filho ingrato da televisão

Sábado último, fiquei acordado até tarde esperando um filme que ia passar na televisão. Foi como ter voltado no tempo, pois não recordo a última vez em que esperei um filme ser exibido na TV para poder assisti-lo. O longa em questão foi ‘Meu Amigo Hindu’, última produção do cineasta Hector Babenco, lançada nos cinemas em março. Anos atrás, após sua estreia nas salas de cinema, os filmes demoravam alguns meses até serem lançados em VHS ou DVD. Eles iam direto para as locadoras de vídeo e, só depois, chegavam às lojas. Passados um, dois anos, ou até mesmo um período maior, o filme seria finalmente exibido na TV, que o anunciaria com grande estardalhaço: “pela primeira vez na televisão”. Toda essa espera para que as locadoras de vídeo pudessem lucrar com o aluguel dos filmes e para que estes fossem exibidos até cansar em emissoras de TV por assinatura. Com o fim das locadoras e o avanço da internet, o caminho que o filme faz das salas de cinema até a TV aberta ficou bem mais curto. Agora, ou as emissoras transmitem os lançamentos em um prazo menor, ou todos já terão assistido quando forem transmitidos. Mesmo assim, ‘Meu Amigo Hindu’ foi televisionado em tempo recorde. A exibição foi uma homenagem da Rege Globo a Babenco, que morreu no último dia 13, dia do rock. Não fosse a morte do diretor, o filme jamais teria sido exibido tão rapidamente.

Estava querendo assistir a ‘Meu Amigo Hindu’ desde o ano passado, quando ele foi apresentado pela primeira vez durante a 39ª edição da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. O filme teve um lançamento modesto, chegando a poucas salas de cinema e saindo de cartaz rapidamente. Com isso, acabei perdendo a oportunidade de vê-lo na tela grande. Começou então a minha espera pelo lançamento do filme em alguma plataforma online, até que, na quinta-feira (13), acordo e vejo no celular uma mensagem do meu namorado me contando que Hector Babenco havia morrido aos 70 anos de parada cardíaca. Ele sabe da minha forte admiração por Babenco e até já havia me presenteado com o livro ‘Pixote – A Lei do Mais Forte’, de José Louzeiro, que conta a trágica história de Fernando Ramos da Silva, famoso em todo o Brasil por interpretar Pixote, figura central do romance-reportagem ‘Infância dos Mortos’ (do próprio Louzeiro) e do filme de Hector Babenco, nele baseado, ‘Pixote – A Lei do Mais Fraco’ (1980).

Quem nasce hoje, tem como mãe legítima a internet, que é minha mãe adotiva, pois mesmo ainda sendo jovem, faço parte da última geração de filhos biológicos da televisão. Fui da parte pobre da família, porque a minha tia rica, quer dizer, a TV por assinatura, nem cheguei a conhecer. Ainda acompanhei os últimos anos das locadoras de vídeo. Nem precisava alugar os DVDs na sexta, como faziam a maioria dos clientes, para ficar com os filmes por mais tempo, já que a locadora fechava aos domingos. Como os títulos que eu alugava eram sempre os que ninguém levava, os donos da locadora me permitiam ficar com eles por mais tempo, sem que fosse preciso pagar multa por atraso. Não faço o tipo saudosista, mas vai ser divertido contar para as futuras gerações que eu alugava o que hoje possuímos ao alcance de um clique.

