todas as mulheres do mundo

Nasci em uma família repleta de mulheres: minhas avós, um incontável número de tias, um número ainda mais incontável de primas, minha mãe, minha irmã. Mulheres negras, mulheres brancas, mulheres que foram felizes em seus casamentos, que não aceitaram os maus tratos dos maridos e que criaram os filhos sozinhas, que escolheram nunca se casar, que abandonaram a escola, que se formaram em mais de uma graduação, que tinham o trabalho como realização pessoal. Uma pluralidade sem fim.

Meu pai sempre passou o dia fora trabalhando. Fui criado por minha mãe, que trabalhou a vida toda em casa (sempre achou muito chato sair para pegar ônibus, por isso montou o próprio negócio e se tornou a própria patroa). A diferença de idade entre eu e minha irmã mais nova é de dois anos, quatro meses e vinte dias. Não tenho nenhuma lembrança de minha mãe grávida, não tenho nenhuma memória do nascimento da minha irmã, não sei qual é minha lembrança mais antiga dela, mas recordo do resguardo da minha mãe após o parto. Ela ficou doente e uma enfermeira cuidava dela, disso eu lembro. Talvez essa seja a lembrança mais antiga que tenho da minha vida. Em relação à minha irmã, a diferença de mais de dois anos não impediu que nos tornássemos verdadeiros companheiros. Não podíamos brincar na rua, então tínhamos que nos virar dentro de casa, espaço que na época ainda não era tão grande e com quintal. Também nunca tivemos animais de estimação; ou brincávamos juntos, ou sozinhos – como brincar sozinho é sempre muito chato, quase sempre optávamos pela primeira opção.

Na grande maioria das vezes, brincávamos com bola, para o desespero da minha mãe, que via as paredes da casa perderem toda a pintura ou um móvel ser quebrado de vez em quando. Minha irmã também tinha as brincadeiras dela e, para fazer com que ela brincasse de bola, muitas vezes eu tinha que ceder às suas vontades e comer as comidinhas de mentira. Tenho ótimas lembranças dessa época, em que também protagonizamos discussões colossais. Em algumas dessas ocasiões, meu pai fazia com que nos abraçássemos e fizéssemos as pazes se não quiséssemos apanhar. Nessas horas, ela sempre me abraçava e eu, idiota, relutava ao máximo. Não necessariamente por raiva dela e sim para contrariar meu pai. Desde cedo eu tive sérios problemas em acatar ordens. Esperta era a minha irmã, que trocava uma surra por um abraço. Se hoje eu tivesse que passar pela mesma situação, jamais iria preferir apanhar. Abraçar é tão bom…

Na escola, sempre estudei em turmas com um número muito maior de meninas que de meninos e sempre achei muito mais interessante conversar com elas que com eles. As garotas falam sobre tudo: livros, filmes, música, esporte, família, estudos. Até hoje estou tentando entender esses filmes misóginos em que as mulheres estão sempre falando sobre homens. Está tudo errado! Os homens sim, pelo menos a grande maioria dos que passaram pela minha vida, só sabiam falar de mulheres. Por esse motivo, sempre preferi conversar com as meninas e ter um leque de assuntos muito maior. Só na universidade que vim a estudar em turmas com mais homens que mulheres. Cinema ainda é uma profissão dominada por homens, o que é uma pena, porque sempre preferi trabalhar com mulheres e, a cada curta-metragem que faço, tento unir o máximo de profissionais do gênero feminino. Nem sempre é possível, porque as que conheço são tão requisitadas que nem sempre podem aceitar o convite por já estarem trabalhando em outro projeto.

