minha estupidez

Fiquei sabendo através das redes sociais que Fernanda Torres estrearia essa semana no canal GNT um programa chamado Minha Estupidez. Programa esse que eu não vou assistir pois não tenho TV por assinatura em casa (nem pretendo) e porque, quando for disponibilizado na internet (se for), eu com certeza já terei esquecido. No entanto, acabei abrindo o texto que falava da estreia e me deparei com o parágrafo de outro que a própria Fernanda escreveu e enviou para jornalistas: “Eu me valho da minha ignorância, da curiosidade onívora e de uma certa franqueza, que me leva a admitir, em público, que não sei o que é solipsismo, […] além de confessar que passei três anos mentindo que havia lido ‘Viva o Povo Brasileiro’.”

Depois de passar alguns anos mentindo que havia lido o clássico de João Ubaldo Ribeiro, finalmente Fernanda o leu em 2008, e aproveitou a ocasião para entrevistar o escritor baiano para um programa que ela havia idealizado e que só agora está sendo lançado sob o título de Minha Estupidez, como citei acima. Realmente não recordo se já menti dizendo que li um livro sem ler, mas admito que são grandes as chances de isso já ter acontecido pelo menos uma vez. De toda forma, se não sei ao certo se menti sobre livros, confesso que já menti dizendo ter visto um filme que ainda não havia assistido.

Todo mundo conhece alguém que dá dicas de filmes aos amigos quando eles não sabem o que assistir. Eu sou essa pessoa. Portanto, para não decepcionar o pequeno imaginário coletivo que se formou através do meu minúsculo ciclo social em relação à minha cinefilia, existiram algumas ocasiões em que menti ao me perguntaram se vi tal filme, principalmente quando o título era um clássico. Como realmente vejo muitos longas, logo não precisei mentir tantas vezes e ninguém nunca desconfiou que eu pudesse estar faltando com a verdade. Mesmo assim, aprendi que não importa o número de filmes que você veja, alguém sempre vai te perguntar por um que você ainda não viu.

Uma das razões das minhas mentiras era mesmo para evitar a reação das pessoas, pois quando eu admitia não ter visto, elas sempre reagiam como se fosse o fim do mundo: “Como assim você não assistiu ainda? Você não é cinéfilo?”. Como se alguém tivesse a obrigação de conhecer tudo. A outra razão era por vergonha mesmo: “Como eu, um cinéfilo, ainda não vi esse filme?”. Entretanto, acredito que essa segunda razão existe muito em função da primeira, pois eu talvez não sentisse vergonha se as pessoas não me julgassem. Se eu teria deixado de mentir se não houvesse julgamento? Não sei. Todavia, não imagine que eu gostava de fazer isso pois, nas vezes em que aconteceu, corri para casa e tratei de ver o filme o mais rápido possível para que a mentira durasse pouco tempo. Conjugo os verbos no passado porque já faz alguns anos da última vez que tentei enganar os outros e a mim mesmo de que era possível conhecer tudo.

Hoje, assim como Fernanda, também me valho de minha ignorância, de minha curiosidade e de minha franqueza para admitir quando não vi tal filme ou li tal livro, mas não só isso, como admitir também o total desconhecimento de vários assuntos. Sentindo uma identificação tremenda com as palavras de Fernanda, decidi procurar pelo texto completo que ela enviou a jornalistas, mas não encontrei. Em compensação, a pesquisa me levou a algumas entrevistas interessantes da atriz e escritora sobre o programa. Porém, como ela também fala de outros assuntos e como eu adoro entrevistas, resolvi transcrever alguns trechos aqui.

Em uma delas, Fernanda, que revela sentir falta de ter cursado uma universidade, compara sua cultura geral a um queijo suíço: “É cheia de buracos. Nunca ninguém ordenou o pensamento para mim. Fui lendo e me informando, mas sem ninguém me conduzindo”. Apesar de cursar uma graduação, também sinto que muitas áreas do meu conhecimento são esburacadas. O que não me desmotiva, muito pelo contrário. Por mais trabalhoso que seja, isso me faz correr atrás dos pensamentos que possam preencher essas fendas.

Em outro momento, dessa vez sobre o processo de impeachment da presidenta Dilma, senti como se Fernanda tivesse lido os meus pensamentos: “Não conseguia escrever. Não conseguia ler. Parecia que minha vida era pautada pelo que fosse decidido em Brasília”. Foi justamente isso que aconteceu comigo durante as últimas semanas do golpe, não consegui produzir nada. Outro momento de identificação foi quando ela falou sobre opiniões formadas: “Pedem muito para a gente, que é ator, dar opinião, e a gente dá, né? Nos últimos anos, também passei a escrever em jornal e revista. Mas aprendi a dizer “Não tenho opinião sobre isso””.

