou o pensamento para mim. Fui lendo e me informando, mas sem ninguém me conduzindo”. Apesar de cursar uma graduação, também sinto que muitas áreas do meu conhecimento são esburacadas. O que não me desmotiva, muito pelo contrário. Por mais trabalhoso que seja, isso me faz correr atrás dos pensamentos que possam preencher essas fendas.

Em outro momento, dessa vez sobre o processo de impeachment da presidenta Dilma, senti como se Fernanda tivesse lido os meus pensamentos: “Não conseguia escrever. Não conseguia ler. Parecia que minha vida era pautada pelo que fosse decidido em Brasília”. Foi justamente isso que aconteceu comigo durante as últimas semanas do golpe, não consegui produzir nada. Outro momento de identificação foi quando ela falou sobre opiniões formadas: “Pedem muito para a gente, que é ator, dar opinião, e a gente dá, né? Nos últimos anos, também passei a escrever em jornal e revista. Mas aprendi a dizer “Não tenho opinião sobre isso””.

Contudo, nem tudo são flores. Ao ser questionada sobre a polêmica do texto para o blog feminista Agora É Que São Elas, em que falou de “vitimização do feminismo”, ela vê como seu único erro apenas ter publicado tal texto no blog errado: “O texto era para um blog ligado a questões feministas. E eu não entendi isso. Era um lugar errado para falar da minha opinião pessoal. Eu errei. Hoje você tem que ter cuidado redobrado com o que e com quem fala. As coisas reverberam rapidamente na internet. Esse episódio me ensinou muito”. Apesar de ter se retratado depois, Fernanda diz que o ‘mea culpa’ não exclui o que ela pensa. Isso foi mesmo uma estupidez da parte dela, mas esse é assunto para outro texto.

Numa das resenhas do primeiro episódio do programa, há a transcrição do que Fernanda diz na abertura. Repito, eu não vi, então não sei se as palavras foram essas mesmo, mas o que estava escrito me chamou atenção. Diante da estante que herdou do avô, ela diz: “Esse programa nasceu desta estante aqui, de perceber que, por mais que eu tenha lido e amado os livros que eu li, eles se reduzem a isso aqui. Ou seja, nada perto do que existe pra se ler, se conhecer. Essa estante, de certa maneira, mede o tamanho da minha estupidez”. Fernanda disse, dessa vez em uma das entrevistas, que leu tanto para realizar o programa que, quanto mais lia, mais via que não sabia de nada. Ela acha que aumentou sua estupidez. Que leitor nunca sentiu isso?

Olhei então para a minha própria estante que eu já julgava ser tão pequena e, diante de todo o conhecimento da humanidade, é essa minha estante pequena que, de certa forma, também mede o meu próprio conhecimento. Embora muito em breve ela não consiga mais guardar livros novos, mesmo que ela triplique ou quadruplique de tamanho, sua pequenez não se calcula apenas metricamente. À frente de todos os livros que jamais chegarão até aqui, ou mesmo que chegassem, à frente de todos os livros que eu não vou conseguir ler antes de morrer, minha estante e meu conhecimento serão eternamente o que sempre foram: estúpidos.

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família abravanel

Durante a minha infância, quando havia apenas um único aparelho de TV em minha casa e meu pai monopolizava o controle remoto, os programas do SBT eram sempre assistidos em família. Recordo que acompanhamos algumas novelas infantis e outras estrangeiras. Digo que recordo porque ainda tenho lembranças de alguns desses momentos, mas confesso que esqueci praticamente tudo que foi assistido nesse período. Além das novelas, também assistíamos bastante aos programas dominicais.

Nessa mesma época, pela manhã, eu preferia assistir desenhos animados em outras emissoras, pois nunca gostei muito dos desenhos transmitidos pelo SBT. No entanto, sempre assistia ao Chaves, coisa que faço até hoje pela internet quando bate a saudade ou quando ligo a TV por acaso e descubro que está passando. Porém, agora posso afirmar que não assisto mais aos programas da emissora do Silvio Santos, assim como me afastei da televisão de um modo geral, mas sempre comemoro quando fico sabendo que o SBT ameaça, nem que seja por poucos minutos, a soberania da audiência da toda poderosa Rede Globo.

Não me restam dúvidas de que todo esse carinho se deve a minha admiração por Silvio Santos, quem considero o maior nome da TV brasileira entre os vivos e os mortos. Entretanto, não há admiração no mundo que não se deixe abalar por tanta coisa negativa sendo transmitida. Se não fosse a internet, muitas pessoas jamais ficariam sabendo desses casos. É por isso que acredito tanto na força do ativismo virtual, do contrário, eu mesmo não saberia de nada disso, pois não estava vendo TV quando o preconceito foi televisionado.

Sei que em trinta e cinco anos de história, muitos comentários estúpidos saíram dos programas da emissora, assim como dos programas de todas as suas concorrentes. Contudo, hoje vivemos em outros tempos e o que não repercutia negativamente décadas atrás, agora gera protestos na internet e até mesmo boicotes aos programas que ofendem minorias. A primeira dessas repercussões negativas de que tomei conhecimento aconteceu em maio deste ano. Na ocasião, Patrícia Abravanel disse que não considerava a homossexualidade algo normal. Sua declaração repercutiu nas redes sociais, mas ela não estava sozinha e quase nada se falou sobre os comentários infelizes dos outros participantes.

No Programa Silvio Santos exibido em 8 de maio, no quadro Jogo dos Pontinhos, Silvio comentou sobre filmes que trazem casais lésbicos entre seus personagens e perguntou aos participantes do quadro se eles eram contra ou a favor que duas mulheres se amassem como “marido e mulher”. A coisa já fica feia na pergunta preconceituosa do próprio apresentador. Será que é tão difícil entender que duas mulheres que se amam, não se amam como homem e mulher, e sim como duas mulheres que são?

O que veio a seguir foi um verdadeiro festival de horrores. Apesar de nem todos responderam ser contra, até quem se disse a favor o fez de forma preconceituosa. A primeira a responder foi Lívia Andrade. Ela disse ser a favor do amor entre duas mulheres, mas com ressalvas: “Eu acho bonito quando duas mulheres se amam como duas mulheres, entende? Duas mulheres fisicamente, aparentemente, como mulheres”. Para quem não entendeu, ela estava falando de feminilidade. Bem, o que eu gostaria de dizer para Lívia é que duas mulheres não precisam ser femininas só para que ela ache bonito. O amor entre duas pessoas do mesmo sexo ou até mesmo do sexo oposto só deve ser bonito aos olhos do próprio casal. Com esse discurso ignorante, Lívia demonstrou não ter o mínimo conhecimento sobre identidade de gênero. Flor, a segunda a responder, também se disse a favor, mas, além de se referir as lésbicas como “entendidas” e “sapatões”, ainda comentou que não pagaria para ver um filme com “duas aranhas se pegando”.

É lógico que Carlinhos Aguiar, o terceiro a responder, não iria perder a chance de defecar pela boca. Já era de se esperar que ele se posicionasse contra, mas como se isso não bastasse, ainda disse o seguinte: “Já não chega essas homaradas todas queimando a ruela, o que tem de homem viado aí é brincadeira. Aí ficam essas mulheres colando o velcro, vocês não me conheceram. Eu sou contra, claro que eu sou contra. Porque a partir do momento que elas me conhecessem… Eu pego essas gostosas e tiro elas dessa vida”. Ele só faltou dizer que acredita em estupro corretivo para lésbicas, mas não precisou, ficou implícito.

O humorista Alexandre Porpetone, através do seu personagem Cabrito Tévez, foi o quarto a responder. Com uma piada altamente sem graça, se disse a favor: “Eu sou a favor desde que eu possa participar da festa. Porque não sei se vocês sabem, Silvio, eu sou lésbico. Eu sou lésbico também, então eu apoio a causa”. Porpetone deve ser do tipo de cara que acredita que duas mulheres só podem se relacionar para satisfazer o fetiche dos homens. Helen Ganzarolli, a quinta a responder, também disse ser a favor, mas acredito que ela ficou com medo de que as pessoas duvidassem de sua heterossexualidade, pois achou necessário deixar bem claro que gostava de homem: “A minha opção é pelo sexo oposto, mas eu sou a favor já que é a opção de cada um. Eu gosto de homem, mas eu sou a favor de duas mulheres”. Como se não bastasse, ainda tratou orientação sexual como “opção”.

Silvio deixou Patrícia para o final, e o que já estava horrível, só piorou. A filha do patrão se posicionou contra: “Eu li numa revista que hoje um terço dos jovens se relaciona com pessoas do mesmo sexo. Um terço eu acho muito. […] Mesmo sem saber se a opção deles é real. Eles experimentam. […] Eu acho que o jovem é muito imaturo ainda para poder saber o que quer. Então a gente tem que afirmar que homem é homem e mulher é mulher, entendeu? Não acho que é legal ser super liberal. […] Não acho legal ficar considerando tudo super normal, entendeu? Eu acho que a gente tem que ensinar para os jovens de hoje que homem é homem e mulher é mulher. E se por acaso ele tiver alguma coisa dentro dele que fale diferente, aí tudo bem. Mas o que tá acontecendo hoje é que a gente está falando que tudo é normal, que tudo é bonito e o jovem naquela coisa de querer experimentar tudo acaba experimentando coisas que ele pode vir eventualmente a se arrepender depois. Então eu sou contra ficar propagando em rede nacional que isso é uma coisa super normal. Então eu sou contra”. Silvio a interrompe e pergunta: “Você falou uma coisa aí que foi uma indireta. Isso aqui que eu estou fazendo é propaganda?” Ao que ela responde: “Você está propagando sim, porque não é uma coisa normal. Hoje, eu falar que eu sou contra, eles vão me apedrejar. Eu não sou contra o homossexualismo (sic), eu sou contra falar que é normal. […] E outra, mulher com mulher não é tão legal assim, eu acho. Não tem aquele brinquedinho que a gente gosta bastante. Não dá para brincar direito”. Ao final do discurso, a plateia aplaude.