Ademais, sempre tive ótimos amigos meninos, grandes companheiros de travessuras. Em toda a minha vida, consegui transitar muito bem entre os universos masculino e feminino. Não cheguei a contar, mas tenho quase certeza de que tenho mais amigas mulheres do que homens. Não seria capaz de dizer que a amizade masculina é melhor que a feminina, ou vice-versa: são iguais em suas diferenças. Talvez, a melhor diferença da amizade feminina seja o não medo de expor sentimentos. As amigas que fiz durante a vida nunca tiveram problema nenhum em expor seus sentimentos, nunca tiveram medo de fazer calorosas declarações no dia do amigo, de mandar emocionantes mensagens no dia do aniversário, nunca tiveram medo de expressar que gostavam de mim ou dos seus outros amigos e amigas, enfim, nunca tiveram receio de falar “eu te amo”, essas três palavrinhas juntas que podem até estar banalizadas para muitas pessoas, mas que ainda se fazem necessárias quando o sentimento é verdadeiro. Quase todos os amigos homens que tive foram incapazes de expressar seus sentimentos, não só com relação à nossa amizade. Meus amigos de escola só se permitiam abraçar em datas especiais, com o cumprimento diário tendo de ser um aperto de mão. Na universidade, conheci mais amigos diferentes, mas continuaram aparecendo aqueles que não trocam o aperto de mão por nada.

Acho que a frase “amor só de mãe” procura se justificar muito no fato de as mães não possuírem medo de expressar o seu amor pelos filhos e de não se privarem disso. Nunca vi o pai de nenhum amigo meu demonstrar carinho em público pelo filho ou pela filha, um claro efeito do machismo que os oprime e que eles nem se dão conta. As mães, pelo contrário, sempre fizeram questão de demonstrar o seu amor pelos filhos publicamente (para o constrangimento de muitos deles).

Não sou de esconder o que sinto e pretendo não cair nessa: se gosto de alguém, falo, expresso. Não há mal nenhum em dizer para um amigo que valorizamos a sua amizade, o mundo não acaba, os dentes não caem, o céu não muda de cor. Tenho pavor de pensar que um dia posso perder entes queridos sem nunca ter lhes falado o quanto foram importantes para mim. Isso deveria valer para todas as pessoas e não só em relação aos amigos, mas também aos pais, aos irmãos, aos namorados ou namoradas, aos professores. Ah, os professores! Esses mudaram minha vida. É bem verdade que tive professores horríveis também, preconceituosos, arbitrários, incompetentes, anti-éticos. Ainda conheço muitos que, com sua intolerância religiosa, tentavam convencer os seus alunos homossexuais de que eram pecadores e que deviam mudar, outros que comiam as alunas com os olhos, professores que eram verdadeiros ditadores em sala de aula com suas filosofias do medo. Falando assim, parece que só tive educadores terríveis, mas não. Justiça seja feita, a maioria deles eram excelentes, entretanto, como vivi muito em sala de aula, seja na escola, cursos, universidade, tive tempo suficiente para presenciar todo tipo de situação.

Acontece que, durante toda minha existência, convivi e convivo com muitas mulheres, caríssimos. Foi uma mulher que me amamentou, que me criou, foi uma mulher que fez minha infância mais feliz brincando comigo, foram em sua grande maioria mulheres que me educaram em sala de aula, foram minhas amigas mulheres que me ensinaram que não é feio chorar, que não é feio expressar meus sentimentos, que não é feio abraçar. As mulheres que passaram pela minha vida (tirando uma raríssima exceção) nunca me fizeram mal nenhum, nunca tentaram me prejudicar. Elas nunca me disseram para sentar como um menino, nunca me falaram que meu lugar era na cozinha, nunca tentaram me impedir de falar palavrão porque isso não é coisa de menino ou me proibiram de jogar futebol com a explicação de que este “não é esporte para menino”, nunca valorizaram minha bunda mais do que meu cérebro, nunca me impediram de trabalhar fora ou jamais disseram “tudo bem trabalhar fora, desde que isso não atrapalhe as tarefas domésticas”, nunca me aconselharam a não transar no primeiro encontro porque “homem que faz isso não é para casar”, nunca disseram que eu estava mal-humorado porque sou mal-amado, nunca justificaram meu nervosismo com TPM ou disseram que meu estresse era a falta de um pau, nunca me falaram que eu só serei completo se tiver filhos ou me chamaram de Zé Chuteira ou João Gasolina, nunca me disseram que os homens só querem casar com mulheres ricas e com bom carro ou apontaram que eu era bem inteligente para um homem, nunca disseram que saio de bermuda na rua só porque quero ser assediado ou pronunciaram a frase “homem no volante, perigo constante”, assim como também nunca disseram que a única coisa que um homem sabe pilotar é um fogão. Nunca.