Durante a infância, estudava no turno da manhã e, quando acabava a aula, corria desesperadamente para chegar em casa e assistir a desenhos animados na TV. Os mais legais ficavam sempre para o final, então dava para assistir as duas últimas atrações. Algumas vezes, eu acabava perdendo certos episódios – isso acontecia quando minha mãe atrasava na hora de ir me buscar na escola ou quando ela decidia fazer alguma compra no caminho de volta. Já escrevi aqui sobre como meus pais eram superprotetores comigo, então minha mãe levava e buscava de bicicleta minha irmã e eu todos os dias. Estudamos sempre nos mesmos colégios, embora em séries diferentes: ela, por ser mais nova, esteve sempre duas sérias abaixo de mim. Quando ganhei minha primeira bicicleta, minha mãe me deixava ir na minha enquanto ela e minha irmã iam em outra, só deixando de nos levar à escola quando fez uma cirurgia, poucos dias após o meu aniversário de dez anos. Isso aconteceu no meu primeiro ano em escola pública, em que todos os meus colegas de sala de aula iam sozinhos, diferente dos meus colegas de colégio particular, que eram levados pelos pais de carro. Foi quando comecei a sentir vergonha por ser levado por minha mãe, pois os garotos me zoavam. Hoje, tenho vergonha por ter sentido vergonha disso. Ela ficou bastante tempo em recuperação após a cirurgia, então passei a ir sozinho à aula. Aquele foi também o meu primeiro ano estudando no turno da tarde. Minha irmã continuou no turno da manhã e ia à aula de carona com nosso vizinho cujo filho estudava na mesma escola. Quando se recuperou, minha mãe havia perdido o medo de me deixar ir sozinho, e não voltou a me levar mais.

Assisti a temporadas inteiras de desenhos animados e tenho de confessar que, às vezes, fingia estar doente para faltar aula e não correr o risco de perder certos episódios, geralmente os últimos da temporada. Quando passei a estudar no turno da tarde, isso deixou de ser um problema, mas continuei fingindo estar doente em algumas ocasiões, dessa vez para não perder o filme que ia passar na TV. Minha mãe sempre desconfiava dessas minhas mentiras, pois eu ficava milagrosamente curado quando estava assistindo televisão.

Alguns anos antes dela fazer essa cirurgia, eu lembro que, à noite, assistia, juntamente com meu pai e minha irmã, às novelas infantis do SBT (pois minha mãe nunca gostou de qualquer folhetim televisivo). Toda noite, duas vizinhas vinham com seus filhos assistir televisão aqui em casa, pois não tinham televisores em seus lares. Uma delas era minha madrinha, que sempre trazia seu filho que, por sua vez, correndo de um lado para o outro, não deixava ninguém em paz. A outra era uma senhora deveras religiosa que trazia o casal de filhos. Ela era a única evangélica da rua que assistia à TV e os outros consideravam isso um pecado, pois quem via aqueles programas corria o risco de não ver Jesus quando ele voltasse à Terra para buscar os seus fiéis no dia do juízo final. O mais irônico é que ela e seus filhos evangélicos eram os que mais gostavam de assistir às novelas, ficando verdadeiramente hipnotizados. Os filhos dela eram meus amigos e da minha irmã. Eles possuíam rádio em casa, o que não tínhamos, e nos contavam que também ouviam novelas pelo rádio. Eu não conseguia entender como alguém podia acompanhar a uma novela só pelo som, e eles me contavam que era do mesmo jeito que assistir na TV, só que sem as imagens. Somente anos depois eu fui descobrir o que eram radionovelas. Certa vez, minha mãe, a religiosa mais herege que eu conheço, disse para uma cliente evangélica que se incomodou com o fato de assistirmos à TV ao invés de ficarmos atentos a volta do Messias: “Quando ele voltar, você nos avisa. Você é minha amiga! Será que vai deixar de me chamar quando Jesus estiver te levando para o céu?” Nem preciso dizer que minha mãe perdeu a cliente.

Esse período da infância foi o único em que assisti a telenovelas; na adolescência, ainda cheguei a acompanhar umas duas, mas nunca tive muita paciência. Meu interesse mesmo era pelos filmes. Metade dos títulos que vi na vida foi assistida na televisão e a outra parte, na era pós-internet. Vi na TV muitos dos filmes que hoje são considerados clássicos e, desde muito cedo, descobri que os melhores passavam durante a madrugada. Não porque eram longas adultos, pois nunca vi pornô na televisão, mesmo nas sessões da madrugada, e sim porque, na maioria das vezes, não eram produções blockbusters e sim as de baixo orçamento, filmes de arte. É algo até engraçado, visto que os filmes que antes passavam durante a tarde hoje não são mais transmitidos nesse horário por não respeitarem a indicação de faixa-etária livre.

