surpresa x expectativa

Não sou tão velho assim, afinal, “só” vivi duas décadas até agora. Ademais, quem nasceu antes de mim deve entender. Na infância e adolescência, quando um filme era lançado, eu quase sempre era pego de surpresa. O que me despertava para os filmes que estavam em cartaz geralmente era o burburinho que se formava sobre ele ou a indicação de algum amigo: “você já foi ver o filme tal que está nos cinemas?”. O fato de a internet ainda não fazer parte da minha vida naquele período justifica muita coisa. De toda forma, era uma época em que as produções ficavam muito mais tempo em cartaz. Talvez tendo em vista que tivéssemos tempo suficiente para saber que tal filme estava nos cinemas e conseguir ir antes que fosse substituído por outro ou porque a produção cinematográfica (que já era intensa) não era tão acentuada quanto hoje.

Atualmente, eu nem sei o que vou fazer da minha vida amanhã, mas, se quiser, posso saber quais filmes já estão programados para serem lançados nos próximos três anos e quais trilogias ou franquias estarão finalizadas daqui uma década. Como se não bastasse, também é possível saber que trailers, veja bem, que trailers serão lançados até o ano que vem para produções que devem sair em 2018. Enquanto tudo isso não acontece, um tsunami de outras informações vai chegar antes do filme propriamente dito, coisas do tipo “o diretor será substituído”, “ator foi escalado para o papel tal”, “roteirista briga com estúdio”, “atriz foi confirmada para o papel da personagem tal”, “diretor é novamente substituído”, “cantor ou cantora tal (geralmente o/a do momento) irá gravar a canção tema”, “filmagens só devem começar no ano que vem”, “‘vaza’ foto dos bastidores”, “são divulgados cartazes individuais para todo o elenco do filme”, “o filme só deve estrear em 2020 mas os estúdios já confirmaram que haverá uma continuação em 2025”, etc.

Em relação a alguns filmes de super-heróis (não que eu os assista), você até sabe por antecedência que alguém do time protagonista vai morrer. Olha que absurdo! Você entrar na sala do cinema já sabendo que alguém vai morrer e ficar o filme todo tentando adivinhar quem será. Não seria muito melhor ser pego de surpresa? Você está lá, vendo o filme e de repente, pá! Fulano morre. Isso é incrível! Muito melhor do que você estar vendo o filme e quando o personagem morre você pensar consigo “eu sabia que seria ele” ou “imaginava que seria o outro”, o que não deixaria de ser uma mini surpresa, no caso da segunda opção, mas jamais uma surpresa autêntica.

Não sou um desocupado (bem que gostaria de ser), mas tenho muito que fazer e, mesmo que não tivesse, tenho certeza de que não consumiria esse tipo de “informação”. Não ia ficar acompanhando cada foto de bastidor, cada trailer. Entendo que fã é fã. Eu mesmo, quando o assunto é música, gosto muito de acompanhar as notícias das gravações dos álbuns das bandas que admiro, saber quem serão as participações especiais, ver a arte da capa, ouvir o primeiro single (que geralmente é lançado antes do álbum ficar pronto), esse tipo de coisa. Todavia, ao contrário dos filmes, as bandas (pelo menos as que eu escuto) gostam de fazer muito suspense com seus lançamentos. Elas gostam de surpreender. Há quem lance álbum sem que ninguém estivesse esperando. Olha que coisa maravilhosa: você acordar um belo dia e descobrir que uma das suas bandas favoritas lançou disco novo. É uma surpresa indescritível. Contudo, faz tanto tempo que não posso ficar fuçando sites de música que, quando alguém lança disco novo (mesmo avisando previamente), eu sou pego de surpresa do mesmo jeito. No início desse mês saiu o disco novo dos Selvagens à Procura de Lei, ‘Praieiro’, e eu nem sabia que iam lançar álbum novo. Tá incrível! Recomendo! E querem saber? Vou continuar assim, sem acompanhar. Se algum dia eu tiver tempo para navegar na internet por sites de música, vou usar esse tempo para ler meus livros e continuar sendo pego de surpresa. Que venham as próximas!

Na universidade, tive que lidar com muitas revelações de enredo. No entanto, estavam sendo discutidos em sala de aula filmes clássicos, que se eu não tinha visto até então era por culpa minha. O que estava em jogo não era propriamente o enredo do filme e sim como ele foi feito, então sempre nos interessava saber como o diretor conseguiu realizar tal cena ou como o montador solucionou tal problema. Realmente, não me interessa saber como será o cartaz ou quem gravará a canção tema, por exemplo. Se o filme é de uma grande produção de estúdio internacional, também não me interessa saber quem vai dirigir, porque nessas ocasiões o diretor é quase sempre um simples capacho fazendo um filme por encomenda. Interessa-me a atividade dos diretores do circuito independente ou dos diretores consagrados que, mesmo trabalhando para um grande estúdio, conseguem se impor e fazer do seu jeito. Em suma, o que interessa mesmo é o filme.

Se há uma frase que todo mundo já disse ou ouviu foi essa: “não julgue um livro pela capa”. Por que será então que as pessoas fazem tanta questão de julgar um filme pelo trailer? O trailer é como se fosse a capa de um filme: mesmo que seja ótimo, não significa que o filme será, assim como não significa que, se o trailer for ruim, o filme também deve ser. Poderia passar bastante tempo aqui citando trailers que são melhores do que seus respectivos filmes. Todo mundo já deve ter sido enganado por um trailer maravilhoso. É puro marketing. Seria muita ingenuidade da minha parte continuar assistindo essas propagandas enganosas. Resultado: não assisto mais trailers. As únicas exceções são quando vou ao cinema e eles passam antes da sessão ou quando eu já vi o filme e decido conferir o seu trailer.

Pode parecer radical, mas eu não leio nem sinopses. Quando vou ao cinema, o motivo é sempre o (a) diretor (a). Se é um (a) diretor (a) que eu gosto e tem uma obra consistente, sei que são pequenas as chances de jogar meu dinheiro fora. Além disso, existem muitas formas de um filme me chamar atenção, seja por ter como protagonista um ator/atriz que gosto bastante, seja porque ganhou algum prêmio, seja por estar em listas de melhores filmes, seja pela curiosidade do título, seja por indicação de amigos, seja por ter feito parte de algum movimento cinematográfico, seja por ter sido adaptado de algum livro que eu gosto, por ser de um determinado país, enfim, até a intuição vale. Quando o assunto é cinema, minha seletividade não é tão rigorosa como é em relação à música e à literatura.

Durante anos, pensei que os culpados por criarem tantas expectativas eram somente a mídia e os próprios responsáveis pelos filmes ao liberarem muito material prévio. Sabemos inúmeras coisas de um filme antes mesmo dele ser lançado e isso é muito ruim. Sim, eles continuam com sua parcela de culpa liberando esse tipo de material, mas é verdade também que eles não obrigam ninguém a ver nada. O que caracteriza uma culpa de mão dupla: as pessoas pesquisam por conta própria (o que praticamente anula a culpa dos divulgadores do filme). Claro que se essas propagandas enganosas não saíssem, ninguém criaria falsas expectativas e todo mundo já está feio de saber que expectativa não é algo tão bom para se cultivar. Quando alguém me fala que “esperava mais” de um filme, eu primeiramente sei que aquela pessoa é leiga (e não tem problema nenhum nisso – sempre somos leigos em alguma coisa), caso contrário, ela saberia justificar e apontar os aspectos negativos do filme. Também sei que aquela pessoa se inflou de expectativas, então grande culpa por não gostar do filme é dela. O filme não mandou ninguém esperar isso ou aquilo. Seus criadores podem até terem dito que a produção era maravilhosa e feito um trailer emocionante, mas continuar caindo nessa não dá, não é verdade?

Por que então continuar se boicotando e estragando a melhor parte que é a surpresa? Todo esse material prévio é muito mais interessante quando lido depois de assistir ao filme. Descobrir como aquela cena que você gostou foi feita, quem foram os profissionais que trabalharam por trás das câmeras, ver as fotos dos bastidores e até mesmo ficar por dentro das picuinhas que aconteceram durante a produção. Muito melhor do que aguardar o lançamento de um trailer (tem gente que ainda faz contagem regressiva para isso), assistir, postar nas redes sociais que chorou (!) e muitas vezes se decepcionar ao ver o filme. Sem contar (pasmem!) quem filma as próprias reações assistindo a um trailer. Ainda bem que na sala escura ninguém pode ver o rosto de frustração da pessoa ao lado. Contudo, quem sou eu para dizer qual a melhor forma de se ver um filme? Ademais, quem melhor para dizer o que é bom para mim senão eu mesmo? De toda forma, não sei você, caríssimo Leitor, mas continuo achando que é muito mais interessante ser surpreendido do que criar expectativas e quebrar a cara. E isso vale para tudo.

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4 Comentários

  1. Muito bom !

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  2. Seu texto está excelente.

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  3. Oi Jaírlos, tudo bem? Te indiquei para a Tag: Liebster Award.
    Caso se interesse em responder https://mazitablog.wordpress.com/2016/03/18/tag-liebster-award/
    Se você gostar e se sentir a vontade para responder eu vou adorar, assim podemos nos conhecer melhor. Obrigada desde já.
    Beijos!

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