Logo após, Silvio ainda pergunta se eles são contra ou a favor de quem não acredita em deus. Não vou comentar as asneiras que eles responderam sobre isso, basta dizer que todos se posicionaram contra. A coisa desanda ainda mais quando Silvio pergunta se eles são contra ou a favor do prisioneiro que está cumprindo pena ir para casa no dia das mães ou se são contra ou a favor ter filhos antes do casamento. Não vou dissertar sobre esses outros três momentos do programa que dariam cada um, um texto próprio (se tiver estômago veja o programa inteiro aqui). Portanto, vou me ater apenas ao discurso de Patrícia.

Bem, já eu não acho normal ficar propagando preconceito em rede nacional. Assim como Helen, Patrícia tratou orientação sexual como “opção”. Chamou homossexualidade de homossexualismo e disse não considerar normal a relação entre pessoas do mesmo sexo. Ela deve fazer parte da população que ainda acha que sexo sem pau não é sexo, reduzindo todas as outras formas de relação sexual sem penetração peniana a absolutamente nada. Patrícia disse depois que foi mal interpretada, mas acredito que interpretaram muito bem o que ela quis dizer. A reação nas redes sociais foi muito importante. Ela precisava mesmo enxergar que suas palavras ofenderam sim os homossexuais, e que anormal é ter preconceito. Porém, ao contrário do que ela disse, não vamos apedrejá-la, afinal, isso é coisa de religiosos.

A repercussão foi tão grande que já no dia seguinte Patrícia veio a público pedir desculpas. Entendo perfeitamente porque a fala dela polemizou mais do que a dos outros, mas todos os sete, incluindo o próprio Silvio, erraram, e a comunidade LGBT merecia ouvir uma retratação de todos eles. Um mês antes disso acontecer, no programada de 10 de abril, Silvio já havia dito ao ator João Guilherme, de apenas catorze anos, que ele estava parecendo uma “bichinha”. Embora o comentário também tenha repercutido, nem Silvio, nem o SBT se pronunciaram sobre o ocorrido.

Espero que João Guilherme não tente moldar seu comportamento por medo de voltar a ouvir idiotices como essa. Eu estava tão confuso quando tinha catorze anos, sem saber exatamente quem eu era, que um comentário desses só faria com que eu me escondesse por trás de uma masculinidade tóxica para não ter que ouvir mais esse tipo de coisa. Lembro que quando eu tinha por volta de sete ou oito anos adorava atender ao telefone. As ligações nunca eram para mim, mas eu adorava atendê-las mesmo assim. O aparelho ficava na sala, perto da escada. Certo dia ele tocou e eu atendi, era um tio. Passei o telefone para minha mãe e ele perguntou quem era a menina que havia atendido. Minha mãe ficou super ofendida e disse que não era menina nenhuma, pois quem havia atendido era eu. Eu devia ter oito anos no máximo, e minha mãe me ordenou que eu falasse grosso para que ninguém me confundisse com uma mulher. A história se espalhou pela família e todos riram de mim. Nenhum adulto teve coragem de me defender, de dizer que eu era uma criança e que minha voz era normal. Depois disso, eu passei anos com pânico de atender ligações, e sempre que era realmente necessário realizá-lo, fazia de tudo para engrossar minha voz. Eu só tinha oito anos, porra!

Quando personalidades importantes, formadoras de opinião, esquecem que possuem um papel social na vida de muitas pessoas, passamos a correr certo tipo de perigo. Muita gente reproduz o que vê na TV, basta notar que, por maior que tenha sido a repercussão negativa de Patrícia nas redes sociais, a plateia no auditório a aplaudiu. Tenho certeza de que muita gente aplaudiu de casa também. Do sofá da sala muitos preconceituosos tiveram seus discursos de ódio fortalecidos, legitimados por uma pessoa famosa. Isso tudo aconteceu há mais de seis meses atrás, mas Patrícia já voltou aos holofotes criticando religiões africanas em um vídeo antigo que caiu na rede, em que ela culpa os problemas que assolam o continente africano ao “misticismo” da população. Nesse meio tempo, Silvio também fez comentários racistas e gordofóbicos, os últimos, inclusive, aconteceram recentemente, durante a exibição do Teleton.

Aparentemente, Silvia Abravanel, a outra filha do dono do SBT, se sentiu oprimida pelo pai e a irmã, resolvendo também aprontar as suas próprias besteiras, prestando um dos maiores desserviços que eu já vi na vida: criar, em pleno século vinte e um, uma escola de princesas. Com aulas de boas maneiras, postura corporal e etiqueta à mesa, as meninas aprenderão a se “guardar” para o príncipe encantado. Se Silvia também queria dar maus exemplos como seus familiares, conseguiu. Na verdade, foi muito além, saindo do discurso e partindo diretamente para a prática, criando uma escola que no futuro formará um exército de mulheres belas, recatadas e do lar.

Uma pesquisa realizada esse ano pelo site britânico “YouGov”, apontou Silvio Santos como a personalidade mais admirada pelos brasileiros. Prestes a completar oitenta e seis anos, Silvio está em um de seus melhores momentos como apresentador, cada vez mais solto e mais engraçado. Sei que ele é um senhor de outros tempos, mas inteligente como é, não é injusto lhe dizer que nunca é tarde para aprender. Ser quase uma unanimidade entre os brasileiros lhe reserva uma enorme responsabilidade. É um poder grande, que tanto ele quanto suas sucessoras deveriam usar justamente para combater a homofobia, o racismo, a gordofobia, o machismo, a intolerância religiosa e todo o tipo de preconceito. Para o bem ou para o mal, o SBT faz parte da história do Brasil e de muitos brasileiros, possui o segundo maior complexo televisivo da América Latina e o quarto maior do mundo, tendo sido a primeira emissora da história a transmitir sua inauguração ao vivo. Se uma emissora tão grande e tão querida continuar televisionando discursos preconceituosos para todo o país, um dia ela pode deixar de ser a TV que tem torcida para se tornar a que tem mais desafetos, podendo originar até mesmo inimigos.

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terceiro turno

Meu pai sempre foi de esquerda, embora ele não soubesse dizer exatamente o que é uma política de esquerda. No entanto, mesmo não sabendo disso e sendo de classe baixa, e talvez por ser justamente de classe baixa, sempre conseguiu identificar muito bem as desvantagens de um governo de direita. Ele sofreu na pele os dois mandatos do governo FHC. Hoje, consigo identificar certa influência de meu pai no meu posicionamento político, embora eu tenha certeza que, mesmo sem sua intervenção, ainda assim eu me identificaria com a esquerda.

Sempre gostei de votar e, em todas as eleições em que participei, jamais fiquei em cima do muro, pois sabia exatamente de que lado estava. Eu tinha apenas nove anos quando aconteceu a eleição presidencial de 2002. Acompanhei meu pai na votação e lembro claramente que durante a volta, segurando sua mão, lhe perguntei em quem ele havia votado. Ele me disse que tinha votado em Lula e me pediu segredo. Meu avô paterno (infelizmente) declarou voto em José Serra e meu pai não queria que brigassem por isso.

Durante o governo do PT a vida de minha família mudou drasticamente e conquistamos a tão sonhada ascensão social. Apesar de não ser o primeiro da família a cursar uma universidade federal, continuo até hoje sendo um dos poucos a conseguir ingressar na graduação. Apesar disso, eu não estava satisfeito com a conjuntura política desde 2013, mas jamais poderia imaginar que as coisas fossem piorar tanto.

Nas eleições deste ano, mesmo tendo candidatos de esquerda em quem votar, me senti muito mal em comparecer ao colégio eleitoral fingindo que estamos vivendo em uma democracia, fingindo que não estamos sofrendo um golpe, fingindo que não estamos sendo oprimidos por um plano de governo que não foi eleito. A vitória da direita conservadora só serviu para fortalecê-los e agravar ainda mais a nossa situação, pois eles estão encarando o resultado nas urnas como uma legitimação ao golpe. Nessas eleições não foi a esquerda quem perdeu, foi o Brasil.

Enquanto a esquerda só criticava a si mesma sem reconhecer os próprios progressos, a direita brasileira conseguiu se organizar e impor seu programa de governo. Não houve a necessidade de tanques nas ruas, o golpe midiático-parlamentar é a ditadura do século vinte e um e a ponte para o futuro do governo golpista é o novo AI-5. Temo que dois anos não seja tempo suficiente para a esquerda se renovar e barrar todo esse retrocesso que está sendo implantado. Não torço para o “quanto pior, melhor”, mas é ilusão demais acreditar que algo bom possa sair disso tudo. Os retrocessos, inclusive, já começaram (Projeto de Lei 257/2016, PEC 55, MP 746) e, a partir de agora, todo e qualquer erro é de responsabilidade da direita, afinal, derrubaram uma presidenta democraticamente eleita para assumir o poder e nada mais justo do que responderem por suas próprias falhas.

Assim como a velha mídia é culpada (pois na ânsia de acabar com o PT, fortaleceu através de seus meios de comunicação a direita brasileira), a esquerda também tem sua parcela de responsabilidade no atual cenário político. É preciso aprender com os próprios erros. Uma política de esquerda verdadeira não pode abrir mão do enfrentamento aos privilégios históricos da Casa Grande. É preciso enxergar também que candidatos evangélicos avançam mais onde o Estado é ausente. Os fundamentalistas religiosos acabaram de conquistar nada menos que a segunda capital mais importante do país, o Rio de Janeiro, apelidada agora de RIURD Janeiro (em referência à Igreja Universal do Reino de Deus).

Outro passo da esquerda é justamente parar de disputar (juntamente com a direita) o apoio das igrejas. O Estado laico está previsto na Constituição, no artigo 19, inciso I, que preconiza: “é vedado ao Poder Público estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança”.

Em ‘Terra em Transe’, filme de 1967 do diretor Glauber Rocha (1939-1981), o personagem Paulo Martins, interpretado por Jardel Filho (1927-1983), ao constatar a fraqueza de Felipe Vieira, interpretado por José Lewgoy (1920-2003), se enfurece diante da recusa do líder populista em assumir a resistência armada ao golpe de Estado e diz o que considero ser uma das frases mais emblemáticas do cinema brasileiro: “se resistirmos será o começo de nossa história”. É nisso que acredito: na resistência.

