irrealidade virtual

Um conselho sincero: você pode iniciar a leitura desse texto a partir do nono parágrafo sem maiores prejuízos.

Muitas coisas me aconteceram em janeiro, inclusive alguns infortúnios envolvendo meu computador e a internet. Os problemas que tive com o computador nem me deram tanta dor de cabeça quanto os que tive com a internet, mas todos aconteceram ao mesmo tempo em uma semana cheia de compromissos em que eu iria precisar muito do acesso de ambos.

Certo dia, desembarquei do ônibus em uma parada localizada a quatro ruas antes da minha casa para poder caminhar um pouco como faço quase sempre. Logo que desci, ouvi um burburinho na rua de pessoas comentando estarem sem energia elétrica em suas residências. Fiquei tranquilo, pois imaginei que, como ainda estava longe de casa, a falta de energia com certeza não estaria atingido a rua onde moro e, consequentemente, o meu lar. Na rua seguinte, mais pessoas comentavam nas calçadas umas com as outras sobre a falta de energia. Então, durante o trajeto das duas próximas ruas, apurei bem os ouvidos na tentativa de ouvir algum som ligado, o barulho de alguma TV ou até mesmo de um liquidificador. Nada.

Chegando em casa, constatei que a falta de energia era no bairro inteiro e fiquei tranquilo, pois quanto mais ruas são atingidas, maiores são as chances do problema ser solucionado com rapidez. Bebi um copo com água, tirei a roupa e, quando ainda estava debaixo do chuveiro, a energia elétrica voltou. No entanto, não me preocupei em momento algum. Se a falta de energia durasse a tarde inteira, eu sabia muito bem o que fazer: ler. Se no começo da noite ainda estivesse faltando energia, eu dormiria e acordaria durante a madrugada para fazer as coisas que deveria ter feito mais cedo e que necessitavam de eletricidade, isso se ela tivesse voltado – caso não, eu continuaria dormindo na tentativa de diminuir o sono acumulado que eu jamais conseguirei recuperar.

De toda forma, fiquei lendo durante a tarde toda. Como costuma acontecer aqui em casa, quando há quedas de energia, a internet demora um pouco a voltar. Dessa vez, não foi diferente. Quer dizer, foi. Horas depois, a internet ainda não havia voltado e eu saberia que não voltaria mais até receber a visita de algum técnico. Havia chovido forte na noite anterior. Quando acordei, percebi, ainda antes de sair de casa, uma poça de água no chão do quarto, próxima ao computador. Olhei para o teto à procura de alguma mancha de água no forro, mas não havia nada. Desconhecia completamente a origem da poça misteriosa. Fiquei preocupado e corri para ver se meus livros estavam molhados, mas encontrei-os sequinhos. O wi-fi também estava funcionando, o que me levou a crer, mais tarde, quando eu cheguei em casa, que a queda de energia era, de fato, a responsável por ter causado o problema – eu iria descobrir depois que estava enganado.

Liguei para o serviço de atendimento e agendei uma visita com um técnico. Deram-me o prazo de até quarenta e oito horas para solucionar o problema. Em qualquer época do ano, ficar dois dias sem acesso a rede mundial de computadores para mim não é nenhum sacrifício. Entretanto, eu iria filmar um documentário em poucos dias e dependia da internet para fechar todo o cronograma com a equipe, além de fazer umas pesquisas de última hora. Felizmente, o técnico veio no dia seguinte e resolveu tudo. Foi quando eu descobri a origem da água.

Minha internet era à rádio e a água vinha de dentro do cabo que era conectado na torre que ficava em cima da casa. Como a água entrou nele eu ainda não iria ficar sabendo. O técnico retirou a água do cabo e me perguntou se havia ocorrido alguma queda de energia. Respondi que sim e, como eu, ele diagnosticou erroneamente o problema: com a queda de energia, o moldem havia se desconfigurado. Ele reconfigurou tudo e foi embora. Usei a internet normalmente durante o resto do dia e fui dormir. Choveu a noite toda. Ao acordar, a primeira coisa que percebi ao levantar da cama foi o chão mais uma vez molhado com uma poça de água ainda maior que a anterior. A internet estava funcionando normalmente, mas minutos depois ela parou de vez. Eu teria então que resolver tudo com a equipe de filmagem por telefone.

Por falar em telefone, gastei todos os créditos do celular em outra ligação para a central de atendimento. Além de pedir que solucionassem o problema, solicitei a troca da internet à rádio por uma de fibra óptica. Dessa vez, não tive o mesmo fortúnio de antes, pois o técnico só veio no limite das quarenta e oito horas. Ao retirar de cima da casa a torre que capta o sinal, o técnico descobriu um pequeno buraco no cabo, por onde a água entrou e desceu até o meu quarto. Segundo a perícia que ele fez, era a água que estava danificando o cabo e desconfigurando o sinal.

Depois desse dia, não houve mais queda de energia, a internet não voltou a cair, a água não visitou mais meu quarto (embora tenha chovido bastante desde então), e a filmagem aconteceu normalmente. Porém, se você leu até aqui, desde já gostaria de me desculpar por não ter sido mais sucinto – esse é um talento que eu definitivamente não possuo. Dessa forma, tudo o que foi escrito até agora, por mais que tenha consumido metade do corpo do texto, é o que podemos chamar por introdução.

Tudo isso pode não fazer nenhum sentido, mas após esses acontecimentos banais fui acometido por algumas pequenas reflexões. Não é de hoje que a vida virtual vem me preocupando. Já é um fato que a internet está matando em escalas maiores ou menores o consumo de discos físicos, DVDs, livros, entre outras coisas. É possível baixar tudo isso quase sempre de graça, o que ajudou a democratizar o acesso a muitas obras de arte. No entanto, agora é a cultura do download que está sendo morta pelos serviços de streaming.

Nunca gostei de streaming. Quando ele ainda não era moda, grande parte das bandas que curto, disponibilizavam, muitas vezes gratuitamente, seus discos para download. Isso vem deixando de acontecer. Essas mesmas bandas que liberavam seus álbuns agora simplesmente os lançam no Spotfy. O site é bom, admito. Tem, inclusive, me ajudado muito a ouvir os lançamentos dos meus artistas favoritos. O preço a pagar para me ver livre dos anúncios é pequeno, mas não é isso o que eu desejo. Eu quero é ter as músicas no meu computador e no meu celular sem que eu precise ser refém de um wi-fi para ouvi-las, nem que eu tenha que pagar por isso. Quero poder enviá-las para amigos quando me pedirem dicas de músicas, quero poder reproduzi-las no carro e poder levá-las para onde eu for.

Não consumo os dados móveis da minha operadora de celular. Adoto uma filosofia de que nada na internet é tão importante assim para que eu precise dela quando não estou em casa. Quase todos os lugares que frequento possuem acesso a wi-fi, então, tecnicamente, só fico sem internet quando estou na rua me locomovendo de um lugar para o outro. Se estou em um ônibus, prefiro adiantar minhas leituras. Nada é tão urgente que não possa esperar. Se for algo muito sério, alguém vai me ligar.

Também não assino Netflix. O catálogo de filmes, segundo o que meus amigos me falam, não é tão sedutor assim. Não estão lá os filmes que gosto de assistir. Concordo que é bem mais prático fazer um login e assistir a um filme, ao invés de ter que pesquisar na internet e ainda esperar o download terminar – o que às vezes pode demorar bastante. Sem contar a caça por legendas. Sinto que o download de filmes tem caído ainda mais do que o de músicas. Está cada vez mais difícil encontrar torrents ou até mesmo outras formas de download. A pirataria de internet é um assunto complicado, mas qual a outra forma disponível para assistir filmes que não chegam às salas de cinema? Nem estou falando tanto dos filmes estrangeiros, mas do próprio cinema brasileiro mesmo. Só porque não há uma grande procura por determinados títulos, nenhuma empresa se preocupa em vendê-los. Devo me conformar em não assisti-los? É isso que devo fazer? Sinto muito, mas me recuso a proceder assim.

