pedantismo futebolístico

Eu nem havia aprendido a falar quando a seleção brasileira conquistou o tetra em 1994 e ainda era uma criança quando conquistaram o penta em 2002. Meu pai tem boas recordações da Copa de 1994 e sempre fala com saudosismo da dupla Romário e Bebeto, que não cheguei a ver jogando. No início da adolescência, ainda acompanhei as últimas partidas de Romário em busca do seu tão desejado milésimo gol. Da Copa de 1998, em que o Brasil foi derrotado na final, não me lembro de absolutamente nada.

Minha recordação mais antiga de uma Copa do Mundo é a final da de 2002. Minha memória não vai além do último jogo e, mesmo assim, é constituída de lembranças muito turvas deste momento. Consigo lembrar que, na época, vários homens imitavam o estranho corte de cabelo do Ronaldo (chamado de “estilo cascão”). Recordo ainda de um programa do Domingo Legal, ainda com o Gugu como apresentador, pagando algum valor para que as mulheres da plateia cortassem o cabelo como o do Ronaldo no palco, ao vivo, mas não sei se isso foi durante ou depois da Copa, se realmente aconteceu, se é invenção da minha cabeça ou uma confusão com outra lembrança. Por favor, se alguém lembrar disso, corrija-me nos comentários se eu estiver errado. Recordo ainda que, no jogo da final, algumas pessoas estavam aqui em casa, mas só consigo me lembrar do meu pai, não relembro mais quem eram os outros presentes, na verdade, nem consigo visualizar o rosto delas na minha memória. Assim fica difícil de identificar, embora arrisque afirmar que eram meus tios. Enfim, esses detalhes não importam.

Mencionei isso tudo para dizer que a seleção já conquistou dois títulos de Copa do Mundo desde que nasci, ainda que não tenha visto nenhum. Não consigo considerar a Copa de 2002. Quatro anos depois, na Copa de 2006, eu torci e acompanhei de verdade. Lembro-me dos jogos, de tudo. Marcou-me também o fato de meu tio, irmão de meu pai, dizer-me que aquela seria a minha primeira Copa de verdade, e acabou sendo mesmo. No entanto, a seleção brasileira perdeu, como a gente já sabe. Em 2010, outra derrota, e agora, mais recentemente, em 2014…

Nunca vi a seleção de futebol mais vitoriosa de todos os tempos vencer uma Copa do Mundo. Se estou frustrado? Vou ser muito sincero: eu nem ligo! Sou um apaixonado por futebol, acompanho sempre. Certas partidas são para mim bem mais emocionantes que muitos filmes insossos, mas minha felicidade e minha tristeza não são reféns de um esporte. Se meu time conquista um título, é claro que fico satisfeito. É bom vencer, comemorar, mas a grande verdade é que eu não ganho nada quando meu time vence e não perco nada quando ele perde (a não ser que eu fosse muito idiota a ponto de ficar apostando dinheiro).

É tudo psicológico. Quando torço para um time, estou dizendo para meu subconsciente que devo ficar contente quando ele vence e aborrecido quando ele perde. Já fui assim, mas vamos combinar que ficar triste não é nada legal e decididamente nenhum time (nem seleção) tem o poder de me fazer feliz ou infeliz. E se já teve é porque eu lhe dei inconscientemente esse poder. Claro que quero que meu time vença, que a seleção brasileira vença, afinal, nós seres humanos somos inflados de ego e nunca queremos perder para ninguém, não importa o que seja. É por isso que só retiro a parte boa: se o time (ou seleção) vence, fico satisfeito (satisfação essa, tão momentânea, que no dia seguinte já acaba), mas se o time perde, não permito-me ficar triste.

Preciso dizer também que a seleção brasileira não me representa. A CBF é uma entidade privada que se apropriou do nome “Brasil”, mas o Brasil somos nós e não temos poder de decisão nenhum sobre quem preside a entidade, que lucra ano após ano em cima da nossa paixão por futebol, em cima dos atletas e nossa identificação como pátria. Afinal, futebol e Brasil ainda continuam sendo sinônimos um do outro. Sempre quis que nosso país fosse diretamente associado a outras coisas, como música, educação, sustentabilidade ambiental, ciência, cinema ou literatura, por exemplo. No entanto, parece que uma vez país do futebol, sempre país do futebol. E embora adore esse esporte, admito que isso pode ser ruim, como já está sendo, inclusive.

