amizades perecíveis

Algumas amizades possuem um prazo de validade e não há nada que você possa fazer para mudar isso. Se não há uma briga, não é possível saber quando elas vão perecer, diferentemente dos produtos de supermercado que indicam no rótulo a data do seu vencimento. O “para sempre” nem sempre é para sempre e o fim de uma amizade é algo tão natural quanto respirar – aprendi isso com a vida.

Conheço muitas pessoas, meu ciclo social é até grande para alguém que não gosta tanto assim de sair para socializar. Todavia, meus melhores amigos mesmo se resumem a poucos e faço questão que essa curta cifra continue, mesmo não me privando de novas amizades, nem fugindo de qualquer uma quando vejo que está começando. Tenho pouco tempo livre e meus amigos também. Não convivemos tanto quanto gostaríamos, mas estamos sempre nos esforçando para estarmos fisicamente juntos, comungando de uma conversa frente a frente.

Sendo alguém que não gosta de sair e detentor de tão pouco tempo livre, acabei por ser amigo de pessoas igualmente ou mais ocupadas que eu, culminando no tipo de amizade que mais me agrada: não precisamos nos falar diariamente, nem nos ver com muita frequência, mas, quando nos encontramos, é como se nada houvesse mudado. Funciona como se cada novo encontro fosse uma continuação exata do anterior. Podemos até passar muito tempo sem contato, muito tempo mesmo. Com alguns amigos eu já fiquei por quase um ano sem notícia, não que isso nos agrade, não foi intencional. Hoje evito ao máximo que esse tipo de coisa aconteça. No entanto, sou completamente consciente de que algum dia uma delas ou até mesmo todas podem acabar.

Contudo, é mais difícil começar uma amizade comigo do que eu acabar com uma. Sou muito exigente e seletivo quando o assunto é amizade. Não gosto de pessoas que me sufoquem, que me façam perder tempo com seus atrasos ou que não tenham nada a me acrescentar. Não significa que o meu tempo é mais importante do que o das outras pessoas, mas interessam-me boas conversas, cabeças realmente pensantes. Gosto de sair com quem é mais inteligente do que eu. Se vou deixar meus livros em casa para sair com uma pessoa, é porque sei que não terei meu tempo desperdiçado. O amor por cinema e literatura é a semelhança mais preciosa que posso ter com alguém. Só me interessa ser amigo de “pessoas-livro”, que são aqueles que gostam de ler e têm uma conversa tão interessante que vale por uma leitura. Amizade tem que ser algo útil para os dois. No que sou proveitoso para os meus amigos só eles podem responder.

Meu melhor amigo na infância não é o meu melhor amigo hoje. Minha melhor amiga no ensino médio também não é minha melhor amiga hoje. Se brigamos? Não. Se deixamos de nos falar? Também não. É complicado tentar formular uma explicação, mas talvez a mais sensata seja dizer que perdemos o interesse de um pelo outro. Não foi algo repentino. Esse processo de desinteresse mútuo se arrastou por anos. Acho muito natural, ainda mais quando é o caso desses amigos que citei. Crescemos, não gostamos mais do que gostávamos antes (ainda bem) e, com o passar do tempo, partilhamos cada vez menos coisas em comum. O carinho ainda existe, sempre vai existir, mas é quase como se eu não os reconhecesse mais, afinal, eles mudaram. Também sou consciente de que, quando eles me encontram, devem pensar que aquele amigo que eles conheceram no passado não existe mais, já que eu também mudei. Todas as pessoas mudam (ou deveriam). Não me interessa nem um pouco ser amigo de alguém que permanecerá eternamente igual.

Amizades sinceras são algo muito raro, sendo preciso zelar, reconhecer o seu valor. Ademais, é fundamental também identificar quando uma está congelada. Se duas pessoas não se interessam mais uma pela outra, não há nada que possa ser feito. O que não significa que esse desinteresse não possa descongelar em algum momento futuro e o laço da amizade esquentar novamente, o que até é comum, mas muitas vezes não passa de um fogo-fátuo. Quando apenas uma das pessoas se desinteressa pela amizade, o que é mais frequente (e mais doloroso), também não há muito que se fazer sem a colaboração do outro. Tem que ser algo recíproco; alguém sozinho não consegue manter uma amizade por duas pessoas. Quando uma se perde, é preciso ser forte e deixá-la ir. É chegada a hora de se voltar para o amor próprio e seguir em frente.

Falando assim, até parece algo simples, mas é muito mais complexo que isso. Reconhecer o momento certo é o processo mais crítico. Mesmo quando temos certeza de que não existem mais garantias de melhoria, insistimos em nos agarrar a pseudo-esperanças. Seguir acreditando em algo que não vai acontecer é muito mais difícil do que aceitar a realidade e tentar superá-la.

