o sinal está fechado para nós que somos jovens

Estive aqui pensando. Muito se fala, e com razão, das imprudências dos motoristas no trânsito. Dirigir é uma arte que eu admito não dominar tanto assim, mas é quando estou no volante que vejo as coisas por um prisma diferente, e justamente por saber que não sou um Ayrton Senna da vida, que tento dirigir com o máximo de cuidado possível. Não temo pelo carro, porque para mim ele funciona como uma espécie de armadura para me proteger. Também não tenho medo de morrer, pois como não costumo acelerar muito, acredito que só morro se um caminhão em alta velocidade bater em mim. Sou o cara da passagem. Dou passagem para todo mundo. Não tenho pressa. Estou ali no carro, com ar-condicionado, ouvindo as músicas que eu gosto, então para que me desesperar? No entanto, hoje, quando tenho que sair de carro, o maior medo que tenho é de matar alguém. As pessoas simplesmente se jogam na frente dos carros quando querem atravessar a rua. É muito comum estar passando por algum lugar e, do nada, surgir um pedestre correndo. Sempre fico me perguntando o que aconteceria se eu não dirigisse devagar. O pedestre pode não só acabar com a própria vida, como destruir a minha. Sou um usuário dos coletivos. Uso ônibus diariamente. Só uso o carro para passeios curtos, ou para levar meus pais, que não sabem dirigir, para algum lugar que eles queiram ir. Sei o quanto é frustrante perder um ônibus por questão de segundos. Não há uma semana sequer em que isso não aconteça comigo pelo menos uma vez. Sei o que é ver um ônibus não parar porque ele está tão lotado que não cabe mais ninguém. Pior ainda, sei o que é dar sinal, e o motorista não parar. Sei o que é esperar debaixo de sol e de chuva. Sei o que é subir em um ônibus lotado e passar a viagem inteira me espremendo para chegar até a porta de saída. Sei o que estar em um ônibus que quebra no meio do caminho. Sei até o que é estar dentro de um ônibus durante um assalto. Mas acreditem, prefiro andar de ônibus a dirigir carro. Quando o motorista bate, a culpa não é minha. Com as vias exclusivas para ônibus, chego mais rápido do que de carro. Durante um engarrafamento, adianto a leitura se estiver sentado ou uso o celular se estiver em pé. A caminhada de uma parada até outra serve como um exercício. Sei que não tenho pânico de dirigir, caso contrário não conseguiria ou o faria com muito esforço. Como usuário de coletivos, sei que a distância entre uma faixa de pedestre e outra quase sempre é absurda. Fico pensando: mais faixas e passarelas resolveriam? De que adiantam mais faixas se os motoristas não param? Canso de ver locais em que os pedestres preferem se arriscar na pista a atravessar na passarela. Educação é a única solução. Quando estudamos para conseguir a habilitação, aprendemos uma regra muito linda: o maior protege o menor. Uma pena que fique só no discurso. Os patrões não são compreensíveis, e estamos sempre correndo para não chegarmos atrasados. A rotina nos cansa e, no final do dia, tudo o que queremos é voltar para nossas casas. Quando estou na faixa de pedestre esperando o sinal abrir para mim e vejo o meu ônibus passar do outro lado, fico pensando: de que adianta me jogar na frente dos carros? O atraso pode nos fazer perder o emprego, mas como vamos trabalhar mortos? O maldito sinal, que parece nunca fechar para os carros, pode nos fazer esperar muitos minutos pelo próximo ônibus e nos fazer chegar bem tarde em casa, mas só dá para voltar para o lar se estamos vivos. Um querido professor de matemática costumava comentar em sala de aula que, toda vez que atravessamos uma rua, nosso cérebro realiza um cálculo muito complicado. Calculamos a distância entre a calçada que estamos e o outro lado da rua, assim como a distância dos carros na pista em relação a nós e, por fim, a velocidade que precisamos imprimir para atravessar até o outro lado. Esse é um calculo tão difícil, mas tão difícil, que às vezes erramos e o carro nos pega. Na ânsia de ganhar alguns minutos, perdemos a vida inteira.

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leite de coco é melhor que coca-cola

“Vende-se em segunda mão, e por preço módico, uma consciência quase nova, em perfeito estado de conservação. Por um excesso de escrúpulo, declaramos que ela já foi usada, mas devemos acrescentar que o primitivo dono se serviu dela poucas vezes, podendo assim ser utilizada sem receio por qualquer cidadão.” (Graciliano Ramos)

Este “anúncio” de Graciliano Ramos foi publicado em 27 de fevereiro de 1921, em sua coluna Factos e Fitas do jornal O Índio. Ao ler tal texto em 2017 pela primeira vez, quase cem anos depois de publicado, não pude deixar de pensar em todas as vezes em que ouvi alguém dizer uma variação da frase “gosto de ver filmes para desopilar; quando vou ao cinema, deixo a cabeça em casa”.

