odeio datas comemorativas

Bem que o título do texto poderia ser “odeio certas datas comemorativas”, mas achei que só “odeio datas comemorativas” chamaria mais atenção, então ficou assim. Porém, antes de iniciar de fato, gostaria de excluir de antemão as datas de aniversário – não que eu as ame, pois nunca comemoro quando fico um ano mais velho. É bem verdade que meus pais nunca me fizeram festinhas de aniversário, e isto, na infância, foi um drama, mas é algo que já superei. De toda forma, não vejo muitos motivos para comemorar um ano a mais que, na prática, significa um ano a menos. Sei que queremos viver o máximo possível (ou não), e que atingir uma idade avançada é uma vitória (ou não), mas ao mesmo tempo em que vivemos cada vez mais, teremos cada vez menos dias pela frente. Também gostaria de excluir desse texto de ódio o dia da mulher, o dia da consciência negra, o dia do índio, e tantas outras datas importantes que existem para nos conscientizar de algo. Enfim, dito isso, podemos começar.

Odeio datas comemorativas: dia dos pais, dia das mães, dia das crianças, páscoa, dia dos namorados, natal. Todas elas com o intuito de nos fazer consumir, diferentemente das datas citadas no parágrafo acima, que existem para nos vender pensamentos, pois nos fazem refletir sobre algum acontecimento ou situação que devemos mudar. É bem difícil fugir dessas datas organizadas pelo comércio, podendo elas muitas vezes nos causar constrangimento e até mesmo sofrimento sem que nos demos conta.

Na infância, foram pouquíssimos os anos em que meus pais tiveram condições de comprar ovos de páscoa para mim e minha irmã. Sei que os religiosos hão de dizer que esse não é o sentido da data e que devemos comemorar a ressurreição de Cristo e blá blá blá, mas tente explicar isso para uma criança que vê por todos os lados a celebração do coelhinho da páscoa e não de Jesus. Junto à minha irmã, sofri por não ganharmos chocolate enquanto todas as outras crianças esbanjavam seus doces e, embora nunca tenham dito nada, sei que meus pais sofreram também por não estarem em condições financeiras de comprar o maldito ovo. Tudo culpa do comércio que fez disso uma tradição, subvertendo totalmente o sentido dessa data religiosa. Hoje, é como se a páscoa não existisse para mim, primeiro porque sou ateu, e segundo porque não como mais chocolate. O mesmo vale para o natal, mas as duas, aliadas ao capitalismo, continuam oprimindo muitas pessoas, religiosas ou não.

Ainda quando criança, eu tive de enfrentar o famigerado 12 de outubro, que também não foi uma data muito comemorada por mim, mesmo que meus pais nunca tenham deixado passar em branco. Acontece que eles se aproveitavam do dia das crianças para nos comprar roupas e calçados. Juntamente com a festa de final de ano, essa era uma das poucas ocasiões em que ganhávamos roupas novas e todos nós sabemos que, com pouca idade, tudo o que queremos ganhar são brinquedos. Não conseguia considerar as roupas como presentes de dia das crianças porque não era o que todos os meus amigos ganhavam. Enquanto isso, minhas roupas novas ficavam guardadas à espera de compromissos teoricamente importantes, como as festas de aniversário dos outros.

Minha irmã, que nasceu em um dia 13 de outubro, coitada, só ganhava um presente pelas duas datas. No entanto, justiça seja feita, tínhamos brinquedos, embora nunca fossem caros – minha irmã tinha suas bonecas enquanto eu os meus bonecos (nunca gostei muito de carros). Porém, eles quase nunca eram adquiridos no dia das crianças, e sim em outras datas do ano, quando meu pai tinha algum dinheirinho extra. Alguns anos atrás, minha mãe me confessou que se sentia triste por nunca ter comprado uma ótima boneca para minha irmã e que, hoje, quando ela tem condições para fazer isso, minha irmã já é uma mulher.

Tento lembrar dos anos em que meus pais se esforçaram para nos dar roupas e brinquedos no dia das crianças, mas só consigo me recordar de uma ocasião, embora eu acredite que tenham acontecido outras vezes. Foi um ano em que meu pai nos comprou celulares de mentira, eles eram pretos e reproduziam sons diferentes em cada botão. Contudo, ganhávamos brinquedos de tios e tias às vezes e, em um belo dia, parei de recebê-los: havia deixado de ser criança. Não sei quantos anos eu tinha, se onze ou doze. Minha irmã, mais nova que eu, continuou a ganhar por alguns anos e, mesmo eu ainda me considerando uma criança, tive que, à revelia, me enxergar como um adolescente.

De forma alguma eram só nessas datas que minha irmã e eu sofríamos. Em maio, havia o dia das mães e em agosto, outra aflição com o dia dos pais. Criança não trabalha, logo, não tem dinheiro. Se uma criança presenteia alguém é porque algum adulto pagou por isso. Durante todo o tempo em que minha irmã e eu não trabalhamos para ganhar nosso próprio dinheiro, meu pai nunca tinha algum sobrado para que pudéssemos comprar algo no dia das mães e minha mãe também nunca tinha dinheiro para que pudéssemos presentear nosso pai em agosto. Todo esse martírio se repetia nas datas de aniversário deles e, mesmo criança, eu me sentia muito constrangido por dar sempre uma cartinha ou um bilhete. Finalmente, hoje esse constrangimento acabou.

O dia dos namorados é duplamente cruel. Nesta data, quando você não está namorando, é inevitável não se sentir carente enquanto todos os outros parecem estar felizes com seus parceiros e parceiras. Só passei a comemorar o dia dos namorados há três anos. Durante duas décadas, nunca estive namorando alguém no dia 12 de junho. Batia sempre aquele sentimento de azar no amor. De toda forma, foi importantíssimo para que eu aprendesse o verdadeiro valor de amar a si mesmo. Não dá para amar alguém se você não se amar primeiro – é um clichê, mas é verdade. Ao estar namorando no dia dos namorados, data criada apenas para estimular o consumo, acabamos criando toda uma expectativa para comemorar um dia perfeito. É aquela obrigação de dar o melhor presente, de sairmos e ainda realizar a melhor transa da vida. Toda essa expectativa praticamente só gera frustração e basta que apenas uma coisinha não aconteça conforme o planejado para que se estrague tudo. Já não basta o aniversário de namoro? Tem que existir duas datas para se comemorar a mesmíssima coisa?

Quando minha mãe aniversaria, além de presenteá-la e comemorar mais um ano ao seu lado, festejo o fato dela ser minha mãe. O mesmo vale para o meu pai. É para isso que servem os aniversários. Recentemente, novas datas estão começando a virar tradição: o dia do amigo, do irmão, dos avós e por aí vai. Muito em breve, o comércio estará se apossando delas e agregando-as ao seu calendário de datas comemorativas. Virão promoções e, logo logo, serão datas comerciais também. Não vejo sentido no dia do irmão, do amigo e nem dos avós. Quando minha irmã faz aniversário, já comemoramos o fato de sermos irmãos, pois, se não fossemos, não estaríamos comemorando tal data juntos. O mesmo se aplica para os meus amigos e avós. Sem contar que prefiro muito mais os presentes que ganho em dias comuns (são tão mais sinceros!). Eu particularmente adoro presentear sem motivo.

Os dias dos pais e das mães já me foram cruéis e hão de ser ainda mais quando eles não estiverem mais vivos. Em julho deste ano, minha família comemorou o dia dos avós sem meu avô, que havia morrido apenas dois meses antes. Ano que vem, ele não estará comigo no dia de seu aniversário e a data de sua morte vai doer igualmente, porém, são datas privadas. Tem mesmo que existir o dia dos avós para me fazer, além do dia a dia, sentir uma enorme e dolorosa saudade dele? Que tipo de pessoa precisa de uma data marcada para expressar amor e gratidão aos entes queridos? É realmente necessário que essas datas existam? Sei que não temos como fugir de aniversários, mas não há motivos tão importantes assim para se criar datas para tudo. Prefiro o dia do livro, da árvore e do cinema brasileiro em detrimento ao dos avós e do irmão, mas não sou eu quem cria as datas comemorativas, infelizmente.

