procrastinatório

Quem acompanha o blogue desde o início (se bem que eu acho que ninguém acompanha desde o início – os que curtiam e comentavam nos seis primeiros meses não são os mesmos que curtiram e comentaram nos últimos seis) deve saber que eu queria tê-lo criado sob o nome de Procrastinatório. Porém, alguém foi mais rápido que eu e criou um com esse domínio em maio de 2013, dois anos antes de mim. A página tem seis posts e está abandonada desde agosto do mesmo ano. Mesmo querendo muito ter registrado esse nome antes, agradeço por não ter conseguido. Agora, gosto muito mais do nome Satãnatório e fico imaginando que, se um dia abandonar o blogue, dificilmente alguém vai querer registrar um com o mesmo título, diferente de Procrastinatório, já que o mundo está infestado de procrastinadores.

Nem sempre me considerei um procrastinador. Na verdade, só assumi essa condição muito recentemente. De um modo geral, é feio ser visto como um. Hoje, não tenho problema nenhum em dizer que sou um procrastinador, assim como reitero que sou um profissional nisso. Entretanto, nem só de procrastinação vive o Homem e a Mulher (não gosto da palavra Homem como sinônimo único de ser humano). Diagnostiquei-me com uma espécie de procrastinação diferente, que resolvi chamar de “procrastinação independente” (ao contrário do que eu chamo de “procrastinação crônica”, aquela que se aplica a todas as atividades de seu portador). Resolvi nomear essa protelação assim porque só a exerço quando sou submetido a tarefas que me são impostas, embora algumas vezes atrase os meus próprios projetos (agora fiquei confuso, isso deveria fazer de mim também um “procrastinador crônico”?).

Adiar meus trabalhos ainda não me trouxe nenhum prejuízo, embora me faça perder o sono por ficar pensando no montante de tarefas do dia seguinte. Sou um cara responsável, nunca deixo de respeitar os prazos, sempre entrego meus trabalhos conforme o combinado e também não chego atrasado a aulas, reuniões, filmagens, etecetera e tal. O que não significa que não faça certos trabalhos na data limite. Talvez tenha bastante controle do tempo, sempre conseguindo respeitar as datas e sempre conquistando resultados satisfatórios. Tanto que quem me conhece nem imagina que procrastino. Todavia, determinar o tempo que preciso para realizar um trabalho é algo difícil (embora esteja acostumado a fazê-lo). É um verdadeiro cálculo matemático (tudo nessa vida é um cálculo matemático), em que você calcula mentalmente o tempo que vai precisar para fazer determinada tarefa e reserva esse tempo para o dia final. Porém, reforço, cálculos matemáticos são algo muito difícil. Sobretudo para pessoas que, como eu, são de Humanas (ou seja, quase sempre, péssimas com números). Um querido professor de matemática do ensino médio costumava dizer que, ao atravessarmos a rua, nosso cérebro faz um elaborado cálculo matemático em que deduz o tempo preciso para atravessar até o outro lado, além de presumir a distância e velocidade dos carros que estão passando para saber se dá para seguir o trajeto sem ser atropelado. É um cálculo tão difícil, mas tão difícil, que às vezes seu cérebro erra e o carro te atropela. Até hoje tem dado tudo certo, ainda não fui atropelado por nenhum carro e nenhum prazo. Espero continuar assim.

Ademais, procrastinar não é (é?) ou não deveria ser sinônimo para desocupado, preguiçoso. O lance é praticar o ócio produtivo (falando nisso, escrevo essas linhas ao som de Vivendo do Ócio, uma das minhas bandas favoritas). Não fico vegetando na cama enquanto protelo meus trabalhos. Sempre que tenho que fazer alguma coisa invento outras para não ter que fazer naquele momento aquela tarefa em específico. Ano passado, sempre que eu tinha que fazer alguma obrigação, pegava um livro e ia ler, até não poder mais adiar. Continuo lendo para me livrar momentaneamente de certos afazeres, isso quando não escrevo e elaboro projetos pessoais. Projetos esses que, por serem próprios, quase nunca são postergados. Enfim, fazer outras coisas é a forma mais produtiva que encontrei de não ter que fazer certas coisas. Esse “estilo de vida” pode ser “perigoso” para muita gente, mas garanto que ele deixa pouco espaço para remorsos. É completamente diferente de ir dormir para escapar de algo. Dessa forma, estamos sempre em constante atividade. Há um mês que eu tenho que escrever um argumento de roteiro de no mínimo nove páginas (até parece pouco) e ainda nem comecei. O prazo final era sexta-feira última, porém, esse prazo foi adiado (não por mim) para o dia 10 desse mês. Para não escrever esse argumento, eu já vi sessenta e cinco filmes. Hoje, acordei com a intenção de me livrar dessa tarefa, mas adivinha? Escrevi esse texto que vosmecê, querido(a) Leitor(a), está lendo agora.

Muito dessa situação também se deve à minha falta de inspiração para concluir esse argumento de ficção, que será sobre Helena, uma escritora que descobre através de diários antigos que o verdadeiro autor dos livros de Machado de Assis foi a esposa dele (Carolina Augusta Xavier de Novais). Ao tentar provar para o Brasil que o maior escritor brasileiro de todos os tempos é na verdade uma mulher, Helena começa a enfrentar um elaborado Sistema (formado, em sua maioria, por imortais da Academia Brasileira de Letras) que quer manter essa história em segredo, além de enfrentar a perseguição de uma colecionadora de livros raros que vai fazer de tudo para tirar os diários das mãos da pesquisadora. Quem me mandar ideias de como concluir esse argumento ganha um abraço apertado. Talvez eu ainda veja alguns filmes e leia alguns livros com o pretexto de “me inspirar” para escrever. Contudo, só volto aqui com texto novo quando me livrar desse argumento. O prazo, como havia dito, é até sexta, ou seja, não está tão longe assim. Até a próxima, abraçaço!

Anúncios
Post anterior
Deixe um comentário

23 Comentários

  1. Que texto gostoso de ler!
    Eu, particularmente, não possuo problemas com prazos. Mas, eu sei que o motivo disso é o fato de eu quase não ter tempo, e, incrivelmente, assim consigo fazer tudo com antecedência! Eu saio de casa antes das sete e só retorno onze da noite, então cada oportunidade que tenho adianto algo da faculdade ou alguma outra pendência. Ano passado, tirei férias do trabalho no mês de Setembro e fiquei perdida com tanto tempo livre, mesmo tendo aulas normalmente. Assim, eu acabava por fazer exatamente o que você chamou de ócio produtivo – ótimo termo, by the way – eu enrolava horaaaaas fazendo outras coisas pra não fazer as da faculdade hahaha

    Curtido por 1 pessoa

    Responder
    • Olá Barbara. Entendo você, no momento minha rotina não está tão carregada quanto a sua, mas já vivi dias tão longos quanto os seus. Muito obrigado por ter tirado alguns minutos tão preciosos do seu tempo livre para ler o texto e ainda comentar. Abração

      Curtido por 1 pessoa

      Responder
  2. ps: claro que eu, curiosa como sou, fui olhar o blog Procrastinatorio, rs

    Curtido por 1 pessoa

    Responder
  3. Eu tenho um defeito oposto, não consigo procrastinar e por isso deixo de equilibrar os prazeres e os deveres da vida. Eu tento, às vezes, deixar uma coisa para uns 3 dias antes, mas sempre fico pensando naquilo e em como tal ainda tem de ser feito.

    Curtido por 1 pessoa

    Responder
    • Não sei se chega a ser um defeito. Pode ser que seja um leve probleminha com ansiedade. Isso usado ao seu favor talvez seja bom, talvez não. Espero que você consiga encontrar esse equilíbrio que procura. Abraço

      Curtido por 1 pessoa

      Responder
  4. Procrastinador é meu sobrenome, pra falar a verdade. Venho procrastinando viver, durante toda minha vida. ahahh.
    Gostei do seu texto.

    Curtido por 1 pessoa

    Responder
    • Obrigado, Vinícius. As vezes tenho a sensação de também estar procrastinando viver, mas acho que no fundo a vida é isso, uma grande procrastinação. Com todo mundo adiando o máximo possível o dia da morte rs
      Abraço

      Curtido por 1 pessoa

      Responder
  5. Eu procrastino frequentemente, só que por não me sentir inspirada o suficiente para fazer algo ~geralmente acontece muito com o blog~, mas não posso me dar ao luxo de fazer isso com o serviço ou com os estudos… Me identifiquei com o texto, em vários aspectos, e espero que a inspiração venha a você, pq um dos piores sentimentos ~pelo menos pra mim~ é o de ficar adiando algo só por falta de inspiração, eu chego a me sentir inútil </3 parabéns pelo post!

    https://reclusidadesdiarias.wordpress.com/

    Curtido por 1 pessoa

    Responder
    • Cada projeto tem um tempo próprio de gestação. Prefiro esperar o tempo suficiente do que parir um texto prematuro, por exemplo.
      Com inspiração ou sem, eu costumo procrastinar rs Não sinto essa sensação de inutilidade porque ocupo bem o tempo fazendo outras coisas. No blogue só não escrevo quando realmente não tenho nenhum assunto ou quando não tenho tempo para ele. Já comecei a escrever o argumento (que ainda não terminei), mas tá indo tudo bem. Obrigado pelo comentário. Bjs

      Curtido por 1 pessoa

      Responder
  6. Admirável Garota

     /  10 de junho de 2016

    Jaírlos, me identifiquei muito com o seu post!

    Tenho uma sugestão para você: https://www.ted.com/talks/adam_grant_the_surprising_habits_of_original_thinkers#t-542713

    Esse vídeo fala sobre relação entre procrastinação e criatividade, achei muito interessante. Passei a enxergar com mais carinho meu hábito de procrastinar as coisas :)

    Bjs
    https://admiravelgarota.wordpress.com/

    Curtido por 1 pessoa

    Responder
  7. Visite: https://devaneius.wordpress.com/2016/06/09/premio-dardos/
    Você foi indicado por mim ao Dardos <3

    Curtido por 1 pessoa

    Responder
  8. setorialjovem

     /  11 de junho de 2016

    Esse tema é bem atual, por coincidência li algo referente ao mesmo em outro blog também. Parabéns pelo ótimo texto!!! Gostei muito deste trecho :” É um verdadeiro cálculo matemático (tudo nessa vida é um cálculo matemático), em que você calcula mentalmente o tempo que vai precisar para fazer determinada tarefa e reserva esse tempo para o dia final.” Acho que também sou boom neste cálculo 😁😁😁 Estarei de olho para ver os próximos posts Jaírlos 👀👀

    Curtido por 1 pessoa

    Responder
  9. Prazer enorme ter você como amigo. Seu texto é muito bom. Me identifiquei muito com seu texto. Nunca tinha pensado nisso. Acho que sou sou uma delas.

    Curtido por 1 pessoa

    Responder
  10. Boa tarde. Rapaz, Carolina ghost-writer do Machadão é uma grande ideia! E se Helena fosse julgada insana por algum doutor obsessivo-compulsivo e respeitado, um Simão Bacamarte, mas charlatão total, e internada em um hospício tipo o de Itaguaí? Grande abraço.

    Curtido por 1 pessoa

    Responder
    • Ótima ideia também. No entanto, o roteiro (que até já foi concluído) se passava nos dias atuais, em que uma escritora descobria todos os segredos e tentava revelar a verdade. De toda forma, sua ideia daria um excelente curta-metragem. Abraço!

      Curtir

      Responder
  11. Ah tá. Mas tinha pensado mesmo num Bacamarte versão 2016 que fosse uma espécie de House mais Dr. Oz com um quê de Robert Rey, mas voltado à psiquiatria mesmo. É que “O alienista” é minha obra favorita do Machadão e fico imaginando as personagens nos dias de hoje. Abs

    Curtido por 1 pessoa

    Responder
  12. Hahaha!! Procrastinar… quem nunca? Me identifiquei com o fugir de algumas tarefas fazendo outras! Eu todinha!! kkkk mas a cabeça é sempre um turbilhão de pensamentos!!!
    Amei o texto!

    Curtido por 1 pessoa

    Responder

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: