me julgue

Nos últimos tempos, tenho escutado uma variedade de frases absurdas e outras nem tanto, acompanhadas das palavras “me julgue”. Algumas são tristíssimas de ouvir, principalmente quando saem da boca de alguns amigos e amigas. As mais dolorosas continuam sendo “não gosto de literatura brasileira, me julgue”, “não gosto de cinema nacional, me julgue” e “não gosto de música cantada em português, me julgue”. Nesses casos de generalizações o “me julgue” funciona como um “foda-se”. De certa forma, é até uma maneira agressiva de se dizer não gostar e não estar nem um pouco interessado em tentar pesquisar e conhecer melhor o que diz não apreciar – e é por isso que quem diz não liga se é julgado ou não.

Há também um segundo caso, o dos que se sentem constrangidos por gostarem de alguma coisa: “gosto de novelas, me julgue”, “gosto de reality shows, me julgue”, “gosto de música sertaneja, me julgue”. Aqui, o “me julgue” significa “por favor, não me julgue”. Essas pessoas se envergonham por gostarem do que todos adoram falar mal, e essa é a única forma de conseguir revelar suas preferencias para o mundo – funciona como um mecanismo de defesa. Com essas duas palavrinhas, as pessoas tentam nos ludibriar, fingindo não ligar para a opinião alheia, o que evidentemente não é verdade. Quando não nos importamos com a opinião dos outros não sentimos nenhuma necessidade de demonstrar esse posicionamento, apenas dizemos “eu gosto disso” e pronto.

Para os que se sentem envergonhados por gostarem de algo, tudo o que eu tenho a lhes dizer é: gostem, continuem gostando, gostem com força! Se um dia mudarem de ideia e pararem de gostar, que seja por conta própria ou por uma dessas mudanças que o próprio tempo se encarrega de realizar, e não por imposição, julgamento e preconceito da opinião alheia.

Não devemos fazer juízo de valor em nenhum dos dois casos. Não há problema algum em gostar ou não gostar de algo, porém, todavia, entretanto, fazer generalizações como no primeiro caso explanado acima é, digamos assim, exercer uma visão preconceituosa. Quando alguém me diz não gostar de cinema brasileiro (usarei esse exemplo por ser o que mais escuto), eu não julgo, mas isso não me impede de tentar fazer com que o outro enxergue seu posicionamento de forma diferente, pois quase sempre ele não percebe que pode estar sendo induzido a pensar assim.

Somos criados assistindo a um cinema que não é nosso e que nos apresenta uma cultura que também não é nossa. Basta ligar a TV a qualquer hora do dia que em algum canal estará sendo transmitido um filme estrangeiro. Acabamos consumindo aquele estilo de vida e considerando sua estética cinematográfica como a melhor. No entanto, o dinheiro usado para realizar um filme na gringa pagaria a produção de uns vinte filmes brasileiros ou mais. Quando dizem que o público de cinema é elitista há sempre quem rebata essa teoria, mas poder pagar trinta reais em um ingresso é um privilégio de poucos e sabemos disso. Talvez por essa razão, pouca gente ache absurdo gastar milhões para se realizar um filme. Fazer cinema deveria ser barato e o preço do ingresso mais barato ainda. Os altos valores cobrados por uma sessão mantêm o público de classe baixa bem longe da sétima arte.

Em 2007, Hector Babenco deu uma entrevista para Cynara Menezes em que falou um pouco sobre isso, comparando o cinema brasileiro com o argentino: “Quem vai ao cinema no Brasil são as pessoas que podem pagar 16, 20 reais, são de classe média. E o cinema brasileiro de fato tem dado mais espaço a uma dramaturgia alimentada pelos excluídos, pelas desigualdades sociais, por essa mentira em que o país se transformou, essa lepra, como diz o Jabor. Já as tragédias argentinas são dramas de classe média: a vovó que não morre e não deixa a casa que tem que ser dividida pelos filhos, o filho cujo pai está com câncer e não sabe o que fazer… Como o público brasileiro também é de classe média, acha que o cinema daqui teria que ser como o de lá. Sou mais o cinema brasileiro, com suas imperfeições, do que o argentino com seu aburguesamento.”

A razão apontada por Babenco é apenas uma das muitas que mantém o público brasileiro distante do próprio cinema. Reconheço que também produzimos filmes medíocres, mas dizer não gostar da produção nacional por ser um cinema ruim é generalizar. Cinema brasileiro não é só Globo Filmes e, se fosse dessa forma, eu deveria dizer que não gosto de filmes norte-americanos, pois quase todos os que passam na TV ou estão em cartaz nos cinemas, para mim, são desprezíveis. Porém, jamais faria uma afirmação dessas, pois esse mesmo país já produziu e ainda produz obras primas, sem contar o seu circuito independente, que quase nunca decepciona. Porém, esses filmes mais baratos, que fogem dos padrões comerciais e não apresentam em seu elenco atores e atrizes famosos, não chegam às nossas salas de cinema e muito menos são televisionados. Ou seja, todos os países do mundo produzem filmes bons e ruins, não dá para generalizar.

Acontece, caríssimos, que uma espessa nuvem de preguiça paira sobre as plateias, e isso não é uma característica só do público brasileiro. O comodismo impede que muitas pessoas procurem conteúdos por conta própria. Assistir apenas o que fica em cartaz nos cinemas de shopping, ver apenas o que a televisão transmite, ler somente os best-sellers que ocupam as prateleiras das livrarias ou ouvir só o que toca no rádio ou na novela é ficar à deriva, consumindo apenas o que os grandes veículos de mídia tentam impor. É por isso que muita gente diz não gostar de música em português, pois estão acostumados a só ouvirem música internacional tema de casal de novela, muitas vezes sem nem entender o que diz a letra.

Contudo, não é julgando que fazemos o outro ter uma visão nova e talvez mais lúcida da situação. Quando alguém me diz que cinema brasileiro só tem filme de favela, peço sempre que me diga o título de cinco filmes que abordem o tema sem ser ‘Cidade de Deus’ (2002) e ‘Tropa de Elite’ (2007). É óbvio que existem outros longas brasileiros que falam sobre isso, pesquisar e responder é fácil, mas até hoje ninguém conseguiu me informar outros cinco títulos de cabeça. Fazer perguntas para pessoas sem argumentos sempre as deixa sem defesa, pois se não conseguem justificar seus posicionamentos, são automaticamente forçadas a reconhecer que estão sem razão por contradizerem o próprio discurso. O próximo passo é sempre apresentar um bom filme, ou um ótimo livro ou disco, dependendo da generalização. Se a pessoa não gostar, apresentamos outro e mais outro e, se depois de algumas tentativas a pessoa continuar dizendo que não gosta, temos que respeitar, já que, pelo menos, houve uma tentativa do outro lado em conhecer nossa perspectiva.

No filme ‘Real Beleza’ (2015) do diretor Jorge Furtado, o fotógrafo João, personagem de Vladimir Brichta, conversa com seu assistente que lhe diz que “gosto não se discute”, ao que João rebate: “se discute sim, aliás, o tempo todo, é praticamente só o que se faz”. Concordo que gosto se discute o tempo inteiro, mas penso que não deveria. Cada um gosta do que quiser, no entanto, é preciso problematizar as generalizações. Bem mais do que dar uma chance a outras produções, a verdadeira questão é se dar uma chance de pesquisar e conhecer outros nichos e movimentos culturais que vivem à margem. É preciso entrar em contato antes de afirmar não gostar de algo, conceito prévio (pré-conceito) é um comportamento de mentes fechadas.

Não é assustador imaginar que podemos morrer sem conhecer nossos verdadeiros filmes, livros e discos favoritos, só por preguiça de pesquisar? Eles estão em algum lugar por aí, só esperando por nós. Mentes à deriva é tudo que o Sistema deseja para unificar a massa cada vez mais, oprimindo personalidades e rotulando por conta própria o que é bom ou ruim. Também não há problema nenhum em fazer parte de um público massivo e consumir a corrente principal (mainstream), uma vez que esse seja realmente seu conteúdo de preferência. No final, os fãs de filmes blockbusters, de filmes brasileiros e os que não apreciam cinema, vão todos morrer. A vida é curta demais para perder tempo julgando o gosto dos outros, mas que dá vontade de julgar quem faz generalizações, ah isso dá, me julgue.

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18 Comentários

  1. Tem uma frase que aprendi em um livro do Paramahansa Yogananda que diz: “não julgue o todo pela características de muitos”.
    E quanto aos filmes brasileiros, estou plenamente de acordo: Lisbela e o prisioneiro, por exemplo, é um lindo filme.