É infinitamente melhor não ter que ocupar a memória do celular ou do computador com músicas e filmes. Todavia, existem os pendrives, que são absurdamente pequenos, e os HDs externos, que muitas vezes são menores que muitos celulares de hoje em dia. O que não dá para aceitar é a segregação dessas obras. Estamos correndo um grande perigo, pois nem tudo está no Spotify e muito menos no Netflix. Essa deve ser a única forma legal de se consumir música e cinema? Os dois são serviços comerciais como qualquer outro. Se não gerarem lucros, eles não vão se interessar por adquirir os direitos de obras que não possuem forte apelo popular. Formas alternativas ao streaming precisam existir. Hoje é o download, amanhã pode ser outra tecnologia, e todas elas devem ser legalizadas para que todos os artistas possam receber por seus direitos autorais (sem que para isso tenhamos que pagar preços abusivos).

Espero estar sendo mais pessimista do que deveria, e acreditar que o download vai resistir. Inclusive, na falta de formas legais de se consumir obras cinematográficas, musicais e literárias, que a pirataria virtual continue fazendo seu serviço de democratização da arte, pois é praticamente isso que ela faz. Os responsáveis por isso são pessoas que na grande maioria das vezes não ganham nada para disponibilizar obras e legendar filmes, além do prazer de compartilhar conteúdo. Sou a favor de pagar por tudo isso que consumo, desde que os filmes que desejo ver estejam nos catálogos dos serviços de vendas e que as músicas que desejo ouvir estejam legalmente disponíveis para download. Quanto à literatura, sou daqueles que acreditam que alguém só lê um livro no computador ou no tablet se realmente não tem condições de comprar (ou porque o título está fora de circulação).

Por fim, sei que sou um romântico, pois quando realmente gosto de um disco, faço questão de adquirir. Já perdi a conta dos CDs que comprei sem nunca ter colocado no aparelho de som. Comprei só para tê-los e, consequentemente, ajudar as bandas que gosto. Só não consumo mais DVDs de filmes porque quase nunca encontro os títulos que gosto disponíveis para comprar. Sobre os livros, espero não viver o suficiente para ver o fim do formato físico, pois se deixarem de existir, eu mesmo irei imprimi-los e encaderná-los.

Ainda sobre livros, eu realmente gostaria que todas as obras de arte fossem como eles. Explico: para ver um filme, eu preciso de um projetor e uma tela, ou um computador, enquanto que, para ouvir música, eu necessito de um aparelho de som ou um celular. Para consumir os livros, eu só preciso deles, pois se estiverem em formato físico, o único suporte que necessito para desfrutá-los são meus olhos. Nesse sentido, os livros são perfeitos, pois as outras formas de arte requerem tecnologia adicional. É como se os livros tivessem sido feitos sob medida para o corpo humano: um só depende do outro. Acredito que boa parte dos instrumentos musicais também cai nessa categoria. É assustador imaginar um pane global na rede mundial de computadores. Imaginar também alguma catástrofe que deixe a população sem energia elétrica. Em um caso como esses, só teríamos a literatura. Creio que muitas pessoas não resistiriam ao ver suas vidas virtuais sepultadas. Contudo, acredito que estou sendo apocalíptico demais. Estou? Enfim, esse é outro assunto e eu deveria ter escrito só sobre isso. Deveria.

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antirretrospecto

Na madrugada de hoje, terminei minha segunda leitura do ano: ‘Cinema Brasileiro a Partir da Retomada – Aspectos Econômicos e Políticos’, do Marcelo Ikeda. Esse livro me surpreendeu muito positivamente, e o recomendo para quem trabalha, estuda ou pretende estudar cinema, principalmente quem se interessa pela área de produção e distribuição de filmes. Estou escrevendo sobre isso por dois motivos: primeiro, para indicar o livro, e segundo, para falar que minha meta de leitura está atrasada.

Iniciamos ontem a quarta semana do ano e eu já deveria já estar no quarto livro. No entanto, estou na metade do terceiro, que pretendo terminar antes do fim da semana para já iniciar o próximo. Não estou correndo, nem fazendo leituras atropeladas, mas apenas me organizando melhor para conseguir ler mais. Diante disso e de tudo o que tem acontecido em janeiro, tomei uma decisão que preciso compartilhar: só escreverei aqui quando concluir um livro. Dessa forma, vocês saberão que a cada novo texto publicado, uma leitura foi concluída por mim.

Pois bem, esse não é o tão prometido artigo elaborado que falei na postagem anterior. Até comecei a elaborar um que deve ser o próximo a ser publicado. Só não trabalhei nele agora porque aconteceu algo que me motivou a escrever essas linhas. Hoje cedo, quando eu acordei, recebi um e-mail notificando que o blogue Calculadamente havia citado um texto meu chamado Procrastinatório. O autor do blogue é o David, meu amigo de muitos anos, que vive criando blogues e abandonando. Nesse novo texto ele prometeu uma porrada de publicações para esse ano. Vamos ver se dessa vez ele cumpre. De toda forma, não é exatamente sobre isso que eu queria falar, e sim do fato de que eu não lembrava de ter escrito algo com esse título – se eu não lembrava do título, também não fazia a menor ideia do que havia escrito no corpo do texto.

Intencionalmente, tento me distanciar das coisas que já escrevi. Evito ler os textos antigos desse blogue, por exemplo. Quase sempre sinto vergonha do que está escrito e mudaria muita coisa, se possível. Na verdade, é possível, e é justamente por isso que tento não ler – para não ficar reescrevendo eternamente o mesmo texto. O sentimento é o mesmo para os meus primeiros curtas-metragens. Não gosto muito de assisti-los. Ao contrário dos textos, não é possível modificá-los. Por outro lado, ler ou rever trabalhos antigos tem o lado positivo de nos fazer reconhecer os próprios erros e constatar se está ou não havendo uma evolução ao comparar com os trabalhos mais recentes.

Todos esses trabalhos foram importantes na época de suas realizações. Entretanto, não me interessa revisitá-los. Ao fim de cada trabalho realizado, só consigo pensar no próximo degrau. Certa vez, Jô Soares disse em um de seus programas que Tom Zé era um artista antirretrospecto. Ou seja, que não vive de glórias passadas. O Mestre está sempre lançando trabalhos novos e relevantes, o que evidencia sua capacidade de evolução. Claro que ninguém, muito menos eu, vai conseguir chegar ao patamar do Tom Zé, mas me interessa tentar. É uma briga perdida, eu sei, mas que pretendo lutar dignamente. Sei também que é esteticamente pobre comparar o próximo trabalho com um degrau, mas a cada dia que passa, vejo mais artistas rolando escada abaixo, incapazes de se reinventar e superar sucessos antigos.

Costumo dizer que, uma vez concluído, o trabalho está morto para mim. O discurso nem sempre funciona na prática, pois alguns textos ou curtas nunca morrem, fazendo com que eu sempre me lembre deles. No entanto, eu não lembrava do texto Procrastinatório. O blogue vai fazer dois anos em junho e eu também nem lembrava mais que um dia quis outro título para ele sem ser Satãnatório. Foi bom ler um texto que nem é tão antigo assim (foi publicado há sete meses atrás), mas é evidente que ele não me marcou tanto quanto outros, pois eu nem lembrava mais. Apesar disso, é muito louca a sensação de ver que alguém ainda lembra de um texto meu que eu havia esquecido.

Não pretendo renegar trabalhos passados. Quando digo que estão “mortos”, não significa que não os veja com carinho. Eles são importantes, fazem parte de quem eu sou, de onde estou e de onde pretendo chegar. Apenas não desejo aproveitá-los além do necessário. Não pretendo ser o cineasta que realiza sempre o mesmo filme ou o escritor que escreve sempre o mesmo livro. Por mais relevantes que possam ser os trabalhos passados, uma hora eles precisam dar espaço para novas criações.