No entanto, ao contrário de Paulo Martins, não penso que a luta armada seja o caminho, pois eles também não usaram armas para impor o golpe. De toda forma, felizmente, a esquerda já está mostrando através das ocupações das escolas e universidades que haverá luta e, por isso mesmo, os golpistas farão de tudo para deslegitimar esse movimento. Para as eleições municipais, o governo soube muito bem fazer um acordo com os alunos de escolas ocupadas que eram locais de votos. Além dos estudantes liberarem os espaços necessários para as equipes do Tribunal Eleitoral, também houve a realocação das zonas eleitorais para locais provisórios.

Não se deixe enganar, a ameaça de adiar/anular o ENEM foi uma tentativa de jogar os estudantes contra a própria causa. Lembre-se: as ocupações não impediram que as eleições acontecessem. O MEC teve tempo suficiente para dialogar e realocar os alunos, mas não o fez. Não sei o quão eles foram bem sucedidos nessa tática, mas vejo que as ocupações já geraram ódio em muitas pessoas. Acho muito justo quem se preocupa com a sua formatura, mas só enxergar isso é ser individualista. Não é apenas um semestre que está em jogo, são vinte anos de retrocessos. Existem até os bem-intencionados que são contra as ocupações acreditando que enquanto alunos ocupam escolas públicas, os estudantes de colégios particulares se preparam melhor para o ENEM. Contudo, não são os direitos dos alunos ricos que estão sendo cortados.

Veja, os mesmos jovens de dezesseis anos que os golpistas dizem ser doutrinados por comunistas possuem, segundo eles, idade suficiente para serem presos quando cometem crimes. As jovens que participam das ocupações também são consideradas doutrinadas, mas se qualquer uma delas engravidar, os golpistas irão afirmar que ela sabia muito bem o que estava fazendo. Com dezesseis anos a pessoa é madura o suficiente para votar e decidir o futuro do país, mas para ocupar escolas é criança. Não importa quantas vezes os golpistas contradigam o próprio discurso, eles sempre mudarão quando lhes for conveniente.

É preciso dar voz às ocupações, aos sem-teto, ao movimento feminista, aos LGBTs, ao movimento negro. É preciso boicotar a velha mídia e dar espaço para mídia livre nas redes. Acredito muito na importância dos blogues alternativos que exercem um papel vital de contra-informação e contra-opinião. Lutar por nossos direitos não pode ser algo perigoso. O terceiro turno já começou, é preciso ocupar as ruas, agora. Avante, companheiros e companheiras!

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finais abertos

[contém revelações de enredo]

Lembro que, quando assisti ‘Central do Brasil’ com meu pai, ele se mostrou muito decepcionado com o final. Ele não se conformou em esperar quase duas horas para o filme acabar e Josué não encontrar o pai dele. E Dora? Por que ela não ficou com o menino? Tempos depois, assistimos juntos ‘Que Horas Ela Volta?’. Pelo envolvimento dele com os personagens durante todo o filme, deu para perceber que ele estava gostando muito. No entanto, quando a projeção terminou e eu lhe perguntei se ele havia gostado, ele apenas se limitou a dizer: que final feio. Conheço bem o meu pai, e não foi necessário lhe fazer perguntas para descobrir o que ele havia detestado. Foi difícil para ele ver a personagem Val terminar desempregada. E Jéssica, conseguiu ingressar na graduação?

Quando fui assistir ‘Aquarius’ no cinema, eu não estava acompanhado de ninguém. Cheguei cedo, com medo de não conseguir ingresso (eu sempre acho que não tem mais ingresso). Paguei minha entrada e fiquei esperando o filme que ainda ia demorar para começar, sentado em um banquinho do lado de fora da sala. Nesse mesmo banco estava sentada uma senhora idosa rodeada de sacolas plásticas lendo uma notícia em um jornal impresso que puxou conversa comigo. Contou-me de uma viagem que havia feito recentemente e que, devido a ela, estava usando bengala, pois havia andado tanto que ainda estava com as pernas cansadas. Era início de tarde e, segundo ela, já estava na rua desde de manhã cedinho. Ademais, ela me disse que, quando acabasse ‘Aquarius’, ainda iria ver uma mostra de filmes LGBTs que estava acontecendo no centro cultural ao lado. Confesso que fiquei com inveja de sua vitalidade. Ela até me convidou para lhe fazer companhia durante a mostra, mas quando me entregou a programação, desisti de ir por ser composta apenas de filmes que eu já havia assistido.

No pouco tempo em que ficou do meu lado, ouvi essa senhora disparar o maior número de histórias por minuto que eu já tive oportunidade de presenciar, mas tenho que admitir que estava apreciando sua companhia. Era uma pessoa muito inteligente, simpática e agradável (mesmo que tenha me assustado com seu ódio quase doentio por Dilma Rousseff, em quem, segundo ela, gostaria de dar uma surra). A senhora saiu de onde eu estava para comprar uma água e uma moça bonita e educada que havia sentado perto de nós puxou assunto comigo. Ela me contou que era atriz e eu lhe disse que fazia cinema. Conversamos então sobre testes de elenco, preparações de elenco e produções cinematográficas locais. Apesar de rápida, também foi uma conversa muito agradável. Assim como a senhora idosa e eu, ela também estava esperando a próxima sessão de ‘Aquarius’ começar.

Sem que eu nada perguntasse, a moça comentou que a atuação de Sônia Braga estava maravilhosa. Só então lhe perguntei se já havia assistido ao filme, ao que ela me revelou que aquela seria a sua terceira sessão, mas ainda não a última. Com todo o cuidado do mundo para mudar de assunto, tentei falar de outras coisas com medo de que ela me revelasse algo do filme antes mesmo de eu assisti-lo. Ela não revelou nada, mas do alto de sua empolgação, comentou: “Já estou esperando a continuação”. Como assim seria feita uma continuação de ‘Aquarius’ e eu não estava sabendo? Perguntei-lhe se ela havia visto alguma notícia sobre isso e ela negou. Ela não tinha provas de que seria produzida uma continuação, mas tinha convicções, pois reforçou sua tese: “Do jeito que o filme termina é impossível não ter uma continuação, tem que ter um ‘Aquarius 2′”. Eu nem havia assistido ao filme ainda, mas naquele exato momento eu soube que se tratava de um final aberto. Assim como a moça, que não sei o nome, pois acabamos não nos apresentando, eu não tinha provas, mas tinha convicções de que Kleber Mendonça Filho não faria uma continuação, e claro, lhe expus meu posicionamento. No entanto, a moça estava certa de seu ponto de vista tanto quanto eu estava do meu. As pessoas então começaram a entrar na sala e eu me apressei para entrar também para garantir um bom lugar. A moça, a senhora e eu sentamos em lugares diferentes e nunca mais nos encontramos. Porém, é preciso registrar que em algo eu e a moça concordamos: Sônia Braga está maravilhosa!

Minha cinefilia começou muito cedo. Eu já era cinéfilo antes mesmo de saber que essa palavra existia, e desde o início cultivei um fascínio por finais abertos. ‘Central do Brasil’ foi exibido pela primeira vez em uma mostra regional de cinema na Suíça em 16 de janeiro de 1998. No dia 19 de janeiro foi exibido no Festival Sundance de Cinema nos Estados Unidos e no dia 14 de fevereiro no Festival de Berlim, de onde saiu consagrado com o Urso de Ouro de Melhor Filme. O lançamento no Brasil ocorreu apenas no dia 3 de abril do mesmo ano. Eu tinha então quatro anos de idade. Lógico que eu só fui tomar conhecimento do filme anos depois. Cresci com ele no meu imaginário, assistindo-o repetidas vezes na Sessão da Tarde. Até hoje é um dos meus filmes favoritos, embora seja completamente diferente do tipo de filmes que gosto de ver atualmente. Claro que há um toque de nostalgia em tudo isso. Todavia, Fernanda Montenegro continua sendo minha atriz favorita, o que não se deve apenas por esse trabalho.

Não posso afirmar o ano em que vi ‘Central do Brasil’ pela primeira vez, mas sei que eu tinha por volta de dez anos, não mais que isso. Vinicius de Oliveira tinha apenas doze quando interpretou Josué no filme. Hoje, ele não é assim tão mais velho do que eu e, embora não façamos parte da mesma geração, de uma forma ou de outra, crescemos “juntos”. Durante esses anos todos, me peguei várias vezes pensando no que haveria acontecido com Dora e Josué, mas quando revejo o filme hoje em dia, nem consigo considerar mais que ele tenha um final aberto, pelo menos não tão aberto assim.

O filme de Walter Salles tem um roteiro clássico, nos apresenta uma jornada do herói com seus três atos, pontos de virada, evolução, clímax e resolução da história. Considero-o agora um filme quase “fechado”. Dora é uma vigarista que se dispõe a viajar com Josué até o nordeste do Brasil em busca do pai do garoto. Eles viajam, tornam-se amigos e passam por situações que mudam suas formas de encarar a vida. Não conseguem encontrar o pai de Josué, mas encontram os irmãos do garoto, que também são sua família. A missão de Dora está cumprida. Sei que é difícil encarar a separação dos protagonistas, mas é preciso seguir em frente. O que aconteceu com Dora, se Josué encontrou o pai ou se eles dois voltaram a se encontrar novamente, sinceramente, não importa. O filme apenas se propõe a nos apresentar esse pequeno período da vida dos dois personagens, esse momento chave, essa experiência que resultou na transformação de ambos, tornando-os pessoas melhores e mais fortes. E praticamente tudo que eu disse sobre ‘Central do Brasil’ pode ser aplicado a ‘Que Horas Ela Volta?’ e ‘Aquarius’.

