tempo bom

“Vamo brincá?” É o que ouço da afilhada de dois aninhos da minha irmã sempre que ela me vê. Essa é a única preocupação dela, brincar. Não se contenta em brincar sozinha, alguém tem que ficar brincando com ela o tempo todo, e se irrita quando não encontra um parceiro. O mundo para ela é um grande parque de diversões. Viver é brincar. Tempo bom. Não lembro como chegamos a esse assunto, mas, conversando com meu cunhado há algumas semanas atrás, começamos a falar dos desenhos que assistíamos quando crianças. Com quase dez anos de diferença separando nossos nascimentos, ele falava dos desenhos que assistia no final dos anos oitenta enquanto eu falava dos que via, quando criança, no final dos anos noventa e início dos anos dois mil. Ficamos alguns bons minutos citando o nome de vários desenhos para sabermos quais deles nós dois havíamos assistido. Com essa análise, cheguei à conclusão de que abandonei os desenhos cedo, assisti pouco, ou melhor, vi muitos desenhos em um pequeno período de tempo. Minha paixão por cinema nasceu prematura. Estudei até os nove anos no turno da manhã. Até essa época, minha única preocupação era sair correndo da aula para chegar em casa a tempo de ver os desenhos. Com dez anos, fui para o turno da tarde. Foi quando iniciei minha cinefilia. Minha única preocupação era não perder os filmes da sessão da tarde. Inventei muitas doenças para poder faltar aula durante esse período. Depois, mais crescido, descobri as sessões da madrugada. Tempo bom. Recentemente, conversando com uma amiga do ensino médio que não mora mais na cidade em que vivo, combinamos de nos encontrar em dezembro, quando ela vem visitar a família. Papo vai, papo vem, começamos a relembrar nossas histórias de colégio. Quando nos encontramos, fazemos mais isso do que qualquer outra coisa. Ao encerrarmos a conversa, ela nostalgicamente comenta: “tempo bom”. Entendemos por tempo bom o nosso passado, sem nos dar conta de que nosso presente um dia também será passado, e muito provavelmente sentiremos saudades dele. Sei que daqui a alguns anos, quando chegar aos trinta, terei por tempo bom minha fase atual, na casa dos vinte. Quando chegar aos quarenta, os trinta serão uma lembrança boa. Quando completar cinquenta, sessenta (se chegar até lá), sentirei que o tempo passou rápido demais. O grande arquiteto Paulo Mendes da Rocha costuma contar que, na festa de aniversário de noventa anos do também grandessíssimo arquiteto Oscar Niemeyer, ele lhe perguntou qual a sua idade, ao que Paulo respondeu: “setenta”. Ao ouvir isso, Oscar teceu o seguinte comentário: “essa é uma bela idade, noventa é uma merda”. Niemeyer viveria ainda catorze anos. É preciso viver o tempo bom enquanto ele está sendo bom. Não dá para reviver o que já passou. Nostalgia é apenas isso, nostalgia. Não faz sentido considerar o presente bom apenas no futuro, quando ele já for passado. Se o presente vai ser bom um dia, que seja hoje, agora.

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boi-leitor

Glauber Rocha inicia ‘Riverão Sussuarana’, seu único romance, publicado originalmente em 1978, com duas resenhas literárias escritas e publicadas por ele em 1956, quando o mesmo tinha apenas dezessete anos. Em um desses textos, ele atribui a seguinte frase a Guimarães Rosa: “Minha literatura é pra bois. Não é para ser engolida de vez”. Hoje, lendo ‘A Normalista’, de Adolfo Caminha, deparei-me com a cena em que a personagem Maria do Carmo lê e relê a carta de amor que recebeu de Zuza, o quintanista de direito. Maria lê como uma ruminante. Quem já recebeu uma carta de amor, um bilhete, que seja, sabe que só passar os olhos rapidamente pela tinta no papel não é suficiente. Como uma leitura só não basta, relemos, interpretamos, lemos nas entrelinhas. Tentamos decifrar o sentido de cada palavra, cada vírgula. Analisamos o dito e o não dito. Não engolimos de vez. Com o tempo curto diante de tantos clássicos e tantas publicações interessantes, é angustiante ver a lista de livros para ler antes de morrer só aumentar. É preciso lutar contra a vontade de ler mais rápido diante do desejo de ler como um boi. Ler tudo o que quero é uma guerra já perdida. Por isso, tenho que me contentar em vencer as batalhas que me cabe lutar, ou seja, os livros que terei a oportunidade de ler antes de morrer. Saber aproveitar bem cada obra, extraindo dela o máximo possível. Como um ruminante. Para isso, tratarei cada livro, a partir de hoje, como uma declaração de amor dos autores para mim.

