finais abertos

[contém revelações de enredo]

Lembro que, quando assisti ‘Central do Brasil’ com meu pai, ele se mostrou muito decepcionado com o final. Ele não se conformou em esperar quase duas horas para o filme acabar e Josué não encontrar o pai dele. E Dora? Por que ela não ficou com o menino? Tempos depois, assistimos juntos ‘Que Horas Ela Volta?’. Pelo envolvimento dele com os personagens durante todo o filme, deu para perceber que ele estava gostando muito. No entanto, quando a projeção terminou e eu lhe perguntei se ele havia gostado, ele apenas se limitou a dizer: que final feio. Conheço bem o meu pai, e não foi necessário lhe fazer perguntas para descobrir o que ele havia detestado. Foi difícil para ele ver a personagem Val terminar desempregada. E Jéssica, conseguiu ingressar na graduação?

Quando fui assistir ‘Aquarius’ no cinema, eu não estava acompanhado de ninguém. Cheguei cedo, com medo de não conseguir ingresso (eu sempre acho que não tem mais ingresso). Paguei minha entrada e fiquei esperando o filme que ainda ia demorar para começar, sentado em um banquinho do lado de fora da sala. Nesse mesmo banco estava sentada uma senhora idosa rodeada de sacolas plásticas lendo uma notícia em um jornal impresso que puxou conversa comigo. Contou-me de uma viagem que havia feito recentemente e que, devido a ela, estava usando bengala, pois havia andado tanto que ainda estava com as pernas cansadas. Era início de tarde e, segundo ela, já estava na rua desde de manhã cedinho. Ademais, ela me disse que, quando acabasse ‘Aquarius’, ainda iria ver uma mostra de filmes LGBTs que estava acontecendo no centro cultural ao lado. Confesso que fiquei com inveja de sua vitalidade. Ela até me convidou para lhe fazer companhia durante a mostra, mas quando me entregou a programação, desisti de ir por ser composta apenas de filmes que eu já havia assistido.

No pouco tempo em que ficou do meu lado, ouvi essa senhora disparar o maior número de histórias por minuto que eu já tive oportunidade de presenciar, mas tenho que admitir que estava apreciando sua companhia. Era uma pessoa muito inteligente, simpática e agradável (mesmo que tenha me assustado com seu ódio quase doentio por Dilma Rousseff, em quem, segundo ela, gostaria de dar uma surra). A senhora saiu de onde eu estava para comprar uma água e uma moça bonita e educada que havia sentado perto de nós puxou assunto comigo. Ela me contou que era atriz e eu lhe disse que fazia cinema. Conversamos então sobre testes de elenco, preparações de elenco e produções cinematográficas locais. Apesar de rápida, também foi uma conversa muito agradável. Assim como a senhora idosa e eu, ela também estava esperando a próxima sessão de ‘Aquarius’ começar.

Sem que eu nada perguntasse, a moça comentou que a atuação de Sônia Braga estava maravilhosa. Só então lhe perguntei se já havia assistido ao filme, ao que ela me revelou que aquela seria a sua terceira sessão, mas ainda não a última. Com todo o cuidado do mundo para mudar de assunto, tentei falar de outras coisas com medo de que ela me revelasse algo do filme antes mesmo de eu assisti-lo. Ela não revelou nada, mas do alto de sua empolgação, comentou: “Já estou esperando a continuação”. Como assim seria feita uma continuação de ‘Aquarius’ e eu não estava sabendo? Perguntei-lhe se ela havia visto alguma notícia sobre isso e ela negou. Ela não tinha provas de que seria produzida uma continuação, mas tinha convicções, pois reforçou sua tese: “Do jeito que o filme termina é impossível não ter uma continuação, tem que ter um ‘Aquarius 2′”. Eu nem havia assistido ao filme ainda, mas naquele exato momento eu soube que se tratava de um final aberto. Assim como a moça, que não sei o nome, pois acabamos não nos apresentando, eu não tinha provas, mas tinha convicções de que Kleber Mendonça Filho não faria uma continuação, e claro, lhe expus meu posicionamento. No entanto, a moça estava certa de seu ponto de vista tanto quanto eu estava do meu. As pessoas então começaram a entrar na sala e eu me apressei para entrar também para garantir um bom lugar. A moça, a senhora e eu sentamos em lugares diferentes e nunca mais nos encontramos. Porém, é preciso registrar que em algo eu e a moça concordamos: Sônia Braga está maravilhosa!

