minha mentira favorita

Creio eu que, quando desenvolveram os navegadores de internet, pensaram na barra de favoritos – como o próprio nome sugere – somente como um espaço reservado para o acesso rápido dos sites mais visitados pelo internauta. A função deve ter sido respeitada no início, mas por muito pouco tempo. Particularmente, não necessito ter meus sites mais acessados favoritados no navegador e, justamente por acessá-los sempre, conheço bem o caminho para chegar até essas páginas. Não pense que isso é muito trabalhoso, pois sabemos que, para tudo que já foi acessado antes, não é mais preciso informar a URL completa. Só preciso digitar umas três letrinhas no máximo e, em muitos casos, apenas uma é suficiente para que o próprio navegador me mostre a opção de concluir o endereço sozinho. Dessa forma, minha barra de favoritos se tornou uma extensa fila de espera. Explico.

Assim como todos os leitores e cinéfilos que passaram por esse planeta e não conseguiram ler ou assistir tudo que gostariam em vida, agora, além disso, muitos de nós internautas não conseguiremos acessar tudo que gostaríamos antes de morrer. Como se não bastasse, sou um leitor, cinéfilo e internauta, digamos assim, profissional. Ou seja, consumo todas essas três áreas em excesso, e uma vida só não é insuficiente diante de tanto conteúdo. De toda forma, já me conformei com isso (mentira!), e virei adepto da seletividade. É preciso escolher muito bem para não perder duas horas do seu dia assistindo a um filme medíocre com tantos outros ótimos de bobeira por aí, embora isso não me deixe com muito remorso, confesso. Perder uma semana inteira com um livro ruim, isso sim é inaceitável, embora eu admita que um livro mais raso seja o ideal para curar uma forte ressaca literária adquirida após a leitura de um clássico universal.

Atualmente, tenho uma lista com mil títulos que ainda quero ler e outra com mais de mil e duzentos filmes que quero assistir. Os números dessas listas não estão completos, foram apenas os que consegui contabilizar até o momento de escrever esse texto – em cadernos velhos tenho mais anotações. Sei que se eu me organizasse, poderia zerar essas listas, mas não é tão simples assim. Conforme os anos vão passando, menos tempo eu tenho, e todo dia são lançadas obras que despertam meu interesse nos mais variados campos. No entanto, como se não bastassem os livros e filmes, tenho mais de sete mil e seiscentos links favoritados, praticamente todos de artigos que salvo para ler depois. Não vou nem falar dos emails que ficam marcados como “não lidos” para que sejam acessados posteriormente e acabam abandonados na caixa de entrada para todo o sempre. Assim vou me enganando, dizendo para mim mesmo a minha mentira favorita: quando eu tiver um tempo, eu leio.

Nesses quase dez anos como usuário de internet, minha fila de espera de links já foi zerada algumas vezes. O mérito não foi meu, e sim dos computadores que quebraram, levando consigo as páginas salvas. Hoje é possível acessar o navegador com um e-mail e, dessa forma, sempre posso recuperar os favoritos em outra máquina. Arrisco afirmar que talvez esse tenha sido o ano em que mais li em minha vida, e olha que 2016 ainda nem acabou. Porém, li pouquíssimos livros diante da infinidade de textos que tenho consumido online. Tenho tentado ler tudo o que posso assim que me deparo com os textos na internet, o que nem sempre é possível, mas estou fazendo um grande esforço para não aumentar essa lista de mais de sete mil links. Nem todos chegam a ser realmente importantes, mas se os salvo é porque me interessaram e podem me ajudar de alguma forma.

O efeito colateral dessa decisão tem resultado justamente em um tempo ainda menor para os livros, pois tentar ler os escritos online assim que os vejo tem feito deles praticamente uma prioridade, uma vez que, quando favoritados, dificilmente voltarão a ser acessados. Ainda assim, a fila só cresce, e salvar as páginas funciona como um afago no meu desejo incontrolável de acompanhar tudo. Porém, o tempo, meu maior inimigo, me vence todos os dias. Na infância, quando estava na rua com meus pais e pedia para me comprarem algo (fosse um biscoito ou um brinquedo), eles me diziam sempre a mesma coisa por não terem dinheiro naquele tempo: na volta a gente compra. É óbvio que nunca voltávamos. Embora eu saiba que muito dificilmente terei tempo para acessar essas páginas salvas, sigo favoritando e, da mesma forma que fazia na infância com as promessas dos meus pais, finjo que acredito.

