santa inês

Quem me conhece sabe que pontualidade é um dos meus pontos fortes, mas quando o assunto são memes ou virais virtuais, sou um dos seres mais atrasados que existem. Estou sempre rindo por último, principalmente quando descubro acidentalmente algum vídeo engraçado que já caiu no esquecimento e que todo mundo já assistiu. Por isso, se alguém não me apresentar aos temas discutidos na rede ou se acidentalmente eu não acabar esbarrando com eles, dificilmente ficarei sabendo, primeiro porque não tenho tempo, e ainda porque não tenho interesse por memes. Também não os reproduzo, como boa parte dos meus amigos fazem, inclusive, agregando-os aos seus vocabulários. Em várias ocasiões, ouço esses chavões e fico sem entender, vindo a descobrir seu significado só muito tempo depois. Mesmo assim, conheço muitos, afinal, eles estão em todos os lugares: quando não estão na internet, estão na boca das pessoas ou em estampas de camisas, por exemplo. Não que eu queira fugir deles, pois a grande maioria me provoca boas risadas e alguns até geram discussões com vínculo político deveras interessantes, ainda que não tenham essa intenção.

Nos últimos dias rolou (ainda está rolando?) uma campanha chamada #MakeBrMemesGreatagain (brasileiros, voltem a fazer grandes memes – em tradução livre), em que seus simpatizantes protestaram contra o que eles decidiram chamar de cultura de memes ruins (protestar contra a cultura do estupro que é bom, ninguém quer, né?). Enfim, até aí, tudo bem. A tag até chegou a ficar em primeiro lugar entre os assuntos mais comentados do Twitter. No entanto, Jair Bolsonaro e Danilo Gentili aderiram à campanha, mostrando que algo de errado essa ação tinha que ter. Pesquisando melhor, fica claro que entre os memes que estão fazendo os simpatizantes da campanha passarem vergonha pela baixa qualidade, os de Inês Brasil são os mais alvejados. Chegamos então ao ponto nevrálgico desse texto.

Quando ela surgiu exatamente para nós internautas eu não vou saber dizer (2012? 2013?), mas, ao contrário dos outros virais, tomei conhecimento de seu vídeo de inscrição para um reality show quase que instantaneamente. Um amigo meu, que nem deve lembrar, foi quem me enviou o vídeo, que tem pouco mais de cinco minutos. Confesso que foi difícil assistir até o fim, não achei a menor graça, e esse meu amigo o havia me enviado justamente por acha-lo hilário. Na época ele não soube me dizer se Inês era uma mulher ou uma travesti, e também não soube me responder se ela era uma personagem. Eu jurava que sim. Certo tempo passou sem que eu visse ou ouvisse Inês Brasil, até que, do nada, ela começou a aparecer em todas as minhas redes sociais com uma frequência assustadora e, aos poucos, sem precisar fazer praticamente nenhum tipo de pesquisa, fui conhecendo ela cada vez mais.

Inês é carioca e, junto com seus nove irmãos, teve uma educação religiosa. Foi na igreja, inclusive, que cantou pela primeira vez. Aos vinte e poucos anos, tornou-se professora de samba, chegando a se apresentar na casa de espetáculos Oba-Oba, do empresário Osvaldo Sargentelli. Por mais de oito anos teve que se prostituir para sobreviver. Conheceu Christian Karp, um alemão, seu “loiro dos olhos azuis”, com quem se casou e que a levou para morar na Alemanha, onde voltou para a prostituição ao mesmo tempo em que iniciou sua carreira musical. Ela afirma ter se inscrito para o reality show cinco vezes, embora eu só tenha visto esse único vídeo e tomado conhecimento de outro que ela fez depois, ao que tudo indica, tentando obter o êxito viral do anterior mais do que participar realmente do programa. Após o sucesso do primeiro vídeo, voltou para o Brasil. Chamada de Panterona pelos fãs, lançou seu primeiro disco ano passado e realiza atualmente uma média de vinte shows por mês, tornando-se mais famosa que qualquer outro candidato (e muito ex-participante) ao tal reality show – programa esse que, inclusive, só perde audiência a cada nova temporada, provando o vacilo de tê-la dispensado.

