saindo do livro/filme

Sabe quando você lê várias páginas de um livro e depois se dá conta de que não entendeu nada? Isso geralmente acontece, pelo menos comigo, quando se está com a mente muito cheia. Não importa se são pensamentos bons ou ruins, o fluxo excessivo deles me atira fora do livro. Por esse motivo, tento esvaziar ao máximo a mente antes de ler, algo que não é fácil, sobretudo para quem, como eu, lê todos os dias. Diferentemente de quem o faz esporadicamente e retira um bom momento para isso, geralmente um dia de folga, eu leio sempre que tenho um tempinho livre menor que duas horas (porque se esse tempo for maior ou igual a duas horas, eu prefiro ver um filme).

Sendo detentor de uma crise existencial crônica que me faz sofrer por saber que tenho cada vez menos tempo para ler e assistir ao que quero, não posso me dar ao luxo de passar por várias páginas sem entender nada e ter que voltar a leitura. Então se estou triste, ou acabo de realizar um grande feito que me cause muita euforia, eu sei que não posso pegar nos livros. Não adianta, não consigo.

No entanto, ler todos os dias de alguma forma me ajudou a combater isso. Afinal, como se não bastasse a rotina pesada, estamos sempre lidando com problemas, imprevistos, aborrecimentos e todo tipo de mazelas que nos são reservadas sempre que levantamos da cama toda manhã. Entretanto, consigo manter minhas leituras diárias e poucas vezes ela é comprometida pelos acontecimentos que vivencio.

Lembro-me de uma ocasião em que eu estava doente. Não rememoro exatamente o que eu tinha, mas nesse determinado dia eu estava sofrendo com enjoos. Para me distrair, adivinha o que eu fui fazer? Isso mesmo, ler! Ler quando se está doente não é uma boa ideia. Por que diabos eu fui inventar de fazer isso? Se você Leitor, está pensando que deu merda, acertou novamente. Eu não vomitei no livro, que fique bem claro, mas depois que fiquei curado, toda vez em que eu o pegava para ler, eu me sentia enjoado. Claro que isso foi um dano psicológico que me fez assimilar aquele livro ao momento ruim que tive. Essa nossa mente nos prega peças que a gente nem imagina que ela é capaz, a minha então, vive testando minha paciência. O que posso dizer é que concluir o livro foi um processo bastante difícil. Ademais, se tem uma coisa que eu aprendi é nunca mais ler estando doente. O livro merece o meu melhor, minha máxima dedicação. Se não posso oferecer isso a ele, eu que encontre outra forma de lazer.

Contudo, essas linhas nasceram porque não tive um bom dia. Com a mente atolada em pensamentos ruins, fui ver um filme. Tenho tentado cumprir minha meta cinematográfica à risca. Não adianta marcar os filmes como “quero ver” no meu perfil no Filmow que isso não vai fazer que eles sejam assistidos. É preciso meter a cara e vê-los de fato, mas vocês sabem que tudo o que falei até aqui sobre os livros também pode se aplicar aos filmes. Como entrar em um filme talvez seja o processo mais importante de uma experiência cinéfila, é preciso estar bem ao assistí-lo. Se você está cansado, sonolento, com fome, com sede, irritado, com muito calor, com vontade de ir ao banheiro, numa cadeira desconfortável, numa sala barulhenta, tudo isso pode (e vai) influenciar negativamente na sua experiência fílmica. Muitas vezes, se não gostamos de um filme, a culpa é nossa ou das condições em que nos encontramos. Cabe a nós reconhecer isso e assisti-lo novamente para ver se é mesmo ruim como havíamos julgado.

Há todo um ritual antes de começar a ver o filme, de fato. É preciso se preparar, estar bem, confortável, alimentado. É preciso ir ao banheiro antes de iniciar a projeção. Se você vai ao cinema então o ritual é ainda maior. Escolher uma roupa confortável para suportar o frio do ar-condicionado, levar sua garrafa com água e talvez o mais importante: chegar cedo. Entrar na sala de projeção depois que o filme começou devia ser crime com pena de morte. É ruim para quem chega atrasado, pois deve ter corrido, está suado, irritado porque perdeu o início, e ruim para quem cumpriu corretamente todo o ritual e chegou cedo, pois vai ter a atenção roubada pelo filho da puta que vai passar na sua frente procurando uma cadeira para sentar. Infelizmente, para muitas pessoas, cinema é apenas um motivo para sair de casa, comer pipoca e beber um litro de refrigerante. Em vista disso, não frequento mais cinema de shopping e, mesmo assim, ainda passo por infortúnios, embora numa escala muito menor.

No início de janeiro desse ano fui ver um filme no cinema. Cheguei bem cedo e a bilheteria demorou muito para abrir. Quando abriu, já estava quase na hora do filme iniciar, o que fez com que a sessão atrasasse. Já na sala de projeção, sentado, o lanterninha entra e nos avisa que houve um problema com a cópia do filme, informando que todos ali poderiam receber o dinheiro de volta e, quem quisesse, poderia continuar na sala para a exibição de outro filme. Como eu já tinha saído de casa e não queria voltar sem ter feito nada, decidi por ver o outro. Pois bem, quando já devia ter passado uns trinta minutos desde o início da sessão, a projeção foi interrompida por um problema técnico, que deve ter demorado em torno de cinco a dez minutos para voltar (não tenho noção exata do tempo que demorou). Até aquele momento, já havia acontecido de tudo que atrapalhasse minha experiência com o filme. A sessão começou atrasada e não era o filme que eu queria ver (qual não foi a minha frustração por sair de casa para ver um filme a acabar vendo outro). Todos esses problemas deveriam ter prejudicado minha imersão, mas não. Estava tão determinado a ver o filme que consegui imergir nele mesmo depois de todos os ocorridos. Quando a projeção foi interrompida e eu “saí do filme”, achei que não conseguiria voltar para ele, o que acredito que aconteceu com as outras poucas pessoas que estavam na sala, já que, depois do ocorrido, elas se mostraram muito dispersas e irrequietas. É como uma viagem que foi interrompida porque o carro quebrou ou uma leitura em que você está completamente absorto, mas tem que imergir para o mundo real porque sua mãe te pediu para ir comprar pão. No mais, quando o problema foi resolvido e o filme voltou a ser projetado, inexplicavelmente eu consegui voltar para ele e imergir novamente. Quando acabou, eu havia visto um dos meus filmes favoritos, mas certamente não gostaria de passar por tudo aquilo novamente. Foi a única vez em que tal coisa aconteceu comigo e, para que se mantenha especial, espero que não aconteça de novo.

Sair do filme é tão comum quanto sair de uma leitura. É preciso dizer também que nem sempre é nossa culpa. Se ficarmos conversando, acessando alguma coisa pelo celular ou até mesmo comendo durante uma projeção, claro que a culpa é nossa. Entretanto, por mais concentrado que o espectador esteja, sempre corre o risco de ser distraído pelos pensamentos involuntários. Isso acontece até mesmo quando estou escrevendo. Muitas vezes já sonhei acordado diante da tela do computador e só depois de alguns minutos é que me dei conta de que estava escrevendo e que precisava concluir o texto. Dessa maneira, tento não ver muitos filmes na TV aberta. Arrisco afirmar que me considero um cinéfilo profissional, sabendo depositar muita concentração ao filme que está sendo exibido na minha frente, mas confesso já ter sido atacado por pensamentos involuntários diante de um filme da TV. Na ocasião, lembro-me de ter pegado o controle do DVD achando que podia voltar a cena, descobrindo então que tal ação não era possível. Sou consciente de que perder dois segundos de filme pode ser o suficiente para causar um grande estrago de interpretação.

Como lhes confidenciei acima, não tive um dia tão bom e estava agora a pouco vendo um filme, quando me dei conta de que haviam se passado quatro minutos e eu não havia entendido nada. Era como se eu tivesse me ausentado completamente nos últimos quatro minutos de projeção. Tive que voltar e mais uma vez saí do filme. Há uma semana, mais ou menos, comecei a escrever num diário coisas que me acontecem (geralmente coisas ruins). Nesse processo, descobri o quanto fico mais leve depois de jogar meus problemas no papel. É quase como se eles ficassem dentro do caderno. Já havia lido bastante que escrever sobre experiências traumáticas pode ajudar a superá-las. Não que eu tenha tido experiências traumáticas, mas tenho usado a mesma filosofia para problemas pequenos e tem dado certo. Assim sendo, resolvi escrever para conseguir voltar aos meus afazeres, entre eles terminar o filme. Como o texto ficaria muito grande para uma página diária no caderno e como eu também não queria ter de escrever tudo isso à mão, resolvi publicar aqui mesmo. Se isso vai resolver o problema, eu não sei, mas valeu a tentativa. De toda forma, estou indo lá (tentar) concluir o filme. Ficar escrevendo sobre ele também não vai fazer com que ele se assista sozinho. Até a próxima, abraçaço.

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5 Comentários

  1. Venho acompanhando e gosto muito do seu trabalho, por isso te indiquei ao prêmios Dardo https://enamoradoblog.wordpress.com/2016/02/20/premio-dardos/

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  2. Olá, eu já comecei leituras e não cheguei ao final delas, faço até listas desses livros, como tinha outros livros que eu tinha que voltar atrás muitas vezes como Agatha Christie, era uma chatice, não os livros, mas o ter que voltar atrás, mas ultimamente venho lendo bastante, recomecei em dezembro e venho me concentrando mais na leitura e chegando ao final em todos eles. Há muitos anos atrás assisti um filme que todo mundo falava muito bem dele, o filme me deu sono, e quando eu cheguei ao final fiquei me perguntando o que as pessoas viram nele para elogiá-lo, porque eu odiei. Hoje em dia tem Netflix e outros lugares pra se assistir bons filmes, não vou a cinema desde 30/01/2010, sei porque marquei a data, o cinema não me atrai mais. Abraços.

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    • Quanto mais lemos, mais profissional ficamos nesse exercício que exige tanta concentração. Parabéns por não ter desistido dos livros e ter conseguido se encontrar com a leitura. Obrigado pelo comentário. Abraço

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  3. Com leitura tem de tudo, né? Ler um texto acadêmico ou de trabalho me demanda 3x mais concentração e disciplina que ler uma boa literatura na rede. já uma literatura ruim vai me dispersar mais que um bom texto acadêmico. Mas olha, sigo contigo em um ponto.. se insistir a gente pega o ritmo. ;)

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