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17 Comentários

  1. Oie, não posso discordar de nada no seu texto. Nunca gostei e continuo não gostando de nenhuma dessas datas comerciais, só comemoro por insistência dos outros. Mas vamos seguindo e nos esquivando aos poucos, porque já somos muitos que assim pensamos (:

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  2. Helena Maxxx

     /  5 de setembro de 2016

    Também não tenho como discordar. Adoro dar presente sem motivo, presentear em data sem apelo comercial. Pra mim é estranha essa coisa mecânica de marcar dia pra demonstrar amor. Além dos dias de conscientização, que vc sabiamente tirou da lista, eu manteria o Natal. Por motivos muito pessoais. Eu sei que o comércio já se apossou da data há muito tempo, mas minha família consegue fazer diferente. Somos uma família grande e conseguimos nos reunir, mesmo tendo gente morando em estados diferentes. As crianças ganham brinquedos ou roupas, mas nada com exagero.

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    • Que bom que sua família consegue aproveitar, Helena. Conheço muitas histórias de falsidade familiar durante essas datas, de gente que se reúne por obrigação, mas sei que também existem famílias, como a sua, que conseguem transformar o natal em uma experiência boa. Melhor ainda seria se não precisassem de uma data fixa para fazer esse encontrão acontecer. Obrigado pelo comentário, abraço :)

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      • Helena Maxxx

         /  6 de setembro de 2016

        A gente só articula a data porque tem gente morando em três estados diferentes. Daí precisa do planejamento. Mas o nosso Natal é pra ficarmos juntos. As crianças até gostam dos presentes, mas já sabem que o mais importante é poder juntar o povo todo. Visualize cinquenta pessoas espremida numa sala rindo e conversando, ao lado de uma árvore estilizada feita com material reciclado. Este é o meu Natal há vinte anos. :)

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  3. Pois é. Eu também não sou muito fã. Sempre achei meio sem originalidade, exatamente esse tipo de datas a que você se refere. Mas entre todas, a que mais causa horror nas outras pessoas (ditas normais), é quando elas descobrem que detesto o Natal, especificamente. E os motivos são muitos.

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  4. Eu até gosto, mas odeio a comercialização sobre as datas marcantes.
    Ahhh, na verdade, ach

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  5. Continuando…
    acho que gosto mais dos feriados em si.. rsrs

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  6. Acho que seu texto revela o sentimento de muitas pessoas. Mesmo para quem pode comemorar, são datas que geram uma certa pressão e às vezes não têm significado algum na essência da pessoa, só o comercial mesmo, como a Páscoa e o Natal. Mas como eu disse acima, feriados são sempre bem -vindos, rs

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    • Feriados são ótimos, o problema está no que se comemora nessas datas. Um país laico não deveria ter feriados santos. Enquanto isso, datas importantes, como o dia do livro e da árvore não são feriados. O próprio dia da consciência negra não é feriado em todos os estados do Brasil, apenas em alguns. Um absurdo. Seu comentário resume bem o sentimento de muitos, obrigado Juliana. Abraço

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      • Sim, eu comentei sobre os feriados só para descontrair mesmo, não que feriados sejam ruins, muito pelo contrário, mas concordo plenamente com você sobre o significado (ou falta de) das datas comemorativas.
        Beijinhos

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  7. Deivid Ramos dos Santos

     /  24 de dezembro de 2016

    Isso mesmo.. essas datas supracitadas ao invés de me fazerem bem, sinto-me estranho. só faço parte das comemorações por conta da família e amigos que insistem.. e assim vamos indo rsrs

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  8. Guiido

     /  13 de junho de 2017

    Eu odeio essas datas comemorativas é total hipocrisia criada pelo comércio e pessoas imbecis fúteis, que querem demonstrar algo para o sociedade. Pessoas perfeitas com vidas perfeitas fingindo serem felizes. Essas datas fomentam isso! Já tive várias brigas com namorada por essas idiotices!

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  9. Guiido

     /  13 de junho de 2017

    Esqueci de comentar! Odeio amigo secreto também mais que todas essas datas! Eta troço besta isso!!!

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