Uma mulher livre incomoda muita gente. Uma mulher negra e livre incomoda mais. Uma mulher negra, livre e ex-prostituta, incomoda muito, muito mais. Inês aborrece muita gente e sabe disso (vide a campanha para varrê-la juntamente com outras pessoas da internet). Como símbolo de marginalidade, ela é capaz de despertar nas pessoas seus preconceitos mais primitivos. Vem de origem humilde, não tem instrução, usa o corpo para se promover e fala abertamente sobre sexo. Deve ser difícil para religiosos que seguem um best-seller que há mais de dois mil anos oprime mulheres, negros e homossexuais, ouvirem sair da boca de Inês Brasil seus ensinamentos. Inês, filha legítima da cibercultura, é uma Maria Madalena moderna, porém, mais forte. Não se deixa atingir pelas pedras que lhe atiram, como também não precisou de nenhuma emissora e muito menos de um Messias para se levantar, fazendo o serviço geralmente atrelado a ele melhor que seus seguidores.

Num mundo em que Ana Paula Valadão é a síntese dos líderes religiosos que julgam nossa orientação sexual, nossa identidade de gênero, a roupa que vestimos e até mesmo se estamos acima do peso, isso só para citar alguns exemplos, temos Inês Brasil, que prega o amor. Aos olhos de Inês, somos todos irmãos, independente de sexo, cor, raça e orientação sexual. Conhecida nacionalmente, Valadão poderia usar sua voz para causas nobres, digamos assim, mas se incomoda com um simples comercial de roupas. No texto em que propôs boicote à C&A, manifesta todo o seu preconceito, quer dizer, sua santa indignação, sobre o que chamou de “imposição da ideologia de gênero” (sic). Valadão e seus seguidores atacam os direitos humanos respaldados pelo que chamam de “verdade imutável da palavra de deus”. Ou seja, se essa verdade não muda e se sempre vão existir pessoas dispostas a defendê-la, temos que nos preparar para nos proteger eternamente desses ataques. Diante de tanto machismo e homofobia, é natural que haja resistência do lado oprimido.

Como não há nada tão ruim que não possa piorar, ainda mais assustador que o próprio texto que Valadão publicou em sua rede social propondo o boicote à rede de lojas de vestuário, acredite, são as treze hashtags ao final da postagem: #SouFemininaVistoComoMulher #HomemVesteComoHomem #UnisexNãoExiste #NãoÀIdeologiaDoGênero #DeusFezHomemEMulher #FamíliaÉHomemEMulher #HeteroSexualidade #MonogamiaHeterosexualÉSexoSeguro #Cristianismo #AmizadeDoMundoInimizadeDeDeus #NãoEstouEmBuscaDeFãsMasDeCristo #AgradarADeusNãoAHomens #GalatasUmDez.

Diante do preconceito que ela reproduz, eu poderia gastar muitas linhas explicando que as calças e blazers que ela usa, à princípio, não faziam parte do guarda-roupa feminino, e também não me ariscarei a afirmar que o profeta Jesus usava vestidos (porque eu não estava lá para ver e os biógrafos dele não são muito confiáveis). Ademais, posso afirmar que, como homem, me visto como quiser, afinal, me visto para me agradar, e não para satisfazer a vontade dos líderes da igreja. O best-seller que os religiosos tanto fazem questão de seguir diz que deus, ao criar o homem e a mulher, lhes deu o livre arbítrio. Ou seja, sob essa perspectiva, tanto eu, que não sou religioso, como quem é, somos livres. Valadão nenhuma tem o direito de arbitrar sobre a identidade sexual de ninguém.