Minha cinefilia começou muito cedo. Eu já era cinéfilo antes mesmo de saber que essa palavra existia, e desde o início cultivei um fascínio por finais abertos. ‘Central do Brasil’ foi exibido pela primeira vez em uma mostra regional de cinema na Suíça em 16 de janeiro de 1998. No dia 19 de janeiro foi exibido no Festival Sundance de Cinema nos Estados Unidos e no dia 14 de fevereiro no Festival de Berlim, de onde saiu consagrado com o Urso de Ouro de Melhor Filme. O lançamento no Brasil ocorreu apenas no dia 3 de abril do mesmo ano. Eu tinha então quatro anos de idade. Lógico que eu só fui tomar conhecimento do filme anos depois. Cresci com ele no meu imaginário, assistindo-o repetidas vezes na Sessão da Tarde. Até hoje é um dos meus filmes favoritos, embora seja completamente diferente do tipo de filmes que gosto de ver atualmente. Claro que há um toque de nostalgia em tudo isso. Todavia, Fernanda Montenegro continua sendo minha atriz favorita, o que não se deve apenas por esse trabalho.

Não posso afirmar o ano em que vi ‘Central do Brasil’ pela primeira vez, mas sei que eu tinha por volta de dez anos, não mais que isso. Vinicius de Oliveira tinha apenas doze quando interpretou Josué no filme. Hoje, ele não é assim tão mais velho do que eu e, embora não façamos parte da mesma geração, de uma forma ou de outra, crescemos “juntos”. Durante esses anos todos, me peguei várias vezes pensando no que haveria acontecido com Dora e Josué, mas quando revejo o filme hoje em dia, nem consigo considerar mais que ele tenha um final aberto, pelo menos não tão aberto assim.

O filme de Walter Salles tem um roteiro clássico, nos apresenta uma jornada do herói com seus três atos, pontos de virada, evolução, clímax e resolução da história. Considero-o agora um filme quase “fechado”. Dora é uma vigarista que se dispõe a viajar com Josué até o nordeste do Brasil em busca do pai do garoto. Eles viajam, tornam-se amigos e passam por situações que mudam suas formas de encarar a vida. Não conseguem encontrar o pai de Josué, mas encontram os irmãos do garoto, que também são sua família. A missão de Dora está cumprida. Sei que é difícil encarar a separação dos protagonistas, mas é preciso seguir em frente. O que aconteceu com Dora, se Josué encontrou o pai ou se eles dois voltaram a se encontrar novamente, sinceramente, não importa. O filme apenas se propõe a nos apresentar esse pequeno período da vida dos dois personagens, esse momento chave, essa experiência que resultou na transformação de ambos, tornando-os pessoas melhores e mais fortes. E praticamente tudo que eu disse sobre ‘Central do Brasil’ pode ser aplicado a ‘Que Horas Ela Volta?’ e ‘Aquarius’.

Como roteiro é uma das minhas áreas de atuação, estou sempre estudando e pesquisando sobre. Já li praticamente todos os manuais de roteiro disponíveis no país e posso afirmar que eles não me ajudaram, muito pelo contrário. Manuais são ótimos para quem quer entender o que é um roteiro, para quem quer aprender como ler um roteiro, para quem quer conhecer a formatação de um roteiro, mas são igualmente péssimos na tentativa de ensinar como escrever um. Além de serem livros muito parecidos, alguns quase cópias idênticas, castram a criatividade de um roteirista. Apontam quantos atos um roteiro deve ter, quantas páginas devem conter em cada ato, a duração máxima que um filme deve respeitar, onde devem ser apresentados os pontos de virada, onde deverá ser apresentado o clímax, a forma de apresentar um personagem, a forma de estabelecer um conflito, tudo. Se todos seguissem esses manuais, todos os filmes seriam praticamente iguais. E o que é mais hipócrita nessa história toda é que os prêmios de melhor roteiro quase sempre são entregues para filmes que vão contra essas regras, que subvertem as formas tradicionais de se contar uma história. É como se esses manuais nos ensinassem a como não escrever um roteiro. Acontece, caríssimos, que prêmios não geram bilheteria, então os estúdios seguem impondo essa forma clássica que eu prefiro chamar de forma engessada de escrever roteiros.

Um centenário foi mais do que suficiente para engessar também a forma do público de consumir cinema. Os manuais servem para corresponder a todas as expectativas de quem assiste ao filme. Durante muito tempo, esses manuais só serviram para me deixar inseguro com tudo o que eu escrevia. Eu pensava que se eu não os seguisse à risca, minhas histórias iam ser consideradas péssimas. Antes de ler esses livros eu me sentia muito mais livre e tinha mais coragem de arriscar. Hoje eles ainda são um fantasma, mas já não os leio mais e tento esquecê-los. Agora leio livros de edição e montagem, pois eles não estão preocupados em apresentar uma fórmula, e sim em nos mostrar várias formas diferentes de construir uma mesma cena. E claro, sigo firme no melhor método de aprendizado de todos: assistindo ao maior número de filmes diferentes possível.

