anacronismo cibernético

Reconheço que manter um blogue nos dias de hoje é como utilizar máquina de escrever ou fotografar com câmera analógica, isto é, algo ultrapassado (retrô, se preferir). Por onde ando, ouço que as redes sociais mataram os blogues, enquanto que os vlogues jogaram a pá de cal. No entanto, mesmo que inconscientemente, os usuários das mídias sociais se tornaram “blogueiros”, nos contando sempre os que estão fazendo, comentando assuntos do momento, postando fotos de onde estão, o que estão comendo, frases com falsas autorias e até mesmo textões (que ninguém lê). Os sites, inclusive, também aparentam estar caindo em desuso; muitos artistas e empresas nem os possuem mais, aderindo às redes sociais para divulgar suas agendas, novidades e informações, já que, afinal, todos estão lá.

Por que então se exilar e escrever em um lugar ermo? Esse foi um dos dilemas que tive quando decidi criar esse blogue. Dizer que foi para aumentar o leque de leitores é uma grande mentira, já que todas as redes sociais possuem em suas configurações as opções de público e privado. Dizer também que é para conquistar prestígio e fama é uma grande ilusão, pois nós blogueiros(as) temos conhecimento de que muitos nos menosprezam, principalmente no universo acadêmico, de onde nos olham enviezadamente, pois acreditam que só escrevemos em blogues porque não conquistamos um espaço em veículos maiores. Não entra na cabeça deles que muitos(as) de nós não queremos nos filiar a nenhum grupo e muito menos ter que se enquadrar em padrões que podem censurar muitas de nossas liberdades textuais.

Entretanto, concordo que os blogues saíram fortemente lesionados dessa disputa. Acontece que rede social nunca foi mesmo o meu forte. Utilizo quase todas, caso contrário, não saberia mais o que meus amigos e amigas estão fazendo ou se estão bem ou mal. Ninguém mais se importa em sair para se encontrar e, se saem, a preocupação maior é em fotografar para postar. Essa preocupação em registrar as saídas nunca fez parte de mim, muito menos a necessidade de tornar tudo isso público. Para os meus melhores amigos isso também não é algo que os preocupa e, talvez por isso mesmo, somos melhores amigos. Em certas ocasiões saio até mesmo sem celular, não porque quero ficar incomunicável, mas por medo de assalto. Estou com o mesmo aparelho há três anos e não estou nem um pouco a fim de gastar dinheiro com outro enquanto este estiver suprindo minhas necessidades. Porém, sair sem celular, para muitos outros amigos e amigas, é como sair sem roupa. Alguns(mas) até já foram assaltados(as) enquanto fotografavam. De toda forma, a culpa não é deles(as), caso contrário, eu estaria dando razão aos assaltantes. Ademais, essa obsessão em fotografar tudo foi o que acarretou as vinte e sete mortes registradas ano passado ao redor do mundo por causa de selfies. Infelizmente, esse número só tende a aumentar. Enfim, todo esse rodeio só para dizer que não me interessa o material publicado nas redes sociais e, embora alguns(mas) escritores(as) não saibam fazer diferenciações e reproduzam muito de lá nos seus blogues, pelo menos aqui não há os famigerados “me add”, “troco likes” e “me segue de volta”. Bom, se tem, nunca vi.

Conservo em mim a utopia de que um dia conseguirei excluir todas elas, mas tenho que admitir que este será um trabalho árduo. Criar um perfil em uma rede social é algo fácil, complicado mesmo é sair. Todos os nossos amigos estão lá, nossos contatos, os grupos da universidade e do trabalho. Até nossos avós estão se rendendo. Dói, mas é preciso reconhecer que nos tornamos reféns. Fico me perguntando: quando foi que demos tanto poder às redes de relacionamento online?

Contudo, sigo utilizando uma plataforma que teve o seu auge lá no início dos anos dois mil. Hoje, a tendência tem sido criar vlogues, o que deve perdurar por mais algum tempo até o formato se desgastar ou ser substituído por algo ainda a ser inventado. Ademais, acredito na permanência dos vlogues, principalmente os curtos (pois ninguém tem mais tempo para nada). Confesso que gostaria de ter o talento de escrever textos sucintos, no entanto, a cada post novo, concebo um textão. Sinto-me constrangido por roubar o tempo dos(as) leitores(as), pois em rede social ninguém lê ninguém, só se vê as fotos e os status, mas aqui é diferente: quem acessa blogues o faz porque quer ler, o que também é uma das principais razões para ocupar um domínio em uma plataforma de blogues e resistir escrevendo. “Ocupa e resiste”. Esse tem sido o lema de quem ainda quer manter a engrenagem da Blogosfera girando. Essa resistência tem se mostrado bastante efetiva em blogues feministas e LGBTs, além dos blogues jornalísticos que não estão se curvando ao conservadorismo da imprensa de direita.

Implodir blogues para a construção de textos mal elaborados de opiniões sem aprofundamento em nome da praticidade e da preguiça de criar um espaço em outra plataforma não é o suficiente para me convencer a mudar de lugar. Não escrevo para os meus amigos de redes sociais e sim para quem usa a internet como ferramenta de pesquisa e debate. Realmente não dou atenção ao pessoal que acha que a rede mundial de computadores não vai além de suas timelines e aplicativos de mensagens instantâneas.