A escrita, mais do que o cinema e, creio que bem mais do que qualquer outra arte, nos engana melhor. Quando leio um texto realmente muito antigo, quase sempre não me reconheço mais naquelas palavras, o que me faz pensar: eu escrevi isso? Não houve esse choque com o texto Procrastinatório porque ele ainda é bem recente. Até gostei de lê-lo e não modifiquei nada. Talvez, se eu o ler daqui a alguns anos, fique pensando nas possíveis melhores maneiras de redigi-lo, mas no presente momento eu apenas não me lembrava de tê-lo escrito. Contudo, sei que o escrevi porque continuo procrastinador e lembro muito bem do argumento que citei no final, pois ele foi muito trabalhoso de escrever. Claro que esse texto de agora não tem função nenhuma e se autodestruirá da minha mente assim que for publicado. No entanto, se alguém ler e também encontrar vantagem em adotar o ‘antirretrospecto’ como filosofia de vida, já fico satisfeito. Até a próxima, abraçaço.

o gay antigo de glauber rocha

Caríssimos, acreditem, tudo o que eu mais queria agora era estar publicando aqui um texto bem elaborado, mas não vai ser possível. Para 2017, havia me programado em escrever uma série de textos sobre assuntos que eu ainda não havia abordado aqui no blogue. Anotei várias ideias e estava preparado para esse início de ano. No entanto, uma sequência de acontecimentos não planejados me pegou de surpresa agora em janeiro. São coisas que fogem ao meu controle. Quase tudo o que tem acontecido tem sido bom, mas não estou encontrando tempo nem para respirar direito. A sensação que tive foi de que essa última semana durou um ano. Poucas vezes estive tão cansado. Só ontem consegui ficar em casa e assim concluir minha primeira leitura de 2017: ‘1968 – O Ano Que Não Terminou’, de Zuenir Ventura.

Para não frustrar ninguém, aviso logo que esse texto não é um artigo. Esse era um post que eu havia planejado publicar nos primeiros dias do ano juntamente com mais outros, fazendo assim uma espécie de retrospectiva do blogue, mas já desisti da ideia. Primeiro porque sei que não terei tempo, e segundo porque o entusiasmo inicial já foi embora. Desta forma, vou publicar só esse mesmo da cancelada série de retrospectivas.

Na parte de estatísticas, o WordPress nos permite baixar um arquivo com os termos de buscas usados por leitores que, através dessas pesquisas, chegam até o blogue. Infelizmente é um documento incompleto e que deixa muito a desejar, pois 90% vem classificado como “termos de busca desconhecidos”. Contudo, uma rápida observação dos termos usados é o suficiente para constatar que essas pessoas chegaram até aqui por acidente. Como se isso não bastasse, também é possível constatar que a maioria dessas pessoas ficou insatisfeitíssima, pois não encontrou o que queria. Algumas buscas são curiosas, outras engraçadas. Portanto, resolvi fazer uma pequena lista com as buscas de 2015 e 2016. Meus comentários estão entre parênteses.

2015

Por que gosto de assistir séries? (Você eu não sei, mas expliquei os meus motivos de não gostar de séries aqui.)

Idade Tom Zé (Atualmente ele está com 80 anos.)

Se Cássia Eller não tivesse morrido, como estaria? (Estaria rica, poderosa, gravando discos inesquecíveis e cada vez mais dona do rock brasileiro.)

Porque gostamos tanto de séries? (Eu não gosto.)

Não gosto de Glauber Rocha (É meu cineasta favorito.)

Cenas de sexo gay no filme Pixote: A Lei do Mais Fraco (Faz tempo que não revejo esse filme. Não lembro se tem cena de sexo gay.)

Textos como se já tivesse morrido (Não sei se existem muitos, mas nenhum será tão bom quanto ‘Memórias Póstumas de Brás Cubas’.)

Texto se eu tivesse um irmão gêmeo ele faria prova (Na infância, também já desejei ter um irmão gêmeo para fazer as provas por mim.)

2016

Tom Zé nu (Essa foto abaixo serve?)

tom-ze

Textos de amizades para quem está saindo do ensino médio (Aconselho você mesmo(a) a escrever um.)

Celebre director de cine brasileño (Seria o Glauber Rocha?)

Eu nunca ganho presente em datas comemorativas (Também nunca ganho.)

Não gosto de assistir as aulas (Eu sempre gostei – dependendo da matéria, claro.)

Texto férias na casa da minha irmã (Por que você mesmo(a) não escreve?)

O plano para assassinar Leonel Brizola (Acho que nunca escrevi sobre o Brizola aqui no blogue.)

Christian Karp (Esse texto sobre a Inês Brasil foi um dos que mais deu trabalho de escrever e um dos menos lidos aqui do blogue.)

O melhor livro que li na minha vida (Também não sei qual o meu livro favorito, são muitos.)

Quem canta a música Senhor Cidadão? (É triste saber que muita gente ainda não conhece o Tom Zé. Mais triste ainda é ver que existem pessoas que só escutam o que toca na novela.)

O gay antigo de Glauber Rocha (Realmente nunca li nada sobre Glauber ser gay. Também ainda não li ‘Glauber Rocha Esse Vulcão’, do escritor João Carlos Texeira Gomes. É considerada a mais completa biografia do Glauber e pretendo ler ainda esse ano. Se não tiver nada a respeito disso no livro, acredito que não terá em nenhum outro lugar. Depois de ler, venho aqui contar para vocês.)

Não gosto de filme (Que pena. Espero que mude de ideia um dia e possa ver os meus.)

Filme que passava na TV em 1987 e 1988 e tinha atriz chamada Jessica (Fiquei curioso. Quem souber me fala.)

Telefome sexo pela operadora tom gey (Acho que entendi, mas não entendi.)

José Aldo era marginal quando novo (Não sei e também não vi o filme. Se eu não quis ir assistí-lo no cinema, ao ser transformado em minissérie e dividido em quatro dias pela Globo foi que não me interessou mesmo.)

Conversa perecível (Duvido que esse meu texto sobre amizades perecíveis seja o que essa pessoa estava procurando.)

Monstros que são mulheres (Não, monstros são homens.)

Alexandre Porpetone não tem graça nenhuma (Concordo.)

Memes brasileiros sobre sexo oral (Também quero, quem tiver manda. – Brincadeira!)

Silvio Santos muito estúpido Teleton 2016 (Falei um pouco sobre isso no texto Família Abravanel.)

Aborto estatísticas (Segundo dados recentes, estima-se que, a cada um minuto, uma mulher faz um aborto no Brasil.)

Ninguém gosta de esperar mais gostam de fazer esperar (Odeio esperar e já escrevi sobre isso.)

Filmes de Glauber Rocha gay (Estou começando a acreditar que sou o único que desconhece essa possível homossexualidade de Glauber.)

Que series você assiste? Nenhuma, não gosto. E os livros que gosta? Não gosto de ler. Sai da minha casa (Essa pessoa tem dupla personalidade.)

É interessante como uma bobagem acaba uma amizade (Não sei se interessante é a palavra certa.)

Filme em que menino se entre na voluntariamente (Não entendi, mas quem souber que filme é esse, me avisa também!)

Assistir seriado em português paciência que conseguir (Haja paciência mesmo.)

Oração ao tempo de Caetano Veloso e tempo perdido Legião Urbana. Compare os pontos de vista diferente (Aposto que isso era um trabalho de escola.)

Filhos gays (Escrevi sobre filhos gays aqui.)

Bem, não vou publicar todos os termos de busca. Afinal, a razão de ser desse post foi mais para informá-los de que não desisti do blogue e que pretendo voltar a escrever aqui em breve. Desde já, assumo um compromisso de publicar textos mais elaborados nas próximas oportunidades. Espero que 2017 tenha começado bem para vocês, e torço para que não estejam tão cansados quanto eu. Tenham todos uma ótima semana. Abraçaço

meus livros favoritos de 2016

Tenho certeza de que 2016 foi o ano em que mais li até hoje. Essa afirmação pode soar mentirosa e contraditória quando comparo o número de livros lidos com os do ano anterior. Em 2015, eu li quarenta e seis títulos, em um total de onze mil novecentas e cinquenta e oito páginas. Enquanto que, em 2016, foram trinta e oito títulos, em um total de nove mil duzentas e trinta e nove páginas – o que dá uma média de vinte e cinco páginas por dia, abaixo das trinta e três diárias de 2015.

Os resultados foram bem inferiores, eu sei. Confesso que finalizei o ano frustrado, pois tinha expectativas maiores. No entanto, estou consciente de que um dos principais motivos (se não o maior) dessa diminuição foi o grande número de conteúdo online que eu consumi. Acompanhei muitos blogues em 2016, principalmente os de conteúdo político e feminista. Aprendi coisas como nunca antes e não me arrependo de ter dedicado tanto tempo a ler os textos de outros blogueiros e blogueiras, muito pelo contrário: neste ano, pretendo continuar acompanhando esses blogues e espero conhecer muitos outros.