Como roteiro é uma das minhas áreas de atuação, estou sempre estudando e pesquisando sobre. Já li praticamente todos os manuais de roteiro disponíveis no país e posso afirmar que eles não me ajudaram, muito pelo contrário. Manuais são ótimos para quem quer entender o que é um roteiro, para quem quer aprender como ler um roteiro, para quem quer conhecer a formatação de um roteiro, mas são igualmente péssimos na tentativa de ensinar como escrever um. Além de serem livros muito parecidos, alguns quase cópias idênticas, castram a criatividade de um roteirista. Apontam quantos atos um roteiro deve ter, quantas páginas devem conter em cada ato, a duração máxima que um filme deve respeitar, onde devem ser apresentados os pontos de virada, onde deverá ser apresentado o clímax, a forma de apresentar um personagem, a forma de estabelecer um conflito, tudo. Se todos seguissem esses manuais, todos os filmes seriam praticamente iguais. E o que é mais hipócrita nessa história toda é que os prêmios de melhor roteiro quase sempre são entregues para filmes que vão contra essas regras, que subvertem as formas tradicionais de se contar uma história. É como se esses manuais nos ensinassem a como não escrever um roteiro. Acontece, caríssimos, que prêmios não geram bilheteria, então os estúdios seguem impondo essa forma clássica que eu prefiro chamar de forma engessada de escrever roteiros.

Um centenário foi mais do que suficiente para engessar também a forma do público de consumir cinema. Os manuais servem para corresponder a todas as expectativas de quem assiste ao filme. Durante muito tempo, esses manuais só serviram para me deixar inseguro com tudo o que eu escrevia. Eu pensava que se eu não os seguisse à risca, minhas histórias iam ser consideradas péssimas. Antes de ler esses livros eu me sentia muito mais livre e tinha mais coragem de arriscar. Hoje eles ainda são um fantasma, mas já não os leio mais e tento esquecê-los. Agora leio livros de edição e montagem, pois eles não estão preocupados em apresentar uma fórmula, e sim em nos mostrar várias formas diferentes de construir uma mesma cena. E claro, sigo firme no melhor método de aprendizado de todos: assistindo ao maior número de filmes diferentes possível.

Entre as muitas barbaridades que já li em manuais de roteiro, algumas me chamaram mais atenção. Em um deles li que um filme não pode ter mais de duas horas de duração, que o final deve ser sempre feliz, pois filmes tristes deixam o público frustrado, que o filme deve sempre ter um clímax a poucos minutos do fim, que se eu estou escrevendo um roteiro é porque estou pensando em vendê-lo por uma boa quantia em dinheiro e que a melhor forma de conseguir isso é dando ao público o que ele quer ver. Sou contra todas essas estratégias comerciais. O espectador está muito acomodado; é preciso reeducá-lo apresentando coisas novas e não somente o que ele acha que quer. Este é um trabalho difícil, e da forma como o cérebro de boa parte do público está atrofiado, pode ser tarde demais para conseguir reverter essa situação.

O resultado disso é um público preguiçoso que não consegue nem realizar o esforço de fazer uso do belo presente que filmes com finais abertos nos proporcionam. Para quê imaginar o que aconteceu com Clara de ‘Aquarius’ se eu posso esperar uma sequência que responda minhas dúvidas? Esse exercício gostoso de dar continuidade às histórias dos filmes quando eles acabam eu aprendi há muito tempo com ‘Central do Brasil’. Na minha continuação, Dora e Josué nunca mais se reencontraram. Ela morreu sozinha sem nunca conseguir casar e Josué nunca encontrou o pai. Consigo até imaginar que Irene, personagem de Marília Pêra, também terminou sozinha, embora ainda tenha se relacionado com alguns homens, mas nenhum resultando em um relacionamento duradouro. Em minha continuação de ‘Que Horas Ela Volta?’ de Anna Muylaert, Val, personagem de Regina Casé, conseguiu um novo emprego e mesmo com todas as dificuldades, realizou o sonho de ver a filha formada. Jéssica, personagem de Camila Márdila, com o bom emprego que conseguiu, deu uma boa casa à sua mãe, que não precisou mais trabalhar graças ao ótimo salário da filha. Para Clara, personagem de Sônia Braga em ‘Aquarius’, não construí uma história muito otimista. Acredito que ela tenha se saído vitoriosa, mas só depois de muitos anos com o processo correndo na lenta Justiça de nosso país. O sofrimento foi longo, mas ela também causou muita dor de cabeça aos donos da construtora.

Longe de mim defender que todos os finais devam ser abertos. Esse tipo de desfecho deve ser apenas uma forma entre várias outras de se contar uma história. Que finais assim não sejam usados como justificativas para classificar um filme como ruim. O anticlímax proposital também tem o seu valor. A supervalorização da expectativa correspondida deveria ser substituída pela surpresa. O público tem que sair de sua zona de conforto e abandonar esse olhar que não se permite enxergar outras possibilidades. Nem todos os filmes precisam de uma continuação, pois eles podem (e devem) continuar dentro de nós, em nossas mentes. É divertido se surpreender, é divertido ser apresentado a coisas novas que ainda não sabemos que gostamos. Não tenho problemas com finais felizes, mas tenho pavor do “viveram felizes para sempre”. É o mesmo que matar os personagens. A vida não é feita só de sorrisos. É bom ver nossos heróis vencerem seus desafios, mas o último minuto do filme não pode significar o fim deles – a não ser que eles morram. Se o roteirista decidir por não ceifar a vida de suas criações, assim como nós, suas jornadas “continuam”, pois no fim das contas, enquanto não morrermos, todo dia é um final em aberto.

todo dia é dia de gênio

Certa feita, em uma aula de Cinema Moderno que cursei no segundo semestre do curso de Cinema, a turma assistiu ao filme ‘O Bandido da Luz Vermelha’, de 1968, do diretor Rogério Sganzerla (1946-2004). Era um seminário e havia uma equipe de cinco alunos responsável pela projeção do filme e o debate com o restante da turma sobre a importância deste longa para o cinema brasileiro moderno. Na aula da semana anterior, minha equipe havia apresentado ‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’, de 1964, do diretor Glauber Rocha (1939-1981). Ao final da aula, a professora, aproveitando a repercussão dessas duas apresentações e o fato de Sganzerla ter apenas vinte e dois anos quando dirigiu ‘O Bandido…’ e Glauber vinte e cinco anos quando lançou ‘Deus e o Diabo…’ – antes disso, tendo lançado seu primeiro longa-metragem, ‘Barravento’, em 1962, aos vinte e três anos -, soltou um comentário que até hoje julgo um tanto quanto irresponsável: “Vocês não se sentem mal por estarem na mesma faixa de idade deles e ainda não terem lançado um longa?”.

Desde o primeiro momento, eu também encarei essa pergunta como uma forma de incentivo, uma provocação, uma tentativa de nos encorajar, digamos assim, a produzirmos. Por ser uma professora e uma pessoa maravilhosa, sei que a intenção era das melhores: fazer-nos sair da teoria e partir para a prática. No entanto, a boa intenção não exclui os muitos problemas dessa pergunta-provocação-incentivo. Um deles é imediato: o sentimento de culpa e fracasso desnecessário que se instala em nossa consciência ao sermos comparados com pessoas da nossa faixa-etária mais bem sucedidas que nós.

A turma dessa disciplina era formada por alguns alunos com menos de vinte anos, a grande maioria na casa dos vinte, alguns com trinta e poucos e até aluno com mais de cinquenta anos. Diante da pergunta, todos ficaram calados, ninguém respondeu nada até eu, que sempre fui de falar muito, respondi com um “não, não me sinto mal por não ter lançado nenhum longa ainda”. Nesse momento todos os olhares se voltaram para mim e eu comecei a dar minhas justificativas, que só não transcrevo aqui porque já não lembro palavra por palavra, mas recordo de ter usado Suzana Amaral como um dos exemplos.

Suzana começou a estudar cinema quando já havia criado os nove filhos. Lançou o primeiro filme, ‘A Hora da Estrela’, um clássico do cinema brasileiro de 1985, aos cinquenta e três anos de idade, baseado na obra homônima de Clarice Lispector. Quando falei dela, um dos alunos, na época com vinte e sete ou vinte e oito anos, comentou que estava aliviado, pois ele ainda estava no tempo. O que muita gente esquece é que todo tempo é tempo. O próprio Sebastião Salgado só começou a fotografar aos vinte e nove. Não há necessidade desse tipo de comparação, principalmente quando o assunto é arte.

Agora, sempre que vejo o exemplo de um artista que começou “tarde”, lembro dessa aula. A própria concepção de “começar tarde” é errada, pois cada profissional tem o seu tempo próprio. O momento de criação de cada um é o tempo certo. É óbvio que muitos fatores nos impedem de começar antes. Artistas que conseguem reconhecimento logo no início são exceções. É difícil estudar em uma universidade um curso que não nos traz muitas ou quase nenhuma perspectivava de emprego. É como saltar sem paraquedas. Para muitos é preciso fazer outro curso antes e se profissionalizar em algo apenas para se conseguir estabilidade financeira. Para a grande maioria (e nisso me incluo), apesar de já cursar a área de interesse, é preciso trabalhar com o que não gostamos para, no futuro, finalmente conseguir trabalhar com o que queremos. Entretanto, nunca é tarde para começar.

Pode até ser desanimador fazer cinema diante de gênios como Glauber e Sganzerla, que começaram tão cedo. Para outros também pode ser desanimador ser escritor ao lado de gênios como Machado de Assis (1839-1908) e Álvares de Azevedo (1831-1852), que começaram tão jovens. Contudo, caríssimos, o fato de Suzana Amaral ter lançado o primeiro filme aos cinquenta e três, Kleber Mendonça Filho ter lançado seu primeiro longa-metragem aos quarenta e cinco anos, e Fernando Meirelles e Cláudio Assis aos quarenta e três anos, não os torna piores. O trabalho de todos eles, inclusive, é muito maduro e consistente. Sganzerla, por exemplo, nunca conseguiu fazer um filme melhor que ‘O Bandido da Luz Vermelha’, enquanto que Kleber Mendonça acaba de lançar a obra-prima ‘Aquarius’, aos quarenta e oito anos. Em 2002, quando Meirelles lançou ‘Cidade de Deus’, ele estava então com quarenta e sete.

Cora Coralina (1889-1985) e Graciliano Ramos (1892-1953) são dois gênios da literatura, tendo lançado seus primeiros livros aos setenta e seis e quarenta e um, respectivamente. Não estou dizendo que começar “tarde” é melhor, mas esse desejo de ser o mais rápido, o mais forte e o mais jovem, causa muitos problemas. No desespero de lançar logo a primeira obra, muitos artistas produzem trabalhos que com certeza seriam melhores se houvessem se dado o tempo de amadurecê-los.

