minhas férias

O mês de julho sempre me causa a mesma sensação de desespero por saber que já estamos na metade do ano e não fiz nada na minha vida (desde que nasci). Não me recordo exatamente quando julho deixou de ser sinônimo de férias e quando o termo férias deixou de ser sinônimo de repouso. Quando criança e adolescente, eu sabia que em julho eu teria um mês de descanso; hoje, na fase adulta, eu só tiro férias quando dá, e quase nunca dá. Se duvidar, ainda faço mais trabalhos durante as férias do que em qualquer outra época do ano, já que, quando tenho um tempinho livre fora dos compromissos do dia a dia, eu o utilizo para descansar, enquanto que nas férias não há descanso, é uma correria total para realizar os projetos pessoais. Ano passado, em julho, fiquei atolado escrevendo um roteiro que tirou todo o meu sossego. Agora, quando eu deveria finalmente descansar, vou filmar o roteiro escrito há um ano.

Apesar de tudo, não estou reclamando. Estou contente por estar entrando em set para filmar a história que coloquei no papel. O que ainda me chateia é a burocracia, além do tempo curto para cumprir um cronograma que não cabe nos dias. Recentemente, comentei com minha mãe que, se pudesse voltar a ser criança, não voltaria, e que, mesmo com toda a dureza da vida adulta, sou mais satisfeito hoje. Minha mãe atribui esse meu posicionamento ao fato de eu ter sido uma criança muito doente e por ter sofrido muito em hospitais durante toda a minha infância. No entanto, não carreguei comigo esse sofrimento. Não me recordo muito das noites dormidas e não dormidas em hospitais, mas lembro-me perfeitamente da superproteção de meus pais na minha criação em decorrência da minha saúde frágil. Embora não tenha contrariado minha mãe, acredito que o fato de ter vivido trancado dentro de casa quando criança seja o que me faça preferir o hoje.

Minha infância foi de casa para a escola e da escola para casa. Quando finalmente chegava julho, nada mudava em minha rotina a não ser o fato de não ter que ir para a aula e, mesmo assim, eu adorava ficar de férias. Sempre tive problema em acordar cedo e, embora hoje eu lide muito melhor com isso, continuo preferindo trocar o dia pela noite. Lembro que meus pais nunca se preocuparam em ocupar com passeios ou viagens os nossos dias de julho (meus e da minha irmã). Nossa programação de férias era por nossa conta e risco. Brincávamos muito juntos e quando cansávamos um do outro, brincávamos sozinhos. Sempre gostei de assistir a filmes e nas férias era quando eu podia ver os que passavam na TV à noite. Na adolescência, isso mudou: comecei a estudar no turno da tarde e, como acordar cedo não era mais uma obrigação, dormia sempre de madrugada.

As férias do meio do ano também eram acompanhadas de um “tarefão” com exercícios de todas as disciplinas para entregar em agosto. Eu não compreendia que seria muito melhor terminar logo para ficar livre pelo restante do mês, então deixava tudo para o último dia (para o meu desespero). Embora viajássemos quase todos os anos, essas viagens não necessariamente aconteciam em julho. Lembro-me de uma das raras vezes em que viajamos nesse período para o interior em que reside os meus avós e voltamos no último dia de férias. Poucas horas antes de voltarmos, meu pai me perguntou se eu já havia terminado o “tarefão”. Tomei um verdadeiro susto, pois havia esquecido completamente da existência dele. Um primo mais velho ficou com pena de mim e acabou me ajudando a responder as questões. Todo ano era a mesma coisa, eu não aprendia, fui um procrastinador desde a mais tenra idade.