Sua defesa de que família é homem e mulher fere completamente a essência de família no sentido amplo. O projeto de lei 3369/2015, do deputado Orlando Silva, do qual o deputado Jean Wyllys é relator, defende o reconhecimento de todas as formas de família. A fundamentação do projeto diz que “existem, em nossa sociedade, muitos tipos de família: além da mal chamada ‘família tradicional’, formada por pai, mãe e filhos, há mães solteiras, pais solteiros, famílias combinadas, casais do mesmo sexo com ou sem filhos, casais de distinto sexo sem filhos, etc. Não estamos falando aqui de opiniões, mas de dados da realidade: todas essas famílias existem e estão constituídas pelos mesmos laços de afeto, amor, solidariedade e cuidado mútuo”. Além de ignorar a existência de todas essas famílias, Valadão ainda reserva espaço para destilar sua homofobia, o que não é de se espantar. Se deus é a imagem e semelhança de seus fiéis (ou vise versa), é um homem branco, hétero e cis. Todos que não seguem esse “padrão” são combatidos. Bom, o que posso fazer é reforçar o que já é óbvio para qualquer pessoa bem informada: sexo hétero não é mais nem menos seguro que sexo gay, ambas as práticas estão igualmente sujeitas às DSTs sem a utilização de preservativo. Desculpem, mas nada do que Inês Brasil fala ou faz é mais assustador do que Ana Paula Valadão, Silas Malafaia, Marco Feliciano e afins falam o tempo todo em suas redes sociais e em emissoras de TV.

O texto de Valadão tem pouco mais de um mês e o #MakeBrMemesGreatagain mais de uma semana, para vosmecê ter noção do quanto posso ser atrasado ao escrever sobre assuntos que um dia já foram do momento. Entretanto, essa discussão me fez lembrar uma entrevista de Tom Zé para o UOL em 2007, em que ele diz: “se eu tivesse uma filha moça colocava para educar no funk cariosa para ela se livrar de toda a carga que se põe sobre a mulher”. Não posso afirmar com toda certeza, mas talvez tenha sido nessa entrevista concedida a Marcelo Tas e aos internautas do UOL que Tom Zé tenha falado pela primeira vez que o refrão da música ‘Atoladinha’ é microtonal (as notas vão subindo em intervalos menores que um tom), polissemiótico (pois nos chega por outros sentidos além da audição) e metarrefrão (pois trata da própria arte de fazer refrão na música popular ao longo da história), afirmando ainda que trocaria o refrão “tô ficando atoladinha” por todos os refrãos de sua obra. Essas declarações repercutiram e ele voltou a falar sobre isso em 2009, no Programa do Jô, e em 2014, no Esquenta.

Segundo Tom Zé, o funk veio para aposentar o Papa, a igreja, os reacionários e os detratores que proíbem a mulher de gozar. “Tô ficando atoladinha”, diz o eu lírico da canção, lançando ao mundo a liberdade da mulher de sentir prazer e gozar durante o sexo. A letra dessa música liberta as mulheres da repressão que sofrem, muito semelhante a algumas letras de Valesca Popozuda e, claro, de Inês Brasil. Na letra de ‘Make Love’, Inês canta a seguinte frase: “se você não me linguar, hoje eu não vou te dar”. Ela está exigindo nada mais nada menos do que direitos iguais entre homens e mulheres, principalmente no que diz respeito ao sexo oral, que homens sempre querem receber, mas que nem sempre estão dispostos a retribuir. É uma música claramente feminista. Mulheres também têm o direito de sentir prazer. O gozo não deve ser exclusivo do homem e, se ele quiser ter satisfação, tem que estar igualmente disposto a agradar sua parceira.

A exegese de Tom Zé é tão genial que só ele poderia ser capaz de ter feito. Se Ana Paula Valadão tivesse um terço da humildade do Pai da Invenção, ela trocaria todo o seu discurso de ódio (vestido de opinião e resguardado por uma verdade imutável da palavra de deus) pelo refrão da música ‘Make Love’ de Inês Brasil: “se for pra fazer guerra não me chama que eu não tô, make, make, make love é muito melhor, demorou”. Na verdade, se os líderes religiosos fossem humildes, deixariam de pregar a intolerância para pregar o amor, em todas as suas formas.

Talvez Inês Brasil um dia desapareça da internet naturalmente. Não sei se ela tem fôlego para continuar tão presente nas redes sociais por mais cinco anos. Posso até estar enganado, ainda mais agora que ela lançou seu primeiro álbum e tem feito muitos shows. Quem sabe não seja apenas o começo? Seus fãs até conseguiram colocar seu videoclipe na página oficial do Grammy, o que foi um estorvo para muita gente, inclusive para os organizadores do prêmio que bloquearam a página para o território brasileiro, impedindo Inês de concorrer. Ainda assim, me pergunto: a música dela é tão inferior a dos cantores e cantoras que tocam hoje em dia no rádio, novelas e programas dominicais? No entanto, ela não se fez importante por sua música, e sim por ser um símbolo de resistência, por carregar em si uma série de minorias e representá-las. É por isso que ela vem durando bem mais que quinze minutos, mesmo que infelizmente todo esse fenômeno também tenha que passar pela hipersexualização e exploração da exotificação do corpo da mulher negra. O caso do fã que vazou um vídeo transando com Inês reforça essa objetificação. Por mais que ele diga em sua defesa que não foi ele o responsável pelo vazamento, com certeza filmou para mostrar para os amigos e exibir sua conquista.

Por enquanto, Inês segue incomodando, e me agrada justamente por incomodar pessoas que se importunam com coisas que não lhes dizem respeito. Desde o início, ela se ocupou em defender todas as formas de amor. Sou ateu, mas acredito que, se um dia, a igreja, além de perpetuar o discurso de Inês, for tão inclusiva quanto ela, talvez eu até me tornasse um simpatizante. Porém, isso nunca vai acontecer, já que o preconceito e a intolerância ainda são muito presentes em nossa cultura. Todavia, é na adversidade que as minorias se unem e se fortalecem. Quem sabe um dia os machistas, racistas, homofóbicos, transfóbicos se deem conta de que esse ódio gratuito é uma marimba muito pesada para eles carregarem. Render-se ao amor é muito melhor, então bora fazendo!

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4 Comentários

  1. alecioab

     /  27 de junho de 2016

    Parabéns pelo seu texto! Você abordou um tema que precisa ser muito discutido. Eu acho que a gente está vivendo uma fase de excessos. Temos liberdade para escrever, falar o que pensa, fazer piada e por aí vai. Só que é tanta informação que deixa a gente perdido e se não parar um pouco para refletir, acaba formando uma opinião errada dos fatos.

    Curtido por 4 pessoas

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  2. Maycon Silva Aguiar

     /  5 de julho de 2016

    Sou extremamente calmo e passivo, mas, às vezes, perco o controle e explodo. Filas de banco, ensinar algo a alguém e assuntos em que a justificação para qualquer fato é obtida pela religião são coisas que me tiram do sério rapidamente.

    É muito pouco senso crítico, não? Eu, se fosse Deus, onipotente e onisciente, Senhor do universo, estaria CA-GAN-DO para com quem os bonequinhos que criei do barro se deitam, para o que vestem ou para o tipo de família que têm. Teria mais interesse em verificar se conseguiriam assimilar um mínimo das lições de amor e de compaixão das quais, supostamente, a Bíblia afirma que a divindade prega. Contudo, inverter as prioridades parece um caso quase crônico hoje em dia.

    Excelente texto! Não faz o meu estilo, mas concordo com a análise que faz de Inês Brasil; do ponto de vista sociológico, ela é muito mais necessário para nosso país do que os artistas da grande mídia.

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    • Concordo contigo, mas quando se trata de religião, inverter as prioridades não é um fenômeno dos tempos atuais, a Igreja não só inverte, como inventa prioridades desde os primórdios.
      Obrigado pelo comentário, abraço!

      Curtido por 1 pessoa

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