cinco passos para ser um(a) escritor(a)

Hoje o texto será um pouco diferente, pois tratará da gravação de uma palestra do Rubem Fonseca. Não recordo como encontrei o vídeo, mas certamente foi quando estava navegando, como sempre, à procura de coisas novas. Informações essas que são muitas, muitas mesmo e, por mais que eu seja um astronauta libertado, as novidades me ultrapassam em qualquer rota que eu faça (viva Tom Zé!). É uma corrida desleal, estou sempre atrás das notícias. É humanamente impossível acompanhar tudo e, mesmo que fosse possível, não faria questão. Embora a quantidade de novidades ruins seja infinitamente maior do que as boas, ainda assim as boas continuam em demasia para um único ser humano que, como eu, é sedento por assuntos “desconhecidos”.

Pesquisando, consegui descobrir algumas coisas sobre o vídeo: é de 2012 e foi realizado durante a 13ª edição do Correntes d’Escritas, que é um encontro de escritores de expressão ibérica. Rubem Fonseca foi o convidado especial e recebeu o Prêmio Literário Casino da Póvoa com o livro ‘Bufo & Spallanzani’. No primeiro dia do evento ele palestrou em uma mesa que tinha como tema “A escrita é um risco total”. Foi essa palestra que eu encontrei em vídeo e resolvi compartilhar aqui, afinal, ele não costuma dar entrevistas porque considera que o autor deve ser reconhecido por sua obra, sendo a fala desta palestra um verdadeiro presente.

Lembram que eu disse lá no início que o texto de hoje seria diferente? Pelo menos a intenção era de que realmente o fosse. Os últimos textos do blogue são enormes, o último sempre maior que o antecessor. Desaprendi a escrever textos pequenos e a cada textão que publicava, me sentia mal por roubar o tempo do(a) Leitor(a). A princípio eu compartilharia apenas o vídeo, mas para isso eu tenho meu Tumblr, então decidi escrever algumas palavras sobre a palestra do Rubem Fonseca, que indica cinco coisas que precisamos ter para ser um(a) escritor(a) e fazer um pequeno paralelo com os leitores, mas essas palavras acabaram desaguando em um texto enorme. Portanto, deixo aqui o meu mais sincero conselho: veja o vídeo a seguir (antes que saia do ar) e não leia o resto do texto.

Correntes d’Escritas 2012 – Rubem Fonseca

Vi que vosmecê é um(a) Leitor(a) teimoso(a). Certo, se já está lendo essas palavras, que faça a gentileza de acompanhar-me até o fim. No vídeo, Rubem Fonseca nos brinda com a frase “escrever é uma forma socialmente aceita de loucura”. Como não concordar? É dessa forma que ele dá início à sua tese de que precisamos de cinco coisas para ser um escritor, a começar pela loucura.

1 – Loucura

Para Rubem Fonseca, todos os escritores são loucos, cada um à sua maneira. Para exemplificar, ele diz que é um escritor digitador, enquanto outros escrevem a lápis, portanto, uma loucura diferente. Identifiquei-me prontamente com a loucura de Fonseca, pois também só sei escrever digitando. Primeiro porque escrevendo à mão fica muito difícil acompanhar o raciocínio: mesmo escrevendo o mais rápido que posso, acabo deixando algo passar. Digitando, esse prejuízo é quase zero. Segundo, por um motivo mais nobre, digamos assim, pois quanto menos uso o papel, menos árvores estão sendo derrubadas. Já bastam as que morrem para que eu tenha livros na minha estante. Para Fonseca, a loucura é a característica mais importante de um escritor.

No entanto, quando ele diz que cada escritor tem neuroses, psicoses e depressões singulares, o mesmo pode-se aplicar aos leitores. Apenas para ilustrar, cada leitor lê de uma forma distinta. Alguns preferem ler pela manhã, outros à noite, como eu. Alguns preferem livros no formato digital, outros ainda conservam o romantismo de ter o livro físico e não abrir mão do cheiro de páginas novas, também como eu. Alguns se dedicam a um livro por vez, outros leem vários ao mesmo tempo, como quem vos escreve. Não obstante, o leitor tem que ser igualmente louco para “acreditar” no que está lendo através da suspensão temporária da incredulidade. No livro ‘A Vaca e o Hypogrifo’, Mário Quintana diz que “ao ler alguém que consegue expressar-se com toda a limpidez, nem sentimos que estamos lendo um livro: é como se o estivéssemos pensando.”. Quintana está falando de um escritor que escreve muito bem, mas sua frase torna-se importante aqui porque, ao acharmos que estamos pensando, suspendendo temporariamente nossa incredulidade, somos tão loucos quanto o autor. Porém, não basta apenas ser louco.