Acredito muito na força da blogosfera e no poder do ativismo virtual. É importante consumir esse conteúdo alternativo escrito por minorias. Na atual conjuntura, é mais necessário do que nunca dar voz aos silenciados pelo Sistema. Essas leituras constituem uma parte importante da minha vida e sei que, se fosse possível contabilizar as páginas virtuais lidas por mim ano passado, conseguiria provar que foi o ano em que mais li. Porém, vou tratar no texto apenas dos livros.

Apesar de ter lido obras de nove nacionalidades, exatamente metade dos trinta e oito foram de títulos brasileiros e, é dessa metade, que saíram as leituras mais prazerosas. Não sei e não me atrevo a escrever resenhas, então irei tecer apenas breves comentários sobre cada livro da lista. Os títulos não estão classificados por ordem de importância, mas sim por ordem alfabética. São eles:

Abraçado ao Meu Rancor

Publicado originalmente em 1986, ‘Abraçado ao Meu Rancor’ foi minha terceira leitura concluída em 2016. Foi também o primeiro livro que li de João Antônio. Por ser um compêndio de contos, eu esperava ler com mais calma, como geralmente faço com títulos desse gênero (quase nunca leio mais de um conto por vez). No entanto, suas histórias do submundo me envolveram de tal forma, que quando me dei conta, já havia lido tudo.

A Divina Comédia dos Mutantes

Publicado originalmente em 1995, ‘A Divina Comédia dos Mutantes’ foi minha sexta leitura concluída em 2016. O livro de Carlos Calado é a biografia mais completa d’Os Mutantes, minha banda favorita. Foi outro livro que li muito rápido, principalmente por se tratar de um assunto de grande interesse. A pesquisa de Calado nos brinda com muitas curiosidades sobre os bastidores de gravações e, claro, nos apresenta aos vários pontos de vista sobre a polêmica saída de Rita Lee da banda.

Agosto

Publicado originalmente em 1990, ‘Agosto’ foi o primeiro livro que li em 2016. Foi uma das leituras mais gostosas do ano e se tornou um dos meus livros favoritos. A mescla entre ficção e realidade, usando como pano de fundo os acontecimentos que culminaram no suicídio de Getúlio Vargas, em agosto de 1954, foi o que me fascinou. Essa é apenas a terceira obra que leio de Rubem Fonseca e, a cada leitura nova, este autor ganha um lugar cada vez mais especial no meu coração. Agora, sempre que me lembro de ‘Agosto’, sinto uma imensa vontade de reler (e olha que só faz um ano que o folheei).

Cazuza - Só As Mães São Felizes

Publicado originalmente em 1997, ‘Cazuza – Só as Mães São Felizes’ foi minha segunda leitura concluída em 2016. Escrito por Lucinha Araújo e Regina Echeverria, a biografia conta a história de Cazuza desde seu nascimento até sua morte prematura. Também o li muito rápido, pois praticamente não o consegui largar enquanto não concluí. Por ser narrado através do ponto de vista de Lucinha, o livro é muito rico em detalhes, principalmente os capítulos que dizem respeito aos últimos dias de vida de Cazuza. Foi de longe a leitura mais emocionante do ano.

Contos Escolhidos

‘Contos Escolhidos’ é uma coleção de contos do Machado de Assis. Foi minha trigésima terceira leitura concluída em 2016. Li-o praticamente o ano inteiro, com muita calma. Como leio muitos livros ao mesmo tempo, quando chega dezembro, eu não inicio mais nenhuma leitura, pois trato de terminar aquelas que eu já iniciei durante o ano. Em dezembro, ainda faltavam alguns contos para concluir e, ao final de cada um deles, eu só conseguia imaginar o quanto ficariam bons se adaptados para o cinema em curtas-metragens. Inclusive, alguns contos desta coleção realmente ganharam adaptações, como foi o caso de ‘A Missa do Galo’ e ‘Uns Braços’.

Golpe 16

‘Golpe 16’ foi uma leitura especial, apesar de se tratar de um assunto amargo. O livro contém vinte e três artigos de blogueiros(as) e intelectuais de esquerda, além de um prefácio escrito pelo ex-presidente Lula e uma entrevista com a presidenta eleita Dilma Rousseff. A ideia do livro foi de Renato Rovai, editor do portal Fórum. Fui ao lançamento do livro em setembro, a convite da blogueira e feminista Lola Aronovich, que eu havia conhecido pessoalmente dias antes. Minha edição está autografada por ela. Além de Lola, há nele artigos de outras pessoas que eu admiro muito, como Cynara Menezes e Paulo Henrique Amorim. Foi minha vigésima oitava leitura concluída em 2016 e outro livro que li rápido, pois parei todas as leituras que havia iniciado para ler ‘Golpe 16’, um dos mais urgentes e importantes títulos publicados no ano passado.

Maldito

Publicado originalmente em 1998, ‘Maldito’ foi minha quarta leitura concluída em 2016. Minha edição, lançada em 2015 é, de longe, o livro mais lindo da minha coleção. O volume tem seiscentas e sessenta e seis páginas, que eu devorei em pouquíssimos dias. Escrita por André Barcinski e Ivan Finotti, a biografia é o título mais completo sobre José Mojica Marins, diretor de clássicos como ‘À Meia-Noite Levarei Sua Alma’, de 1963, e ‘Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver’, de 1966, ambos inclusos na minha lista de filmes favoritos. O livro aborda todas as fases da carreira de Mojica e, apesar de não ser chapa branca (pois aborda também os problemas do cineasta com o álcool, ostracismo, adultérios e o envolvimento com a indústria pornô), tudo é escrito com o maior respeito, tratando Marins como o verdadeiro gênio que é. Foi certamente uma das melhores biografias que já li na vida.

Menino de Engenho

Doidinho

Publicado originalmente em 1932, ‘Menino de Engenho’ foi minha décima primeira leitura concluída no ano passado e o primeiro livro de José Lins do Rego que li. A obra narra a história do menino Carlinhos, que vai morar no engenho do seu avô após perder a mãe assassinada pelo próprio pai. ‘Doidinho’, publicado pela primeira vez em 1933, foi minha vigésima quarta leitura concluída em 2016, e é a continuação de ‘Menino de Engenho’. Inclusive, começa exatamente onde o volume anterior termina. Esse segundo volume foi uma das leituras mais divertidas que fiz até hoje e, apesar de ser uma história triste em muitos momentos, a narrativa não perde o bom humor. Os dois fazem parte do “ciclo da cana-de-açúcar”, composta ainda por ‘Banguê’, publicado em 1934, ‘O Moleque Ricardo’, lançado em 1935, e ‘Usina’, lançado em 1936, títulos que eu pretendo ler muito em breve.

Revisao Crítica do Cinema Brasileiro / O Século do Cinema / Revolução do Cinema Novo

Essa trilogia glauberiana é formada por ‘Revisão Crítica do Cinema Brasileiro’, publicado originalmente em 1963, ‘O Século do Cinema’, de 1983, e ‘Revolução do Cinema Novo’, de 1981. Eles foram minhas leituras de número vinte e dois, trinta, e trinta e um de 2016, respectivamente. São livros escritos para quem realmente ama cinema, sobretudo o brasileiro. Glauber Rocha é meu cineasta favorito e tenho muito interesse por tudo o que diz respeito à sua vida e obra. Nenhum outro diretor me influenciou ou influencia tanto quanto ele. ‘Revolução do Cinema Novo’ trata do maior movimento cinematográfico da história do nosso país e foi o livro de cinema mais importante que já li.

Sargento Getúlio

Publicado originalmente em 1971, ‘Sargento Getúlio’ foi minha décima leitura concluída em 2016, e meu primeiro livro de João Ubaldo Ribeiro. Esse era um título que eu já queria ler há muitos anos, desde que assisti sua adaptação cinematográfica de mesmo nome de 1983, dirigido por Hermanno Penna, com Lima Duarte no papel do protagonista-título. Apesar de ser um livro pequeno, algumas passagens foram sabiamente cortadas no filme. Não por serem ruins, mas por não funcionarem tão perfeitamente no cinema quanto na literatura. Apesar disso, é uma das adaptações mais fiéis que já assisti (Ubaldo também assinou o roteiro) e tanto o filme quanto o livro fazem parte agora da minha lista de obras favoritas.

Minha meta inicial era ler cinquenta livros. No entanto, me dei conta de que um ano tem cinquenta e duas semanas, então esse se tornou o número mágico. Como vocês podem ver, não consegui alcançar nenhum dos dois. Quem sabe em 2017? Gosto de ler com calma e estou consciente de que ler muito rápido não é algo tão bom. Porém, também tenho que lutar contra o fato de que só viverei um determinado número de anos. Esse sentimento gera emoções contraditórias dentro de mim. Por já saber que não vou conseguir ler tudo o que quero, eu poderia muito bem ler livros aleatoriamente. Contudo, tento ser seletivo na maior parte das vezes, mas confesso que também gosto de ler ao acaso. Aprecio muito leituras estranhas, de títulos que quase ninguém ouviu falar.

Para esse ano, gostaria de convidar vocês a participarem do #DesafioLivrosBR do blogue 1001 Livros Brasileiros Para Ler Antes de Morrer. O desafio consiste em ler, em 2017, doze livros brasileiros de diferentes categorias. Cliquem aqui no link para mais informações. É a primeira vez que participarei de um desafio literário e estou bastante entusiasmado. Segundo a Pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, de 2015, o brasileiro lê, em média, apenas dois livros inteiros por ano. Mais do que um país que lê pouco, o Brasil é um país que se lê pouco. Por isso, considero iniciativas como essa muito importantes.

Para finalizar, deixo abaixo o arquivo em PDF de ‘GOLPE: Antologia Manifesto’, obra que reúne cento e vinte artistas contra o golpe acometido contra a nossa democracia no ano passado. Foi uma das minhas leituras de 2016 e cito-o aqui nas menções honrosas. Espero que essa lista possa inspirar a leitura de muitos de vocês. Não se esqueçam de comentar quais desses títulos vocês já leram, quais querem ler e, claro, que livros vocês me indicam para 2017. Até a próxima, abraçaço.

GOLPE: Antologia Manifesto

guarda baixa

Sempre me perguntei por que alguns cineastas, após realizarem grandes filmes no passado, verdadeiros clássicos do cinema, dirigem produções tão fracas quando chegam à velhice. Isso quando nem esperam amadurecer para começar a manchar a própria filmografia lançando trabalhos medíocres. Esse também é um fato que vejo com uma frequência ainda maior no cenário musical. Muitas bandas ou artistas-solo que revolucionaram a música quando jovens não conseguiram manter o mesmo nível após alguns anos de carreira. Até na literatura há os que também ficam eternamente marcados pelo livro de estreia.

Esse é um assunto que muitas vezes orbitou em rodas de conversas e eu nunca soube apontar uma razão para esse “fenômeno”. No entanto, há algumas semanas atrás, encontrei a resposta assistindo a vídeos de Leandro Karnal que, de tão óbvia, me passou despercebida. Esses artistas caíram na terrível zona de conforto. Tentei encontrar o vídeo para transcrever as palavras de Karnal, mas não encontrei. É um vídeo em que ele usa a expressão “baixar a guarda”. De toda forma, encontrei outras palestras em que ele novamente disserta sobre o tema.

Para Karnal, é natural do ser humano buscar zonas de conforto, pois elas fazem com que não gastemos energia pessoal e cerebral. Porém, para todos aqueles que se dedicam ao estudo de carreira, a zona de conforto é a grande armadilha da vida. Ela nos diz para relaxarmos, para ficarmos bem porque “chegamos lá”. Entretanto, toda vez que acreditamos ter “chegado lá”, começamos a diminuir a potência de tudo aquilo que podemos fazer. Zona de conforto é o que buscamos, mas ela também é o início do nosso declínio, afinal, ela produz a felicidade que nos leva à acomodação, que nos leva à preguiça e esta, por sua vez, nos leva ao não desenvolvimento do nosso potencial. Ou seja, aquilo que nos favorece é também aquilo que nos prejudica.

Tudo isso faz muito sentido. Estudamos, nos esforçamos e damos tudo de si quando estamos desenvolvendo nossos primeiros projetos. Queremos provar para o mundo do que somos capazes. Toda essa motivação inicial é mesmo difícil de ser mantida se já conquistamos um espaço em nossas áreas de atuação. Sempre que penso nisso, me vem à mente o exemplo de Tom Zé, que a cada novo trabalho consegue se superar. O Mestre sempre fala em uma espécie de deficiência, de dificuldade na hora de criar. Segundo ele, esse sofrimento é o que o motiva a estudar todos os dias para conseguir compor suas músicas. Além do talento natural que Tom Zé possui, acredito que essa dificuldade que ele diz ter o impulsiona em direção ao trabalho árduo dos estudos e, consequentemente, para fora de qualquer zona de conforto.

Escrevi essas linhas ao som de Raul Seixas e, coincidentemente, em sua canção ‘Eu Sou Egoísta’, ele fala, entre outras coisas, sobre zonas de conforto. É uma das minhas músicas favoritas do pai do rock brasileiro. Na letra ele diz: […] Eu sou estrela no abismo do espaço / O que eu quero é o que eu penso e o que eu faço / Onde eu tô não há bicho-papão / Eu vou sempre avante no nada infinito / Flamejando meu rock, meu grito / Minha espada é a guitarra na mão / Se o que você quer em sua vida é só paz / Muitas doçuras, seu nome em cartaz / E fica arretado se o açúcar demora / E você chora, cê reza, cê pede, implora / Enquanto eu provo sempre o vinagre e o vinho / Eu quero é ter tentação no caminho / Pois o homem é o exercício que faz […]. Estou sempre em busca dessa tentação no meio do caminho. Perder totalmente o medo da mudança é meu verdadeiro desafio. Nós somos o exercício do que fazemos.

Por fim, quero dizer que escrevi esse texto para agradecer todo o apoio durante o ano de 2016. Sou grato por cada acesso ao blogue, a cada pessoa que tirou alguns minutos do seu precioso tempo para ler meus textos, a cada pessoa que curtiu, seguiu e comentou. Muito obrigado. O que desejo para nós em 2017 e para vida toda é que não baixemos a guarda. Nunca! Feliz ano novo! Abraçaço

meus discos favoritos de 2016

Eu já havia decidido que não faria a lista dos meus discos favoritos desse ano, pois julgava não ter acompanhado bem a safra de 2016. Acontece que, de fato, não ouvi tanta música como nos anos anteriores, mas ao ver as listas de melhores do ano publicadas em vários sites, constatei que eu havia escutado muitos dos discos listados e que ainda conhecia outros que nem sequer foram citados. Dessa forma, tomei coragem para fazer a minha.

O próprio título do post já diz, mas reforço que esta é uma lista pessoal. No entanto, nem por isso me isento de críticas e sugestões. Quero mais é saber o que vocês acharam e que discos me indicam. Claro que muita gente boa ficou de fora, mas como costumo dizer, uma lista não é uma lista se não deixar de citar algo ou alguém. Eis a minha de discos favoritos de 2016:

10° Praieiro – Selvagens à Procura de Lei
Praieiro

‘Praieiro’ é um forte exemplo de como está difícil acompanhar todos os lançamentos. Selvagens à Procura de Lei é uma das minhas bandas favoritas e eu nem sabia que eles iam lançar disco novo em 2016. Quando me dei conta, os amigos estavam compartilhando as músicas nas redes sociais. Foi uma grata surpresa.

09° Atlas – Baleia
Atlas

‘Atlas’ também seguiu o exemplo de Praieiro. Os amigos compartilharam o videoclipe de ‘Volta’ nas redes sociais (por sinal um dos melhores videoclipes do ano), e só então fiquei sabendo que eles iam lançar disco novo.

08° Arco & Flecha – Iara Rennó
Arco & Flecha

A Iara Rennó foi uma descoberta de 2016. A conheci por acidente acessando um site por acaso (não lembro qual). No site havia a música ‘Mama-me’, que eu adorei logo na primeira ouvida. Fui pesquisar e descobri que ela havia lançado dois álbuns em 2016, um chamado ‘Arco’ e o outro ‘Flecha’. De tão bons, resolvi colocar os dois aqui.

07° Remonta – Liniker e os Caramelows
Remonta

Liniker já havia me ganhado com seus vídeos na internet, então ‘Remonta’ era um disco que eu já estava esperando. Ouvi logo no primeiro dia de lançamento. Lembro bem que parei tudo o que estava fazendo e fui me balançar calmamente na rede enquanto ouvia.