“Tem Hollywood o objetivo de atingir o coração do grande público e lhe conquistar simpatia e preferência. Partindo do pressuposto de que o homem de classe média quando entra no cinema procura uma fuga e não espelho da realidade, os produtores capricham nos clichês de entorpecimento e retiram o público do social para o alienante fantástico. A usina de sonhos produz esperança infantil e insufla a consciência de guerra. Há subestimação da solidariedade humana e simpatia exagerada pela moral ensinada. O cinema deixa sua função cultural e assume o papel deseducador. O público elegeu seus “Heróis” e não cede lugar ao aparecimento de outros”. (Glauber Rocha em ‘O Século do Cinema’)

No que convencionei chamar de Trilogia Glauberiana (os livros ‘Revisão Crítica do Cinema Brasileiro’, ‘Revolução do Cinema Novo’ e ‘O Século do Cinema’), Glauber Rocha ataca cirurgicamente o sedentarismo mental das plateias. No início de ‘Revolução do Cinema Novo’, o cineasta faz uso de um texto do ator Miguel Torres, falecido em 1962, aos 36 anos: “Estamos atravessando uma das fases mais graves da história da humanidade e nosso cinema tem que ser sério e grave. Chegou o momento de fechar o circo cinematográfico e fazer conferências maçantes contra a vontade da plateia. Enquanto não realizarmos filmes que violentem o comodismo dessa plateia intoxicada de convicções erradas, não estaremos igualados ao nosso presente”. Torres era um dos argumentistas do Cinema Novo, mas morreu antes de realizar o sonho de dirigir seu próprio filme. Esse e outros textos citados por Glauber, indicando autoria de Miguel Torres, não foram localizados, o que não me deixaria surpreso se descobrisse que foram escritos pelo próprio cineasta que assina o livro. De toda forma, esse é principal mote: atacar o sedentarismo mental das plateias. Como realizar esse ataque? A forma encontrada pelo Cinema Novo foi a violência:

“Nós compreendemos esta fome que o europeu e o brasileiro na maioria não entende. Para o europeu é um estranho surrealismo tropical. Para o brasileiro é uma vergonha nacional. Ele não come mas tem vergonha de dizer isto; e, sobretudo, não sabe de onde vem esta fome. Sabemos nós – que fizemos estes filmes feios e tristes, estes filmes gritados e desesperados onde nem sempre a razão falou mais alto – que a fome não será curada pelos planejamentos de gabinete e que os remendos do tecnicolor não escondem mas agravam seus tumores. Assim, somente uma cultura da fome, minando suas próprias estruturas, pode superar-se qualitativamente: e a mais nobre manifestação cultural da fome é a violência. […] A mendicância, tradição que se implantou com a redentora piedade colonialista, tem sido uma das causadoras de mistificação política e da ufanista mentira cultural: os relatórios oficiais da fome pedem dinheiro aos países colonialistas com o fito de construir escolas sem criar professores, de construir casas sem dar trabalho, de ensinar o ofício sem ensinar o analfabeto. A diplomacia pede, os economistas pedem, a política pede; o cinema novo, no campo internacional, nada pediu: impôs-se a violência de suas imagens e sons em 22 festivais internacionais”. (Glauber Rocha em ‘Revolução do Cinema Novo’)

Como maior aliado teórico desse movimento, Glauber defende a violência como a mais nobre manifestação cultural da fome, e aponta a fome como vergonha nacional: “Ele [o povo brasileiro] não come mas tem vergonha de dizer isto”. Esse trecho fez-me refletir sobre alguns filmes recentes da nossa cinematografia: ‘Cidade de Deus’ (2002), ‘Tropa de Elite’ (2007) e ‘Que Horas Ela Volta?’ (2015). No caso dos filmes de Fernando Meirelles e José Padilha, ambos com grande repercussão internacional, a rejeição por uma parte do público brasileiro se pautava na mesma justificativa: mancham a imagem do Brasil no exterior. De forma velada, o mesmo aconteceu com o filme de Anna Muylaert. Um texto de Nina Lemos chamado ‘Assistir Que Horas Ela Volta na Europa’ publicado na Revista Trip no ano de lançamento do longa-metragem e intensamente compartilhado nas redes sociais, relatava a vergonha da autora em assistir ao filme ao lado de uma plateia europeia.

“Não há quem, neste mundo de hoje dominado pela técnica, não tenha sido influenciado pelo cinema. Mesmo que nunca tenha ido ao cinema em toda vida, o homem recebe influências do cinema: as culturas mais nacionais não resistiriam a uma certa forma de comportamento, a uma certa noção de beleza, a um certo moralismo e, sobretudo, ao estímulo fantástico que o cinema faz à imaginação. Os reflexos se fazem a curto e longo prazo e a sedimentação de uma cultura cinematográfica é fato profundo na vida contemporânea. Não se pode porém falar de cinema sem se falar em cinema americano. Esta noção de cinema com cinema americano é praticamente a mesma coisa: essa influência do cinema é pois uma influência do cinema americano, como forma mais agressiva e difundida da cultura americana sobre o mundo. Esta influência atingiu inclusive o próprio público americano de tal forma que o público, condicionado, passou a exigir do cinema uma imagem à sua própria semelhança. Monstro produtor de ilusões e devorador de alienações, o cinema americano não pôde deixar de gerar similares que logo sentiram a necessidade de devorar o pai para sobreviver”. (Glauber Rocha em ‘Revolução do Cinema Novo’)

Fortemente influenciado pelo cinema americano, uma parte do público brasileiro rejeita os filmes nacionais. Sabemos que existem favelas no Brasil, mas sentimos vergonha de vê-las expostas na tela. Sabemos que existe corrupção na polícia, mas não queremos que os estrangeiros saibam disso. Conhecemos bem, seja de um lado ou de outro, a relação da classe A e B com suas empregadas domésticas, mas ficamos constrangidos se um filme que aborda o assunto é exibido fora do país.

“Muito mais próximos econômica e culturalmente dos Estados Unidos do que da Europa, os nossos espectadores têm uma imagem da vida através do cinema americano. Quando um cidadão brasileiro pensa em fazer seu filme, ele pensa em fazer um filme “à americana”. E é por isto que o espectador brasileiro de um filme brasileiro exige, em primeira instância, um filme “brasileiro à americana”. Se o filme, por ser nacional não é americano, decepciona. O espectador condicionado impõe uma ditadura artística a priori ao filme nacional: não aceita a imagem do Brasil vista por cineastas brasileiros porque ela não corresponde a um mundo tecnicamente desenvolvido e moralmente ideal como se vê nos filmes de Hollywood. Assim, não é mistério quando um filme brasileiro faz sucesso popular: todos os filmes brasileiros que fazem sucesso são aqueles que, mesmo abordando temas nacionais, o fazem utilizando uma técnica e uma arte imitadas do americano”. (Glauber Rocha em ‘Revolução do Cinema Novo’)

Quando alguém elogia um filme nacional dizendo que ele “nem parece brasileiro”, é porque ele de fato, não é brasileiro. Está completamente desprovido de personalidade, de identidade. É uma simples cópia. Atualmente, os filmes brasileiros que alcançam sucesso nacional ou internacional continuam sendo os que de um modo ou de outro imitam as técnicas do cinema americano. O que justifica a teoria de Glauber de que “o público, condicionado pela ideologia de Hollywood, é igual em todas as partes do mundo”. Então, como construir uma cultura nacional?

“O cinema é uma indústria geradora de cultura. Se o cinema americano gerou um tipo de gosto e se o cinema brasileiro, para se desenvolver, precisa seguir o caminho mais fácil, que é utilizar as formas americanas, o cinema industrial brasileiro será apenas um gerador em maior potência da cultura de dominação. Esta cultura, inclusive, poderia ser francesa, russa ou belga: não importa. Num país subdesenvolvido é fundamental que a sociedade adquira um comportamento nascido das condições de sua estrutura econômica. O primeiro desafio ao cineasta brasileiro é este: como conquistar o público sem usar as formas americanas, hoje já diluídas em outras subformas europeias? Este impasse, que reflete a noção moderna das civilizações subdesenvolvidas tropicais, tem uma repercussão moral dupla e diversa: sobre o cineasta que “produz a imitação”, e sobre o público que “recusa a original””. (Glauber Rocha em ‘Revoluções do Cinema Novo’)

A única saída para a indústria nacional é tomar consciência de nossas tradições. É preciso modernizar-se através do passado, ou seja, olhar para nossas raízes, como Mário de Andrade fez em ‘Macunaíma’, livro que causou dificuldade de apreensão desde sua primeira edição em 1928. No livro, o autor paulista resgata vários mitos indígenas, além de lendas e provérbios do folclore brasileiro. Como uma obra tão enraizadamente nacional pode ainda nos soar estranha, mesmo 89 anos depois? No final do livro [pule para o parágrafo seguinte se não quiser ler revelações do enredo], o protagonista Macunaíma, herói de nossa gente, se aborrece de tudo e vira uma estrela, passando a viver solitário do brilho inútil das estrelas no céu. Isso é muito simbólico.

“O público não quer saber de nada disto, ele vai ao cinema para se divertir mas encontra na tela um filme nacional que exige dele um esforço anormal para estabelecer um diálogo com um cineasta que faz, de sua parte, um esforço anormal para falar com o público… em outra linguagem! Sobre esta “linguagem” as discussões são prolixas e reveladoras. O cinema novo, recusando o cinema de imitação e escolhendo uma outra linguagem, recusou também o caminho mais fácil desta “outra linguagem”. Esta outra linguagem, típica das chamadas artes nacionalistas, é o “populismo”. É reflexo de uma atitude política muito nossa. Como o caudilho, o artista se sente pai do povo: a palavra de ordem é “vamos falar coisas simples que o povo entenda”. Considero um desrespeito ao público, por mais subdesenvolvido que ele seja, “fazer coisas simples para um povo simples”. Em primeiro lugar o povo não é simples. Doente, faminto e analfabeto, o povo é complexo. O artista/paternalista idealiza os tipos populares, sujeitos fabulosos que mesmo na miséria têm sua filosofia e, coitados, precisam apenas de um pouco de “consciência política” para, de uma aurora para outra, inverter o processo histórico.” (Glauber Rocha em ‘Revolução do Cinema Novo’)

Em ‘Macunaíma’, podemos constatar um esforço anormal por parte de alguns leitores para estabelecer um diálogo com Mário de Andrade que, por sua parte, fez um esforço anormal (ou não) para nos falar em outra linguagem, a brasileira, que deveria também ser a nossa. Possuímos uma cultura rica e esquecemos isso, tão submissos somos ao que vem de fora. No entanto, mesmo importada, se a obra não apresentar uma cópia da linguagem vigente, essa criação também será rejeitada. O sedentarismo mental da plateia dificulta o diálogo entre público e arte/artista. Para Glauber, o público se recusa a seguir o filme mas quer que o filme siga suas ideias.