comprei uma caneta

Hoje fiz algo que há muitos anos eu não fazia: comprei uma caneta. Azul. Não gosto de escrever com canetas de tinta preta, pois acho que minha letra fica feia – não que ela seja bonita. O que é muito irônico, porque o preto é minha cor favorita – minhas camisas que o digam. Isso não significa que escrevo pouco. Sem exageros, posso afirmar que não há um dia sequer em que não anote algo em algum dos meus muitos cadernos. Embora esse seja outro material que também não compro com frequência, lembro bem da compra do último – e lá se vão mais de quatro anos. Não herdei uma papelaria da família, se é isso que cê tá pensando. No entanto, o ato de comprar essa caneta me fez considerar que, indiretamente, sim, venho “herdando” uma papelaria. Meus pais – em especial meu pai – sempre supriram minhas necessidades com relação a papel e caneta, sem que eu sequer precisasse pedir. Antes mesmo desses materiais acabarem, sempre surgia alguém para me presentar e, na grande maioria das vezes, sem que fosse meu aniversário. Meu pai, quando ganha canetas diferentes em eventos, nunca faz questão de usá-las, e me presenteia com muito gosto, porque sabe que ficarei feliz. Isso ainda é um reflexo da minha adolescência, quando cheguei a colecionar canetas e, com a ajuda de todos, consegui reunir um número bastante expressivo. Porém, desisti da coleção. Não quero colecionar mais nada além de livros. Minha mãe, tios e amigos já me presentearam com canetas e cadernos. Não sei se isso é comum, pois pouquíssimas vezes dei esse tipo de presente para alguém. Minha irmã é outra que me presenteia constantemente. Caneta comigo vai até o fim, não fica uma gota de tinta para contar história. Faço anotações em todos os lugares. Já deixo o caderno aberto dentro da mochila para facilitar as anotações quando estou dentro do ônibus. Então hoje, ao comprar essa caneta, passei a refletir, pela primeira vez, sobre o fato de ganhar esses presentes. Seria da parte deles, um ato de reconhecimento da minha paixão pela escrita? Será que eles já me consideram um roteirista, mesmo que nenhum dos meus roteiros tenha virado um longa-metragem? Pensar que sim, mesmo que eles não o façam conscientemente, faz com que eu me sinta acarinhado. Contudo, escrevendo essas linhas, acredito ter lembrado da última vez em que comprei uma caneta. Foi quando fiz a prova do ENEM, se não me engano. Como o exame só aceita caneta de tinta preta e, já que eu não tinha nenhuma – pelo motivo que expliquei acima -, tive que comprar. Depois da prova me livrei delas, mas não lembro para quem as dei. De toda forma, esse já foi o ano em que mais li na vida, pelo menos desde quando comecei a anotar o título das minhas leituras. Fato esse que muito contribuiu para o aumento de anotações, além dos meus próprios textos e ideias. Foi desta maneira que, nesse ano, fui acabando com uma caneta atrás da outra e, antes que acabasse com a última de tinta azul, resolvi comprar mais uma. Nos últimos meses, não ganhei caneta de ninguém. No último aniversário, ganhei livros. Será que eles já estão pensando que eu fracassei e que só tenho futuro como leitor? Não sei, prefiro acreditar que eles não estão conseguindo acompanhar o ritmo das minhas anotações. Ainda que eu mesmo possa suprir essa minha necessidade, confesso que se eu não ganhar nenhuma caneta no próximo aniversário, vou começar a ficar preocupado.