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22 Comentários

  1. Hahahaha parece eu! Mil links favoritados, mil livros que eu quero ler, mas no meu caso são mil séries pra assistir (aí quando vejo um filme ruim, penso que naquele tempo perdido eu poderia estar vendo uma série legal haha)

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  2. Candy Girl

     /  27 de julho de 2016

    Hehe, favoritar link é sinal que ele não era tão importante assim para ser lido no calor do momento. Eu nem salvo mais, olho muito rapidamente e se um dia precisar dos textos, tento a sorte nas pesquisas.😉

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  3. “Ei, que tal criarmos uma barra aqui encima, isto, aqui mesmo, para escravizar a alma das pessoas?”. Possivelmente este cara esteja queimando no inferno, porque só Deus sabe quanto bagulho tenho salvo na barra de favoritos. De bolo de fubá a meditação zen.

    Excelente texto. Fã teu.

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  4. A gente se programa tanto e tem tão pouco tempo, né?
    Sobre a barra de favoritos: só tem sites que nunca acesso mas que preciso deles lá não sei por qual motivo. HAHHAHAHAHAH

    Abraço!

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  5. Adorei seus textos! Não tinha me dado conta, mas acho que também tenho esse problema com links, hahaha, o pior que agora dá para salvar até no facebook, vira e mexe recebo notificação dos links que salvei e eles simplesmente continuam lá!

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  6. Sempre, seempre faço isso. Salvo links na barra de favoritos, em pastas (que ás vezes estão dentro de outras pastas), em blocos de notas, etc. A quem estou querendo enganar, não é mesmo? hahaha Nem sempre retorno a esses links, são raras as vezes, talvez aconteça de vez em quando. Enfim. É minha mentira favorita para mim também.

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  7. Segue a dica: app pocket (tem salvado a minha vida, apesar de ter uma infinidade de textos lá dentro, porque fica organizado por categoria). Seu blog já está indo para lá. Muito bom.

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  8. giicl

     /  30 de julho de 2016

    Que texto excelente! Me pergunto como eu ainda não conhecia seu blog! Adorei.

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  9. Maycon Silva Aguiar

     /  31 de julho de 2016

    Jaírlos, também, durante uma época, decidi listar coisas que gostaria de fazer, entre filmes, livros e músicas. Perdi uns dois anos tentando organizar essa lista, mas nunca consegui pô-la em prática. Decidi limar isso da minha vida, porque me trazia angústia, me trazia a sensação de que perdia tempo. Não sei se tomei a melhor atitude, mas a mão férrea da angústia largou meu coração. Você parece um cara mais organizado que eu, espero que as suas listas, ao contrário das minhas, te proporcionem felicidade. (:

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    • Olá, Maycon. Minhas listas me proporcionam bastante prazer sim, infelizmente o tempo é curto e as vezes também me bate essa angústia, mas sigo em frente tentando concluir as metas. Forte abraço

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  10. Vanessa Monique

     /  1 de agosto de 2016

    Eita que vou passar mais vezes aqui pra ler com mais calma os seus outros textos.
    Beijos :*
    Blog: http://www.vanimonique.wordpress.com
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    Insta: @vanimonique
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  11. Este post me fez lembrar de limpar da minha barra de favoritos os sites que já perdi o interesse haha.

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  12. Eu percebi que se favoritar eu não leio, ou passa tanto tempo que quando leio não lembro porque favoritei. Então, além dos milhares de links salvos eu deixo mais de 50 abas abertas (não é exagero, é esse número mesmo) e acontece a mesma coisa com os favoritos, não leio, vai acumulando e quando o computador trava fecho algumas.

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