Engana-se quem enxerga os blogues como espaços individuais, visto que, a partir do momento em que os(as) leitores(as) comentam os textos, o post passa a ser deles(as) também, pois os comentários funcionam como um complemento do que foi proposto pelo(a) escritor(a). Publicar um texto como esse nos perfis das minhas redes sociais é como vomitar, impor um material que ninguém está interessado em ler, sem contar que, em poucos minutos, teria se perdido no buraco negro da linha do tempo. Posso até compartilhar o link do post, mas quase ninguém vai clicar, visto que a preguiça de abrir outra página é motivo suficiente para desistir. Todos os conteúdos devem estar apresentados na timeline e, dessa forma, ninguém sai. Blogue não é cativeiro e não faz nenhum(a) leitor(a) submisso(a) do algoritmo. Rede social é uma espécie de casa-grande (ou seria senzala?), enquanto que aqui fora, nós libertos, escritores(as) e leitores(as), reconhecemos nossos nichos através dos interesses em comum. Caso as mídias sociais realmente acreditem que mataram a Blogosfera, alguém avise-as que esqueceram de enterrar.

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20 Comentários

  1. Perfeito. Não ceda um milímetro desse pensamento

    Curtido por 2 pessoas

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  2. Velho estou batendo palmas para esse texto.
    Sempre gostei de me expressar e até já fui rotulado como louco dos comentários longos demais e conversas melosas no chat. Nunca tinha pensado em criar blog até um colega da faculdade falar que escrevia no WordPress e que gostava da plataforma. Criei um blog em inglês para minhas poesias, mas logo deixei de lado. Nas férias a vontade voltou. Criei o By Jô e estou até hoje, mas longe das redes sociais (pelo menos no que diz respeito ao ato de postar conteúdo exclusivo de lá) e muito mais confiante com meus sentimentos, principalmente quando vejo posts como os seus, que não só enaltecem a nossa prática, como reavivam a nossa certeza de que mesmo não tendo muitas curtidas ou a presença dos amigos com quem você interage todos os dias aqui, cada palavra pensada, escrita e publicada vale muito a pena.

    Curtido por 5 pessoas

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  3. Renato Ribeiro

     /  18 de julho de 2016

    BRAVOOO!!! Aplausos para esse post. Realmente escrevemos aqui para aqueles que estão mesmo interessados em conteúdo escrito. O fato é que o temor de Einstein, de que teríamos uma geração de idiotas, se concretizou! Afinal, fotos e vídeos exigem menos esforço do que escrever, não é mesmo?

    Curtido por 3 pessoas

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  4. é isso ai, o tempo pode ser lento, o texto pode ser longo e o interesse por ele pode ser grande, gostei.

    Curtido por 3 pessoas

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  5. Ual. Parabéns

    Curtido por 1 pessoa

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  6. Maravilhoso! Continue com esses textões que dão gosto de ler e reler! Hahaha 😘

    Curtido por 1 pessoa

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  7. Eu acho que as redes sociais fizeram um favor aos blogues. Antigamente existiam milhares (com assuntos bobos e vagos) e hoje permanecem os que gostam de escrever e usam essa ferramenta para um exercício natural de criar e recriar.
    Estou satisfeita com a realidade que encontro nos blogues que leio. Não gosto de vlogues e as demais redes são exaltadas demais. Prefiro o silencio do meu espaço seguro. rs
    bacio

    Curtido por 2 pessoas

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  8. Excelente texto nos dias atuais houve uma inversão de valores, mas nós blogueiros estamos na luta.

    Curtido por 1 pessoa

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  9. Meu amigo, gostaria de me livrar de todas minhas redes sociais, também. Confesso: já dei início ao trabalho. Algumas são difíceis por demais de se pular fora, outras eu abandonei sem muito sofrimento. É uma meta de vida (que está mais para utopia, como você escreveu).

    Obrigado por este textão incrível. Como você bem sabe, eu estava precisando ler sobre tal questão para me libertar de amarras invisíveis que não me deixam escrever em meu espaço. Seu textão me transformou em um liberto. Agradeço.

    Em tempo: parabéns pelo textão e por todo o blogue. Você é uma pessoa incrível!
    Em tempo 2: textão, para mim, é um texto muito bom e não está relacionado a quantidade de palavras :)

    Abraços!

    Curtido por 1 pessoa

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    • Espero que a gente consiga se livrar das redes sociais um dia. Quem conseguir primeiro ajuda o outro rs
      Fico feliz que o texto tenha te ajudado, pensei muito no que tínhamos conversado sobre leitores para escrevê-lo.
      Obrigado pelo comentário, obrigado pelo carinho, obrigado por tudo, obrigado.
      Abraçaço

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  10. Eu comecei no mundo do Blogues a pouco …. Gostei de saber sua critica desse mundinho de redes sociais e da sua fé neste canal. Tem quem queira ler e goste! Eu gostei do seu texto!

    Curtido por 1 pessoa

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