ponto de encontro

Já faz sete anos que, em meio a muitas promessas de nunca deixarmos de nos ver, meus amigos de turma e eu concluímos o último ano do ensino médio. Posso dizer orgulhosamente que tentamos, e que durante um ano, pouca coisa havia mudado. Saíamos juntos, sabíamos da vida uns dos outros e frequentávamos as festas de aniversário de todos do grupo. Não sei dizer quando tudo mudou, quando já não saíamos mais, quando perdemos os números de telefone ou quando esquecemos as datas dos aniversários. Parece que foi ontem, mas em sete anos muita coisa mudou. Muita gente se formou, alguns poucos trocaram de cidade, muitos casaram e outros, mesmo sem casar, tiveram filhos. Apesar da amizade sincera, meus amigos de turma e eu nunca tivemos os mesmos interesses. Não gostávamos dos mesmos filmes, das mesmas músicas, dos mesmos livros. Apesar de sempre ter sido o mais estranho, era muito bem aceito e compreendido. Hoje vejo o quanto essa separação foi natural. O que nos unia era o colégio e se não há interesses em comum, nada mais normal que essas pessoas – “obrigadas” a conviver juntas todos os dias – se separem com o tempo. Uma vez distantes, a diferença acentuada de gostos fez com que nunca mais nos encontrássemos nos locais públicos. Afinal, não frequentamos os mesmos lugares. É comum ver, quase todo final de semana, fotos de alguns deles nas redes sociais em algum dos muitos shoppings da cidade. Como não gosto de shopping, nunca nos esbarramos. Também não frequentamos os mesmos cinemas, e nem comparecemos aos mesmos shows das bandas que visitam a cidade. A universidade também não se transformou em um ponto de encontro. Como absolutamente ninguém da minha turma, além de mim, decidiu viver de arte, meu campus sempre ficou isolado até mesmo dos que cursaram a mesma universidade que eu. Apesar disso, quando menos espero, encontro alguém em algum ônibus da vida. Encontramo-nos sempre em movimento. Às vezes, no mesmo ônibus, um está indo e o outro voltando. O local não ajuda. A conversa é sempre rápida e superficial. Isso quando há conversa. Não raro alguém finge não me reconhecer para evitar uma conversa forçada entre duas pessoas que não estão nada interessadas no que a outra tem para dizer. Não os censuro, pois eu também faço isso de quando em vez. Quando conversamos, podemos sentir que o carinho ainda está ali, pairando entre nós, mas é só isso, um carinho nostálgico. As conversas sempre orbitam entre o presente (para nos atualizarmos das vidas uns dos outros) e do passado (para revivermos boas lembranças). Perguntamos sempre por alguém, na esperança de obter alguma notícia. Sete anos ainda não foi o suficiente para realizar muitas mudanças físicas. Todo mundo ainda está meio igual. Com exceção dos galãs da turma, que hoje não fazem mais sucesso nem dentro do ônibus. Isso é muito curioso. De toda forma, preciso olhar duas vezes para me certificar de que não estou vendo a pessoa errada. Isso quando dá tempo. É tudo muito rápido. Estamos sempre indo e vindo, ocupados em viver nossas vidinhas. Não raro tenho a sensação de ver alguém conhecido quando estou próximo de descer do ônibus; quando vou ver, já foi.