Com a chegada da internet na adolescência, a televisão continuou tendo um lugar de destaque na minha vida. Embora não assistisse mais a desenhos animados, continuava firme e forte com os filmes. O declínio da TV em minha rotina só não aconteceu mais cedo graças à tecla SAP (sigla em inglês para Segundo Programa de Áudio). Permitir assistir aos filmes com o áudio original e legendados foi o que ainda me manteve por um tempo ao lado da minha velha companheira. Quando eu era criança e ainda não sabia o que era a tecla SAP, uma prima de segundo grau veio aqui em casa e, enquanto brincávamos na sala, sentou sem querer sobre o controle remoto que estava no sofá. A TV estava ligada e do nada os personagens do filme que estava passando começaram a falar em inglês. Apertei os vários botões do aparelho na tentativa de fazer o som voltar ao “normal”. Fiquei desesperado, pois achava que meu pai iria me matar quando chegasse em casa à noite e encontrasse a TV falando aquele idioma tão estranho. Depois de muitas tentativas, o som da TV voltou ao áudio dublado, mas eu só vim descobrir o que havia acontecido naquela ocasião anos depois. Tecla SAP é vida!

Hoje, existem quatro aparelhos de televisão aqui em casa, mas assistimos cada vez menos. Não vejo mais filmes na TV, pois são sempre cortados para que caibam na programação. No entanto, os aparelhos ainda me são necessários para que eu possa ver os filmes que coloco no DVD. Admito que, uma vez ou outra, ainda assisto a telejornais, embora minha fonte de informações seja realmente a internet. Também assisto a transmissões de jogos, mas quando estes não são os que desejo ver, mais uma vez recorro à rede. Até alguns programas de entrevistas que gosto de assistir não me preocupam mais, já que, em poucas horas, todos estão disponíveis online. Admito também que, quando um filme que gosto muito está passando e não tenho nada mais importante para fazer, acabo revendo. Esse ano isso aconteceu com ‘Que Horas Ela Volta?’ (2015) e, muito recentemente, com ‘O Som ao Redor’ (2012), sendo que este começou quando eu estava me preparando para deitar. Gosto tanto do filme que só consegui ir dormir quando acabou, mesmo irritado por algumas cenas terem sido suprimidas. Aparentemente, o filme de Babenco foi exibido na íntegra, pois ficou no ar por mais de duas horas, mas só terei certeza acerca disso quando revê-lo.

Havia anos que a TV não transmitia algo do meu interesse e que me fosse inédito. Por Hector Babenco, voltei mais uma vez à tecla SAP e fui dormir de madrugada, todavia, valeu muito a pena. Ainda não sei o que ‘Meu Amigo Hindu’ representa para mim diante de todas as belas sensações que me despertou. Terminei o filme com um nó na garganta por saber que era a última produção de Babenco e feliz por ter sacado todas as suas auto-referências profissionais, mesmo reconhecendo que jamais saberemos o que é ou não biográfico no roteiro. Acabado o longa-metragem, voltei à internet, pois sou um filho ingrato da televisão e espero sinceramente nunca mais ter de voltar a ela devido a morte de alguém querido. Ser um refém da TV é um retrocesso, é estar à mercê da alienação e ser passado para trás por toda uma geração conectada à rede mundial de computadores. Infelizmente, muita gente depende exclusivamente da TV como fonte de informações: segundo o IBGE, 50% dos lares brasileiros ainda não tem acesso à internet. O Estado deveria estar trabalhando para levar acesso aos outros 50% dos lares, e não as operadoras brigando na Justiça para limitar o acesso desta. No entanto, isso é assunto para outro texto. Por hora, sei que sou um afortunado por ter abandonado a TV antes que ela me deixasse igual ao eu lírico da canção ‘Televisão’ dos Titãs: burro, muito burro demais.

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4 Comentários

  1. Incrível o texto 👏👏👏

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  2. Parabéns! Muito bem escrito.

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