Dói-me imensamente saber que todas as mulheres que conheço já ouviram essas coisas e uma infinidade mais. Sinto nojo do ser humano só de lembrar que minha irmã ainda nem havia entrado na adolescência quando os homens já começaram a olhar para ela. De pensar que logo cedo ela teve que controlar o tamanho de suas roupas para evitar o assédio por onde passasse. Sem contar que, mesmo vestindo roupas longas (nesse calor que faz o ano todo na cidade onde moro), ela ainda me pediu algumas vezes que a acompanhasse em alguns lugares para se sentir mais segura, já que com um homem do lado, os outros não iriam importuná-la. As mulheres não deveriam precisar de ninguém do lado para serem respeitadas. Lembro-me da aflição da minha mãe sempre que minha irmã saía sozinha. Certa vez, ela só permitiu que ela fosse ao shopping com as amigas se eu a acompanhasse. Eu fui, mas consciente de que isso não deveria ser assim. Eu não deveria precisar ir para que minha irmã se sentisse segura ou protegida. Ela só queria ir ao shopping tomar um sorvete com as amigas do colégio, porra! Que mundo é esse em que menininhas precisam tão cedo se defender dessa praga chamada Machismo? As mulheres desde muito cedo precisam conviver com o medo de andar na rua com roupa curta, de saírem à noite, de evitarem o falatório. Sinceramente, não quero que uma filha minha passe por isso um dia e ficaria muito feliz se minha mãe, minha irmã, minhas amigas, todas as mulheres do mundo não precisassem mais passar por isso.

Não quero que minha irmã (e todas as mulheres do mundo) seja xingada no trânsito, já que isso não faz sentido, pois a maioria esmagadora delas aprende a dirigir com homens. Eu mesmo quando tirei minha CNH, tive um instrutor homem (não havia nenhuma instrutora na auto escola). Não quero que minha mãe (e todas as mulheres do mundo) ganhe menos do que os homens para exercer a mesma função. Não quero que minhas primas (e todas as mulheres do mundo) sejam chamadas de lésbicas sempre que rejeitarem um cara na balada, até porque nenhuma mulher é lésbica só porque não está a fim de ficar com um cara, assim como a condição de ser lésbica não é algo ruim e não deve caracterizar um xingamento. Não quero que minhas amigas (e todas as mulheres do mundo) sejam agredidas por seus parceiros ou atacadas sexualmente. Se eu tiver uma filha algum dia, quero que ela (e todas as meninas do mundo) não seja ensinada como se comportar e se vestir adequadamente. Ela (e todas as mulheres do mundo) tem que portar-se como quiser, praticar o esporte que quiser, trajar-se como bem entender, exercer a profissão que quiser, ter o direito de falar palavrão se quiser, abortar se quiser, transar no primeiro encontro se quiser, frequentar o lugar que quiser.

Misoginia significa, literalmente, ódio às mulheres – não tem nada a ver com questões sexuais – e pode ou não abarcar manifestações de violência física, mas inclui sempre ataques verbais. Homens que odeiam as mulheres existem e não há como negar isso. Enquanto ditam e impõem valores e comportamentos às mulheres, esquecem que o mais adequado seria ensinar nós homens a respeitá-las. No entanto, jamais pretendo subir em um palanque para defender o feminismo, pois o tablado é delas, a linha de frente é delas, numa luta delas, constituindo um direito delas falarem e serem ouvidas. Nós homens não sabemos o que é ser mulher e nunca vamos saber, por isso, não podemos tomar seu lugar de fala. Nosso papel é sim fazer coro aos seus gritos. Elas já tiveram uma série de vitórias ao longo dos anos, mas, parafraseando Pitty, “quase não é chegar lá”. Elas estão muito longe ainda de possuírem os mesmos direitos e representação social. Por isso é tão necessário abraçar a causa do feminismo, um legítimo movimento que reivindica igualdade de gênero. Dessa forma, desejo imensamente que um dia possamos realmente vivermos em pé de igualdade, nós homens e todas as mulheres do mundo.