focar é preciso, viver não é preciso

Universidade. Dinheiro. Namorado. Artigo. Família. Decisões. Política. Brasília. Amigos. Cinema. Pressão. Viagem. Trabalho. Interesses. Blogue. Escolhas. Mercado. Procrastinação. Mudanças. Deveres. Saúde. Competição. Medo. Preguiça. Reuniões. Livros. Desafios. Angústias. Tempo. Tempo. Tempo. Redes sociais. Sonhos. Sono. Insônia. Cochilar menos. Cochilar menos e dormir mais. Dormir mais e melhor. Metas. Meta de leituras atrasada. Meta de filmes atrasada. Estreias que quando vejo já são passado. É preciso ter foco. No cinema, o foquista é o profissional responsável por cuidar do foco no momento da filmagem. A direção de fotografia no cinema é algo complexo e, em muitos casos, é necessário duas pessoas para operar a câmera: o operador e o foquista. O câmera segue os direcionamentos do fotógrafo e o foquista, por sua vez, segue os direcionamentos do operador. Sempre gostei de fotografias sujas no cinema, planos desfocados, enquadramentos estranhos, cortes secos, luz natural, imagens sem os famosos e irritantes filtros para agradar nosso olhar. Preciso manter o foco e aprender a ser o melhor foquista possível para esse plano sequência que é minha vida. Está difícil ser Cinema Novo. Está difícil ser câmera na mão.

o L de LGBT não significa lucro

Não é de hoje que se discute muito sobre o poder de consumo do público LGBT, assim como não é de hoje que esse assunto muito me preocupa. Quero realmente acreditar que as empresas que estão atualmente usando casais gays em seus anúncios o fazem para se atualizar. Esse deve ser um gesto de adequação, e não de oportunismo. No entanto, não sou tão ingênuo a ponto de acreditar cegamente nisso. Essas estatísticas que dizem que o potencial de consumo do público LGBT no Brasil equivale a mais ou menos 10% do PIB do país são, como o próprio nome diz, apenas dados probabilísticos. Somos iguais e devemos ser respeitados apenas por que temos poder aquisitivo? Consumimos e nos endividamos como qualquer outra pessoa. Também saímos para jantar, também viajamos, também frequentamos festas, etcetera, etcetera. Esse papo de que os LGBTs configuram um cenário de melhor escolaridade e que, por isso, ocupam boas posições de mercado me parece um tanto quanto fantasioso. Admito que posso estar enganado, mas conheço poucos gays declarados presidindo grandes empresas ou ocupando cargos públicos importantes. É preciso fazer um recorte, nem todos estão inseridos entre as classes A e B. E os gays periféricos? E as outras minorias? Só ganharão representatividade na sociedade e conquistarão a atenção das empresas quando puderem consumir em grande quantidade? Torço por mais propagandas plurais, mas pelo motivo certo: porque os consumidores são, de fato, plurais. Não consigo enxergar o mercado como um defensor dos fracos e oprimidos. Sempre existiram gays no mundo, mas só agora as empresas voltaram suas atenções para esse público. Antes tarde do que nunca, eu sei. Também acredito que muitas delas estão com boas intenções, mas o consumo não pode ser a única ferramenta para inserir uma minoria na sociedade. Esse caminho é selvagem demais. Devemos ser respeitados pelo que somos: seres humanos. O respeito é nosso por direito, não devemos ter que comprá-lo.

o não você já tem

Você que nunca teve que se declarar para uma pessoa e, consequentemente, pedi-la em namoro: que triste. Concordo que é ótimo (pelo menos para a autoestima) quando alguém se declara para nós, mas quem só viveu esse lado da moeda não conhece a adrenalina que é anunciar o seu amor por outra pessoa. Corre que ainda dá tempo, se você está gostando de alguém neste momento, não deixe para depois, coragem: o não você já tem. Essa frase, tão dita e redita em casos amorosos e, aparentemente, de viés ingênuo – praticamente só utilizada na adolescência – é um verdadeiro mantra de bravura. Costumo utilizá-la no dia a dia sempre que possível. Nessa atual conjuntura de crise, em que está tão difícil conseguir um emprego, as pessoas fazem mais entrevistas do que de costume, haja vista que o número de candidatos é escandalosamente maior que o número de vagas ofertadas. Pelo menos ao meu redor, meus amigos nunca fizeram tantos processos seletivos quanto no último ano. Essas entrevistas continuam, pois pouquíssimos deles conseguiram retornar ao mercado de trabalho. Praticamente toda semana, alguém do meu ciclo social me informa que está tentando uma vaga. Esses informes quase sempre vêm acompanhados do comentário “torce por mim”. Não acredito em sorte, não posso ser hipócrita a ponto de prometer ficar torcendo. Acredito em bons currículos e, principalmente, em uma boa entrevista. Quem se sair melhor, falar melhor e demonstrar mais segurança tem mais chances. O que faço então é tentar tirar o nervosismo e a ansiedade dessas pessoas, dizendo mais ou menos o seguinte: você já está sem emprego, não vai perder nada, o não você já tem. O único risco que a pessoa corre é de sair da entrevista com a carteira assinada (ou seja, só tem a ganhar). Somos muito mais corajosos quando não temos nada a perder. No esporte, há vários exemplos de times mais fracos que vão com tudo para cima dos times mais fortes, afinal, já se espera que eles sejam derrotados. É quando surpreendem e acabam vencendo. Quando não somos selecionados pela empresa, o sentimento é ruim, a sensação é de derrota. Sei que é péssimo continuar desempregado e ver a situação financeira muitas vezes piorar, mas teoricamente não perdemos nada. Sem emprego estávamos, sem emprego continuamos. Não me considero uma pessoa otimista, mas ver a situação por esse ângulo nos ajuda a superar mais rápido e partir para a próxima tentativa com a mesma (talvez maior) garra. Não somos perdedores, o não nós já temos, busquemos nosso sim.

vítima da inércia

Sinto saudades de quando Fernando Meirelles dirigia filmes. Ele costumava criar um blogue por longa-metragem, em que escrevia sobre os processos de pré-produção, filmagens, pós-produção, etc., embora ele sempre os abandonasse sem mais nem menos quando o filme estava próximo do seu lançamento. Sempre tive a sensação de que só eu conhecia esses blogues, pois nunca ouvi alguém falar sobre eles. Na página de 360, de 2012, ele escreveu o seguinte: “Sou uma vítima da inércia. […] me pego com aquela conhecida sensação de ter dado um passo errado ao entrar neste filme. Sob o peso do grande esforço que é começar a colocar esta enorme máquina em movimento penso: Tudo estava tão bem em São Paulo, para que me coloco nestas situações?”. Sei que essa sensação não é privilégio de cineastas, mas é exatamente o que sinto sempre que entro em um projeto novo. Atualmente, estou dirigindo um curta-metragem e já rodamos 70% das cenas. A pré-produção começou logo no início do ano e tivemos que correr para filmar a tempo no dia 28 de abril, na greve geral. Depois fizemos uma pausa para pré-produzir as próximas cenas e voltamos a filmar no final de maio. No final deste mês e início de julho, filmaremos as últimas sequências. Foi por esse motivo que este blogue ficou abandonado por tanto tempo. Sinceramente, acreditei que não voltaria mais a publicar aqui, mas hoje deu vontade de contar-lhes o motivo de minha ausência, pois alguns leitores carinhosos me escreveram perguntando o que havia acontecido. Bom, agora vocês já sabem: eu estava bem aqui na minha casa, vivendo tranquilamente, e me coloquei nesta situação. Sempre que estou em um projeto novo digo para mim mesmo que demorarei muito tempo para entrar em outro, mas isso sempre acontece no processo de pré-produção. É o trabalho mais difícil: montar uma equipe, escalar elenco, conseguir as locações, fechar cronogramas, conseguir equipamentos, patrocínio, objetos de cena, figurinos e por aí vai. Durante as filmagens tudo isso passa, e ficamos tristes quando o filme se aproxima do fim. Algumas semanas antes de filmar, eu havia sido assaltado, e não fiquei nervoso em momento algum, mesmo com uma faca apontada para mim. No entanto, quanto mais o dia das filmagens se aproximava, mais nervoso eu ficava. É esse frio na barriga que também faz de mim uma vítima da inércia. Quando o filme acabar e eu finalmente puder descansar, não conseguirei ficar parado por muito tempo, pois vou querer sentir toda essa adrenalina novamente. Em teoria, estou com duas semanas de folga. Digo teoricamente porque ainda terei que resolver algumas burocracias antes de entrar na curva final. O blogue completou dois anos dia 1 de junho e eu nem tive tempo de escrever algo especial. Eu havia até preparado um texto sobre isso, mas não consegui concluir. Fica para o aniversário de três anos. Isso se ele chegar até lá. Eu voltei, mas não sei se para ficar. Neste mesmo blogue do Fernando, ele escreveu a seguinte frase: “Antes as ideias aproveitavam qualquer brecha para entrar, hoje, prefiro ajudá-las, criando um certo espaço mental para elas aparecerem”. Ideias não me faltam, mas elas nem sempre chegam no momento certo. Por essa razão, prefiro aproveitar todo tempinho de folga para respirar em prol do projeto. Talvez eu volte a escrever aqui durante esse período, mas não prometo nada. Para encerrar, deixo com vocês um documentário que fiz com Lola Aronovich no início do ano. Espero que gostem. Abraçaço.

Escreva Lola Escreva

gentileza gera gentileza

Falta pouco para amanhecer. Depois de uma noite inteira tentando dormir, o sono finalmente chega. Estou quase adormecendo quando mudo de posição para me aconchegar melhor. Como resultado do movimento, afugento o sono. Desisto de rolar na cama e levanto. Ouço música, faço anotações em agendas e tomo um café forte acompanhado de uma tapioca. Começa a chover. Penso no frio. Odeio frio. A chuva para, o sol surge. Ligo a TV. No telejornal local, vejo imagens ao vivo das avenidas mais engarrafadas da cidade. Em pouco mais de uma hora eu estarei dirigindo justamente por uma delas. Começo o dia – quer dizer, continuo o dia anterior, pois não consegui dormir – sabendo que enfrentarei o quarto trânsito mais congestionado do Brasil, segundo um estudo divulgado nessa mesma manhã no mesmo telejornal local. Desligo a TV quando notícias ruins começam a ser transmitidas. Considero-me um sujeito atualizado, mas tenho visto tanto negativismo na mídia que estou começando a achar que o melhor para minha saúde mental é me manter desinformado. Tenho medo de que essa overdose de desgraças faça com que eu perca minha sensibilidade diante do absurdo. Não consigo ver tantas notícias ruins sem me sentir revoltado, impotente e deprimido. Mesmo assim, não quero me acostumar a ver tudo isso e fingir que nada está acontecendo. Consciente de que bombardeios diários de informações desagradáveis podem destruir minha empatia, decido por me afastar dos noticiários por um tempo. Miro meu reflexo no espelho: olheiras. Tomo um banho gelado para afastar o cansaço que começa a se avizinhar do meu corpo insone. Antes de sair, mais uma xícara de café. Na mochila vai o livro ‘Garranchos’, uma coletânea de textos de Graciliano Ramos. Minha manhã acaba sendo mais agitada do que eu esperava que fosse. Não consegui ler nenhum texto do livro. Na volta, o trânsito está bem mais congestionado do que de manhã cedinho. É quase meio-dia, horário de pico. Sigo em uma pista de sentido único. Estou do lado e direito e preciso mudar para a faixa da esquerda. O sinal fecha, os carros param. O sinal abre. Sinalizo para o carro ao lado que vou mudar de faixa. Ele me dá passagem. Quando acelero, o motorista que me deu passagem acelera também. Os carros se chocam. Merda! Que merda! Apesar disso, tenho a sensação de que a batida não foi tão forte assim e de que, no máximo, o carro sofreu alguns arranhões. “Ainda bem que tenho seguro”, penso. O motorista do carro que bateu em mim estaciona um pouco a frente. Não quero confusão. Confesso que desejei intimamente que ele não tivesse parado. Estaciono meu carro no acostamento. Do outro veículo desce um senhor de aparentemente cinquenta anos de idade vestindo calça, camisa e sapatos sociais. Minha roupa é o oposto: uma calça jeans preta e uma camisa do Sepultura, também preta. Saiu do seu carro tão rápido que eu mal havia estacionado e ele já estava batendo na minha janela pedindo para baixar o vidro. No seu rosto, um semblante fechado. Baixo o vidro e ele pergunta: “meu carro bateu em você?” Respondo que sim. O tom de sua voz é calmo e prestativo. Fico mais tranquilo. Desço do carro e finalmente vejo a lateral do veículo dele totalmente amaçada e destruída. Ele se apressa em explicar: “isso foi uma batida com um motoqueiro”. Menos mal. Ele também se apressa em dizer que vai pagar o prejuízo, mas quando olho para a lateral do meu carro atingida pelo veículo dele, não vejo nenhum arranhão ou amassado. Absolutamente nada fora do normal. Não, não foi um milagre. Logo diagnosticamos que o carro dele havia batido no pneu do meu. Ao também se dar conta de que não houve nada, o senhor me explica que parou porque é “um cidadão direito”. Agradeço o seu gesto e nos cumprimentamos com um aperto de mão. Sorrio. Ele sorri de volta. Entramos em nossos respectivos veículos e partimos. Nada de anormal no restante do caminho de volta para casa. Tocava uma música no som quando ocorreu a colisão, mas já não consigo recordar qual era. Mesmo depois de tomar banho e almoçar, não deixo de pensar na batida. Mais especificamente na gentileza do senhor. Presencio tantas brigas no trânsito. Motoristas nervosos e impacientes. Xingamentos, buzinas. Definitivamente não é um ambiente saudável. No entanto, esse senhor e eu éramos duas pessoas dispostas a não brigar. De quem foi a culpa? Não interessa. Ninguém se acusou de nada. Meu dia tinha tudo para ser ruim, mas nem foi. Terminou bem. A primeira batida a gente nunca esquece. Lembrarei sempre da minha como uma experiência agradável. O mundo está precisando de mais “cidadãos direitos” (não de direita). As pessoas ainda podem ser pacientes e gentis umas com as outras. Até mesmo no trânsito.

programado para morrer

Um amigo, que sempre consertou meus computadores, costumava dizer que preferia máquinas a pessoas. Para ele, a convivência com a tecnologia era muito mais fácil, pois quando uma máquina apresenta um defeito, é só consertá-la. Já o ser humano, além de não ter cura para todos os seus males, exige mais complexidade no tocante à convivência. Quando uma amizade ou um relacionamento amoroso, por exemplo, apresenta um desgaste ou um conflito, não podemos simplesmente formatar e começar tudo de novo. Fazer as pazes e entrar em um acordo é muito mais difícil.

Nunca concordei com esse meu amigo. Não que eu seja o ser mais sociável do mundo, muito pelo contrário, mas sempre tive problemas com certas tecnologias. Isso não significa que eu não saiba utilizar as máquinas, e sim que tenho muita dificuldade em aceitar que elas saiam intencionalmente de suas fábricas com uma data de validade para deixar de funcionar, apenas para aumentar o consumo.

Vez ou outra, eu me pergunto quando vamos gritar e nos rebelar contra a obsolescência programada. Cada vez mais empresas produzem propositalmente produtos que se tornam obsoletos ou não-funcionais em um curto período de tempo para que possamos comprar a nova geração do mesmo produto. É natural que um objeto se desgaste com o passar do tempo e pare de funcionar, mas é inaceitável que os fabricantes planejem esse envelhecimento. Acabamos por consumir mercadorias que duram menos do que a tecnologia permite.

A obsolescência programada pode ser notada com maior frequência na área tecnológica. O sistema operacional dos computadores estão se desgastando cada vez mais rápido, as baterias e carregadores de computador duram cada vez menos e o cabo dos carregadores de celular são mais frágeis do que deveriam. Qual a razão para uma marca de celulares de última geração fabricar carregadores tão vagabundos se não para nos obrigar a comprar outro aparelho? Os fones de ouvido são outros que também quebram com facilidade. Ao mesmo tempo em que essas mercadorias são planejadas para durar cada vez menos, o preço para a manutenção desses equipamentos se torna cada vez mais alto, induzido os consumidores a adquirir um produto novo.