Ao contrário do que tentam nos fazer acreditar, não vivemos a maior crise política do país. Esse, definitivamente, não é o momento mais difícil que o Brasil já atravessou. Não esqueçamos da ditadura militar. O que são cinquenta anos para a História? Isso mesmo, nada! E tem mais, ela só acabou há trinta e um anos. Isso é menos que nada. A ferida ainda não cicatrizou, nossa “democracia” ainda é muito jovem e, graças a ela, podemos ganhar as ruas para manifestar contra o que quer que seja (ainda que abaixo de balas de borracha, bombas de efeito moral e gás de pimenta). Graças a ela, posso escrever neste blogue sobre política e você, caro(a) Leitor(a), pode ler sobre o que quiser. E foi nesse período tão tenebroso que a seleção brasileira teve suas gerações mais talentosas e vitoriosas. Foi em pleno regime militar que a seleção conquistou o tri, em 1970. Todas essas vitórias mantiveram muitas pessoas hipnotizadas. Não raramente, vejo reportagens tratando essas conquistas como uma espécie de consolação para o povo brasileiro que estava tão sofrido (quando não esteve?). Acho isso duplamente absurdo, primeiro porque é altamente pretensioso achar que títulos de torneios de futebol servem para consolar mazelas (embora alguns infelizmente tenham-se deixado consolar por isso) e segundo porque é um comportamento de alienados abstrair os problemas ao redor por causa de campeonatos de futebol. Sem contar que os militares souberam muito bem utilizar o tri como propaganda para enaltecer a ditadura e a noção de pátria que queriam incumbir no povo. Ou seja, durante muitos anos tivemos pouco pão e muito, muito circo.

Entretanto, vivemos sim outra crise política (quando é que não estamos vivendo uma?) e as derrotas no futebol não podem ser mais importantes que isso. O debate sobre quem deve ocupar o cargo de técnico não pode ser mais importante que o debate sobre nossos representantes em Brasília. Eu trocaria fácil essas cinco estrelas que só servem como ornamento na camisa da seleção por um país com mais educação, segurança, inclusão e cultura.

Acostumamo-nos mal, quer dizer, quem viu a seleção ganhar tantas vezes se acostumou mal – a minha geração, que não viu essas vitórias todas, já nasceu foi com mania de grandeza. Aprendemos, desde cedo, que a nossa seleção é a maior e a mais forte. Já foi, não é mais. O que não quer dizer que não volte a ser no futuro. Seria melhor e mais saudável se todos admitíssemos isso. Bom, muitos já admitem, mas continuam achando que a seleção brasileira vai vencer toda nova competição que enfrentar. Nós somos os únicos que insistimos em não enxergar o que o mundo inteiro já sabe: não somos mais os melhores e, quando entramos em qualquer torneio, não estamos nem sequer entre os favoritos. É preciso esperar e aceitar o pior. Não temos mais camisa e muito menos time para acreditar que seremos sempre finalistas. É preciso tolerar quando voltarmos para casa mais cedo e de mãos abanando. Admitir que a vida é cheia de reviravoltas: hoje estamos por baixo, mas amanhã podemos estar por cima novamente. O mundo inteiro aprendeu a jogar futebol estudando as gerações de seleções brasileiras; hoje não temos mais nada a ensinar, mas muitíssimo a aprender. É preciso descer do salto e submeter-se à condição de aprendiz.

Enquanto isso, segue todo mundo errando. A CBF com seus escândalos de corrupção que não são de hoje, mas que os bons resultados da seleção sempre ajudaram a mascarar; a comissão técnica claramente desatualizada com o que há de melhor no futebol no momento; a péssima safra de jogadores que também não ajuda; os próprios torcedores, que exaltam o futebol europeu mas que com dois resultados negativos já pedem a cabeça do técnico; além, claro, da imprensa esportiva, que alardeia toda e qualquer derrota como humilhante, vexatória e constrangedora. Eu não me sinto nada humilhado ou constrangido quando a seleção brasileira perde. Não fico com vergonha do resto do mundo. Para mim é infinitamente mais vergonhoso ser o 60° país em educação. Muito mais constrangedor é ter vinte e uma cidades entre as cinquenta mais violentas do mundo. Vexame para mim é ter a quarta maior população carcerária do mundo. Humilhação é saber que a cada vinte e sete horas acontece um assassinato contra pessoas LGBT no Brasil. As derrotas da seleção são o nosso menor problema, se é que se pode classificar isso como um problema.

Muitos vão dizer que não sou um torcedor de verdade e que não amo o futebol tanto quanto digo amar. Não importa, de mim eu é quem sei. Ademais, reitero que não há nada de humilhante em perder. As outras seleções não se sentem humilhadas quando tropeçam, e até as mais vitoriosas estão sempre tropeçando. Mal sabem elas o bem que esses tropeços fazem. O mesmo vale para os torcedores desses países. Nós só começamos a tropeçar de alguns anos para cá. Somos mimados, não queremos aceitar que outras seleções também brinquem com a taça de campeã. Somos tão malcriados que, quando a seleção vence, tá tudo ótimo, mas basta uma derrotinha para falarmos mal, fazermos piadas, desmerecer. Nós, brasileiros, somos os piores torcedores do mundo; as torcidas de times estrangeiros até brigam entre si de vez em quando, mas aqui, além disso, é comum ver torcidas depredando estádios quando os times perdem e torcedores à espera de jogadores no aeroporto para hostilizá-los. Só quando o time vence é que tudo é divino e maravilhoso. Com a seleção não é muito diferente, para muita gente qualquer derrota é motivo de demérito. Não há motivo para se envergonhar com o 7 a 1. Nossa seleção aplicou placares elásticos (alguns maiores que esse) em quase todos os seus rivais dentro de campo. Pergunta para o haitianos se eles estão envergonhados pelo 7 a 1 que eles levaram da seleção brasileira recentemente. Não estão, não. E não me venha com essa de que o Brasil é penta e que o Haiti não tem tradição. A seleção que conquistou o penta não é essa de hoje. Dos pentacampeões até que seria coerente cobrar que fizessem jus ao título, mas a geração atual ainda não conquistou nada e insistem em cobrá-la que honrem cinco títulos que não foram conquistados por ela.

Durante todos os anos de hegemonia da seleção brasileira, todos as outras seleções aprenderam que o importante é competir. Lição que a gente aprende quando criança nas aulas de educação física, mas que esquece quando cresce. No fundo, bem lá no fundo, eu ainda acredito que verei a seleção brasileira vencendo uma Copa do Mundo. Vai ser divertido, mas estou consciente de que, se ela ganhar, minha vida não vai mudar em nada, assim como não mudará se ela nunca mais conquistar um título. Alguém sempre tem que perder; se ganhássemos tudo, não teria a menos graça. O charme do esporte está exatamente no fato de saber que ninguém será invencível para sempre. Saber perder também é uma atitude de gente campeã, mas ser humilde, pelo visto, ninguém quer.

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3 Comentários

  1. Barbara Reccanello

     /  20 de junho de 2016

    Poucos textoes de Internet me prendem tanto quanto os seus. E são tão completos que nem há necessidade, talvez, de dizer alguma coisa! Mas compartilho da mesma opinião em tudo o que você disse e digo a meus alunos e quem quiser ouvir.
    Outro comentário é que, diz que para que a seleção voltasse pra casa com o tri eles foram ameaçados pela ditadura! De qualquer forma, tenho pra mim que os jogadores de outrora jogavam mais pelo amor do que pelo financeiro.
    E amei o trecho “tudo é divino maravilhoso” pq né! Hahhahaha

    http://divinamaravilhosa.com

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    • Obrigado pelo comentário, Barbara. Sou muito grato as leitoras e leitores do blogue, mas sinto-me especialmente honrado quando recebo palavras como essas vindas de profissionais da educação. Respeito máximo aos professores!
      E obrigado por me contar sobre essa ameaça que a seleção recebeu. Não sabia desse acontecimento. Vou pesquisar mais depois. Forte abraço!

      Curtido por 1 pessoa

      Responder
      • Barbara Reccanello

         /  20 de junho de 2016

        pois então, é uma dessas fofocas históricas que a gente acaba sabendo quando se aprofunda na História. O caso é que sempre as “fofocas” ficam relegadas, mas muito se pode dizer com elas! beijos

        Curtido por 1 pessoa

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