Entre as muitas barbaridades que já li em manuais de roteiro, algumas me chamaram mais atenção. Em um deles li que um filme não pode ter mais de duas horas de duração, que o final deve ser sempre feliz, pois filmes tristes deixam o público frustrado, que o filme deve sempre ter um clímax a poucos minutos do fim, que se eu estou escrevendo um roteiro é porque estou pensando em vendê-lo por uma boa quantia em dinheiro e que a melhor forma de conseguir isso é dando ao público o que ele quer ver. Sou contra todas essas estratégias comerciais. O espectador está muito acomodado; é preciso reeducá-lo apresentando coisas novas e não somente o que ele acha que quer. Este é um trabalho difícil, e da forma como o cérebro de boa parte do público está atrofiado, pode ser tarde demais para conseguir reverter essa situação.

O resultado disso é um público preguiçoso que não consegue nem realizar o esforço de fazer uso do belo presente que filmes com finais abertos nos proporcionam. Para quê imaginar o que aconteceu com Clara de ‘Aquarius’ se eu posso esperar uma sequência que responda minhas dúvidas? Esse exercício gostoso de dar continuidade às histórias dos filmes quando eles acabam eu aprendi há muito tempo com ‘Central do Brasil’. Na minha continuação, Dora e Josué nunca mais se reencontraram. Ela morreu sozinha sem nunca conseguir casar e Josué nunca encontrou o pai. Consigo até imaginar que Irene, personagem de Marília Pêra, também terminou sozinha, embora ainda tenha se relacionado com alguns homens, mas nenhum resultando em um relacionamento duradouro. Em minha continuação de ‘Que Horas Ela Volta?’ de Anna Muylaert, Val, personagem de Regina Casé, conseguiu um novo emprego e mesmo com todas as dificuldades, realizou o sonho de ver a filha formada. Jéssica, personagem de Camila Márdila, com o bom emprego que conseguiu, deu uma boa casa à sua mãe, que não precisou mais trabalhar graças ao ótimo salário da filha. Para Clara, personagem de Sônia Braga em ‘Aquarius’, não construí uma história muito otimista. Acredito que ela tenha se saído vitoriosa, mas só depois de muitos anos com o processo correndo na lenta Justiça de nosso país. O sofrimento foi longo, mas ela também causou muita dor de cabeça aos donos da construtora.

Longe de mim defender que todos os finais devam ser abertos. Esse tipo de desfecho deve ser apenas uma forma entre várias outras de se contar uma história. Que finais assim não sejam usados como justificativas para classificar um filme como ruim. O anticlímax proposital também tem o seu valor. A supervalorização da expectativa correspondida deveria ser substituída pela surpresa. O público tem que sair de sua zona de conforto e abandonar esse olhar que não se permite enxergar outras possibilidades. Nem todos os filmes precisam de uma continuação, pois eles podem (e devem) continuar dentro de nós, em nossas mentes. É divertido se surpreender, é divertido ser apresentado a coisas novas que ainda não sabemos que gostamos. Não tenho problemas com finais felizes, mas tenho pavor do “viveram felizes para sempre”. É o mesmo que matar os personagens. A vida não é feita só de sorrisos. É bom ver nossos heróis vencerem seus desafios, mas o último minuto do filme não pode significar o fim deles – a não ser que eles morram. Se o roteirista decidir por não ceifar a vida de suas criações, assim como nós, suas jornadas “continuam”, pois no fim das contas, enquanto não morrermos, todo dia é um final em aberto.

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7 Comentários

  1. Magnífico, esplêndido 👏👏👏 uma leitura prazerosa e repleta de conteúdo 😍

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  2. …”Além de serem livros muito parecidos, alguns quase cópias idênticas, castram a criatividade de um roteirista. ”
    Nunca curti manuais…
    Post maravilhoso. Gosto muito de vir aqui. Bju

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  3. Para mim, quanto mais desafiadora a produção for, melhor, porque o que precisamos é de coisas que nos façam expandir nosso pensamento, nossa percepção do mundo sobre vários sentimentos, temas e comportamentos.

    Adorei o texto, como sempre, muito eficaz e envolvente.

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  4. Uma coisa que eu gosto no seu blog é que geralmente eu fico com vontade de assistir esses filmes, mesmo eu não sendo amante de cinema.