Na volta às aulas, eu tinha sempre que enfrentar uma famigerada redação cujo tema era “minhas férias”. Meus colegas de sala de aula sempre voltavam com histórias para contar e eu nunca tinha muito que dizer. Eles voltavam com a pele descascando, em carne viva, dos dias passados em praias, e eu ainda mais branco por não ter sido tocado por nenhum raio de sol. Porém, eu nunca ficava por baixo. Nas redações, minhas férias eram maravilhosas – eu sempre ia à praia, viajava, brincava na rua, ia ao cinema, visitava pontos turísticos e dormia na casa dos amigos. Minha irmã, que tinha as mesmas férias que eu, também mentia em suas redações. Era como se escondêssemos um crime. Tínhamos vergonha por não termos nos divertido tanto quanto os outros durante as férias. Hoje, quando recordamos essas redações, achamos tudo muito engraçado, mas nas nossas cabeças de criança era inconcebível escrever a verdade.

No mais, fui um adolescente normal, revoltado como todos os outros e louco para completar dezoito anos. Talvez um dia eu comece a dizer que gostaria de voltar a ser criança como já dizem muitas pessoas ao meu redor. Entretanto, continuo preferindo minha pseudoliberdade conquistada na vida adulta que não me prende em casa, mas que me amarra a vários trabalhos e compromissos. Ou seja, sou obrigado a reconhecer que mais liberdade eu tinha quando minha única preocupação era com as mentiras que eu ia escrever em uma redação.

Anúncios
Post anterior
Deixe um comentário

15 Comentários

  1. Estou por completo nesse texto, haha!

    Curtido por 1 pessoa

    Responder
  2. Amei o seu texto. Super me identifico! Se puder, dê uma olhada na minha página e me diga o que acha. :)

    Curtido por 1 pessoa

    Responder
    • Obrigado pelo comentário. Gostei muitos dos seus textos, são poéticos e cheios de significados ocultos. Vi que começou esse ano, espero que continue. Abraço

      Curtir

      Responder
  3. Maycon Silva Aguiar

     /  5 de julho de 2016

    Em primeiro lugar, gostaria de agradecer pela visita! Realmente, muito obrigado! Retribuí-la foi para mim um prazer, tendo sido recebido por um texto tão, não sei dizer, revelador? Quero dizer que concordo com o pessoal acima: à exceção de algumas diferenças marginais, parece a minha vida descrita aí em cima.

    Também, hoje, entre trabalhar, escrever e estudar, levo uma vida, mas jamais desejaria voltar a ser criança. Se pudesse, faria esta fase da minha vida durar mais. Sou daqueles que têm medo da incerteza da morte, sabe? Hahaha

    Enfim, seja bem-vindo ao meu espaço e espere minha visita outra vezes!

    Curtido por 1 pessoa

    Responder
    • Olá, Maycon, eu que agradeço sua visita e esse comentário tão gentil. Obrigado!
      Você é a primeira pessoa que me diz que também não gostaria de voltar a ser criança. Compartilho contigo o mesmo desejo de perpetuar essa fase atual, mas sabemos ser impossível.
      Também sinta-se bem-vindo e, mais uma vez, obrigado. Abraço!

      Curtido por 1 pessoa

      Responder
  4. Maycon Silva Aguiar

     /  5 de julho de 2016

    Que nada, fui sincero quando disse ter sido um prazer retribuir a visita e ler a postagem.

    Sobre voltar a ser criança, o que me assusta é justamente aquilo que atrai tantas pessoas: a inocência, a falta de sabedoria para lidar com o mundo. Ainda tenho muito a aprender sobre a vida e acredito que jamais chegarei a saber o suficiente, mas me contento em levá-la sem ilusões.

    Um abraço!

    Curtido por 1 pessoa

    Responder
  5. Eu gostaria muito de ler as redações mentirosas sobre as férias.
    Ainda que minha infância tenha sido completamente diferente, consigo ver parte de mim em muito do seu texto.
    Talvez seja essa coisa das lembranças, do tempo passando, da fase adulta!

    Curtido por 1 pessoa

    Responder
  6. Escritor nato! Perfeito seu texto. Me desespero a cada julho passado (e hoje eles chegam rápido demais), da mesma forma com que você olha e pensa: ‘putz, já é julho?! Ferrou’. Obrigado pela leitura.

    Curtido por 1 pessoa

    Responder
  7. Pelo que li, é apenas o começo de algo desejado… go for it :)

    Curtido por 1 pessoa

    Responder

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: