bibliofilia crônica

Peguei uma doença gravíssima. Atinge diretamente o financeiro, dói no bolso e deixa a consciência pesada. Não consigo lembrar quando começou. Quando dei por mim, estava assim. Logo eu, que durante boa parte da minha vida li livros emprestados dos amigos ou alugados em bibliotecas. Agora estou com essa mania de acumulação que chamam por bibliofilia crônica. Não tem cura, dizem. Espero que estejam enganados. Hoje, o número de livros não lidos em minha estante está bem próximo do número de livros já lidos. Em um curto espaço de tempo terei mais livros para ler do que leituras concluídas. A dependência é forte e só vai piorando com o passar dos anos. No início, nos contentamos com qualquer edição, depois passamos para o estágio de só querer uma edição específica, uma capa específica, uma tradução específica. Conforme a coleção vai crescendo, passamos a querer livros cada vez mais caros, as reedições em capa dura, os clássicos em edições de luxo, até chegar ao ponto de ansiar por raridades. Viramos ratos de sebo, verdadeiros desbravadores da Estante Virtual. Eu, por exemplo, já estou apresentando os primeiros sintomas desse último estágio da doença, se é que é o último. Algumas pessoas bem próximas a mim, outras nem tanto, estão ainda mais graves que eu. Nós doentes nos reconhecemos, nos abraçamos, nos reconfortamos, choramos juntos a mesma dor. Só um bibliófilo crônico entende o sofrimento que é salvar o endereço de uma página na Estante Virtual para comprar o livro depois e, ao voltar, constatar que ele foi adquirido por outra pessoa. Sempre fico imaginando quem foi que me causou tremenda dor. Será que é um bibliófilo também? Será que esse alguém comprou para presentear outro alguém que nem vai fazer tanta questão do livro quanto eu? Será que foi para um trabalho da universidade? Será que foi comprado sem maiores pretensões? No final, sempre prefiro acreditar que foi alguém como eu e que vai tratar o livro tão bem quanto. Só assim alimento esperanças dessa pessoa ser bem mais velha que eu, o que teoricamente aumentam as chances de ela morrer primeiro. Possibilitando, desta forma, uma nova oportunidade de adquirir o livro se o herdeiro ou a herdeira resolver se desfazer dele anunciando-o novamente na Estante Virtual. Essa agonia é bem semelhante à de ver determinado título na livraria e saber de imediato que jamais seremos um do outro. Mesmo assim prometemos, para nós mesmos e para o livro, que voltaremos para comprá-lo depois. Como se não bastasse, ainda tenho uma característica particular, ou não tão particular assim, de comprar títulos estranhos que eu mesmo nunca ouvi falar. São comprados pela intuição: um vigésimo terceiro sentido me diz que vou gostar. São escritos que eu sei que nenhum dos meus amigos gostaria de ler e que talvez até eu mesmo desgoste quando começar a folhear. Por mais tempo que eu passe sem comprar um livro novo, geralmente uma consequência da falta de dinheiro, sempre acontece uma recaída durante essas malditas promoções maravilhosas que nos permitem comprar bons livros a preços acessíveis, mas que mesmo assim nos deixam de cama, tamanha a tristeza por ainda não conseguir levar tudo. A cegueira é tão grande que nos sujeitamos a pagar um valor absurdo de frete – que daria para comprar outro livro – só para sustentar o vício. Algumas horas antes de escrever essas palavras eu tive uma recaída. Estava limpo há um mês. Sei que não é bastante tempo, mas havia prometido não comprar mais nada nesse ano. Agora é tarde para voltar atrás. Durante a próxima semana, sempre que eu estiver na rua e ver um carro dos Correios passando, irei imaginar se minha felicidade estará ali dentro rumo à minha rua, rumo à minha casa. Como quase sempre essas minhas encomendas chegam quando eu não estou presente, minha mãe é quem as recebe e as deixa sobre a mesinha de centro da sala. A mesinha deve ter meio metro de altura no máximo, mas será minha linha do horizonte sempre que eu chegar em casa. No momento passo bem, embora ainda esteja melancólico por não ter comprado todos os títulos que queria. Não posso prever quando será a próxima recaída, mas uma coisa é certa: os primeiros sintomas de abstinência vão surgir poucos minutos após retirar o invólucro dos livros novos e guardá-los na estante. Paciência.

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23 Comentários

  1. Estava a pouco, demasiada melancólica, por ter gasto tanto na Amazon nessa black friday… e você me proporcionou essa leitura. Obrigada por me mostrar que não estou sozinha, e que não sou tão louca assim!

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  2. Não há como escapar, que o digam meu bolso, meu estúdio ou qq outro do apartamento. Depois do primeiro, você perde a conta do que tem. Os que não li há muito superaram os já lidos e a lista para mais outros aumenta. É assim e é muito bom você olhar para qq lugar da cada e encontrar um livro. Abraço.

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  3. Boa! Muito bom! Eu ando bem controlado. Tenho me policiado muito para comprar só quando a fila dos “para ler” andar.

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  4. Indentifico-me com esse sentimento (e ri muito do seu divertido texto)! Para mim, porém, existe uma tristeza adicional: saber que nunca vou ter *tempo* de ler tudo o que quero…

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  5. Sofro do mesmo mal! Ótimo texto como sempre, apesar de ter realizado a leitura com pesar por me reconhecer em cada linha. Será que existe tratamento para esse vício? hahaha abraços

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  6. Era assim, consegui me desvencilhar: embarquei no desapego.
    Às vezes, dói, mas o bolso, em tempos de crise, tem agradecido.
    Belíssimo texto! Gratidão por poder lê-lo.

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  7. Um dos baratos de comprar livros usados é o fato deles terem uma história. Muito interessantes suas indagações sobre o que poderia ter levado uma pessoa a colocar o livro à venda. Sempre observo se há alguma dedicatória. As partes grifadas sempre dá asas a nossa imaginação: Por que a pessoa grifou isso? O que ela sentiu quando leu essa passagem?

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  8. Recomendo o livro “O bibliófilo aprendiz”. É meio difícil de achar, mas, como você parece estar pegando o jeito para “desenterrar” edições específicas, vale a pena.

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    • Obrigado pela indicação, Elton. Pode ter certeza que irei procurar. Abraço

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      • Pode procurar. Lendo esse livro você aprenderá a comprar livros raros
        E também aprenderá sobre o universo dos colecionadores de livros. É um universo que passa despercevido pela maioria das pessoas, mas ele existe. E ninguém conhece ele melhor do que os livreiros.

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  9. Sofro desse mau mas não compro pq me encontro num momento ruim de grana. Quando posso compro, mas pesquiso valores, comparo edições e tal. Se não tenho grana, baixo no kindle. É assim que vou fazendo minhas leituras.

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  10. Nossa, me identifiquei em cada palavra, hoje mesmo fiquei esperando o carro do correio porque estava esperando 3 livros chegarem, e depois deixei a caixinha de lado, para prolongar o prazer de ver os livros chegarem… ❤

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  11. O meu caso é diferente. A minha abstinência não é pela falta de adquirir uma edição, sendo antiga ou recente, e sim Abstinência Literária. Simplesmente NÃO CONSIGO ficar um segundo sequer sem ler!!! É insano

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