monstros são homens

Evito ao máximo escrever sobre feminismo aqui no blogue. Esse é um assunto que estudo regularmente há dois anos e que, mesmo assim, ainda não me sinto com autoridade para falar ou escrever (e acho que nunca vou ter, afinal, não sou mulher), embora o faça em algumas ocasiões, como agora. Sempre tenho medo de me posicionar equivocadamente sobre determinados assuntos, então prefiro observar, escutar, aprender, ver o posicionamento das mulheres e então, fazer coro. Isso não me impede de tirar conclusões próprias. Na verdade, faço isso o tempo todo, embora guarde tudo para mim. Que importância tem minhas conclusões sobre aborto? Não posso engravidar, embora tenha certeza de que se nós homens engravidássemos, o aborto seria liberado em todos os lugares do mundo. Que conclusões posso tirar do julgamento que as mulheres sofrem por usarem roupas curtas? Eu posso usar regatas e bermudas sem ser chamado de puto ou vagabundo. Acho esse, inclusive, um dos pontos mais absurdos. Acabamos de sair do ano mais quente desde que começaram os registros de temperatura no final do século 19. Não ficarei nem um pouco surpreso se 2016 bater esse recorde. Não faz sentido nenhum exigir que mulheres andem cobertas, mas não tenho a real noção do que é ser julgado por isso, só posso imaginar. Quase todos os tópicos da causa feminista para mim, que sou homem, ficam no meu campo de suposição. Resta-me o bom senso.

Dessa forma, durante muito tempo, identifiquei-me como um homem pró-feminista, ou seja, um aliado da causa, mas não um protagonista. Sempre achei que esse deveria ser o lugar dos homens. Na verdade, continuo achando isso, embora não concorde com a questão do distanciamento do sexo masculino. Eu quero estar presente, acho que os homens devem estar (fazerem-se) presentes. Afinal, feminismo é um movimento social que defende a igualdade de direitos entre homens e mulheres, e essa igualdade interessa-me.

Muito recentemente, li um texto de Bia Pagliarini no site Blogueiras Feministas. No texto, ela diz: […] esse prefixo “pró” pode significar uma domesticação e amortecimento da própria luta feminista. Se você se diz “pró” alguma coisa, ao invés da própria coisa, você se põe numa posição de exterioridade. Você pode lavar suas mãos. Eu não quero que homens e pessoas cis continuem lavando suas mãos e tendo o privilégio de manterem suas posições, suas identidades, até mesmo suas ontologias inalteradas. Se dizer “pró” é poder não se colocar de forma realmente afetada por aquilo que você julga “apoiar”. Meu transfeminismo não é feito para que homens e pessoas cis fiquem nestes mesmos lugares cômodos. É preciso construir deslocamentos. […]

As palavras de Pagliarini abriram-me novos horizontes e é nesse meu texto de hoje (que, inclusive, é o primeiro sobre o assunto que publico sem antes pedir que alguma amiga feminista o lê-se – espero não estar dando um tiro no pé) que deixo cair o “pró” do meu feminismo. Não quero lavar as mãos, não quero ter privilégios, não quero ficar em lugares cômodos. Talvez o que esteja mudando, de fato, seja apenas a nomenclatura, porque o desejo de igualdade continua o mesmo, quiçá, mais forte. Identificar-me como um homem feminista traz-me muitas responsabilidades; trata-se de um aprendizado diário na busca de tornar-se um ser humano cada vez melhor e igualitário.

No entanto, foi pensando no debate sobre o estupro coletivo da moça (menor de 16 anos) do Rio de Janeiro, que resolvi escrever essas linhas. Debate importante e muito, muito triste. Primeiro porque, infelizmente, ainda parece ser necessário que uma moça passe por uma desgraça dessas para escancarar para um país inteiro a cultura do estupro que o movimento feminista tanto denuncia e que a própria sociedade faz tanta questão de camuflar, e segundo porque é inadmissível que esse tipo de coisa ainda aconteça. Inaceitável também é o fato de o corpo social impor implicitamente a obrigação moral de mulheres vítimas de violência doméstica e sexual provarem para a sociedade que não são culpadas pelo ocorrido.

Não vi e não pretendo ver o vídeo do estupro coletivo que circulou na internet nas últimas semanas, porém, este registro existe, é uma prova concreta de que o estupro aconteceu. Por que algumas (muitas) pessoas ainda persistem em justificar tal ato culpando a menina? O estupro não é e nunca será culpa da vítima. Julgam-na por ela estar sozinha, por estar no morro, por estar usando roupa curta. Tentar justificar esse ato injustificável é uma atitude tão criminosa quanto o próprio ato de estuprar. Isso, caríssimos (as), é decorrência da cultura do estupro e quem a perpetua é diretamente cúmplice da violência que acontece todos os anos no Brasil e no mundo a fora.