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  2. Tem uma frase que aprendi no livro de Parahansa Yogananda que diz: “não julgue o todo pela características de muitos”.
    E quanto ao cinema brasileiro eu concordo plenamente contigo. Temos O Palhaço, Lisbela e o Prisioneiro, Bicho de Sete Cabeças …

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  3. Dua velhas manias, preocupar-se com o que as pessoas vão pensar e ficar comparando tudo. Não sou um dos maiores fãs do cinema brasileiro, prefiro o francês, mas nem por isso o desmereço. O mesmo serve para a musica e toda forma de arte brasileira.

    Adorei ler o texto. Reafirmando, sou teu fã.

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    • Muito obrigado pelas palavras, Cristiano, fico muito envaidecido com elas.
      Também gosto do cinema francês, embora não seja o meu favorito. Forte abraço

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  4. Eu agosto da Samba e adouro a Bossa Nova. Um abraço.

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  5. Belo texto! Sobre o “me julgue”, vejo isso como uma idiotice sem tamanho. Quem diz isso já se fechou à dialética, isso não é bom.
    Sobre filmes, livros e demais produtos, realmente os grandes produtores dizem e desdizem aquilo que é bom, o povo, sem entendimento próprio, aceita goela a baixo. Temos que gostar daquilo que nos apetece, muitas vezes nosso gosto não estará nas vitrines, mas sim bem escondido do grande público.
    Vou acompanhar seus textos! :)

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  6. Amei o texto estou louca para assistir ”Mãe só há uma”. Aliás sou fã de filmes brasileiros, meu problema com alguns filmes estrangeiros e nacionais, são algumas comédias (bizarras em que a comédia é a tragédia do outro) e alguns filmes que possuem uma ”passagem” de tempo mais lenta.
    Bjão

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    • Obrigado pelo comentário, Juju. É preciso atenção aos filmes que você diz ter uma passagem de tempo lenta, pois, em muitos casos, eles estão propondo um cinema de contemplação, o que é bastante diferente da forma clássica que estamos acostumados a ver.
      Também estou com muita vontade de assistir “Mãe Só Há Uma”.
      Bjs

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  7. Olá. Belo texto. Realmente esta coisa toda de, me julgue, generalização e a acomodação do povo, traz um grande desconforto. Você é um ótimo escritor, parabéns!

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  8. “Somos criados assistindo a um cinema que não é nosso e que nos apresenta uma cultura que também não é nossa… Não é assustador imaginar que podemos morrer sem conhecer nossos verdadeiros filmes, livros e discos favoritos, só por preguiça de pesquisar?”… Dia desses entrei no único cinema da Capital onde moro (Maceió) que prioriza filmes nacionais ou com mais profundidade… Faltavam dez minutos para começar a sessão e só tinham duas moças no fundo da sala… Fui até elas (confesso, tinha bebido duas doses de vodka-caso contrário não teria tido tal atitude, tímido que sou), pedi desculpa por interromper a conversa das duas e perguntei: “Vocês não acham estranho que prestes a começar um filme nacional de qualidade, só tenhamos nós três na sala?” As duas me olharam meio assustadas, como que pensando: ‘o que esse gordo tarado quer aqui?’, deram uma resposta evasiva qualquer e voltei para o meu lugar me sentindo um idiota, afinal, até mesmo elas devem ter escolhido entrar naquele cinema meio que por acaso… … … Parabéns pelo texto e desculpe por me estender demais no comentário, mas a lembrança do fato patético foi inevitável… Hehehe

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  9. “O comodismo impede que muitas pessoas procurem conteúdos por conta própria. Assistir apenas o que fica em cartaz nos cinemas de shopping, ver apenas o que a televisão transmite, ler somente os best-sellers que ocupam as prateleiras das livrarias ou ouvir só o que toca no rádio ou na novela é ficar à deriva, consumindo apenas o que os grandes veículos de mídia tentam impor.” – Eu amei isso.

    Você é simplesmente incrível! Fiquei encantada com sua forma de escrever, de debater, de tudo! Meus parabéns, viu? Haha.

    Sobre o texto: palavras foram tiradas da minha boca e digitadas por você Caraca, realmente, existe uma imensidão de músicas, filmes e livros brasileiros jogados ao fundo de uma livraria; discos riscados ou quebrados no armário e filmes que são considerados “de velho” – assim como MPB – que são totalmente esquecidos e julgados. E as pessoas que apreciam são totalmente massacradas. Também concordo que gosto é algo que cada um deve ter o seu, e acima de tudo, se sentir bem com o que está fazendo. Enfim, você arrazou, haha.

    Parabéns!

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