eutanásia literária

Como vocês devem saber, existem duas maneiras de se assistir a um filme: a primeira, inconscientemente praticada por quase toda a população, é mergulhando de tal forma na história, a ponto de se esquecer de estar vendo um vídeo; a segunda, mais comum entre profissionais de cinema, é permanecendo o tempo todo consciente de estar assistindo a uma produção cinematográfica e reparando em todos os detalhes técnicos, como atuação, enquadramento, fotografia, roteiro, som, continuidade, etecetera, etecetera. Há quem faça uma mescla, mas uma das formas sempre se sobressai. Ambas, no entanto, me proporcionam um enorme prazer e, até quando a estória é triste, a experiência se torna deleitosa. A primeira forma era a minha maneira de ver filmes antes de começar a estudar cinema e realizar minhas próprias produções. Não consigo voltar a ver filmes como antigamente e nem faço muita questão, já que adoro saber ou imaginar o que acontece por trás das câmeras. Desse modo, não sofro quando um filme acaba (não que sofresse antes, pois sempre anseio pelo final).

Com a literatura ficcional, entretanto, é tudo diferente. Embora eu escreva, só sei ler de uma única forma: me sentindo psicologicamente parte da comunidade protagonista do livro. Em vista disso, concluir boas leituras, às vezes, pode ser um verdadeiro martírio. Diferentemente de um filme, que ocupa em média duas horas do meu tempo (e que vejo de fora, sem o mesmo envolvimento com os personagens e ações principais), os livros me exigem no mínimo uma semana, isso se tratando dos mais curtos, visto que meu ritmo de leitura é lento. Porém, uma semana é tempo suficiente para que eu me envolva com tal força, que é inevitável não me sentir triste ao me despedir do texto.

A relação com o impresso é tão intensa que, a nível de comparação, raramente fico triste com a morte de personagens em filmes (talvez por gostar muito de ver mortes cinematograficamente bem realizadas), mas dependendo do livro e do personagem, sofro demais. Quando a morte ocorre muito antes do fim, além da perda em si, é triste encarar o restante da jornada imaginando a ausência do personagem nas páginas seguintes. Todavia, com ou sem morte, o difícil mesmo é finalizar a leitura de um bom livro e dizer adeus àquele companheiro de dias, semanas ou até meses. Não foram raros os momentos em que desacelerei a leitura propositalmente para permanecer mais tempo com certa história, o que também ocorre com narrativas biográficas e livros de poesia. Concluir a leitura de séries então é uma verdadeira tortura. Li poucas, mas sempre comecei todas muito ansioso por terminar e, ironicamente, ao me aproximar dos últimos volumes, sempre tratava de sabotar o fim lendo outros títulos. Por multiplicar em várias a dor do término de um livro, as séries foram perdendo espaço na minha estante. Hoje, só restam duas ainda não lidas na prateleira e sem a menor previsão de início. A última série que li foi concluída em dois anos. No primeiro ano li 80% dela e deixei apenas dois volumes para o ano seguinte, que foram intercalados por dezenas de leituras a fim de não abreviar sua vida.

Procurando explicações, suponho que a imaginação seja o segredo por trás de todo esse envolvimento. Não querendo contrapor cinema e literatura (justamente porque, ao fazê-lo, cometo uma enorme injustiça para com os dois lados e suas importâncias artísticas, estéticas e políticas), mas inevitavelmente já comparando, é preciso reiterar o que todos já sabem: no cinema, as imagens estão dadas, digamos assim, enquanto que, na literatura, por mais detalhista que seja o escritor, intencionalmente ou não, ele sempre deixará espaços. Logo, não havendo imagens para preencher esses “vazios”, cada pormenor só ganha vida na nossa idealização. No vídeo, embora cada um também possa interpretá-los ou estima-los à sua maneira, os personagens são visualmente iguais para todos. Para cada livro, concebo os personagens da minha forma e até crio vozes diferentes para cada um deles. Não importa quantas pessoas leiam o mesmo título, cada uma delas fantasiará a história de forma singular e, consequentemente, isso fortalece muito a minha relação com o texto.

Com o tempo, fui desenvolvendo estratégias capazes de amenizar o luto de uma eutanásia literária. Passei a ler muitos livros ao mesmo tempo e estabeleci três como número mínimo, mas tenho há muito mantido uma média de cinco leituras simultâneas. Gerenciando bem esses livros, é possível passar por um padecimento por vez, mas continua sendo difícil, para mim, matar uma história lendo o último capítulo. Só livros muito bons causam esse impacto, mas a sensação de folhear a última página, sabendo que depois não tem “mais”, é demasiado amarga. Porém, as outras leituras em andamento funcionam como um conforto, o que me permite não cair em jejum entre um título e outro. No amor, substituir um(a) ex por um novo relacionamento com a intenção de sarar o namoro anterior nunca funcionou comigo, mas posso garantir que nada melhor para curar uma ressaca pós-leitura do que outro porre literário.

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11 Comentários

  1. Passei e passo por essa angústia sempre quando termino meus livros. Só quem gosta de ler muito pra sentir isso. Sobre os filmes, como sou um amador, sofro ainda com os roteiros e histórias.
    Bom texto!
    Quando der, visite meu blog.
    Abraços…

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  2. Também mudei minha forma de assistir filmes depois que passei a produzi-los. Acho uma experiência muito mais rica hoje, mas continuo “sofrendo” como sofro ao ler um livro. Uma boa atuação, um bom cenário, uma boa montagem, é catártico! Hehehehe

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  3. Olá. Fiquei impressionada com o seu texto, como você escreve e como desenvolve o assunto. O conteúdo em si, foi mais fascinante ainda. Me identifiquei com suas palavras, eu não conseguia diferenciar o cinema da literatura, mas você conseguiu fazer isso de uma forma brilhante. Vou voltar sempre. Obrigada pela ótima leitura <3'

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  4. Ótimo post !

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  5. Texto interessante! Concordo com você. A experiência com cinema, por mais intensa que seja, é um mergulho de poucas horas, se comparado com o feito com os livros médios, e isso certamente influencia no apego que cultivamos pelos personagens, histórias. Quando gosto muito de um filme, acabo revendo diversas vezes, ao passo que, com livros, dificilmente faço releituras, ainda mais se ele for muito longo. E isso também contribui para a saudade…

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    • Acontece o mesmo comigo, Juliana. Estou sempre revendo meus filmes favoritos, mas até hoje só reli Dom Casmurro. Ano que vem pretendo reler alguns outros livros que li ainda muito jovem e matar a saudade. Abraço

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