Culpar a vítima é apenas uma das muitas atitudes que caracterizam a cultura do estupro. A indignação seletiva é outra delas e uma das piores. Muitos mostraram-se indignados com o que aconteceu com a moça do Rio e escreveram textões nas redes sociais. Porém, é fácil indignar-se com algo que aconteceu com alguém que não se conhece. Muitos possuem amigos que agridem namoradas e as submetem a relacionamentos abusivos. Muita gente ri de piadas misóginas, racistas, homofóbicas e transfóbicas em rodas de conversa. Não indignar-se com esses casos e não combatê-los significa não confrontar a cultura do estupro e ser conivente.

Machistas fingem que estupro não é algo assim tão comum, ignoram as estatísticas (um caso a cada onze minutos, no Brasil). Eu, particularmente, nunca fui sexualmente violentado, porém, conheço três pessoas, das quais duas são diretamente ligadas a mim, que foram estupradas, sendo uma dessas pessoas, um amigo meu. Homens também são estuprados, mas deixamos de enfatizar que são majoritariamente estuprados por outros homens. Ainda assim, o número de homens violentados é infinitamente inferior ao número de mulheres. Tão inferior que nós do sexo masculino não temos medo de sermos estuprados quando saímos de bermuda, quando vestimos regatas ou até mesmo quando estamos sem camisa em algum lugar. Não sentimos medo de sermos estuprados nem quando estamos sozinhos na rua à noite. O medo de estupro só se torna real para um homem quando ele é preso (nossa população carcerária corresponde a menos de 1% dos cidadãos brasileiros). Temos medo mesmo é de sermos assaltados, de sermos mortos (medos esses que mulheres também sentem). Não passa pela nossa cabeça que seremos estuprados (pelo menos não na minha). Meus amigos também nunca me confessaram temerem isso, ao contrário de muitas amigas minhas que já me revelaram sentirem esse medo. Na verdade, mulher nenhuma precisa revelar isso, pois sabemos que, na sociedade em que vivemos, esse é um receio de todas.

Além desses casos, ainda conheço duas garotas que tiveram vídeos íntimos divulgados na internet pelos namorados. Eram filmagens (não vi nenhuma) de relações sexuais consensuais. Os namorados filmaram (em um dos casos sem a autorização da garota) e depois compartilharam na rede. No caso em que a garota autorizou filmar, não fazia parte do acordo mostrar o vídeo para outras pessoas. Acontece que eles desrespeitaram-nas e divulgaram. Em um dos casos, o vídeo foi visto por praticamente todos os alunos da escola em que eu estudava (os garotos passavam o vídeo de celular para celular, via bluetooth). A escola tomou uma atitude e confiscou alguns celulares, mas nenhum aluno sofreu graves consequências por isso. No segundo caso, praticamente todos os moradores da minha rua viram o vídeo. Quem são os culpados? Os caras que filmaram e divulgaram sem autorização, óbvio! Eles eram os namorados delas e o ato praticado por eles é indiscutivelmente criminoso, mas adivinha o que aconteceu? Pelos amigos, eles foram vistos como heróis, quase ninguém voltou-se contra eles. Já as meninas foram praticamente apedrejadas. As justificativas eram das mais estapafúrdias, foram desde “não deveriam estar transando (porque obviamente para a sociedade deveriam casar virgens)” a “não deveriam ter deixado filmar”. As consequências foram inúmeras: as duas entraram em depressão, uma delas parou de ir ao colégio e a outra mudou de endereço pois não conseguia mais sair na rua onde morava, chegando até mesmo a trocar a cor do cabelo e mudar radicalmente o estilo das roupas para não ser mais reconhecida. Elas e tantas outras mulheres não deveriam ser julgadas por vídeos que seus parceiros filmaram (muitas vezes sem suas autorizações) e jogaram na internet. Não há mal nenhum no ato de filmar com autorização uma relação sexual. Eu, se namoro alguém e essa pessoa pede para filmar uma transa nossa, não vejo mal nenhum. Porém, não autorizo que o vídeo seja colocado na internet e deixo isso bem claro. Se a pessoa desrespeitar, a culpada é ela. Divulgar indevidamente vídeos, fotos ou outro material com cenas de nudez ou de atos sexuais é crime!

