terceiro turno

Meu pai sempre foi de esquerda, embora ele não soubesse dizer exatamente o que é uma política de esquerda. No entanto, mesmo não sabendo disso e sendo de classe baixa, e talvez por ser justamente de classe baixa, sempre conseguiu identificar muito bem as desvantagens de um governo de direita. Ele sofreu na pele os dois mandatos do governo FHC. Hoje, consigo identificar certa influência de meu pai no meu posicionamento político, embora eu tenha certeza que, mesmo sem sua intervenção, ainda assim eu me identificaria com a esquerda.

Sempre gostei de votar e, em todas as eleições em que participei, jamais fiquei em cima do muro, pois sabia exatamente de que lado estava. Eu tinha apenas nove anos quando aconteceu a eleição presidencial de 2002. Acompanhei meu pai na votação e lembro claramente que durante a volta, segurando sua mão, lhe perguntei em quem ele havia votado. Ele me disse que tinha votado em Lula e me pediu segredo. Meu avô paterno (infelizmente) declarou voto em José Serra e meu pai não queria que brigassem por isso.

Durante o governo do PT a vida de minha família mudou drasticamente e conquistamos a tão sonhada ascensão social. Apesar de não ser o primeiro da família a cursar uma universidade federal, continuo até hoje sendo um dos poucos a conseguir ingressar na graduação. Apesar disso, eu não estava satisfeito com a conjuntura política desde 2013, mas jamais poderia imaginar que as coisas fossem piorar tanto.

Nas eleições deste ano, mesmo tendo candidatos de esquerda em quem votar, me senti muito mal em comparecer ao colégio eleitoral fingindo que estamos vivendo em uma democracia, fingindo que não estamos sofrendo um golpe, fingindo que não estamos sendo oprimidos por um plano de governo que não foi eleito. A vitória da direita conservadora só serviu para fortalecê-los e agravar ainda mais a nossa situação, pois eles estão encarando o resultado nas urnas como uma legitimação ao golpe. Nessas eleições não foi a esquerda quem perdeu, foi o Brasil.

Enquanto a esquerda só criticava a si mesma sem reconhecer os próprios progressos, a direita brasileira conseguiu se organizar e impor seu programa de governo. Não houve a necessidade de tanques nas ruas, o golpe midiático-parlamentar é a ditadura do século vinte e um e a ponte para o futuro do governo golpista é o novo AI-5. Temo que dois anos não seja tempo suficiente para a esquerda se renovar e barrar todo esse retrocesso que está sendo implantado. Não torço para o “quanto pior, melhor”, mas é ilusão demais acreditar que algo bom possa sair disso tudo. Os retrocessos, inclusive, já começaram (Projeto de Lei 257/2016, PEC 55, MP 746) e, a partir de agora, todo e qualquer erro é de responsabilidade da direita, afinal, derrubaram uma presidenta democraticamente eleita para assumir o poder e nada mais justo do que responderem por suas próprias falhas.

Assim como a velha mídia é culpada (pois na ânsia de acabar com o PT, fortaleceu através de seus meios de comunicação a direita brasileira), a esquerda também tem sua parcela de responsabilidade no atual cenário político. É preciso aprender com os próprios erros. Uma política de esquerda verdadeira não pode abrir mão do enfrentamento aos privilégios históricos da Casa Grande. É preciso enxergar também que candidatos evangélicos avançam mais onde o Estado é ausente. Os fundamentalistas religiosos acabaram de conquistar nada menos que a segunda capital mais importante do país, o Rio de Janeiro, apelidada agora de RIURD Janeiro (em referência à Igreja Universal do Reino de Deus).

Outro passo da esquerda é justamente parar de disputar (juntamente com a direita) o apoio das igrejas. O Estado laico está previsto na Constituição, no artigo 19, inciso I, que preconiza: “é vedado ao Poder Público estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança”.

Em ‘Terra em Transe’, filme de 1967 do diretor Glauber Rocha (1939-1981), o personagem Paulo Martins, interpretado por Jardel Filho (1927-1983), ao constatar a fraqueza de Felipe Vieira, interpretado por José Lewgoy (1920-2003), se enfurece diante da recusa do líder populista em assumir a resistência armada ao golpe de Estado e diz o que considero ser uma das frases mais emblemáticas do cinema brasileiro: “se resistirmos será o começo de nossa história”. É nisso que acredito: na resistência.

No entanto, ao contrário de Paulo Martins, não penso que a luta armada seja o caminho, pois eles também não usaram armas para impor o golpe. De toda forma, felizmente, a esquerda já está mostrando através das ocupações das escolas e universidades que haverá luta e, por isso mesmo, os golpistas farão de tudo para deslegitimar esse movimento. Para as eleições municipais, o governo soube muito bem fazer um acordo com os alunos de escolas ocupadas que eram locais de votos. Além dos estudantes liberarem os espaços necessários para as equipes do Tribunal Eleitoral, também houve a realocação das zonas eleitorais para locais provisórios.

Não se deixe enganar, a ameaça de adiar/anular o ENEM foi uma tentativa de jogar os estudantes contra a própria causa. Lembre-se: as ocupações não impediram que as eleições acontecessem. O MEC teve tempo suficiente para dialogar e realocar os alunos, mas não o fez. Não sei o quão eles foram bem sucedidos nessa tática, mas vejo que as ocupações já geraram ódio em muitas pessoas. Acho muito justo quem se preocupa com a sua formatura, mas só enxergar isso é ser individualista. Não é apenas um semestre que está em jogo, são vinte anos de retrocessos. Existem até os bem-intencionados que são contra as ocupações acreditando que enquanto alunos ocupam escolas públicas, os estudantes de colégios particulares se preparam melhor para o ENEM. Contudo, não são os direitos dos alunos ricos que estão sendo cortados.

Veja, os mesmos jovens de dezesseis anos que os golpistas dizem ser doutrinados por comunistas possuem, segundo eles, idade suficiente para serem presos quando cometem crimes. As jovens que participam das ocupações também são consideradas doutrinadas, mas se qualquer uma delas engravidar, os golpistas irão afirmar que ela sabia muito bem o que estava fazendo. Com dezesseis anos a pessoa é madura o suficiente para votar e decidir o futuro do país, mas para ocupar escolas é criança. Não importa quantas vezes os golpistas contradigam o próprio discurso, eles sempre mudarão quando lhes for conveniente.

É preciso dar voz às ocupações, aos sem-teto, ao movimento feminista, aos LGBTs, ao movimento negro. É preciso boicotar a velha mídia e dar espaço para mídia livre nas redes. Acredito muito na importância dos blogues alternativos que exercem um papel vital de contra-informação e contra-opinião. Lutar por nossos direitos não pode ser algo perigoso. O terceiro turno já começou, é preciso ocupar as ruas, agora. Avante, companheiros e companheiras!

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