2 – Alfabetização

Para ser escritor você também precisa ser alfabetizado (obviamente), para que, através de sua escrita, consiga fazer o leitor sentir e, acima de tudo, ver, para assim poder entender. Nessa parte da palestra, Rubem Fonseca destila seu sarcasmo ao dizer que um escritor alfabetizado não significa ser um escritor inteligente e, que ser alfabetizado não é algo assim tão importante, pois uma pessoa não precisa ser muito alfabetizada para escrever um livro. Um exemplo disso é a enorme quantidade de livros de qualidade duvidosa que sempre inundam o mercado editorial.

Costumo dizer que vivemos na era do gosto literário duvidoso. Se Rubem Fonseca afirma que um escritor não precisa ser muito alfabetizado, que dirá os leitores? Muitos passam a vida toda boiando em uma literatura rasa porque não desenvolveram capacidade suficiente para mergulhar em mares mais profundos das letras. Capacidade essa que todos podemos desenvolver e que, se por um lado muitos não o fazem por conta própria, a grande maioria não desenvolve graças a um péssimo Sistema educacional que ainda restringe conhecimento e informação a poucos. Entretanto, realmente existem livros que exigem mais dos leitores. No livro ‘O Design da Escrita’, o autor Antonio Suarez Abreu diz que um texto é “uma proposta de construção de sentidos. Somos nós, leitores, que, vasculhando nossa memória, buscamos dentro do nosso conhecimento de mundo informações adicionais que possam complementar aquilo que lemos. Sem isso, não há entendimento possível.” Sem informações prévias, qualquer um de nós está sujeito a experimentar o analfabetismo funcional diante de um livro. Eu acredito, por exemplo, que não iria conseguir interpretar muita coisa de um texto de medicina ou de arquitetura, embora conseguisse decodificar as palavras. Apesar disso, sou daqueles que ainda prefere pessoas que leem livros indiscutivelmente rasos, do que quem passa a vida inteira com medo de se molhar e não lê nada. Todavia, não basta ser louco e alfabetizado.

3 – Motivação

Sem motivação você não faz nada, nem descasca uma banana, diz Rubem Fonseca. O escritor precisa ser motivado e cada um encontra motivação de uma maneira diferente, não importa qual seja. Na palestra, ele não diz o que o motiva a escrever e eu só não digo o que me motiva porque acho que ainda não sei. Não ganho absolutamente nada escrevendo, no entanto, gosto de escrever, sinto prazer. Talvez seja apenas por satisfação pessoal.

Ademais, também é preciso ser motivado para ler. A motivação mais comum talvez seja para descobrir o final da história, mas há quem lê porque precisa fazer uma prova ou porque anseia por mais conhecimento. Confesso que não preciso de muita motivação para pegar nos livros, estou sempre com vontade de ler, é quase uma necessidade fisiológica. Porém, às vezes preciso de motivação para terminar certos livros. Para isso, aplico a lei do esforço e recompensa: dou uma pausa na leitura que está enfadonha e inicio outra, dessa vez de algum livro que eu tenho certeza que vou gostar bastante e que vai reacender em mim a motivação pela leitura. Geralmente são biografias ou romances de autores que gosto muito. Concluída a leitura desse livro, coloco outro livro que também sei que dificilmente vai me decepcionar, na cabeceira da minha cama. Dessa forma, sempre que eu olhar para aquele livro que estou com muita vontade de ler e que só me permitirei fazê-lo depois de terminar a leitura enfadonha do livro que eu havia pausado, sentir-me-ei muito estimulado. Contudo, não basta ser louco, alfabetizado e motivado.

4 – Paciência

É preciso ser paciente e não parar de escrever. A ação de escrever permanentemente, continuamente, entretanto, deve ser realizada sem pressa. É compreensível que escritores passem cinco anos escrevendo um livro de duzentas páginas, por exemplo, a procura das palavras perfeitas. Para Fonseca, não existem sinônimos, com cada palavra possuindo um significado diferente, próprio. Para ele, sinônimos são conversa dos gramáticos para boi dormir.

Nós, leitores, também estamos sempre exercitando nossa paciência, afinal, não é fácil ler ao final de um dia cansativo. Estamos sempre correndo contra o tempo, não conseguimos ler tanto quanto gostaríamos e muitas vezes precisamos ler textos contra a nossa vontade, seja na escola, universidade ou trabalho. É preciso não parar, ler permanentemente, em cada tempinho livre. Devagar se vai longe! Não obstante, não basta ser louco, alfabetizado, motivado e paciente.

5 – Imaginação

O escritor tem que ter imaginação. Para Fonseca, é fundamental que o escritor invente. Tudo bem que o Chacrinha já nos ensinou que nada se cria e tudo se copia, mas não temos acesso a todos os livros do mundo e, por esse motivo, é imprescindível que os livros que cheguem até nós nos pareçam novos, diferentes. No fundo, eu sei que alguém em algum lugar do mundo já deve ter escrito algum livro parecido e que todas as histórias possíveis já foram contadas. Apesar disso, não li e nem vou conseguir ler todos os livros do mundo, por isso estou sempre procurando livros criativos que sejam novos para mim.

Em 2013, Rubem Fonseca participou da inauguração do ambiente de leitura que leva seu nome, no canteiro de obras da Linha 4 do metrô carioca, na Praça Antero de Quental, no Leblon. A Biblioteca Rubem Fonseca é destinada aos funcionários da obra. No seu empolgado discurso de inauguração (veja o discurso nesse vídeo), Fonseca disse que a palavra é extremamente polissêmica, que cada leitor lê de uma maneira diferente e que cada um de nós recria o que está lendo. Essa é a vantagem da leitura: nós preenchemos as lacunas que os escritores deixam deliberadamente ou inconscientemente. Ou seja, o livro não é uma coisa que vem pronta; o leitor precisa ser igualmente imaginativo para preencher esses espaços. Para finalizar, deixo com vocês a teoria do escritor e filósofo Eduardo Giannetti, que expressa bem essa ideia em seu livro ‘Auto-engano’: Ler é recriar. A palavra final não é dada por quem a escreve, mas por quem a lê. O diálogo interno do autor é a semente que frutifica (ou definha) no diálogo interno do leitor. A aposta é recíproca, o resultado imprevisível. Entendimento absoluto não há. Um mal-entendido – o folhear aleatório e absorto de um texto que acidentalmente nos cai nas mãos – pode ser o início de algo mais criativo e valioso do que uma leitura reta, porém burocrática e maquinal. “Autores são atores, livros são teatros.” A verdadeira trama é a que transcorre na mente do leitor-interlocutor.

Até a próxima, abraçaço.

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8 Comentários

  1. viciolicito

     /  9 de abril de 2016

    Oi, obrigada por compartilhar o vídeo e ainda traduzi-lo em palavras – achei as pontuações fenomenais e para mim foram motivadoras!
    Parabéns!
    https://viciolicito.wordpress.com/

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  2. Ótimo texto!
    Na verdade preferi ler o seu texto do que ver o vídeo…

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  3. Desculpa, mas não segui seu conselho. E não me arrependo ;)

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  4. Genial por vários motivos: o primeiro deles: é Rubem Fonseca.
    Como psicóloga, confesso que me apeguei na parte da Loucura. Faz total sentido ter em uma relação de identificação leitores neuróticos, psicóticos e perversos, pois para cada uma das estruturas, existe um autor que se dedique. Só no que diz respeito a depressão que preciso fazer um adendo: todas as estruturas estão sujeitas a tal sintoma. Talvez seja por isso que leituras mais profundas e tristes nos chamem mais a atenção. Excelente texto!

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  5. Como eu já sou louco por natureza, já nasci no caminho certo! rs.

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  6. SENSACIONAL! Que post bacana. E útil. E oportuno. E, mais importante: bem construído e bem escrito. Para mim, uma neófita no universo dos blogs, um presente. Texto excelente!

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  7. Muito bom. Rubem Fonseca é uma voz… sempre foi.

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  8. Sou um apaixonado pelas letras, sempre vivas, nunca frias.
    Talvez tenha iniciado a leitura sistemática muito tarde, era avesso a leitura, comecei a ler por solidão, era extremamente tímido e nisso encontrei um mundo novo.
    Passei a buscar nas letras respostas, já fiz testes com o que aprendia e acabava dando resultados similares ao que era ensinado.
    Foi uma avanço, entendi, de uma forma simplificada que uma sociedade sem livros e com mentalidade como a que estamos vivendo é o prenúncio de uma morte social, pois deixa de possuir cidadãos, para ter apenas prisioneiros, presos em algo que desconhecem, uma “matrix” imposta pelo próprio desconhecimento. Por isso querem formar menos pensadores e mais escravos.
    Excelente texto, coeso e empolgante.
    Abraço de mais um leitor.

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