Sinto dizer que em nenhum desses cinco casos o cara foi preso. Não conheci nenhum deles, mas sei que estão soltos, prontos para fazerem novas vítimas. A vida deles não mudou, seguiram em frente, alguns se casaram e tornaram-se pais. As garotas são julgadas até hoje. Evitam lugares onde sabem que vão encontrar alguém que conhece suas histórias porque não suportam mais os olhares julgadores. Os agressores sem dúvida conseguem dormir bem à noite, isso não os preocupa. As vítimas, embora superem o trauma (será que é possível superar?), nunca esquecerão o que aconteceu. Enquanto isso, a sociedade dá adjetivos para esses homens (é preciso protegê-los), quase sempre chamando-os de monstros, animais, doentes, vermes. É difícil para a sociedade patriarcal chamá-los do que realmente são: homens. Eles estudam, trabalham, pagam suas contas, são pais de família, vão à igreja, pagam o dízimo. Estão à solta, nos ônibus, nos metrôs, nas filas do banco, nos locais de trabalho, nas universidades, dento de casa.

Você, caro (a) Leitor (a), já deve ter ouvido/lido/falado muito disso, mas é muito verdade e vou continuar batendo nessa tecla enquanto for preciso: não ensinemos as mulheres a não serem estupradas, é preciso que nós homens aprendamos a não estuprar. Desde que o mundo é mundo, as mulheres são ensinadas a não serem estupradas: “não saia sozinha”, “não use roupas curtas”, “não fale com estranhos”, “não saia à noite” (entre tantos outros conselhos que inclusive ouvi e ainda ouço dizerem para as mulheres da minha família e minha amigas). Isso nunca erradicou o estupro. É preciso educar nós homens e punir os que cometem esse crime. As mulheres não merecem estar à mercê de homens que sabem que não serão punidos. Chega de camuflar os criminosos e culpar as vítimas. As mulheres não são culpadas e esses monstros são, na verdade, homens. Não são lobos em pele de cordeiro, não. É preciso admitir que eles são homens em pele de homens.

Anúncios
Post seguinte
Deixe um comentário

16 Comentários

  1. Ághata C. Leonardi

     /  22 de junho de 2016

    Excelente posicionamento. Obrigada por estar com a gente nessa luta diária! ;)

    Curtido por 2 pessoas

    Responder
  2. Barbara Reccanello

     /  22 de junho de 2016

    É um dos textos mais lindos que eu li. Obrigada!

    Curtido por 2 pessoas

    Responder
  3. Achei incrível seu texto! Acho sempre difícil ler o posicionamento de um homem que se diz feminista… Sempre acabo lendo um monte de coisas do tipo, mas isso também acontece com os homens, há mulheres radicais, alistamento obrigatório, tá vendo machismo onde não tem… Se dizer feminista e ser realmente são coisas diferentes. Assim como existem mulheres que se dizem não feministas, mas que querem a “real” igualdade dos gêneros, o que na minha opinião é a mesma coisa que dizer: sou a favor com a igualdade, mas não quero lutar por isso e nem ser incluída num grupo que meus livros da escola dizem que são meio loucas e gostam de queimar sutians. Cairiam bem nessa sua ideia de ser pró-feminismo…

    Beijos, May.
    Blog Silêncio Contagiante

    Curtido por 1 pessoa

    Responder
  4. Aplausos! É só o que consegui fazer depois de terminar seu texto! Me denomino um homem feminista e não me lembro de ter lido algo tão lúcido sobre o assunto! Parabéns!

    Curtido por 1 pessoa

    Responder
  5. Excelente texto e admirável seu posicionamento. Fiz questão de compartilhar em minhas redes sociais.

    Curtido por 1 pessoa

    Responder
  6. (resposta nada pessoal)

    Seria a acusação de um ato bárbaro justificado pelo gênero, mensagem de ódio? Não culpo nem homens e nem mulheres, mas seres humanos que não possuem índole e moral. Em um sistema onde A e B são os únicos protagonistas, pode haver um erro de interpretação devido a falta de referências.

    Qual dos animais são mais bárbaros? Seres humanos ou Leões? Pássaro ou Vacas?

    É necessário entender também que são homens que “matam” estupradores na cadeia. Homens matam a si mesmos, surgindo um paradoxo ou apenas uma indiferença de gênero?

    Curtido por 1 pessoa

    Responder
  7. Ótimo texto! Vc refletiu e foi honesto c suas análises… esse tema todos temos “dedinhos” demais… mt válido. :)

    Curtido por 1 pessoa

    Responder
  8. Excelente texto e reflexão sobre o assunto… Fiz questão de compartilhar no meu blog, espero que não tenha problema! <3
    Estou até sem palavras para descrever o quanto seu posicionamento sobre um assunto tão delicado foi ao mesmo tempo sensível e objetivo, Parabéns!

    Curtido por 1 pessoa

    Responder
  9. Uau! Sério que dá vontade de chorar. Seu texto é lindo e muito verdadeiro! Parabéns e que apareça mais pessoas no mundo como você :D

    Curtido por 1 pessoa

    Responder
  10. Parabéns pelo texto! Temos visão parecidas desse assunto, que deveria ser mais divulgado para ir concientizando mais e mais.

    Curtido por 1 pessoa

    Responder

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: