virtual

Aos interessados (se é que existem), venho dizer que não morri (ainda). Passo bem e o blogue não acabou, mesmo tendo ficado ausente por todo o mês de maio, um mês sombrio. Aliás, 2016 tem sido bastante sombrio – sinto um clima melancólico pairando no ar. E olha que 2015 já havia sido sinistro. Bom, o ano está chegando quase na metade e a sensação que tenho é de que a virada do ano aconteceu semana passada. Já, já ingressamos no segundo semestre e eu ainda não fiz um terço das coisas que havia planejado para esse ano. Estou começando a rever meus conceitos de elaboração de projetos, porque todo ano programo coisas e a vida simplesmente se encarregada de me encaminhar outras. O jeito é ir adaptando-se a essas turbulências que ela nos impõe.

No entanto, o Satãnatório fez um aninho de vida ontem (dia 1 de junho), e me senti na obrigação de escrever alguma coisa. Deveria ter publicado esse texto ontem, mas estava ocupado com outro aniversário que definitivamente não tinha nada a ver com o blogue. Pois é, um ano! Odeio essas datas comemorativas, me deixam reflexivo. Fico pensando que minha vida não mudou muito durante os últimos doze meses, o que pode ser confortável para quem não gosta de mudanças (o que definitivamente não é o meu caso).

Este deveria ser um post especial, um apanhado do tempo que passamos juntos, uma retrospectiva dos quarenta e três textos que foram publicados por aqui até agora, mas acabou nascendo isso, um post meio murcho. Preciso te contar, caro(a) Leitor(a), que esse não é meu primeiro blogue; não fiz as contas, mas creio ser o sexto ou sétimo. Desses, apenas dois completaram mais de um ano, sendo que nenhum chegou aos dois anos. No fundo, sempre achei que este blogue teria o mesmo destino que os outros. Bom, até agora nada de diferente aconteceu, esperemos as cenas dos próximos episódios. Todavia, é preciso confessar também que desde que o criei, pensava nesse tão esperado post de aniversário. Elaborei mentalmente durante esse tempo todo o texto que vosmecê deveria estar lendo agora, mas as circunstâncias me impossibilitaram de produzí-lo. Publicando essas palavras de última hora, perdi completamente a possibilidade de publicar algo especial.

Ademais, foi escrevendo esse texto torto, que lembrei da entrevista de Zé Miguel Wisnik para o canal 3 Canções, em que ele conversa com o apresentador André Marsiglia sobre musicar poesias. Essa entrevista mexeu muito comigo, de uma forma que não sei explicar. Tudo o que Wisnik falava parecia fazer muito sentido para mim, principalmente quando ele explica que musicar um poema é trazer uma das melodias possíveis que está latente em seus versos, e que quando se faz isso, há sempre algo que morre, um silêncio que foi preenchido com o sons, por exemplo. É o desdobrar dessa conversa que o faz discorrer sobre seu processo criativo, o que, de fato, eu gostaria de enfatizar na passagem que tomei a liberdade de transcrever aqui. Wisnik diz: “Todo processo criativo passa por um plano que é o real, o possível, o virtual e o atual. Então o real é tudo que já está dado e já está feito, que já está pronto, não tem criação propriamente. O possível é aquele horizonte de possibilidades de você fazer alguma coisa. Agora quando você está em processo criativo, chega a um ponto que é o virtual. O virtual é quando a canção já existe, embora não tenha sido acabada ainda. Mas todas as possibilidades dela você já sente, já sabe que ela está ali na mão. Ela já existe embora não tenha acontecido completamente. Quando você termina, ela se atualiza, ela entra no real e transforma o real porque o processo criativo é uma coisa que aconteceu e o real não é mais o mesmo. Sempre essa passagem do virtual para o atual é uma passagem que você perde. […] Todas as virtualidades que estavam no poema foram reduzidas porque ele ganhou uma forma, só que essa forma guarda mil possibilidades porque a canção continua podendo ser fruída de diferentes maneiras. […] Fez, tá feito, e agora passa a ser a virtualidade das escutas, essas é que vão manter esse jogo. Embora, eu vou te confessar, gosto muito de ficar com uma canção quase acabada e não acabar, para ficar nesse lugar virtual. Que eu acho que é o que acontece quando se fala da famosa preguiça de Dorival Caymmi, Dorival Caymmi tem uma canção e as vezes falta ainda uma coisa, ele leva anos, e quando falta é uma palavra, duas, para acabar. […] Depois ele põe a frase final e termina. O que que ele não quer? Que o virtual vire atual. Porque o virtual é tão gostoso, você fica dentro da composição, você fica dentro do ato de compor e assim o mundo seria maravilhoso, se ele fosse o puro ato de compor.”

Entendo que, lendo assim, pode parecer um pouco confuso, por isso sugiro que vosmecê veja o vídeo da entrevista antes de continuar a leitura:

3 Canções – Zé Miguel Wisnik

Wisnik estava falando sobre compor músicas, mas consigo aplicar toda sua teoria em qualquer processo criativo. Aqui, nesse caso, estou aplicando sua perspectiva ao processo de escrita. Foi isso o que aconteceu comigo: passei um ano inteiro dentro do virtual, pensando em um post especial de aniversário. Agora que escrevo e ele ganha forma, o texto perde completamente as possibilidades de ser outra coisa. Porém, esse mesmo texto, ganha agora outras mil possibilidades, podendo ser lido de diversas maneiras. Eu posso ter perdido a virtualidade de criação, mas o texto passa a viver a virtualidade das leituras.

Confesso que entendo perfeitamente Wisnik quando ele diz que o virtual é muito gostoso. É muito bom estar grávido de um texto, ficar dentro dele, envolto no ato de escrever. Como havia falado anteriormente, nenhum blogue meu jamais chegou aos dois anos, mas confesso que, pelo prazer de estar no mundo virtual, já começo a pensar em um texto especial para daqui a doze meses. Anseio por uma gestação saudável e, mais ainda, que o texto não seja um natimorto como foi esse de hoje. Contudo, aproveito a oportunidade para agradecer sinceramente a todos os acessos, curtidas e comentários que deixaram aqui nesse primeiro ano de vida. Muito obrigado mesmo! Desde o primeiro post, o blogue nunca deixou de ser acessado um dia sequer, nem no mês de maio em que não publiquei nada. Quero deixar também um agradecimento especial aos(às) 1.283 seguidores(as) (até o momento), todos(as) eles(as) também blogueiros(as). É muito gratificante ser seguido e lido por outros(as) escritores(as) tão talentosos(as). Também acompanho com interesse o trabalho de muitos de vocês, afinal, antes de ser qualquer coisa, sou um leitor. Não consigo ler o blogue de todos(as), acabo lendo menos do que gostaria. É coisa do tempo, sempre ele, nosso maior inimigo. Agradeço também aos(às) que compartilham os textos e trazem sempre novos(as) leitores(as). Por hoje é só, espero vê-los(as) em breve. Mais uma vez obrigado. Abraçaço!

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14 Comentários

  1. Barbara Reccanello

     /  2 de junho de 2016

    Jaírlos, deixa de ser feio e depre! escreves tão bem e tem tanta coisa interessante e já começa o texto desfazendo dele, eu hein. Bora aumentar essa estima de ti mesmo! run!
    No mais, que entrevista maravilhosa! A favoritei para poder ve-la com mais calma quando tiver um tempo dos meus dois empregos hahaha e a beleza da vida é que a gente não programa nada mesmo, as coisas vem vindo em nossa direção e temos que ir lidando, aprendendo, crescendo, evoluindo!… bj

    http://divinamaravilhosa.com

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  2. Jaírlos, Parabéns pelo 1 ano. Levanta!!! Sacode a poeira… e bola pra frente. Crie.. recrie… Seus post são muito bons. Animo… abs.

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  3. Parabéns pelo 1 ano! Eu que agradeço por estar aqui, fazer parte disso e que possamos completar mais anos juntos, leitor e escritor, pois para isso estamos aqui. Me inseri na virtualidade da leitura e discordo que esse texto seja natimorto, em muito me acrescentou e aguardemos os próximos capítulos dessa história que é a vida!

    https://reclusidadesdiarias.wordpress.com/

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  4. Realmente a virtualidade é a parte mais prazerosa do processo criativo, nunca tinha lido sobre isso, concordei com tudo o que disse sobre o processo criativo, também me sinto assim. Cara, gostei de seu blog, Parabéns! Acabei de descobrir seu blog, então espero que ele tenha mais um ano pela frente, pelo menos. Tudo bom!
    Abraço!

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  5. Parabéns pelo primeiro ano do blog!
    Eu, recém-chegada a esse meio, tenho esperanças de um dia conseguir assoprar essas velas! Ótimo texto e que venham outros anos!

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  6. Parabéns! Teu texto me fez contar “nos dedos”… Como o tempo passa rápido e como há insuspeita riqueza em cada peça, em cada texto, finalmente percebida na concretização. Entendo a crítica severa – tendo a ser cruelmente exigente comigo mesma e nunca me agrada o que publico – mas você escreve muito bem; acredite. E não estou falando de técnica, mas de coesão, de coerência e consistência. Boa Sorte nos 365 próximos dias e nos milhares mais que, jovem e criativo, você tem pela frente. Parabéns!!!

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    • Obrigado, Anna! Agradeço as palavras carinhosas. É sempre muito importante receber esse retorno dos leitores. Que nossos blogues sigam juntos nesses próximos 365 dias. Forte abraço

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