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20 Comentários

  1. Dani

     /  1 de março de 2016

    Sem palavras com esse texto, me arrepiei do inicio ao fim. Traduziu perfeitamente os sentimentos e os pavores que nós mulheres sentimos, simplesmente no ato de sair à rua. Eu fico tão triste quando isso acontece, sinceramente não entra na minha cabeça como um outro ser humano possa ter prazer em fazer o outro sofrer (pois os homens sabem que isso nos incomoda e suas ofensas machucam), mesmo assim continuam a fazer. Muitas vezes fico sem reação, não tenho orgulho de admitir os sentimentos de raiva, ódio e indignação ao ouvir um fiu-fiu, ou quando estou em uma festa dançando um homem tenta me agarrar, ou encosta em mim sem minha permição. Quando isso acontece também desperta o pior de mim, será que é tão difícil o RESPEITO ao outro, ao SER HUMANO? É pedir muito?
    Parabéns pelo texto, adorei! E que se tenha mais pessoas com consciência humana e menos apegadas a rótulos.

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    • Também fiquei sem palavras com seu depoimento. Obrigado pelo comentário. Saiba que não é muito pedir respeito, na verdade é mínimo que se pode exigir. Forte abraço.

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  2. Dani

     /  1 de março de 2016

    https://www.youtube.com/watch?v=zouGO_xVWJg, esse vídeo também é mais um reforço ao seu belíssimo texto, ele se chama “Querido papai”.

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  3. Barbara Reccanello

     /  1 de março de 2016

    Lindo texto!

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  4. Perfeição! Isso define o seu texto! Direito de livre arbítrio, de ir e vir, de ser humano, de igualdade, as mulheres não querem ser mais que os homens, elas querem a igualdade de direitos sem serem privadas dos seus gostos para ser exemplo bom e sem serem taxadas por conta das escolhas! Somos todos seres humanos, gênero é uma taxação, os direitos são os mesmos!

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    • Isso mesmo Adriane, concordo com você, as mulheres não querem ser mais do que os homens, elas não pedem por privilégios, muito pelo contrário, a luta é por direitos iguais. Privilégios temos nós homens, com cargos mais importantes e salários mais altos. Tá tudo errado! Não precisa tratar uma mulher mal para ser machista, fazer uso desses privilégios para tirar vantagem é também fortalecer o machismo. Obrigado pelo comentário. Abraço.

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  5. Excelente conteúdo (com o qual concordo inteiramente – apesar dos avanços, as mulheres ainda são vítimas de preconceitos), transmitido de forma precisa e elegante. Li também outros posts e fica evidente que voce consistentemente escreve muito bem. Parabéns!

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  6. Parabéns pelo texto! Assim como a Dani estou sem palavras para ele. Você conseguiu traduzir perfeitamente o sentimento feminino e todo o contexto machista que estamos inseridos e isso é muito triste. Saber que ainda vivemos em um mundo que as mulheres não são respeitadas e muitas vezes não sabemos se somos educadas ou não, porque sabemos que aquele homem no fundo esta te olhando com outros olhos, olhos que só veêm sexo ou desrespeito por nós mulheres. E que bom saber que existem pessoas do sexo masculino que amam as mulheres e as valorizam e conhecem seu verdadeiro valor.

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    • Mais importante do que o texto é o depoimento de vocês mulheres para fortalecer a tese de que estamos sim ainda muito longe de uma sociedade ideal, com igualdade de gêneros e representação social para todos. Obrigado pelo comentário. Abraço

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  7. Ótimo texto! Fiquei encantada com a maneira com que você escreveu, muito verdadeiro, uma pena que nem todos ainda tenham essa visão. Mais uma vez parabéns pelo texto e pelo blog no geral, já te acompanho tem um tempinho! Abraços

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  8. Muito bom !

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  9. Mundo B

     /  11 de março de 2016

    Parabéns pelo lindo texto e principalmente pelo dom, porque você consegue expressar seus sentimos em palavras!

    Beijos <3

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  10. Lido num só fôlego. Texto excelente. Temática e desenvolvimento de qualidade. Bacana.

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  11. Marusia

     /  5 de junho de 2016

    Jaírlos, ouso dizer que, com esse texto, você “chegou lá”. Desejo que muita gente possa lê-lo e ter inspiração em cada palavra. O caminho pela frente é imenso, mas… continuemos semeando.
    Abraços!!

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