Repito, nunca é tarde para começar. E nem para recomeçar. Tom Zé havia abandonado a carreira, mas conseguiu sair do ostracismo aos cinquenta e seis anos. Se já havia lançado clássicos como ‘Todos os Olhos’ (1973) e ‘Estudando o Samba’ (1976), ainda conseguiu realizar um de seus melhores trabalhos em 2012, o disco ‘Tropicália Lixo Lógico’, aos setenta e seis. Esse ano, aos oitenta, acaba de lançar o disco ‘Canções Eróticas de Ninar’, que eu ainda não ouvi e já gostei. Nada está perdido; bons trabalhos são realizados em qualquer idade. Se os artistas mais velhos nos incentivam a sempre continuar tentando, os artistas jovens não podem ser usados para nos desencorajar a produzir depois de uma determinada idade. E tenho dito: todo dia é dia de gênio.

haja paciência

Costumo jantar por volta das 20:00 horas, quando já estou em casa. Acabei me acostumando por ser esse o horário em que coloco o colírio nos olhos de minha mãe, que tem glaucoma. Nesse período da noite, estou quase sempre lendo ou escrevendo no meu quarto, que fica no primeiro andar da casa. Então desço e, depois de medicar minha mãe, faço minha refeição. A cozinha fica muito próxima da sala, onde a televisão fica ligada o tempo inteiro. Essa é também a hora em que meu pai já está de volta do trabalho. Ele janta mais cedo do que eu e depois fica na sala vendo novela até ir dormir (inclusive, sua noite de sono geralmente se inicia no sofá). Ele não é surdo, mas tem sua audição comprometida. Dessa forma, quando ele está assistindo, o aparelho de TV fica com o dobro do volume utilizado pelos outros moradores da casa. Da cozinha, ouço tudo o que se passa na novela. Então, sem querer, quase sempre estou por dentro das tramas.

Atualmente, neste horário, é transmitida uma novela chamada ‘Haja Coração’, em que um núcleo em específico tem me irritado bastante. Antes de falar sobre isso, tive que fazer uma rápida pesquisa para poder escrever esse texto. A novela é escrita por Daniel Ortiz, livremente inspirada em ‘Sassaricando’ de Silvio de Abreu, transmitida originalmente entre 1987 e 1988. ‘Haja Coração’ é a 88ª “novela das sete” exibida pela Rede Globo. Eu não sabia o nome dos atores e atrizes e muito menos o nome das personagens, então, se por acaso eu escrever alguma informação errada e vocês perceberem, por favor, me avisem que logo corrijo.

Pois bem, não é o fato de que o quarentão Malvino Salvador, protagonista da novela, tenha conseguido se transformar em um piloto de corrida nessa idade que vem me irritando, mesmo me incomodando com este elemento ficcional pouco crível, haja vista que com quarenta anos os pilotos profissionais já estão começando a planejar suas aposentadorias. Minha irritação também não é com a personagem de Tatá Werneck que, de tão exagerada, não dá nem para chamar de caricata. O que de fato vem torrando minha paciência é o núcleo de Sabrina Petraglia, Marcos Pitombo e Karen Junqueira que, pelo visto, se tornou um dos pontos principais da trama, pois toda noite escuto a mesma ladainha de seus personagens.

Felipe, interpretado por Pitombo, é disputado por Shirlei, personagem de Petraglia e Jéssica, vivida por Junqueira. Na trama, Shirlei é uma mulher virgem que nunca havia beijado na boca até conhecer Felipe – não sei qual a idade da personagem, embora sua intérprete, Sabrina, tenha trinta e três anos na vida real. Até aí, tudo bem, pois cada pessoa tem o seu tempo próprio e isso deve ser respeitado. Porém, a novela tem feito uma intensa e irresponsável exaltação a virgindade feminina, retratando Shirlei como uma garota pura (a famosa mulher para casar). Em um determinado capítulo, Felipe estava revelando a outro personagem – que eu não sei quem é, pois não vejo as imagens e só ouço as cenas – que tinha sido o primeiro homem a beijar Shirlei. Mesmo que estivesse usando um ponto de vista romântico, ele tratava o caso como uma conquista, um troféu, algo do que se orgulhar. Ele estava feliz por, dentre tantas mulheres com quem já ficou (na ficção), havia encontrado uma donzela imaculada.

Apesar dos pesares, Felipe é um rapaz de bem e realmente aparenta estar apaixonado por Shirlei e ela por ele. Todavia, não nos enganemos: seu encanto pelo puritanismo da moça, juntamente com a forma dela de se comportar atrelada a uma aparência virginal, é um oceano de conservadorismo. Incomoda-me profundamente também o fato de Shirlei ser tratada como uma pobre coitada por ser uma empregada doméstica. Sua profissão e condição social, inclusive, são largamente utilizadas por Jéssica, sua “rival”, para humilhá-la. É nesses momentos que Felipe, o príncipe encantado, entra em cena montado em seu cavalo branco para proteger sua amada que não consegue se defender sozinha. Felipe dá lições de moral em Jéssica através de falas dramaturgicamente pobres que revelam todas as “boas intenções” do autor em prestar um serviço de inclusão social em sua novela. Entretanto, ele só tem reforçado estereótipos e clichês. Um amador não faria pior.

Outro fato difícil de engolir, ou melhor, inaceitável, é que ainda encontremos num folhetim televisivo duas personagens femininas brigando por um homem. Jéssica, uma mulher rica, e que tem tudo o que quer, só estará feliz quando casar com Felipe. Shirlei, uma mulher pobre, e que não teve as mesmas oportunidades de Jéssica, também só ficará feliz quando casar com Felipe (o que a fará, consequentemente, atingir outra condição social através do casamento e não com os próprios méritos – embora essa não seja a intenção da personagem). Acredito que as atrizes não se orgulham de interpretar esses papéis, mas necessitam fazê-lo, afinal, precisam trabalhar e bons personagens femininos são desde sempre muito raros, quase que beirando a extinção.

Frequentemente me pergunto em que ano estamos para ter certeza de que não estou vivendo na Idade Média. Não sei vocês, mas considero ultrajante que um texto tão machista e reacionário como o deste núcleo de ‘Haja Coração’ ainda seja escrito nos dias de hoje. Pior ainda, que uma emissora de TV, de alcance nacional (e internacional), produza e transmita um absurdo desses. Shirlei pode sim ser uma mulher virgem aos trinta e três anos de idade. Que mal há nisso? Porém, fico me perguntando se Felipe se apaixonaria por ela se fosse uma personagem sexualmente experiente (sei que é ficção, mas por suas falas, tenho certeza que não). Ele está encantado demais com o puritanismo da moça e com a possibilidade de ser o primeiro (e único) homem a transar com ela.

É triste ver que, com produtos como esse, a Globo consiga ser a emissora mais assistida do Brasil. Isso só reforça o quanto somos um país conservador. Felipe é apenas o retrato do típico homem que quer a todo custo ser “especial” na vida de uma mulher, caso contrário, vai sempre se enxergar como sendo “só mais um”. Fico me perguntando o que fez com que Shirlei se mantivesse virgem. Será que foi escolha (na melhor das hipóteses)? E se foi mesmo uma escolha, será que ela o fez de livre e espontânea vontade? Livre da influência da igreja? Livre da influência do conservadorismo? Livre de uma sociedade patriarcal que diz que mulher deve casar virgem? É realmente difícil acreditar que foi uma escolha livre de influências. Como se não bastasse, em certo capítulo, Shirlei estava confessando para Francesca, personagem de Marisa Orth (que acredito ser mãe dela na novela), que estava muito apreensiva, pois havia começado a namorar Felipe e logo teria que transar com ele, pois ele não ia esperar muito, afinal, “ele é homem”. O machismo se contradiz o tempo inteiro: se a mulher não for virgem, não serve para casar, mas se não transar, é trocada por outra. Realmente não consigo entender.

Fico muito triste que o machismo ainda exista. Fico triste que músicas, novelas, livros e filmes machistas continuem a ser produzidos. Fico triste que uma novela como essa ainda seja consumida em larga escala. Fico triste que ela seja consumida por parentes tão próximos a mim. É assustador que os fãs da novela não consigam formar uma visão crítica em relação ao que assistem. Toda noite, durante os trinta minutos em que fico a ouvir da cozinha o “chorume das sete” enquanto janto e lavo a louça, podem ter certeza que não deixo em paz quem está na sala assistindo. Elenco em voz alta cada comportamento machista, homofóbico e racista que noto nessa trama e em outras, acreditando que um dia eles conseguirão enxergar isso com os próprios olhos. É um luta diária. No momento, só me resta torcer para que pelo menos as próximas não sejam tão horríveis quanto essa. Não por mim, mas por quem assiste. Enquanto essa não acaba, só me resta exercitar a paciência.

o cinema é nosso

“Eu vejo o futuro repetir o passado”. Esse trecho da música ‘O Tempo Não Para’ de Cazuza vem martelando em minha cabeça sempre que penso no cenário brasileiro atual. Sinto como se estivesse vivendo situações que só conhecia através dos livros de História, quando estudava os capítulos sobre ditadura militar e respirava aliviado por ter nascido em outra época. Nesses mesmos livros didáticos, muito se falava sobre a censura imposta a todo tipo de arte, embora a música, com o exílio de Caetano Veloso e Gilberto Gil, ganhasse sempre um aprofundamento maior. Não recordo de ler nada relacionado à repressão sofrida pelo cinema brasileiro. Isso eu fui aprender depois por conta própria.

Quando os militares derrubaram João Goulart (1919-1976), o então presidente democraticamente eleito, o cinema brasileiro vivia um importante momento de sua história. ‘O Pagador de Promessas’, de 1962, escrito e dirigido por Anselmo Duarte (1920-2009) e baseado na peça teatral homônima de Dias Gomes (1922-1999), havia ganhado a Palma de Ouro no Festival de Cannes, e o Cinema Novo havia acabado de nos brindar com três clássicos eternos da nossa cinematografia: ‘Vidas Secas’, de 1963, escrito e dirigido por Nelson Pereira dos Santos e baseado no livro homônimo de Graciliano Ramos (1892-1953), ‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’, de Glauber Rocha (1939-1981) e ‘Os Fuzis’, de Ruy Guerra, ambos de 1964. ‘Vidas Secas’ e ‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’ foram indicados à Palma de Ouro com grande repercussão internacional, enquanto que Ruy Guerra receberia o Urso de Prata de melhor direção no Festival de Berlim por ‘Os Fuzis’.

O Cinema Novo, movimento iniciado ainda na década de 1950 e formado por artistas de esquerda, resultou no maior engajamento político da filmografia nacional. A vida precária no sertão e nas favelas, questões raciais e sociais, a fome e a miséria, foram fortemente denunciados e debatidos em dezenas e dezenas de filmes. Com o golpe militar, esses longa-metragens e seus realizadores passaram a ser perseguidos e censurados. Glauber Rocha, maior nome do movimento, foi exilado.

O Cinema Marginal surgiria nesse meio tempo e, enquanto os cinemanovistas eram perseguidos por sua forte ideologia política, os marginais eram censurados por criticarem o comportamento moralista. Os filmes eram verdadeiramente retalhados e cineastas como José Mojica Marins, que não fazia parte de nenhum dos dois movimentos, foram algumas das maiores vítimas da repressão. Marins teve de cortar dezenas de cenas e falas em seus filmes, chegando até mesmo a modificar finais para conseguir lançá-los. Assim como ‘Terra em Transe’, de 1967, de Glauber, seu longa-metragem ‘Ritual dos Sádicos’, de 1969, foi proibido em todo o território nacional, não chegando nem a ser lançado nos cinemas por ter quase todas as suas cópias apreendidas e queimadas. Recuperado em 1982, foi exibido apenas em mostras e festivais com o título de ‘O Despertar da Besta’. Falido, Mojica teve que dirigir filmes pornôs para não morrer de fome, o que destruiu sua carreira. Na década de 1990 foi redescoberto pelos americanos e conseguiu voltar a dirigir seus filmes de terror, mas o estrago já estava feito. Uma carreira que tinha tudo para ser meteórica foi minada pela censura da ditadura militar.

Em 1964, Eduardo Coutinho (1933-2014) ainda era um diretor de longas de ficção. Ele estava realizando na Paraíba o filme que contaria a história de João Pedro Teixeira, líder camponês da região, assassinado em 1962. O cineasta já estava filmando há duas semanas quando parte da equipe foi presa sob a alegação de comunismo. A produção foi interrompida e Coutinho teve que voltar a trabalhar com jornalismo. Somente dezessete anos depois o trabalho foi retomado, dessa vez, colhendo depoimentos dos camponeses que trabalharam nas primeiras filmagens, com foco principal na história da viúva de João Pedro, dona Elizabeth Altino Teixeira que, desde 1964, teve que viver na clandestinidade, separada dos filhos. Lançado em 1984, ‘Cabra Marcado Para Morrer’ é até hoje o melhor e mais importante documentário brasileiro de todos os tempos.

Somente em 1975, com a abertura política, os filmes conseguiram uma liberdade maior para abordar temáticas que não agradavam ao governo, sendo lançados com poucos ou até mesmo nenhum corte. Por ter um público infinitamente maior que o do cinema, a censura voltou sua atenção para a televisão. No entanto, mesmo os filmes liberados sem cortes eram censurados quando transmitidos na TV. ‘Pixote: A Lei do Mais Fraco’, de 1980, do diretor Hector Babenco (1946-2016), só foi liberado para a telinha cinco anos depois e com trinta e oito cenas censuradas. Com o fim do regime militar, a censura acabou e os filmes dessa época puderam ser assistidos na íntegra em todo o território nacional.

Os vinte e um anos do regime militar foram o período mais sombrio já vivido pelas criações artísticas brasileiras, um verdadeiro desprezo pela informação e liberdade de expressão. Ao ler essas histórias, parece tudo muito absurdo, mas estamos de fato repetindo o passado. Temos o Congresso mais conservador desde 1964, ano do golpe militar. Hoje, assim como há cinquenta e dois anos atrás, vivemos mais um golpe, dessa vez, parlamentar, em que 367 deputados e 55 senadores anularam 54,5 milhões de votos. A imprensa, assim como em 1964, apoiou o golpe. Em 2013, apenas quarenta e nove anos depois, a Rede Globo se desculpou publicamente, classificando seu apoio ao golpe militar como um erro. No futuro, ela e tantos outros veículos de imprensa haverão de se desculpar novamente. Só espero que não demore outros quarenta e nove anos.

Todos os absurdos que eu lia nos livros de História começam a se repetir. Primeiro um golpe parlamentar derruba Dilma Rousseff, nossa presidenta democraticamente eleita. Depois, Michel Temer, em seu primeiro pronunciamento ao assumir o cargo, diz à nação brasileira: “Não fale em crise, trabalhe!” Qualquer semelhança com o “Brasil, ame-o ou deixe-o” não é mera coincidência. Depois, decreta o fim do Ministério da Cultura (recriado após calorosos protestos da classe artística). Não deu nem muito tempo para comemorar a volta do ministério quando seu novo ministro, Marcelo Calero, simplesmente decidiu exonerar a presidente da Cinemateca Brasileira, Olga Futemma, juntamente com outros quatro técnicos da instituição. A Cinemateca é responsável pela preservação da produção audiovisual brasileira. Dias depois, após forte apelo da classe cinematográfica, o Ministério da Cultura voltou atrás e manteve o emprego de Olga e dos outros quatro funcionários.

Nesse meio tempo, a equipe do filme ‘Aquarius’, do diretor Kleber Mendonça Filho, protestou contra o impeachment da presidenta Dilma no tapete vermelho do Festival de Cannes, em que concorreu a Palma de Ouro depois de oito anos sem um representante brasileiro na disputa oficial. O último filme nacional a concorrer ao prêmio havia sido ‘Linha de Passe’, de Walter Salles e Daniela Thomas, em 2008. O ministro Calero criticou o protesto e disse que os membros da equipe do filme “estão comprometendo [a imagem do país] em nome de uma tese política, e isso é ruim. Eu acho até um pouco totalitário, porque você quer pretender que aquela sua visão específica realmente cobre a imagem de um país inteiro. Eu acho que a democracia precisa ser respeitada e acho que é um desrespeito falar em golpe de Estado com aqueles que viveram o golpe realmente, o de 1964. Pessoas morreram. E as pessoas esquecem isso. Então eu acho [o protesto] de uma irresponsabilidade quase infantil”. Sônia Braga, que interpreta a protagonista do filme, rebateu: “Como pode um Ministro dizer que um ato democrático como o nosso é a representação de um País inteiro? Isso é desconhecimento do que significa plena democracia. Se estivéssemos falando em nome de todos não precisaríamos, evidentemente, fazer o ato. Uma coisa é certa: estamos juntos. O Ministro da Cultura ofendendo artistas é inadmissível. O senhor está nesse cargo para dialogar, para nos ajudar, para fazer a ponte com quem nos explora. A propósito, as críticas para Aquarius foram fabulosas. Quatro estrelas em jornais franceses, italianos, poloneses, russos e três citações no The New York Times. Ponto grande para a imagem da cultura brasileira no exterior. Senhor Ministro, não podemos perder as nossas conquistas. Sobretudo a mais importante delas, o respeito”. Desde então, o filme vem sofrendo uma forte perseguição política.

A repressão ao longa só ficou ainda mais evidente quando o Ministério da Justiça o proibiu para menores de dezoito anos, alegando conter situações sexuais complexas. Assisti ao filme e considerei a classificação um abuso. As três cenas de sexo de ‘Aquarius’ duram cada uma menos de trinta segundos. Filmes recentes do cinema nacional, como ‘Tatuagem’, de 2013, escrito e dirigido por Hilton Lacerda, e ‘Boi Neon’, de 2016, escrito e dirigido por Gabriel Mascaro, possuem longas cenas de sexo explícito e foram classificados como impróprios para menores de dezesseis anos. Usando esses exemplos como argumento, Silvia Cruz, sócia da distribuidora Vitrine Filmes, em uma reunião com Gustavo Marrone, secretário nacional de Justiça e Cidadania, pediu a reconsideração da classificação estabelecida. O Ministério da Justiça aceitou o pedido de revisão feito pela distribuidora e o filme acabou lançado como impróprio para menores de dezesseis anos. Em 1964, ‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’ foi lançado sem cortes, no entanto, foi proibido para menores de dezoito anos. Quem já viu o filme de Glauber sabe o quão isso é absurdo. Quem assistir ‘Aquarius’ também vai considerar a classificação do filme bastante incoerente. Todos sabemos que uma classificação máxima prejudica muito a vida de um filme, que acaba por ter seu leque de público muito reduzido, prejudicando inclusive sua arrecadação com bilheteria, e é justamente isso que o governo está tentando fazer: evitar que as pessoas assistam ao novo filme de Kleber Mendonça Filho. Na França, por exemplo, a produção recebeu a classificação livre para todos os públicos.

Até agora, ‘Aquarius’ conseguiu reverter bem as perseguições que o Ministério da Cultura tem feito contra o longa. Nos primeiros quatro dias de exibição, o filme conseguiu uma bilheteria de cinquenta e cinco mil espectadores, sendo o melhor lançamento da semana em média por sala. No entanto, há um último desafio a ser vencido: ser o representante brasileiro na disputa do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Para a maioria dos profissionais, cinéfilos e críticos nacionais e internacionais, ‘Aquarius’ é o grande favorito, todavia, o Ministério da Cultura ainda tem mais uma carta na manga: o crítico Marcos Petrucelli (da rádio CBN e do site e-Pipoca), anunciado como integrante da comissão responsável pela seleção do representante nacional no Oscar. Petrucelli vem criticando duramente ‘Aquarius’ e especialmente seu diretor, Kleber Mendonça Filho, desde sua passagem no Festival de Cannes. A nomeação de Petrucelli (que confessou não ter visto o filme) é uma clara tentativa do governo de tirar a vaga do longa com o intuito de evitar mais um protesto político de sua equipe com repercussão internacional. Após a polêmica, dois integrantes, a atriz Ingra Lyberato e o diretor Guilherme Fiúza Zenha, se desligaram da comissão, sendo substituídos por Carla Camuratti e Bruno Barreto. Adriana Rattes, Luiz Alberto Rodrigues, George Torquato Firmeza, Paulo de Tarso Basto Menelau, Silvia Maria Sachs Rabello e Sylvia Regina Bahiense Naves são os demais integrantes da comissão. Em protesto, os diretores Gabriel Mascaro e Anna Muylaert retiraram da disputa seus filmes ‘Boi Neon’ e ‘Mãe Só Há Uma’, respectivamente.

O longa de Kleber Mendonça Filho concorrerá com outros dezesseis filmes para representar o Brasil no Oscar: ‘A Bruta Flor do Querer’ (Andradina Azevedo, Dida Andrade); ‘A Despedida’ (Marcelo Galvão); ‘A Hora e a Vez de Augusto Matraga’ (Vinícius Coimbra); ‘Até Que a Casa Caia’ (Mauro Giuntini); ‘Campo Grande’ (Sandra Kogut); ‘Chatô – O rei do Brasil’ (Guilherme Fontes); ‘Mais Forte Que o Mundo – A História de José Aldo’ (Afonso Poyart); ‘Menino 23: Infâncias Perdidas no Brasil’ (Belisário Franca); ‘Nise – O Coração da Loucura’ (Roberto Berliner); ‘O Começo da Vida’ (Estela Renner); ‘O Outro Lado do Paraíso’ (André Ristum); ‘O Roubo da Taça’ (Caíto Ortiz); ‘Pequeno Segredo’ (David Schürmann); ‘Tudo Que Aprendemos Juntos’ (Sérgio Machado); ‘Uma Loucura de Mulher’ (Marcus Ligocki Júnior); ‘Vidas Partidas’ (Marcos Schechtman). Nosso representante será anunciado na próxima segunda-feira (12/09), em cerimônia na Cinemateca Brasileira, em São Paulo.

Em seu livro ‘Revisão Crítica do Cinema Brasileiro’, Glauber Rocha dizia que a luta do Cinema Novo era contra a chanchada e o trust americano, e que era preciso salvar o cinema independente: “temos de salvar o cinema independente, temos de construir o cinema brasileiro com os independentes. Somente assim os diretores terão liberdade para criar filmes novos. […] Tudo é muito claro: o que se precisa é a união dos independentes contra o trust americano – a primeira batalha foi interna, contra a chanchada. A segunda é maior, é uma luta igual às outras da indústria brasileira e mais do que nunca, agora, este amadurecimento político de um povo necessita da legenda: o cinema é nosso, como no caso do petróleo.” O Cinema Novo, de fato, conseguiu derrubar a chanchada, mas nunca vencemos a invasão americana. Fosse hoje, Glauber diria que a luta deveria ser contra a comédia pastelão (a chanchada atual), a invasão americana e o boicote do governo ilegítimo.

O cinema é nosso, assim como todas as outras formas de expressão artística. Não podemos deixar que censores virjões tramem boicotes a obras de arte bem debaixo do nosso nariz. É preciso abrir os olhos: a mídia quase sempre está contra nós e suas crias, como Reinaldo Azevedo, da “Revista” Veja, sempre escreverão barbaridades como as que ele escreveu: “o dever das pessoas de bem é boicotar Aquarius”. Bem, confesso que não boicotei, assisti e gostei muito. Estou convicto de que vi um dos melhores filmes brasileiros de todos os tempos. A ideia que os golpistas fazem de moral e bons costumes aos meus olhos são conservadoras e preconceituosas, um retrocesso sem fim. Querem voltar para a idade da pedra. Pessoas do “mal”, uni-vos! Vejam ‘Aquarius’!

nostalgia

Semana passada, estava eu deitado em minha cama, lendo, quando meu cérebro fez um download dos meus treze anos. O livro era ‘Doidinho’, de José Lins do Rego (1901-1957), um romance que estou lendo pela primeira vez e que tem como protagonista o garoto Carlinhos (também figura central de ‘Menino de Engenho’), apelidado nessa obra de Doidinho. O personagem está agora com doze anos de idade e até o final da história suponho que deva completar os treze – não sei, pois ainda não concluí a leitura. Porém, não creio que isso justifique a brincadeira que meu cérebro fez comigo. Sigo acreditando que foi apenas uma grande coincidência.

‘Doidinho’, publicado pela primeira vez em 1933, narra as experiências de Carlinhos como interno em um colégio severo. Mesmo aos doze anos, Carlinhos não é mais um garoto inocente, já tendo realizado até mesmo suas primeiras experiências sexuais – coisa que eu, aos treze, ainda nem sonhava em ter. Com essa idade eu estava fazendo outras descobertas, e a música era uma delas.

Foi aos treze anos que a música entrou de verdade em minha vida, ou seja, muito tarde. Antes disso, minha memória musical é quase nula. Pouquíssimas canções possuem o poder de me deixar com saudade da infância e as que conseguem isso constituem um pequeno número de sucessos do passado que inevitavelmente ouvi através da televisão. Algumas delas são músicas dos Mamonas Assassinas ou da Xuxa que, ao ouvir novamente hoje em dia, me fazem retornar imediatamente ao meu passado, me deixando imensamente feliz por terem sido essas as músicas que ouvi quando criança. Tenho pavor só de imaginar a possibilidade de ser criado ao som de Patati Patatá.

Em minha casa, tínhamos um aparelho de rádio que funcionou por pouco tempo, embora que, mesmo depois de quebrado, tenha sido deixado por meu pai anos e anos sobre a estante da sala. Só recordo de ouvir música nele uma vez, quando meu pai o sintonizou em alguma estação e minha irmã e eu, ainda muito pequenos, pulamos ao som de uma música que eu não lembro qual era.

Ainda aos treze anos, quando eu cursava a sétima série do ensino fundamental, redescobri a TV União. Eu já tinha conhecimento de sua existência, mas foi só nessa idade que me viciei nela. A programação do canal local era e ainda é quase que inteiramente dedicada à transmissão de videoclipes. Hoje, encaro de forma benéfica o fato de até essa época não ter construído nenhuma bagagem musical. Como meus pais não apreciam música, acabei crescendo sem ouvir nada, porém, tive a vantagem de não ter sido influenciado pelo gosto musical dos outros. Aos treze anos, era como se meus ouvidos fossem virgens. Eu haveria de descobrir por conta própria minhas preferências musicais, e foi justamente isso que aconteceu. Imediatamente descobri que o rock e eu estabeleceríamos um relacionamento para a vida toda.

O programa da TV União que eu mais gostava era um chamado Top Mais, que ainda existe. Nele são exibidos os dez videoclipes mais pedidos na programação. Eu simplesmente adorava. Era transmitido das onze da manhã ao meio dia, de segunda a sábado, pois no domingo eles faziam um especial. Os telespectadores enviavam cartas com os seus dez videoclipes favoritos e, em cada domingo, eles sorteavam um felizardo que teria seu pedido atendido. Escrevi várias cartas, mas nunca cheguei a enviar, pois era incapaz de selecionar apenas dez videoclipes. Depois de algum tempo, o programa mudou de horário, passando a ser transmitido do meio dia às treze horas da tarde, o que complicou para o meu lado. Eu estudava no turno da tarde e a aula começava justamente às treze horas. Depois dessa mudança, eu só conseguia assistir do décimo ao quarto colocado e saía correndo para o colégio. Perdia o pódio com os três mais votados. Entretanto, minha melhor amiga na época morava perto do colégio e conseguia assistir tudo. Ela sempre me contava o que eu havia perdido quando nos encontrávamos na aula. Atualmente, não sei mais qual o horário exato do programa e nem se continuam fazendo esse especial aos domingos.

A banda Luxúria foi a primeira que considerei como favorita em minha vida. O videoclipe da música ‘Imperecível’ ficou por muito tempo entre os mais pedidos da programação. Depois lançaram ‘Lama’, que, juntamente com ‘Ódio’, foram suas músicas mais conhecidas – pois tocaram em novelas. Pouco tempo depois, a banda acabou e a vocalista, Megh Stock, seguiu em carreira solo. Megh chegou a lançar dois álbuns: ‘Da Minha Vida Cuido Eu’, em 2009, e ‘Minha Mente Está em Seu Caos’, em 2011. No entanto, ela está longe dos palcos desde então e sem previsão de volta. As músicas do Luxúria, bem mais do que as dos discos solos de Megh, são muito nostálgicas para mim. Foram elas que, na semana passada, baixaram repentinamente em meu cérebro durante a leitura de ‘Doidinho’. No momento em que isso aconteceu, interrompi a leitura e fui assistir aos videoclipes da banda pelo celular. Quanta saudade!

Luxúria não passou muito tempo no posto de minha banda favorita. Logo ela seria substituída por outras conforme fui descobrindo grupos melhores e com sons mais pesados, porém, nesse curto espaço de tempo, eu me lembro de ter tido aulas com uma excelente professora de geografia que também era roqueira. Ela tinha uns quarenta anos (ou menos) e usava sempre lentes de contato coloridas, embora as vermelhas e as cinzas fossem as que ela usasse com mais frequência. Certo dia, perguntei-lhe se conhecia a banda Luxúria e ela respondeu que não, mas que já tinha ouvido falar e que queria experimentar seu som. Prometi então de lhe gravar um CD com o único álbum da banda lançado em 2006, mas ela acabou saindo do colégio antes que eu lhe entregasse o presente. Meses depois, nos chegava a notícia de que ela havia morrido de overdose. Quem nos contou foi um colega de sala que era vizinho dela. Fiquei muito triste quando soube.

Ouvi muito os discos solos de Megh também, mas isso foi no período em que eu cursava o ensino médio, já na adolescência. Ainda existia o programa de mensagens instantâneas do MSN. Praticamente todos os amigos virtuais que fiz são dessa época. Hoje, o Skype cumpre bem a função do seu antepassado que, convenhamos, era uma bagunça, embora eu veja com saudosismo as funções de chamar atenção e saber o que os amigos estão ouvindo. Estou falando disso porque existia algo no MSN chamado subnick, mais conhecido como “digite sua indireta aqui”. Todo mundo colocava letras de músicas com a ilusão de encobrir a verdadeira intenção da mensagem e todos fingiam que acreditavam. Nós passávamos vergonha e nem sabíamos. Eu adorava usar trechos de músicas da Megh: “não apodreça, ninguém vai reparar”, “mas o que você me faz me dando todos os sinais de que agora eu acertei?”, “daria um pedaço do meu medo pra saber se você tem coragem”, “se eu me escondo aqui nesse lugar tranquilo não se esqueça que pro caos eu tô partindo”. Quem nunca? Faz só três anos que o MSN desativou seu programa de mensagens instantâneas, mas por eu ter deixado de usá-lo antes mesmo do fim, tenho a sensação de que foi há um século.

O meu eu roqueiro de anos atrás não veria com bons olhos o também fã de Tropicália e MPB de hoje. Há anos que eu não ouvia Luxúria e Megh Stock – se não fosse essa lembrança repentina, talvez passasse muitos outros anos sem ouvir novamente. Escrevi esse texto ouvindo essas canções. Elas, juntamente com muitas outras, marcaram minha adolescência que, ao contrário da infância, foi extremamente musical. Gostaria, inclusive, que Megh gravasse um disco novo e voltasse a fazer shows. Eu, que nunca tive a oportunidade de vê-la ao vivo, iria adorar.

Um detalhe é que essa revisitação me serviu para descobrir que eu cantava a letra de ‘Dúvidas’ errado. No trecho “muitas vezes eu te desviei da meta” eu sempre cantei “muitas vezes eu te desviei da merda”. Essa não foi a única: eu também cantava ‘Lama’ de forma errada, já que no trecho “tira essa lama das botas” eu cantava “tira essa lama das portas”. No entanto, o erro de ‘Lama’ eu descobri bem lá no início, na adolescência mesmo. Confesso que prefiro minha versão errada de ‘Dúvidas’. Enfim, vou encerrar por aqui porque ‘Doidinho’ não vai terminar de se ler só. Até a próxima, abraçaço.

odeio datas comemorativas

Bem que o título do texto poderia ser “odeio certas datas comemorativas”, mas achei que só “odeio datas comemorativas” chamaria mais atenção, então ficou assim. Porém, antes de iniciar de fato, gostaria de excluir de antemão as datas de aniversário – não que eu as ame, pois nunca comemoro quando fico um ano mais velho. É bem verdade que meus pais nunca me fizeram festinhas de aniversário, e isto, na infância, foi um drama, mas é algo que já superei. De toda forma, não vejo muitos motivos para comemorar um ano a mais que, na prática, significa um ano a menos. Sei que queremos viver o máximo possível (ou não), e que atingir uma idade avançada é uma vitória (ou não), mas ao mesmo tempo em que vivemos cada vez mais, teremos cada vez menos dias pela frente. Também gostaria de excluir desse texto de ódio o dia da mulher, o dia da consciência negra, o dia do índio, e tantas outras datas importantes que existem para nos conscientizar de algo. Enfim, dito isso, podemos começar.

Odeio datas comemorativas: dia dos pais, dia das mães, dia das crianças, páscoa, dia dos namorados, natal. Todas elas com o intuito de nos fazer consumir, diferentemente das datas citadas no parágrafo acima, que existem para nos vender pensamentos, pois nos fazem refletir sobre algum acontecimento ou situação que devemos mudar. É bem difícil fugir dessas datas organizadas pelo comércio, podendo elas muitas vezes nos causar constrangimento e até mesmo sofrimento sem que nos demos conta.

Na infância, foram pouquíssimos os anos em que meus pais tiveram condições de comprar ovos de páscoa para mim e minha irmã. Sei que os religiosos hão de dizer que esse não é o sentido da data e que devemos comemorar a ressurreição de Cristo e blá blá blá, mas tente explicar isso para uma criança que vê por todos os lados a celebração do coelhinho da páscoa e não de Jesus. Junto à minha irmã, sofri por não ganharmos chocolate enquanto todas as outras crianças esbanjavam seus doces e, embora nunca tenham dito nada, sei que meus pais sofreram também por não estarem em condições financeiras de comprar o maldito ovo. Tudo culpa do comércio que fez disso uma tradição, subvertendo totalmente o sentido dessa data religiosa. Hoje, é como se a páscoa não existisse para mim, primeiro porque sou ateu, e segundo porque não como mais chocolate. O mesmo vale para o natal, mas as duas, aliadas ao capitalismo, continuam oprimindo muitas pessoas, religiosas ou não.

Ainda quando criança, eu tive de enfrentar o famigerado 12 de outubro, que também não foi uma data muito comemorada por mim, mesmo que meus pais nunca tenham deixado passar em branco. Acontece que eles se aproveitavam do dia das crianças para nos comprar roupas e calçados. Juntamente com a festa de final de ano, essa era uma das poucas ocasiões em que ganhávamos roupas novas e todos nós sabemos que, com pouca idade, tudo o que queremos ganhar são brinquedos. Não conseguia considerar as roupas como presentes de dia das crianças porque não era o que todos os meus amigos ganhavam. Enquanto isso, minhas roupas novas ficavam guardadas à espera de compromissos teoricamente importantes, como as festas de aniversário dos outros.

Minha irmã, que nasceu em um dia 13 de outubro, coitada, só ganhava um presente pelas duas datas. No entanto, justiça seja feita, tínhamos brinquedos, embora nunca fossem caros – minha irmã tinha suas bonecas enquanto eu os meus bonecos (nunca gostei muito de carros). Porém, eles quase nunca eram adquiridos no dia das crianças, e sim em outras datas do ano, quando meu pai tinha algum dinheirinho extra. Alguns anos atrás, minha mãe me confessou que se sentia triste por nunca ter comprado uma ótima boneca para minha irmã e que, hoje, quando ela tem condições para fazer isso, minha irmã já é uma mulher.

Tento lembrar dos anos em que meus pais se esforçaram para nos dar roupas e brinquedos no dia das crianças, mas só consigo me recordar de uma ocasião, embora eu acredite que tenham acontecido outras vezes. Foi um ano em que meu pai nos comprou celulares de mentira, eles eram pretos e reproduziam sons diferentes em cada botão. Contudo, ganhávamos brinquedos de tios e tias às vezes e, em um belo dia, parei de recebê-los: havia deixado de ser criança. Não sei quantos anos eu tinha, se onze ou doze. Minha irmã, mais nova que eu, continuou a ganhar por alguns anos e, mesmo eu ainda me considerando uma criança, tive que, à revelia, me enxergar como um adolescente.

De forma alguma eram só nessas datas que minha irmã e eu sofríamos. Em maio, havia o dia das mães e em agosto, outra aflição com o dia dos pais. Criança não trabalha, logo, não tem dinheiro. Se uma criança presenteia alguém é porque algum adulto pagou por isso. Durante todo o tempo em que minha irmã e eu não trabalhamos para ganhar nosso próprio dinheiro, meu pai nunca tinha algum sobrado para que pudéssemos comprar algo no dia das mães e minha mãe também nunca tinha dinheiro para que pudéssemos presentear nosso pai em agosto. Todo esse martírio se repetia nas datas de aniversário deles e, mesmo criança, eu me sentia muito constrangido por dar sempre uma cartinha ou um bilhete. Finalmente, hoje esse constrangimento acabou.

O dia dos namorados é duplamente cruel. Nesta data, quando você não está namorando, é inevitável não se sentir carente enquanto todos os outros parecem estar felizes com seus parceiros e parceiras. Só passei a comemorar o dia dos namorados há três anos. Durante duas décadas, nunca estive namorando alguém no dia 12 de junho. Batia sempre aquele sentimento de azar no amor. De toda forma, foi importantíssimo para que eu aprendesse o verdadeiro valor de amar a si mesmo. Não dá para amar alguém se você não se amar primeiro – é um clichê, mas é verdade. Ao estar namorando no dia dos namorados, data criada apenas para estimular o consumo, acabamos criando toda uma expectativa para comemorar um dia perfeito. É aquela obrigação de dar o melhor presente, de sairmos e ainda realizar a melhor transa da vida. Toda essa expectativa praticamente só gera frustração e basta que apenas uma coisinha não aconteça conforme o planejado para que se estrague tudo. Já não basta o aniversário de namoro? Tem que existir duas datas para se comemorar a mesmíssima coisa?

Quando minha mãe aniversaria, além de presenteá-la e comemorar mais um ano ao seu lado, festejo o fato dela ser minha mãe. O mesmo vale para o meu pai. É para isso que servem os aniversários. Recentemente, novas datas estão começando a virar tradição: o dia do amigo, do irmão, dos avós e por aí vai. Muito em breve, o comércio estará se apossando delas e agregando-as ao seu calendário de datas comemorativas. Virão promoções e, logo logo, serão datas comerciais também. Não vejo sentido no dia do irmão, do amigo e nem dos avós. Quando minha irmã faz aniversário, já comemoramos o fato de sermos irmãos, pois, se não fossemos, não estaríamos comemorando tal data juntos. O mesmo se aplica para os meus amigos e avós. Sem contar que prefiro muito mais os presentes que ganho em dias comuns (são tão mais sinceros!). Eu particularmente adoro presentear sem motivo.

Os dias dos pais e das mães já me foram cruéis e hão de ser ainda mais quando eles não estiverem mais vivos. Em julho deste ano, minha família comemorou o dia dos avós sem meu avô, que havia morrido apenas dois meses antes. Ano que vem, ele não estará comigo no dia de seu aniversário e a data de sua morte vai doer igualmente, porém, são datas privadas. Tem mesmo que existir o dia dos avós para me fazer, além do dia a dia, sentir uma enorme e dolorosa saudade dele? Que tipo de pessoa precisa de uma data marcada para expressar amor e gratidão aos entes queridos? É realmente necessário que essas datas existam? Sei que não temos como fugir de aniversários, mas não há motivos tão importantes assim para se criar datas para tudo. Prefiro o dia do livro, da árvore e do cinema brasileiro em detrimento ao dos avós e do irmão, mas não sou eu quem cria as datas comemorativas, infelizmente.