06° Palavras e Sonhos – Luiz Tatit
Palavras e Sonhos

Luiz Tatit é tão recluso que, por mais que eu pesquise sobre ele na internet, quase não consigo informações sobre o que anda fazendo. Descobri que o compositor havia lançado disco novo porque recebi uma notificação do Spotify por e-mail. ‘Palavras e Sonhos’ foi apresentado logo no início do ano e, quando o ouvi, tive logo a certeza de que se fosse fazer minha lista anual de discos favoritos ele estaria entre os escolhidos.

05° Bandida – MC Carol
bandida

Eu já conhecia MC Carol, mas nunca tinha ouvido nenhuma música dela. Karol Conka havia prometido que lançaria um disco novo em 2016 (agora adiado para depois do carnaval de 2017), então eu fiquei na cola dela nas redes sociais para ouvir o disco novo assim que saísse. No entanto, o que ela acabou divulgando foi uma participação na música ‘100% Feminista’ da MC Carol, que eu ouvi e gostei muito. Dias depois, a mesma Conka divulgou que havia sido lançado ‘Bandida’, o novo disco da MC Carol, que para mim, foi um dos trabalhos mais significativos e corajosos do ano.

04° Ainda Há Tempo – Criolo
Ainda Há Tempo

‘Ainda Há Tempo’ foi lançado por Criolo em 2006, mas as canções ganharam uma roupagem completamente nova e o álbum foi relançado esse ano. As músicas ficaram tão diferentes do anterior que não consigo considerar os dois como um mesmo trabalho. Para mim, o ‘Ainda Há Tempo’ de 2006 é um e o ‘Ainda Há Tempo’ de 2016 é outro. Foi sem dúvida um dos discos que mais ouvi nesse ano – incluso na lista mesmo não sendo teoricamente um trabalho inédito.

03° Tropix – Céu
Tropix

Gosto muito da Céu, mas confesso que quase não a acompanho, mesmo apreciando todos os seus discos. Não sei praticamente nada sobre ela e isso é ótimo, afinal, só o que importa é a música. ‘Tropix’ é incrível e o ouvi muitas vezes no carro enquanto dirigia – sinal de que eu realmente aprovei.

02° MM3 – Metá Metá
MM3

Metá Metá foi outra descoberta de 2016 e até me sinto envergonhado por ter demorado tanto para conhecer essa banda. Se ‘Tropix’ tocou muito no carro, ‘MM3’ tocou até em ônibus durante viagem para outro estado. Se coloco um disco como trilha-sonora para uma viagem é porque eu mais do que gosto, amo. ‘MM3’ também foi o disco que eu mais indiquei para os amigos neste ano e que agora estou indicando para vocês.

01° Canções Eróticas de Ninar – Tom Zé
Canções Eróticas de Ninar

No ano em que Tom Zé lança disco, ninguém fica a frente dele nas minhas listas de melhores do ano. ‘Canções Eróticas de Ninar’ – por sinal, também o melhor título de 2016 – não era um disco que estava sendo esperado. Feito em segredo, só foi divulgado poucos dias antes do lançamento. Que Tom Zé é meu cantor favorito todo mundo já sabe, mas foi só em agosto que o vi ao vivo pela primeira vez. Foi em um show em João Pessoa-PB. Fui especialmente para vê-lo e realizei um dos meus maiores sonhos. Ao final do show, além de conversar com ele, ainda consegui falar com Daniel Maia, que é guitarrista e produtor dos discos do Mestre. Consegui arrancar de Daniel a confissão de que seria lançado um novo álbum em breve. Fui ao show achando que quando saísse já poderia morrer, pois finalmente havia testemunhado o Pai da Invenção em exercício. Entretanto, saí convicto de que não poderia morrer antes de ouvir o novo álbum. No final de novembro, Tom Zé ainda se apresentou em Fortaleza-CE e nem o mais otimista dos otimistas conseguiria prever que eu o veria duas vezes em um ano só. Musicalmente falando, 2016 foi mesmo muito especial.

Amor Geral - Brutown - Acústico Oficina Francisco Brennand - Boogie Naipe

Antes de finalizar, gostaria de citar rapidamente alguns discos que ficaram de fora, mas que ouvi (e gostei) bastante. Foram eles: ‘Amor Geral’, da Fernanda Abreu, ‘Brutown’, do The Baggios e ‘Acústico Oficina Francisco Brennand’, d’O Rappa – este último, em especial, eu deixei de fora por ser um disco ao vivo. Acho que também vou chorar a ausência de ‘Boogie Naipe’, do Mano Brown, que com vinte e duas faixas foi lançado a menos de um mês do fim do ano e que eu ainda não tive tempo suficiente para ouvir com calma. Para 2017, não tenho muitas expectativas, além do já citado álbum da Karol Conka e do novo trabalho do Sepultura, que está marcado para sair em 13 de janeiro. No mais, espero que tenham gostado. Até a próxima, abraçaço.

hoje eu acordei com rubem braga

“Hoje eu acordei com sono, sem vontade de acordar. O meu amor foi embora e só deixou pra mim um bilhetinho todo azul com seus garranchos”. Não era bem assim que eu pretendia iniciar esse texto, mas ao escrever “hoje eu acordei”, me veio à mente a letra de ‘Bilhetinho Azul’, do Barão Vermelho, música presente no primeiro álbum da banda lançado em 1982. Escrevi o texto ouvindo esse disco que eu adoro e que não escutava há bastante tempo. Sessão nostalgia.

Não deixa de ser verdade que hoje eu acordei com sono, afinal, eu acordo assim todos os dias. No entanto, ao levantar da cama, lembranças há muito perdidas em um passado distante despertaram também. Recordei do livro ‘200 Crônicas Escolhidas’, do escritor Rubem Braga (1913-1990), livro que ganhei ainda criança. Foi o primeiro título adulto que me lembro de ter lido, pois até então eu só havia consumido literatura infantil. O livro tem o selo de venda proibida do Ministério da Educação na capa. Ganhei-o de um tio que era professor na época – se ele o ganhou ou roubou, eu não sei, só sei que ele me deu e que eu o tenho até hoje. A capa, inclusive, tem o desenho de uma mulher nua lendo e, por isso, eu tinha vergonha de lê-lo na frente das pessoas. Se eu era criança, a minha irmã que é mais nova do que eu, era mais criança ainda, e achava a capa super engraçada.

200 Crônicas Escolhidas

Confesso que nunca entendi essa mulher nua na capa, mas o que interessa é que o li por anos e que foi lendo-o que eu tive vontade de ser escritor. A cada crônica lida, eu pensava que podia fazer igual. Fiquei apaixonado pelos textos, queria ser cronista. O primeiro blogue que tive na vida era dedicado ao gênero. Na época, eu não entendia porque lia e achava que era fácil escrever, mas hoje está claro que a genialidade de Rubem Braga fazia tudo parecer fácil, como os atletas de alto nível, que nos banham com a sensação de que é possível fazer igual. Não é que seja fácil, eles é que são bons demais.

Hoje eu não escrevo mais crônicas (eu acho), mas consigo ver uma influência muito forte do gênero em meus textos. Meu tio, que me deu esse livro, nem imagina que foi ele o responsável por despertar o amor pela leitura em mim. Antes mesmo de me dar esse do Braga, ele já havia me presenteado com vários outros, de gênero infantil. Serei eternamente grato e tratarei de contar isso para ele em breve. É uma pena que Rubem Braga não esteja mais entre nós para que eu possa lhe agradecer por me despertar o amor pela escrita. Nem quando eu li o livro seria possível, pois ele já havia morrido quando eu nasci.

Para escrever o texto, retirei da estante minha edição de ‘200 Crônicas Escolhidas’, que já está amarelada pelo tempo, para folhear. Não me lembro da última vez que fiz isso, tanto é que fiquei surpreso ao ver no sumário que eu havia marcado com um marca-texto amarelo, o título de vinte crônicas. Coisa que eu jamais faria hoje, pois não risco um livro nem que me paguem. Pelo título das crônicas marcadas, não consegui recordar se eram as que eu mais gostava. Isso eu vou descobrir em breve, pois pretendo relê-lo de cabo a rabo. Porém, achei estranho que a crônica que mais me marcou (pois me lembro dela até hoje) não estava sinalizada com marca-texto. Ela se chama ‘Rita’ e ironicamente se encontra na página de número duzentos desta edição – a reproduzi para vocês abaixo. Até a próxima, abraçaço.


RITA

No meio da noite despertei sonhando com minha filha Rita. Eu a via nitidamente, na graça de seus cinco anos.

Seus cabelos castanhos – a fita azul – o nariz reto, correto, os olhos de água, o riso fino, engraçado, brusco…

Depois um instante de seriedade; minha filha Rita encarando a vida sem medo, mas séria, com dignidade.

Rita ouvindo música; vendo campos, mares, montanhas; ouvindo de seu pai o pouco, o nada que ele sabe das coisas, mas pegando dele seu jeito de amar – sério, quieto, devagar.

Eu lhe traria cajus amarelos e vermelhos, seus olhos brilhariam de prazer. Eu lhe ensinaria a palavra cica, e também a amar os bichos tristes, a anta e a pequena cutia; e o córrego; e a nuvem tangida pela viração.

Minha filha Rita em meu sonho me sorria – com pena deste seu pai, que nunca a teve.

Janeiro, 1955

bibliofilia crônica

Peguei uma doença gravíssima. Atinge diretamente o financeiro, dói no bolso e deixa a consciência pesada. Não consigo lembrar quando começou. Quando dei por mim, estava assim. Logo eu, que durante boa parte da minha vida li livros emprestados dos amigos ou alugados em bibliotecas. Agora estou com essa mania de acumulação que chamam por bibliofilia crônica. Não tem cura, dizem. Espero que estejam enganados. Hoje, o número de livros não lidos em minha estante está bem próximo do número de livros já lidos. Em um curto espaço de tempo terei mais livros para ler do que leituras concluídas. A dependência é forte e só vai piorando com o passar dos anos. No início, nos contentamos com qualquer edição, depois passamos para o estágio de só querer uma edição específica, uma capa específica, uma tradução específica. Conforme a coleção vai crescendo, passamos a querer livros cada vez mais caros, as reedições em capa dura, os clássicos em edições de luxo, até chegar ao ponto de ansiar por raridades. Viramos ratos de sebo, verdadeiros desbravadores da Estante Virtual. Eu, por exemplo, já estou apresentando os primeiros sintomas desse último estágio da doença, se é que é o último. Algumas pessoas bem próximas a mim, outras nem tanto, estão ainda mais graves que eu. Nós doentes nos reconhecemos, nos abraçamos, nos reconfortamos, choramos juntos a mesma dor. Só um bibliófilo crônico entende o sofrimento que é salvar o endereço de uma página na Estante Virtual para comprar o livro depois e, ao voltar, constatar que ele foi adquirido por outra pessoa. Sempre fico imaginando quem foi que me causou tremenda dor. Será que é um bibliófilo também? Será que esse alguém comprou para presentear outro alguém que nem vai fazer tanta questão do livro quanto eu? Será que foi para um trabalho da universidade? Será que foi comprado sem maiores pretensões? No final, sempre prefiro acreditar que foi alguém como eu e que vai tratar o livro tão bem quanto. Só assim alimento esperanças dessa pessoa ser bem mais velha que eu, o que teoricamente aumentam as chances de ela morrer primeiro. Possibilitando, desta forma, uma nova oportunidade de adquirir o livro se o herdeiro ou a herdeira resolver se desfazer dele anunciando-o novamente na Estante Virtual. Essa agonia é bem semelhante à de ver determinado título na livraria e saber de imediato que jamais seremos um do outro. Mesmo assim prometemos, para nós mesmos e para o livro, que voltaremos para comprá-lo depois. Como se não bastasse, ainda tenho uma característica particular, ou não tão particular assim, de comprar títulos estranhos que eu mesmo nunca ouvi falar. São comprados pela intuição: um vigésimo terceiro sentido me diz que vou gostar. São escritos que eu sei que nenhum dos meus amigos gostaria de ler e que talvez até eu mesmo desgoste quando começar a folhear. Por mais tempo que eu passe sem comprar um livro novo, geralmente uma consequência da falta de dinheiro, sempre acontece uma recaída durante essas malditas promoções maravilhosas que nos permitem comprar bons livros a preços acessíveis, mas que mesmo assim nos deixam de cama, tamanha a tristeza por ainda não conseguir levar tudo. A cegueira é tão grande que nos sujeitamos a pagar um valor absurdo de frete – que daria para comprar outro livro – só para sustentar o vício. Algumas horas antes de escrever essas palavras eu tive uma recaída. Estava limpo há um mês. Sei que não é bastante tempo, mas havia prometido não comprar mais nada nesse ano. Agora é tarde para voltar atrás. Durante a próxima semana, sempre que eu estiver na rua e ver um carro dos Correios passando, irei imaginar se minha felicidade estará ali dentro rumo à minha rua, rumo à minha casa. Como quase sempre essas minhas encomendas chegam quando eu não estou presente, minha mãe é quem as recebe e as deixa sobre a mesinha de centro da sala. A mesinha deve ter meio metro de altura no máximo, mas será minha linha do horizonte sempre que eu chegar em casa. No momento passo bem, embora ainda esteja melancólico por não ter comprado todos os títulos que queria. Não posso prever quando será a próxima recaída, mas uma coisa é certa: os primeiros sintomas de abstinência vão surgir poucos minutos após retirar o invólucro dos livros novos e guardá-los na estante. Paciência.

porque não desejo filhos gays para casais homofóbicos

Certa feita, ao presenciar comentários homofóbicos vindos de um jovem casal heterossexual, pais de uma menininha linda de um aninho, relatei o ocorrido a um amigo meu, em particular. Ao ouvir a história, ele comentou o seguinte: “tomara que a filhinha deles seja lésbica para que eles aprendam a respeitar às diferenças”. A frase me deixou reflexivo.

Conhecendo bem esse meu amigo, sei que ele falou o que falou no calor do momento, pois estava revoltado com o que havia acabado de ouvir. Ele é gay, logo, não considera a homossexualidade algo ruim, então sua intenção não era atingir a criança, e sim o casal que, na cabeça dele, aprenderia a respeitar o amor entre duas pessoas do mesmo sexo quando passassem a conviver com uma lésbica dentro de casa. No entanto, eu penso diferente, pois não desejo filhos gays para casais homofóbicos.

Não acredito em castigo, maldição divina e em nada dessas bobagens para partir do pressuposto que casais homofóbicos merecem mesmo é ter filhos gays, quando na verdade é o filho gay que sofre ao nascer em um lar homofóbico. Os pais mais religiosos, na cegueira da intolerância, só conseguem enxergar o próprio “sofrimento”, perguntando-se o que fizeram para merecer isso. Os pais não religiosos também encaram a situação como uma espécie diferente de castigo, perguntando-se onde erraram na educação da criança.

Na verdade, não desejo filhos (gays ou não) para casais homofóbicos. Se o filho for hétero, são grandes as chances de ele pensar como os pais e, mesmo que não seja homofóbico e tenha amigos gays, dificilmente vai fazer algo para mudar a visão dos pais, afinal, essa não é uma causa dele. Infelizmente, ainda são poucos os héteros que lutam juntos às comunidades LGBTs contra a homofobia. Já se o filho for gay, ele vai sentir a pior dor que um homossexual pode sofrer: a violência do próprio lar. A violência e não aceitação da rua nada se compara a não aceitação familiar.

São os filhos gays que não merecem pais homofóbicos. Quando isso acontece, são enormes as chances de se repetirem casos que já vi acontecer de pais colocarem filhos no exército contra a sua vontade para “virarem homens”; pais que submetem filhos a tratamentos psicológicos quando na verdade são eles que têm problemas; pais que sujeitam os filhos a uma forte violência física e psicológica; pais que trancam os filhos dentro de casa impedindo-os de qualquer contato com o mundo; pais que expõem a sexualidade dos filhos a padres e pastores, arrancando-os à força do armário, o que resulta em uma forte humilhação social, pois é a própria pessoa quem deve decidir quando contar para todos; chegando até mesmo a casos de pais que matam os filhos por não aceitá-los como são.

De todos esses exemplos citados acima, o único que ainda não aconteceu com alguém próximo a mim foi o último, mas não são poucas as histórias de gays mortos pelos próprios pais – isso quando eles mesmos não tiram a própria vida na ânsia de ceifar esse sofrimento. Toda essa violência é fruto do preconceito, mas também de frustração. Casais homofóbicos criam a expectativa de que seus filhos serão héteros, sendo assim, quando ocorre a frustração dessa expectativa, o sofrimento para ambos é quase inevitável. Claro que o sofrimento desses pais é fruto de um “auto-problema”: o próprio preconceito. Enquanto que o sofrimento do gay é fruto do problema de terceiros: a homofobia do outro. Os pais não possuem o direito de criar expectativas com relação à sexualidade dos filhos. Ninguém escolhe ser gay, não é uma opção. Ninguém em sã consciência escolheria passar por todo esse flagelo. É óbvio ululante que nem todos passam por isso, mas é apenas uma minoria que tem a felicidade de nascer em um lar que respeita as diferenças.

Portanto, mesmo que todo filho gay mudasse a mentalidade dos pais homofóbicos, não da para ignorar que esse é um processo muito traumático, logo, não desejo que gay nenhum tenha que passar por isso. É por essa razão que as campanhas contra a homofobia, o debate sobre a identidade de gênero nas escolas e a criminalização da conduta homofóbica são cada vez mais importantes. Porém, isso é o macro e cabe a todos nós combater o micro, que é o preconceito do dia a dia presente nos comentários à mesa do jantar, no ambiente de trabalho, nas piadas homofóbicas nas rodas de conversa com os amigos… Lembre-se: a cada vinte e oito horas, um homossexual morre de forma violenta no Brasil e o país inteiro é culpado, pois o combate à homofobia é (ou deveria ser) uma luta de todos.

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minha estupidez

Fiquei sabendo através das redes sociais que Fernanda Torres estrearia essa semana no canal GNT um programa chamado Minha Estupidez. Programa esse que eu não vou assistir pois não tenho TV por assinatura em casa (nem pretendo) e porque, quando for disponibilizado na internet (se for), eu com certeza já terei esquecido. No entanto, acabei abrindo o texto que falava da estreia e me deparei com o parágrafo de outro que a própria Fernanda escreveu e enviou para jornalistas: “Eu me valho da minha ignorância, da curiosidade onívora e de uma certa franqueza, que me leva a admitir, em público, que não sei o que é solipsismo, […] além de confessar que passei três anos mentindo que havia lido ‘Viva o Povo Brasileiro’.”

Depois de passar alguns anos mentindo que havia lido o clássico de João Ubaldo Ribeiro, finalmente Fernanda o leu em 2008, e aproveitou a ocasião para entrevistar o escritor baiano para um programa que ela havia idealizado e que só agora está sendo lançado sob o título de Minha Estupidez, como citei acima. Realmente não recordo se já menti dizendo que li um livro sem ler, mas admito que são grandes as chances de isso já ter acontecido pelo menos uma vez. De toda forma, se não sei ao certo se menti sobre livros, confesso que já menti dizendo ter visto um filme que ainda não havia assistido.

Todo mundo conhece alguém que dá dicas de filmes aos amigos quando eles não sabem o que assistir. Eu sou essa pessoa. Portanto, para não decepcionar o pequeno imaginário coletivo que se formou através do meu minúsculo ciclo social em relação à minha cinefilia, existiram algumas ocasiões em que menti ao me perguntaram se vi tal filme, principalmente quando o título era um clássico. Como realmente vejo muitos longas, logo não precisei mentir tantas vezes e ninguém nunca desconfiou que eu pudesse estar faltando com a verdade. Mesmo assim, aprendi que não importa o número de filmes que você veja, alguém sempre vai te perguntar por um que você ainda não viu.

Uma das razões das minhas mentiras era mesmo para evitar a reação das pessoas, pois quando eu admitia não ter visto, elas sempre reagiam como se fosse o fim do mundo: “Como assim você não assistiu ainda? Você não é cinéfilo?”. Como se alguém tivesse a obrigação de conhecer tudo. A outra razão era por vergonha mesmo: “Como eu, um cinéfilo, ainda não vi esse filme?”. Entretanto, acredito que essa segunda razão existe muito em função da primeira, pois eu talvez não sentisse vergonha se as pessoas não me julgassem. Se eu teria deixado de mentir se não houvesse julgamento? Não sei. Todavia, não imagine que eu gostava de fazer isso pois, nas vezes em que aconteceu, corri para casa e tratei de ver o filme o mais rápido possível para que a mentira durasse pouco tempo. Conjugo os verbos no passado porque já faz alguns anos da última vez que tentei enganar os outros e a mim mesmo de que era possível conhecer tudo.

Hoje, assim como Fernanda, também me valho de minha ignorância, de minha curiosidade e de minha franqueza para admitir quando não vi tal filme ou li tal livro, mas não só isso, como admitir também o total desconhecimento de vários assuntos. Sentindo uma identificação tremenda com as palavras de Fernanda, decidi procurar pelo texto completo que ela enviou a jornalistas, mas não encontrei. Em compensação, a pesquisa me levou a algumas entrevistas interessantes da atriz e escritora sobre o programa. Porém, como ela também fala de outros assuntos e como eu adoro entrevistas, resolvi transcrever alguns trechos aqui.

Em uma delas, Fernanda, que revela sentir falta de ter cursado uma universidade, compara sua cultura geral a um queijo suíço: “É cheia de buracos. Nunca ninguém ordenou o pensamento para mim. Fui lendo e me informando, mas sem ninguém me conduzindo”. Apesar de cursar uma graduação, também sinto que muitas áreas do meu conhecimento são esburacadas. O que não me desmotiva, muito pelo contrário. Por mais trabalhoso que seja, isso me faz correr atrás dos pensamentos que possam preencher essas fendas.

Em outro momento, dessa vez sobre o processo de impeachment da presidenta Dilma, senti como se Fernanda tivesse lido os meus pensamentos: “Não conseguia escrever. Não conseguia ler. Parecia que minha vida era pautada pelo que fosse decidido em Brasília”. Foi justamente isso que aconteceu comigo durante as últimas semanas do golpe, não consegui produzir nada. Outro momento de identificação foi quando ela falou sobre opiniões formadas: “Pedem muito para a gente, que é ator, dar opinião, e a gente dá, né? Nos últimos anos, também passei a escrever em jornal e revista. Mas aprendi a dizer “Não tenho opinião sobre isso””.

Contudo, nem tudo são flores. Ao ser questionada sobre a polêmica do texto para o blog feminista Agora É Que São Elas, em que falou de “vitimização do feminismo”, ela vê como seu único erro apenas ter publicado tal texto no blog errado: “O texto era para um blog ligado a questões feministas. E eu não entendi isso. Era um lugar errado para falar da minha opinião pessoal. Eu errei. Hoje você tem que ter cuidado redobrado com o que e com quem fala. As coisas reverberam rapidamente na internet. Esse episódio me ensinou muito”. Apesar de ter se retratado depois, Fernanda diz que o ‘mea culpa’ não exclui o que ela pensa. Isso foi mesmo uma estupidez da parte dela, mas esse é assunto para outro texto.

Numa das resenhas do primeiro episódio do programa, há a transcrição do que Fernanda diz na abertura. Repito, eu não vi, então não sei se as palavras foram essas mesmo, mas o que estava escrito me chamou atenção. Diante da estante que herdou do avô, ela diz: “Esse programa nasceu desta estante aqui, de perceber que, por mais que eu tenha lido e amado os livros que eu li, eles se reduzem a isso aqui. Ou seja, nada perto do que existe pra se ler, se conhecer. Essa estante, de certa maneira, mede o tamanho da minha estupidez”. Fernanda disse, dessa vez em uma das entrevistas, que leu tanto para realizar o programa que, quanto mais lia, mais via que não sabia de nada. Ela acha que aumentou sua estupidez. Que leitor nunca sentiu isso?

Olhei então para a minha própria estante que eu já julgava ser tão pequena e, diante de todo o conhecimento da humanidade, é essa minha estante pequena que, de certa forma, também mede o meu próprio conhecimento. Embora muito em breve ela não consiga mais guardar livros novos, mesmo que ela triplique ou quadruplique de tamanho, sua pequenez não se calcula apenas metricamente. À frente de todos os livros que jamais chegarão até aqui, ou mesmo que chegassem, à frente de todos os livros que eu não vou conseguir ler antes de morrer, minha estante e meu conhecimento serão eternamente o que sempre foram: estúpidos.

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