“A colonização econômica de nosso cinema gera a colonização cultural do nosso povo. O povo brasileiro é inconscientemente deformado pela visão moral e artística do cinema americano e por isto inconscientemente venera e respeita os Estados Unidos. O fenômeno é igual na América Latina. Hollywood, impondo sua civilização através do cinema, debilita psicologicamente o povo e consolida sua penetração. Se alguém achar que estou mentindo é só fazer uma pesquisa. A colonização do povo pelo cinema hollywoodiano atinge as classes médias e proletária. A burguesia é colonizada “esteticamente” pelo cinema euro-americano. Inconscientemente, duas a três gerações de intelectuais brasileiros foram colonizadas pelo cinema euro-americano. Formou-se uma linguagem. Modelos. Chavões. Clichês. A colonização é um vírus tão forte que contamina até mesmo os espíritos mais nacionalistas. Esta burguesia colonizada produziu um grupo de críticos e cineastas que há muitos anos colabora direta ou indiretamente para a permanência do cinema euro-americano no Brasil e consequentemente sabota o desenvolvimento do cinema nacional. […] Este grupo, colonizado, frustrado, desesperado raciocina abstratamente sobre cinema nacional. Ninguém ousa discutir as estruturas econômicas do cinema nacional. Discutem apenas a estética do cinema nacional. A colonização gerou neles o complexo de que “cineasta brasileiro não sabe fazer filme”. Escreveram isto nos jornais. Excitaram o público e os intelectuais contra o cinema nacional. Botaram a esquerda e a direita contra o cinema nacional. O cineasta brasileiro é uma vítima solitária. Ninguém perdoa a ele o ato de ousar fazer um filme no Brasil. É isto exatamente o que desejam: desmoralizar o cinema brasileiro a fim de que não se crie indústria nacional e o mercado econômico e moral de um povo fique nas mãos dos americanos”. (Glauber Rocha em ‘Revolução do Cinema Novo’)

A inércia mental é tão grave que boa parte do público não consegue assimilar obras com linguagens originais. Fenômeno esse que passei a chamar de Disfagia Cultural. Disfagia é o nome dado à dificuldade para deglutir alimentos, secreções, líquidos ou saliva, desde o seu trajeto inicial na boca até sua transição do esôfago para o estômago. Apesar de não ser uma doença, a disfagia pode trazer prejuízos às condições pulmonares e nutricionais, como desnutrição e desidratação. Por sua vez, a Disfagia Cultural seria a dificuldade de consumir e assimilar obras de arte originais. Condicionado, o público recusa o novo. Desta forma, a arte nacional é estrangeira dentro do próprio país. O mercado audiovisual brasileiro produz mais de 120 filmes longa-metragem por ano, o que dá uma média de um filme brasileiro novo a cada 3 dias. No entanto, esses mesmos filmes representam, segundo dados da ANCINE, apenas 15% do conteúdo consumido pelo público.

“Com a consciência de classe. É necessário que os camponeses pobres se organizem para trabalhar a terra e vender seus produtos no mercado. As pessoas preferem os potes de conservas importados; ninguém tem a coragem de dizer-lhes que o leite de coco é melhor do que a coca-cola”. (Glauber Rocha em ‘Revolução do Cinema Novo’)

Em seu livro ‘O Baú do Raul’, nosso saudoso Raul Seixas diz que “o brasileiro não faz História; ele é um espectador da História”. Como discordar disso quando colocados diante dos números da ANCINE? Consumindo apenas conteúdo estrangeiro, deixamos de ser protagonistas de nossa própria história. Somos coadjuvantes em nosso próprio país. Em ‘Brejo das Almas’, de 1934, Carlos Drummond de Andrade incluiu um poema chamado ‘Hino Nacional’, em que dizia que precisamos descobrir o Brasil:

Precisamos descobrir o Brasil!
Escondido atrás das florestas,
com a água dos rios no meio,
o Brasil está dormindo, coitado.
Precisamos colonizar o Brasil.
[…]
Precisamos, precisamos esquecer o Brasil!
Tão majestoso, tão sem limites, tão despropositado,
ele quer repousar de nossos terríveis carinhos.
O Brasil não nos quer! Está farto de nós!
Nosso Brasil é no outro mundo. Este não é o Brasil.
Nenhum Brasil existe. E acaso existirão os brasileiros?

Precisamos urgentemente descobrir o Brasil. Não é questão de patriotismo e sim de sobrevivência. Vivemos sufocados por culturas que não são nossas enquanto a cultura brasileira morre. Estamos perdendo nossa identidade. Estamos riscando o Brasil do mapa. Um povo camuflado de culturas que não a sua deixa de existir para reproduzir em maior escala a cultura dominante. Estamos nos rebelando contra nossa própria cultura, estamos destruindo-a, eliminando-a.

“É função do artista violentar – o artista é sempre a esquerda eterna, lógico ou anárquico – o artista só começa a se negar quando adere à ordem estabelecida, quando deixa de exercer seu poder crítico sobre o mundo, sobre o Estado, sobre o conformismo burguês, sobre o gosto fácil. O artista é um ser em oposição – se ele vive no fascismo é antifascista, se vive no Brasil subdesenvolvido e faminto ou na África do Norte colonizada é um revolucionário, usando cabeça e coração para defender e libertar o homem do totalitarismo”. (Glauber Rocha em ‘O Século do Cinema’)

Glauber questionava: dar ao público o que o público quer será uma forma de conquista ou de aproveitamento do condicionamento cultural do público? Mostrar o que o público não conhece não seria então o verdadeiro caminho pela conquista desse público? Afinal, não é função do artista provocar?

Arte no Brasil (ou em qualquer país do Terceiro Mundo) tem sentido, sim senhor! Pobre do país subdesenvolvido que não tiver uma arte forte e loucamente nacional porque, sem sua arte, ele está mais fraco (para ser colonizado na cuca) e essa é a extensão mais perigosa da colonização econômica. É PRECISO CONTINUAR A FAZER CINEMA NO BRASIL. (Glauber Rocha em ‘O Século do Cinema’)

As pessoas podem até preferirem beber coca-cola, e podem até dizer que ela ou outra bebida qualquer são melhores que o leite de coco. Embora talvez pareça, essa não é uma questão de gosto. Outras bebidas podem até ser melhores, e concordo que a coca-cola é a mais poderosa delas, sendo até onipresente. É mesmo muito difícil competir. No entanto, o leite de coco é o melhor para o Brasil, e para a cultura brasileira. Sendo, desta forma, também o melhor para os artistas brasileiros e brasileiras que lutam pelo direito de existir.

tempo bom

“Vamo brincá?” É o que ouço da afilhada de dois aninhos da minha irmã sempre que ela me vê. Essa é a única preocupação dela, brincar. Não se contenta em brincar sozinha, alguém tem que ficar brincando com ela o tempo todo, e se irrita quando não encontra um parceiro. O mundo para ela é um grande parque de diversões. Viver é brincar. Tempo bom. Não lembro como chegamos a esse assunto, mas, conversando com meu cunhado há algumas semanas atrás, começamos a falar dos desenhos que assistíamos quando crianças. Com quase dez anos de diferença separando nossos nascimentos, ele falava dos desenhos que assistia no final dos anos oitenta enquanto eu falava dos que via, quando criança, no final dos anos noventa e início dos anos dois mil. Ficamos alguns bons minutos citando o nome de vários desenhos para sabermos quais deles nós dois havíamos assistido. Com essa análise, cheguei à conclusão de que abandonei os desenhos cedo, assisti pouco, ou melhor, vi muitos desenhos em um pequeno período de tempo. Minha paixão por cinema nasceu prematura. Estudei até os nove anos no turno da manhã. Até essa época, minha única preocupação era sair correndo da aula para chegar em casa a tempo de ver os desenhos. Com dez anos, fui para o turno da tarde. Foi quando iniciei minha cinefilia. Minha única preocupação era não perder os filmes da sessão da tarde. Inventei muitas doenças para poder faltar aula durante esse período. Depois, mais crescido, descobri as sessões da madrugada. Tempo bom. Recentemente, conversando com uma amiga do ensino médio que não mora mais na cidade em que vivo, combinamos de nos encontrar em dezembro, quando ela vem visitar a família. Papo vai, papo vem, começamos a relembrar nossas histórias de colégio. Quando nos encontramos, fazemos mais isso do que qualquer outra coisa. Ao encerrarmos a conversa, ela nostalgicamente comenta: “tempo bom”. Entendemos por tempo bom o nosso passado, sem nos dar conta de que nosso presente um dia também será passado, e muito provavelmente sentiremos saudades dele. Sei que daqui a alguns anos, quando chegar aos trinta, terei por tempo bom minha fase atual, na casa dos vinte. Quando chegar aos quarenta, os trinta serão uma lembrança boa. Quando completar cinquenta, sessenta (se chegar até lá), sentirei que o tempo passou rápido demais. O grande arquiteto Paulo Mendes da Rocha costuma contar que, na festa de aniversário de noventa anos do também grandessíssimo arquiteto Oscar Niemeyer, ele lhe perguntou qual a sua idade, ao que Paulo respondeu: “setenta”. Ao ouvir isso, Oscar teceu o seguinte comentário: “essa é uma bela idade, noventa é uma merda”. Niemeyer viveria ainda catorze anos. É preciso viver o tempo bom enquanto ele está sendo bom. Não dá para reviver o que já passou. Nostalgia é apenas isso, nostalgia. Não faz sentido considerar o presente bom apenas no futuro, quando ele já for passado. Se o presente vai ser bom um dia, que seja hoje, agora.

boi-leitor

Glauber Rocha inicia ‘Riverão Sussuarana’, seu único romance, publicado originalmente em 1978, com duas resenhas literárias escritas e publicadas por ele em 1956, quando o mesmo tinha apenas dezessete anos. Em um desses textos, ele atribui a seguinte frase a Guimarães Rosa: “Minha literatura é pra bois. Não é para ser engolida de vez”. Hoje, lendo ‘A Normalista’, de Adolfo Caminha, deparei-me com a cena em que a personagem Maria do Carmo lê e relê a carta de amor que recebeu de Zuza, o quintanista de direito. Maria lê como uma ruminante. Quem já recebeu uma carta de amor, um bilhete, que seja, sabe que só passar os olhos rapidamente pela tinta no papel não é suficiente. Como uma leitura só não basta, relemos, interpretamos, lemos nas entrelinhas. Tentamos decifrar o sentido de cada palavra, cada vírgula. Analisamos o dito e o não dito. Não engolimos de vez. Com o tempo curto diante de tantos clássicos e tantas publicações interessantes, é angustiante ver a lista de livros para ler antes de morrer só aumentar. É preciso lutar contra a vontade de ler mais rápido diante do desejo de ler como um boi. Ler tudo o que quero é uma guerra já perdida. Por isso, tenho que me contentar em vencer as batalhas que me cabe lutar, ou seja, os livros que terei a oportunidade de ler antes de morrer. Saber aproveitar bem cada obra, extraindo dela o máximo possível. Como um ruminante. Para isso, tratarei cada livro, a partir de hoje, como uma declaração de amor dos autores para mim.

comprei uma caneta

Hoje fiz algo que há muitos anos eu não fazia: comprei uma caneta. Azul. Não gosto de escrever com canetas de tinta preta, pois acho que minha letra fica feia – não que ela seja bonita. O que é muito irônico, porque o preto é minha cor favorita – minhas camisas que o digam. Isso não significa que escrevo pouco. Sem exageros, posso afirmar que não há um dia sequer em que não anote algo em algum dos meus muitos cadernos. Embora esse seja outro material que também não compro com frequência, lembro bem da compra do último – e lá se vão mais de quatro anos. Não herdei uma papelaria da família, se é isso que cê tá pensando. No entanto, o ato de comprar essa caneta me fez considerar que, indiretamente, sim, venho “herdando” uma papelaria. Meus pais – em especial meu pai – sempre supriram minhas necessidades com relação a papel e caneta, sem que eu sequer precisasse pedir. Antes mesmo desses materiais acabarem, sempre surgia alguém para me presentar e, na grande maioria das vezes, sem que fosse meu aniversário. Meu pai, quando ganha canetas diferentes em eventos, nunca faz questão de usá-las, e me presenteia com muito gosto, porque sabe que ficarei feliz. Isso ainda é um reflexo da minha adolescência, quando cheguei a colecionar canetas e, com a ajuda de todos, consegui reunir um número bastante expressivo. Porém, desisti da coleção. Não quero colecionar mais nada além de livros. Minha mãe, tios e amigos já me presentearam com canetas e cadernos. Não sei se isso é comum, pois pouquíssimas vezes dei esse tipo de presente para alguém. Minha irmã é outra que me presenteia constantemente. Caneta comigo vai até o fim, não fica uma gota de tinta para contar história. Faço anotações em todos os lugares. Já deixo o caderno aberto dentro da mochila para facilitar as anotações quando estou dentro do ônibus. Então hoje, ao comprar essa caneta, passei a refletir, pela primeira vez, sobre o fato de ganhar esses presentes. Seria da parte deles, um ato de reconhecimento da minha paixão pela escrita? Será que eles já me consideram um roteirista, mesmo que nenhum dos meus roteiros tenha virado um longa-metragem? Pensar que sim, mesmo que eles não o façam conscientemente, faz com que eu me sinta acarinhado. Contudo, escrevendo essas linhas, acredito ter lembrado da última vez em que comprei uma caneta. Foi quando fiz a prova do ENEM, se não me engano. Como o exame só aceita caneta de tinta preta e, já que eu não tinha nenhuma – pelo motivo que expliquei acima -, tive que comprar. Depois da prova me livrei delas, mas não lembro para quem as dei. De toda forma, esse já foi o ano em que mais li na vida, pelo menos desde quando comecei a anotar o título das minhas leituras. Fato esse que muito contribuiu para o aumento de anotações, além dos meus próprios textos e ideias. Foi desta maneira que, nesse ano, fui acabando com uma caneta atrás da outra e, antes que acabasse com a última de tinta azul, resolvi comprar mais uma. Nos últimos meses, não ganhei caneta de ninguém. No último aniversário, ganhei livros. Será que eles já estão pensando que eu fracassei e que só tenho futuro como leitor? Não sei, prefiro acreditar que eles não estão conseguindo acompanhar o ritmo das minhas anotações. Ainda que eu mesmo possa suprir essa minha necessidade, confesso que se eu não ganhar nenhuma caneta no próximo aniversário, vou começar a ficar preocupado.

ponto de encontro

Já faz sete anos que, em meio a muitas promessas de nunca deixarmos de nos ver, meus amigos de turma e eu concluímos o último ano do ensino médio. Posso dizer orgulhosamente que tentamos, e que durante um ano, pouca coisa havia mudado. Saíamos juntos, sabíamos da vida uns dos outros e frequentávamos as festas de aniversário de todos do grupo. Não sei dizer quando tudo mudou, quando já não saíamos mais, quando perdemos os números de telefone ou quando esquecemos as datas dos aniversários. Parece que foi ontem, mas em sete anos muita coisa mudou. Muita gente se formou, alguns poucos trocaram de cidade, muitos casaram e outros, mesmo sem casar, tiveram filhos. Apesar da amizade sincera, meus amigos de turma e eu nunca tivemos os mesmos interesses. Não gostávamos dos mesmos filmes, das mesmas músicas, dos mesmos livros. Apesar de sempre ter sido o mais estranho, era muito bem aceito e compreendido. Hoje vejo o quanto essa separação foi natural. O que nos unia era o colégio e se não há interesses em comum, nada mais normal que essas pessoas – “obrigadas” a conviver juntas todos os dias – se separem com o tempo. Uma vez distantes, a diferença acentuada de gostos fez com que nunca mais nos encontrássemos nos locais públicos. Afinal, não frequentamos os mesmos lugares. É comum ver, quase todo final de semana, fotos de alguns deles nas redes sociais em algum dos muitos shoppings da cidade. Como não gosto de shopping, nunca nos esbarramos. Também não frequentamos os mesmos cinemas, e nem comparecemos aos mesmos shows das bandas que visitam a cidade. A universidade também não se transformou em um ponto de encontro. Como absolutamente ninguém da minha turma, além de mim, decidiu viver de arte, meu campus sempre ficou isolado até mesmo dos que cursaram a mesma universidade que eu. Apesar disso, quando menos espero, encontro alguém em algum ônibus da vida. Encontramo-nos sempre em movimento. Às vezes, no mesmo ônibus, um está indo e o outro voltando. O local não ajuda. A conversa é sempre rápida e superficial. Isso quando há conversa. Não raro alguém finge não me reconhecer para evitar uma conversa forçada entre duas pessoas que não estão nada interessadas no que a outra tem para dizer. Não os censuro, pois eu também faço isso de quando em vez. Quando conversamos, podemos sentir que o carinho ainda está ali, pairando entre nós, mas é só isso, um carinho nostálgico. As conversas sempre orbitam entre o presente (para nos atualizarmos das vidas uns dos outros) e do passado (para revivermos boas lembranças). Perguntamos sempre por alguém, na esperança de obter alguma notícia. Sete anos ainda não foi o suficiente para realizar muitas mudanças físicas. Todo mundo ainda está meio igual. Com exceção dos galãs da turma, que hoje não fazem mais sucesso nem dentro do ônibus. Isso é muito curioso. De toda forma, preciso olhar duas vezes para me certificar de que não estou vendo a pessoa errada. Isso quando dá tempo. É tudo muito rápido. Estamos sempre indo e vindo, ocupados em viver nossas vidinhas. Não raro tenho a sensação de ver alguém conhecido quando estou próximo de descer do ônibus; quando vou ver, já foi.

focar é preciso, viver não é preciso

Universidade. Dinheiro. Namorado. Artigo. Família. Decisões. Política. Brasília. Amigos. Cinema. Pressão. Viagem. Trabalho. Interesses. Blogue. Escolhas. Mercado. Procrastinação. Mudanças. Deveres. Saúde. Competição. Medo. Preguiça. Reuniões. Livros. Desafios. Angústias. Tempo. Tempo. Tempo. Redes sociais. Sonhos. Sono. Insônia. Cochilar menos. Cochilar menos e dormir mais. Dormir mais e melhor. Metas. Meta de leituras atrasada. Meta de filmes atrasada. Estreias que quando vejo já são passado. É preciso ter foco. No cinema, o foquista é o profissional responsável por cuidar do foco no momento da filmagem. A direção de fotografia no cinema é algo complexo e, em muitos casos, é necessário duas pessoas para operar a câmera: o operador e o foquista. O câmera segue os direcionamentos do fotógrafo e o foquista, por sua vez, segue os direcionamentos do operador. Sempre gostei de fotografias sujas no cinema, planos desfocados, enquadramentos estranhos, cortes secos, luz natural, imagens sem os famosos e irritantes filtros para agradar nosso olhar. Preciso manter o foco e aprender a ser o melhor foquista possível para esse plano sequência que é minha vida. Está difícil ser Cinema Novo. Está difícil ser câmera na mão.

o L de LGBT não significa lucro

Não é de hoje que se discute muito sobre o poder de consumo do público LGBT, assim como não é de hoje que esse assunto muito me preocupa. Quero realmente acreditar que as empresas que estão atualmente usando casais gays em seus anúncios o fazem para se atualizar. Esse deve ser um gesto de adequação, e não de oportunismo. No entanto, não sou tão ingênuo a ponto de acreditar cegamente nisso. Essas estatísticas que dizem que o potencial de consumo do público LGBT no Brasil equivale a mais ou menos 10% do PIB do país são, como o próprio nome diz, apenas dados probabilísticos. Somos iguais e devemos ser respeitados apenas por que temos poder aquisitivo? Consumimos e nos endividamos como qualquer outra pessoa. Também saímos para jantar, também viajamos, também frequentamos festas, etcetera, etcetera. Esse papo de que os LGBTs configuram um cenário de melhor escolaridade e que, por isso, ocupam boas posições de mercado me parece um tanto quanto fantasioso. Admito que posso estar enganado, mas conheço poucos gays declarados presidindo grandes empresas ou ocupando cargos públicos importantes. É preciso fazer um recorte, nem todos estão inseridos entre as classes A e B. E os gays periféricos? E as outras minorias? Só ganharão representatividade na sociedade e conquistarão a atenção das empresas quando puderem consumir em grande quantidade? Torço por mais propagandas plurais, mas pelo motivo certo: porque os consumidores são, de fato, plurais. Não consigo enxergar o mercado como um defensor dos fracos e oprimidos. Sempre existiram gays no mundo, mas só agora as empresas voltaram suas atenções para esse público. Antes tarde do que nunca, eu sei. Também acredito que muitas delas estão com boas intenções, mas o consumo não pode ser a única ferramenta para inserir uma minoria na sociedade. Esse caminho é selvagem demais. Devemos ser respeitados pelo que somos: seres humanos. O respeito é nosso por direito, não devemos ter que comprá-lo.

o não você já tem

Você que nunca teve que se declarar para uma pessoa e, consequentemente, pedi-la em namoro: que triste. Concordo que é ótimo (pelo menos para a autoestima) quando alguém se declara para nós, mas quem só viveu esse lado da moeda não conhece a adrenalina que é anunciar o seu amor por outra pessoa. Corre que ainda dá tempo, se você está gostando de alguém neste momento, não deixe para depois, coragem: o não você já tem. Essa frase, tão dita e redita em casos amorosos e, aparentemente, de viés ingênuo – praticamente só utilizada na adolescência – é um verdadeiro mantra de bravura. Costumo utilizá-la no dia a dia sempre que possível. Nessa atual conjuntura de crise, em que está tão difícil conseguir um emprego, as pessoas fazem mais entrevistas do que de costume, haja vista que o número de candidatos é escandalosamente maior que o número de vagas ofertadas. Pelo menos ao meu redor, meus amigos nunca fizeram tantos processos seletivos quanto no último ano. Essas entrevistas continuam, pois pouquíssimos deles conseguiram retornar ao mercado de trabalho. Praticamente toda semana, alguém do meu ciclo social me informa que está tentando uma vaga. Esses informes quase sempre vêm acompanhados do comentário “torce por mim”. Não acredito em sorte, não posso ser hipócrita a ponto de prometer ficar torcendo. Acredito em bons currículos e, principalmente, em uma boa entrevista. Quem se sair melhor, falar melhor e demonstrar mais segurança tem mais chances. O que faço então é tentar tirar o nervosismo e a ansiedade dessas pessoas, dizendo mais ou menos o seguinte: você já está sem emprego, não vai perder nada, o não você já tem. O único risco que a pessoa corre é de sair da entrevista com a carteira assinada (ou seja, só tem a ganhar). Somos muito mais corajosos quando não temos nada a perder. No esporte, há vários exemplos de times mais fracos que vão com tudo para cima dos times mais fortes, afinal, já se espera que eles sejam derrotados. É quando surpreendem e acabam vencendo. Quando não somos selecionados pela empresa, o sentimento é ruim, a sensação é de derrota. Sei que é péssimo continuar desempregado e ver a situação financeira muitas vezes piorar, mas teoricamente não perdemos nada. Sem emprego estávamos, sem emprego continuamos. Não me considero uma pessoa otimista, mas ver a situação por esse ângulo nos ajuda a superar mais rápido e partir para a próxima tentativa com a mesma (talvez maior) garra. Não somos perdedores, o não nós já temos, busquemos nosso sim.

vítima da inércia

Sinto saudades de quando Fernando Meirelles dirigia filmes. Ele costumava criar um blogue por longa-metragem, em que escrevia sobre os processos de pré-produção, filmagens, pós-produção, etc., embora ele sempre os abandonasse sem mais nem menos quando o filme estava próximo do seu lançamento. Sempre tive a sensação de que só eu conhecia esses blogues, pois nunca ouvi alguém falar sobre eles. Na página de 360, de 2012, ele escreveu o seguinte: “Sou uma vítima da inércia. […] me pego com aquela conhecida sensação de ter dado um passo errado ao entrar neste filme. Sob o peso do grande esforço que é começar a colocar esta enorme máquina em movimento penso: Tudo estava tão bem em São Paulo, para que me coloco nestas situações?”. Sei que essa sensação não é privilégio de cineastas, mas é exatamente o que sinto sempre que entro em um projeto novo. Atualmente, estou dirigindo um curta-metragem e já rodamos 70% das cenas. A pré-produção começou logo no início do ano e tivemos que correr para filmar a tempo no dia 28 de abril, na greve geral. Depois fizemos uma pausa para pré-produzir as próximas cenas e voltamos a filmar no final de maio. No final deste mês e início de julho, filmaremos as últimas sequências. Foi por esse motivo que este blogue ficou abandonado por tanto tempo. Sinceramente, acreditei que não voltaria mais a publicar aqui, mas hoje deu vontade de contar-lhes o motivo de minha ausência, pois alguns leitores carinhosos me escreveram perguntando o que havia acontecido. Bom, agora vocês já sabem: eu estava bem aqui na minha casa, vivendo tranquilamente, e me coloquei nesta situação. Sempre que estou em um projeto novo digo para mim mesmo que demorarei muito tempo para entrar em outro, mas isso sempre acontece no processo de pré-produção. É o trabalho mais difícil: montar uma equipe, escalar elenco, conseguir as locações, fechar cronogramas, conseguir equipamentos, patrocínio, objetos de cena, figurinos e por aí vai. Durante as filmagens tudo isso passa, e ficamos tristes quando o filme se aproxima do fim. Algumas semanas antes de filmar, eu havia sido assaltado, e não fiquei nervoso em momento algum, mesmo com uma faca apontada para mim. No entanto, quanto mais o dia das filmagens se aproximava, mais nervoso eu ficava. É esse frio na barriga que também faz de mim uma vítima da inércia. Quando o filme acabar e eu finalmente puder descansar, não conseguirei ficar parado por muito tempo, pois vou querer sentir toda essa adrenalina novamente. Em teoria, estou com duas semanas de folga. Digo teoricamente porque ainda terei que resolver algumas burocracias antes de entrar na curva final. O blogue completou dois anos dia 1 de junho e eu nem tive tempo de escrever algo especial. Eu havia até preparado um texto sobre isso, mas não consegui concluir. Fica para o aniversário de três anos. Isso se ele chegar até lá. Eu voltei, mas não sei se para ficar. Neste mesmo blogue do Fernando, ele escreveu a seguinte frase: “Antes as ideias aproveitavam qualquer brecha para entrar, hoje, prefiro ajudá-las, criando um certo espaço mental para elas aparecerem”. Ideias não me faltam, mas elas nem sempre chegam no momento certo. Por essa razão, prefiro aproveitar todo tempinho de folga para respirar em prol do projeto. Talvez eu volte a escrever aqui durante esse período, mas não prometo nada. Para encerrar, deixo com vocês um documentário que fiz com Lola Aronovich no início do ano. Espero que gostem. Abraçaço.

Escreva Lola Escreva