Os fabricantes tentam se justificar apontando para o avanço da tecnologia. Por essa razão, segundo eles, estão sempre criando novos modelos. Que avanço é esse? Como pode haver tantos progressos em tão pouco tempo? Marcas lançam modelos novos apenas poucos meses após o lançamento do anterior. Antes mesmo de acabar o ano, já é possível comprar versões de carros do ano seguinte. Essa troca regular de produtos só aumenta a produção de lixo e, para piorar, como se não bastasse a humanidade estar consumindo 30% a mais do que o planeta é capaz de repor, o destino de quase 70% dos equipamentos eletrônicos descartados por consumidores de países desenvolvidos são lixões de cidades de países subdesenvolvidos. Os mais pobres, como sempre, continuam pagando a conta.

O consumo permanente tem como finalidade a criação de um consumidor cronicamente insatisfeito. Banhado pelo desejo de comprar sempre o produto mais novo, o da moda, o mais rápido e com a imagem mais moderna, o consumidor cansa cada vez mais rápido do produto que já usufruiu. Esse fenômeno é chamado por muitos de “obsolescência percebida”, e ocorre quando, antes mesmo de apresentar defeito, o consumidor considera o produto que tem em casa como velho diante de todos os novos modelos lançados a todo instante no mercado.

Os smartphones exigem cada vez mais atualizações de seus sistemas operacionais. Atualizações essas que além de não mudarem muita coisa, consomem grande parte da memória que, por sua vez, nos impossibilita de atualizar os aplicativos. Não consigo descrever o quanto isso me irrita. Depois de certo tempo, parei de atualizar o iOS, pois não havia mais memória disponível, a não ser que eu excluísse todos os aplicativos. Em seguida foi a vez dos aplicativos exigirem suas atualizações. Quando não havia mais espaço, fui excluindo os menos usados. Desde o início do ano, o WhatsApp parou de funcionar no meu celular, pois só é possível utilizá-lo em um sistema operacional mais novo. Logo mais será a vez dos demais aplicativos deixarem de funcionar. Eu não queria ter que trocar de celular agora. Não necessito do aparelho mais novo, da moda. Poderia, tranquilamente, passar mais alguns anos com meu aparelho atual, se não estivesse sendo “obrigado” a comprar um novo.

No entanto, tudo isso parece tão natural aos olhos do mundo, que até culturalmente falando podemos encontrar casos de obsolescência programada. É a música feita para tocar só no carnaval, aquele sucesso do verão, os filmes de natal ou os filmes de determinado gênero que fazem sucesso até se tornarem saturados. Atualmente, são os títulos de super-heróis e comédia pastelão. As produtoras vão usar essa fórmula e inundar as salas de cinema com filmes desses gêneros até causar uma overdose no público (vai me dizer que você não consegue enxergar o propósito por trás de tantas sequências das mesmas histórias ou livros de um só volume transformado em séries e mais séries de filmes?). Já no mercado editorial, são os livros de youtubers que estão na moda, o que tem levado muita gente a acreditar que o primeiro passo para se tornar um(a) escritor(a) é criar um canal no YouTube. Calma! Isso é só uma fase – alguém ainda se lembra dos livros de colorir? -, logo essa onda passa e não teremos que ver dezenas de biografias de adolescentes nas prateleiras das livrarias (pelo menos espero).

Contudo, sentei para escrever porque queria dissertar justamente sobre essa obsolescência cultural programada, mas está cada vez mais recorrente em meus textos desejar escrever sobre algo e acabar falando sobre outro assunto. Tal qual um pai que deseja uma profissão para um filho e o rebento acaba seguindo outra. Como eu não segui a profissão que meus pais desejavam para mim, deixo o texto livre para ele ser o que quiser. De toda forma, os dois assuntos entram no mesmo pacote: tudo está ficando cada vez mais descartável. Em consequência disso, sigo não confiando nas máquinas, ou seria em seus fabricantes? E você, antes de substituir qualquer objeto, se pergunta antes se realmente precisa de outro?