Contudo, nem tudo são flores. Ao ser questionada sobre a polêmica do texto para o blog feminista Agora É Que São Elas, em que falou de “vitimização do feminismo”, ela vê como seu único erro apenas ter publicado tal texto no blog errado: “O texto era para um blog ligado a questões feministas. E eu não entendi isso. Era um lugar errado para falar da minha opinião pessoal. Eu errei. Hoje você tem que ter cuidado redobrado com o que e com quem fala. As coisas reverberam rapidamente na internet. Esse episódio me ensinou muito”. Apesar de ter se retratado depois, Fernanda diz que o ‘mea culpa’ não exclui o que ela pensa. Isso foi mesmo uma estupidez da parte dela, mas esse é assunto para outro texto.

Numa das resenhas do primeiro episódio do programa, há a transcrição do que Fernanda diz na abertura. Repito, eu não vi, então não sei se as palavras foram essas mesmo, mas o que estava escrito me chamou atenção. Diante da estante que herdou do avô, ela diz: “Esse programa nasceu desta estante aqui, de perceber que, por mais que eu tenha lido e amado os livros que eu li, eles se reduzem a isso aqui. Ou seja, nada perto do que existe pra se ler, se conhecer. Essa estante, de certa maneira, mede o tamanho da minha estupidez”. Fernanda disse, dessa vez em uma das entrevistas, que leu tanto para realizar o programa que, quanto mais lia, mais via que não sabia de nada. Ela acha que aumentou sua estupidez. Que leitor nunca sentiu isso?

Olhei então para a minha própria estante que eu já julgava ser tão pequena e, diante de todo o conhecimento da humanidade, é essa minha estante pequena que, de certa forma, também mede o meu próprio conhecimento. Embora muito em breve ela não consiga mais guardar livros novos, mesmo que ela triplique ou quadruplique de tamanho, sua pequenez não se calcula apenas metricamente. À frente de todos os livros que jamais chegarão até aqui, ou mesmo que chegassem, à frente de todos os livros que eu não vou conseguir ler antes de morrer, minha estante e meu conhecimento serão eternamente o que sempre foram: estúpidos.

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9 Comentários

  1. Quanto mais lemos, nos informamos e nos conhecemos, mais percebemos que não somos nada e também não sabemos de nada. Essa é uma das ideias mais lindas que existe sobre a sabedoria e o conhecimento humano. Então se você se sente assim, parabéns, está no caminho certo! :D

    Porém, é impossível dar conta de todo material intelectual de alta qualidade que é produzido hoje. Por isso, acredito que em alguns casos basta conhecer a história e todas as ideias e mensagens que ela transmite para que se possa debater e conversar sobre.

    Por exemplo, uma pessoa não precisa, necessariamente, ler Dom Casmurro para entender a trama e a polêmica sobre Capitu ter traído ou não – ou para aclamar a genialidade de Machado de Assis. Quando alguém me pergunta se li algum livro (ou assisti a determinado filme) eu posso até não conhecer na íntegra, mas conheço a história e tudo de mais importante sobre ela e simplesmente respondo: não li/assisti, mas conheço a história. E isso já é suficiente para dar continuidade à conversa.

    Saber filtrar o que consumimos é tão importante quanto a quantidade do que consumimos, isso evita que fiquemos loucos em mundo cheio de tantas coisas para se descobrir.

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  2. fruhlingstimme

     /  19 de novembro de 2016

    muito legal mesmo

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  3. Gente que texto magnífico,, provavelmente também não conseguirei assistir a essa série. Mas quanto ao livro “o povo Brasileiro”, me lembrei de certa forma de uma reportagem que li em algum lugar, que temos o costume de não dizer que lemos algo simplesmente para parecermos mais inteligente e não se sentir excluído. Eu tenho um bloquei psicológico com o livro “o pequeno príncipe”, na verdade com todo o conteúdo que se refere ao pequeno príncipe e as pessoas não conseguem compreender o motivo disso, “você ama livros, psicologia, política é professora, como pode não conseguir ler esse livro?”

    Eu concordo com tudo que você escreveu, acho que quanto mais crescemos mais nossa estante se torna pequena assim como nos tornamos cada vez mais estúpidos conforme vamos conhecendo novos mundo. Acabamos por perceber que quanto mais aprendemos, mais descobrimos nada saber!

    Grata por esse texto tão maravilhoso

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  4. Texto bem interessante !

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  5. Já pensou (Ou já tem e eu não conheço) em fazer um canal no youtube? Tem tanta merda lá fazendo público… eu adoraria ver você colocando lá suas reflexões, que acho demais! Parabéns!

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