    Também curto os finais abertos, a possibilidade de se colocar ali, naquela tela e se fazer roteirista, imaginando o que decorreria depois da última fala é algo mágico, principalmente no caso de histórias com um “tom” tão real, onde imaginar a cena ficaria entre o que é provável acontecer e o que eu quero que aconteça.

    Acho que uma das profissões mais lindas com toda a certeza é a do roteirista, eu nunca seria roteirista, quando minha eu e minha turma tivemos uma disciplina de produção audiovisual, aprendi que apesar de amar escrever histórias, eu não era roteirista, eu não conseguia dar vida a àqueles momentos em um determinado espaço, isso é meio cruel rsrs, assim como aprendi que não era atriz apesar de ser uma ótima comediante.

    Gostei muito do seu texto, me fez refletir!!!!

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  5. Adoro filmes, mas a produção nacional ainda me causa alguma preguiça. Não tenho paciência com comédias e me falta ânimo para essas realidades alucinadas de morros. Gostei de ‘o quatrilho’, meu filme nacional favorito. Mas ‘central do Brasil’ não me alcançou. Aquarius é outro filme que me incomodou e justamente por causa do roteiro. Achei fraco e falho. Achei tudo engessado demais.
    Gosto das produções francesas e iranianas e adoro alguns italianos da década de cinquenta, por exemplo. Adoro filmes antigos, sem a prática comercial, o cinema pela arte e não pela bilheteria. Em algum lugar do mundo ainda está em uso isso. rs
    bacio

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  6. Que incrivel este teu texto. Após a leitura, eu criei uma “opinião” sobre os finais abertos. Antes, eu nunca sabia de fato dizer o que eu sentia com eles. As vezes ficava irritada porque não tinha um final, outras vezes eu achava que tinha ficado perfeito ou que tinha um proposito para aquilo. Mas agora após a leitura do seu texto, nunca pensei em dar o final para eles. Nunca pensei em tentar dá uma continuação. Me lembrei do filme “A culpa é das estrelas”, na qual a protagonista quer de qualquer forma o final do seu livro favorito. Me lembrei também da resposta do autor, quando ela conseguiu fazer esta pergunta á ele. È incrível.

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  7. Texto muito bom. Eis aqui o meu comentário: o final de um filme é um momento importante da estória, pois aí o cineasta expressa sua posição quanto ao desfecho, mdando uma solução ou saída ou deixando em aberto. Aqui é a vez do público pensar, comentar e poder ser crítico. Um filme que oferece estas possibilidades são mais abertos e aliados à realidade. Um cineasta sério não tem interesse em “happy end” com um beijo longo e música a condizer só para satisfazer ao público. Pelo contrário, ele mostra que mesmo encenando uma ficção, esta não pode se desprender da realidade, desvinculando-se da vida. O final feliz do filme Preety Woman com a Júlia Roberts é irreal? Não acho. Embora sendo muito difícil que a estória de Preety Woman aconteça na vida, ainda seria possível,
    e isto é o que nos faz sonhar. Então o final feliz, mesmo sendo quase de um conto de fadas, está vinculado com a realidade. Para mim no filme “Que horas ela volta?” há um final feliz e aberto para pensar em que tipos de saídas vai encontrar a Val depois de sua decisão de se liberar de anos de trabalho e dedicação a uma família que a paga um salário, mas não lhe dá o reconhecimento pessoal – com exceção do filho – que ela tanto espera. Isto se vê no presente de aniversário à patroa que foi para Val um meio de mostrar seu desejo de ser mais do que uma empregada-doméstica da família, mas para a dona da casa não. Esta só vê o valor material do jogo de café, que no caso está abaixo de seus padrões.
    Finalmente Val encontra no aparecimento inesperado da filha a oportunidade para liberar-se e encontrar-se com ela mesma no seu papel de mãe, o qual foi sacrificado por anos de trabalho. Para mim o final do filme é uma abertura à nova vida com novas possibilidades. A filha é a força criadora, simboliza uma consciência jovem e um futuro diferente do da mãe. O filme também valoriza o trabalho de Val como fonte de existência e não como uma submissão inconsciente e seu último gesto com a mão quando mostra que não deixou na casa da patroa o que lhe deu de presente, ou seja, o jogo de café é para algumas pessoas, como escutei, um gesto negativo que promove o furto. Independente de um julgamento, digo que é um gesto bem brasileiro, é uma concessão a nossa sociedade, está presente em inúmeras situações brasileiras e deixando o valor moral de um lado, acho que através dele Val finalmente toma o que é dela, por fim põe-se em primeiro lugar, defendendo seus valores. É um passo importante de uma mulher como ela no caminho da auto-determinação.

    Curtido por 2 pessoas

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