Esse negócio de que uma parte de você está indo embora é uma bobagem altamente propagada. Que parte sua está indo embora? Haverá um vazio, mas em qualquer relacionamento o que se constrói são momentos que resultam em lembranças. Mesmo que a amizade acabe, você continuará detentor de suas recordações, assim como a pessoa que partiu continuará detentora das dela. São essas boas memórias em comum que devem ser guardadas, constituindo o saldo positivo que vai evitar transformar os dois em completos estranhos. Porém, não dá para viver de passado. É preciso continuar seguindo ciente de que estamos sempre mudando de fases. Não há nada mais natural que, em cada nova fase, outras pessoas comecem a fazer parte da sua vida ao mesmo tempo em que algumas saem de cena. De forma premeditada ou não, nós mesmos sairemos das vidas de muitas pessoas com o passar dos anos. As amizades de ontem não serão substituídas, mas novas sempre vão surgir amanhã. No entanto, os amigos atuais precisam ser aproveitados hoje.

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15 Comentários

  1. Se a gente aprendesse isso mas cedo na vida, evitaríamos alguns dissabores, né? Eu, mesmo sendo tão desligada, jpa sofri muito com essas pessoas que a vida se encarrega de levar. Sempre questionava o motivo de algumas pessoas não ficarem pra mim. Até que percebi que eu também não fico pra muita gente. Como vc dissse, não é intencional, mas sempre acontece e não pra julgar o lado de lá, quando do lado de cá não é muito diferente. Muito bom texto! Abraços!

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    • Obrigado! Concordo com você que evitaríamos muitos dissabores se aprendêssemos isso mais cedo. Mas a vida é isso mesmo, um constante aprendizado. Infelizmente (ou felizmente) não nascemos prontos. Abraço.

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  2. Uma palavra, um sentimento que se tem tratado com banalidade. E, depois que surgiram as redes sociais…
    Amizade, colega, conhecido…
    Família, parente…
    Amor, paixão…

    Curtido por 2 pessoas

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  3. Gostei muito do texto :)
    A vida é assim mesmo, feita de muitos caminhos, descaminhos, rotatórias, vias de mão única e algumas, poucas, de mão dupla…
    Eu sou de amizade “mais fácil”, me dou mais facilmente e na maioria das vezes acaba por ser uma relação de um pólo só. Aprendi com o tempo que também pode ser assim, mesmo com aqueles com quem aprendemos pouco, afinal estes também precisam aprender algo.
    No final, fazemos um cálculo de tudo que se investiu e não necessariamente, tem que haver um saldo positivo.
    Gostei muito, assim como você, de estar com “cabeças pensantes” ou como diz meu amigo Ézio, as vezes tenho saudades de “vida inteligente”, mas me policio bastante para que isso não me faça arrogante e que eu entenda valer mais do que aquilo que valho. :)
    Gostei do conceito de amizade finita…é assim mesmo…todas tem prazo de duração e concordo quando diz que não precisam é ser esquecidas.
    Abraço
    Raudi

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    • Obrigado pelo comentário, Raudi. Muito interessante sua visão sobre amizade. É sempre muito bom ter pontos de vista diferentes. Enriquece o debate. Abraço

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  4. rodrigoserrao

     /  23 de fevereiro de 2016

    Que texto lindo. Amizades fazem parte do desenvolvimento das pessoas, e elas representam o momento que a pessoa está vivendo, e se elas ainda podem representar e fazer coisas boas por muito tempo elas provavelmente serão inesquecíveis! Hei te indiquei pra uma tag: https://umdropsliterario.wordpress.com/2016/02/23/duas-tags-em-um-post/

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  5. O texto é um aviso. Todos podemos cair nas armadilhas denunciadas nele. Grato.

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  6. Ótimo post !

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  7. Muito interessante o texto. Hei de concorda com muitas coisas. Algumas pessoas, talvez, tenham apenas missão passageira nas vidas para a ajuda da formação individual. Acredito que seja na interação com o outro que surja o “EU”, logo ser-nos-ia mais fácil viver o “eterno enquanto dure” ou o “para sempre agora”. O problema surge quando essas pessoas se tornam parte tão grande de você e passa a viver essenciabilidade. É difícil ver amores jurados serem, simplesmente, esquecidos. Enfim, Parabéns. Adorei a leitura.

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  8. Oi Jaírlos, tudo bem? Adorei o seu blog!
    Estou dando uma lida nos posts e tenho gostado bastente deles, muito inteligentes.
    Eu percebi que você pensa parecido comigo, principalmente pela a parte de não gostar muito de socializar e de sempre buscar pessoas que estimulam seu intelecto, que queiram ter conversas tipo papo cabeça. Bom, sou penso assim também, mas é muito difícil achar alguém que tenha em comum conosco, que queira isso também.
    Vi por esse post que você parece ser o tipo de pessoa que leva seus relacionamentos a sério e também me identifiquei com isso.
    Gostei muito da sua escrita, parabéns!
    Abraços.

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    • Muito obrigado pelas palavras. Fico feliz de saber que você também valoriza seus relacionamentos, mas infelizmente tenho que concordar com você: é muito difícil encontrar pessoas assim. No entanto, durante a vida elas vão surgindo aos poucos. É preciso saber reconhecê-las. Sinta-se a vontade para voltar quando quiser. Forte abraço!

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