cinefolia

Primeiramente, me perdoem o neologismo infame do título. Acredito que ninguém deve estar lendo esse post, afinal é carnaval. Devem estar todos bêbados. Assim sendo, resolvi publicar esse texto fora de época (não esqueça que na esmagadora maioria das vezes, só escrevo aqui nas segundas-feiras). Por consequência, posso confessar sem medo: eu adoro esse feriado! Afinal, ele me proporciona uma grande folga do mundo. E o que eu faço? Bebo até cair, claro! Mentira. Fico em casa fazendo o que mais gosto. Esse ano não vai ser diferente. Ficarei trancado no meu quarto, feliz da vida assistindo a filmes e lendo. Nesses dias de folia, só o cinema e a literatura me completam.

Na verdade, nunca comemorei o carnaval, pois nunca o entendi. Nunca me senti parte dele. Tenho certo que neste período as pessoas celebram a vida, a alegria, mas eu só festejo a alegria quando tenho motivo. Não deixa de ser verdade que estou sempre feliz no carnaval. É um feriado longo. Isso me deixa muito feliz. Acredito até que, de certa forma, comemoro também, só que do meu jeito, deixando a rotina frenética do dia a dia um pouco de lado.

Ainda assim, me intriga essa alegria sem motivo que surge do nada. Não entendo como o Brasil repentinamente se transforma num país livre de problemas, onde ninguém parece enxergar o absurdo que é as prefeituras gastarem fortunas do dinheiro público para promoverem festas de carnaval em suas cidades. Sem contar os municípios que possuem festas de pré-carnaval, que acontecem praticamente depois da virada do ano (como é o caso da minha localidade). Todavia, se ninguém se importa com as festas multimilhonárias de ano novo, não é de se espantar que vão fechar os olhos para o carnaval, assim como vão ignorar a epidemia de vírus zika que estamos sofrendo e que vai desaparecer dos noticiários durante o feriado. A festa com certeza merece mais destaque do que a epidemia, assim como a Copa das Confederações de 2013 mereceu mais destaque que as manifestações de junho do mesmo ano e assim como a conquista da Copa do Mundo de 1970 foi o suficiente para muita gente esquecer que vivia em um regime militar. Sou brasileiro, amo o Brasil, entendo a importância dessas festas populares, mas não me conformo que o governo e a grande mídia as usem como uma estratégia para manter a massa ocupada. Até hoje o circo sempre falou mais alto que o pão.

Porém, voltando às minhas experiências carnavalescas, sinto dizer que de todos esses anos a única lembrança diferente que tenho do carnaval foi uma saída que fiz com meus amigos de ensino médio. Fomos à praia e depois comer algo que eu não lembro mais o que era. Em todos os outros anos fiquei em casa. Geralmente costuma chover na minha cidade na época do carnaval. Entra ano, sai ano e, todas as lembranças que tenho do carnaval são da minha rua toda molhada. Céu fechado e chuva, inclusive nessa saída com os amigos. Nsse ano, espero que chova de novo. Djavan tem razão: dias frios são bons para se ler. Além do mais, todo ano é a mesma coisa: as pessoas vão beber, dançar, beber, encontrar o amor de suas vidas ou trair o amor de suas vidas, beber, viajar, entre outras coisas semelhantes, todas ao som de músicas que objetificam a mulher ou exaltam carro e bebida, além das que não falam sobre nada, abarrotadas de onomatopeias sem sentido claro.

Quando criança, eu tinha medo do carnaval. Sempre existiam (e ainda existem) as pessoas que passavam do ponto. Que bebiam todas, excedendo o limite. Que brigavam ou morriam. Na infância, o pai de um amigo meu faleceu em decorrência de uma confusão no último dia do carnaval. Sem contar os muitos amigos que se acidentaram nessa data em anos diferentes. Não é a toa que este é o feriado em que mais pessoas morrem no trânsito. Também não me agrada nem um pouco sair na rua para ver os homofóbicos e transfóbicos que passam o ano todo destilando o seu preconceito, vestidos de mulher, assim como não gosto da programação da TV aberta. Se existe um conselho que posso dar nesta época, é esse: não liguem a televisão, esse veículo de comunicação maravilhoso que, em prol da tradicional família brasileira, continua reforçando o tabu de um simples beijo entre pessoas do mesmo sexo ao mesmo tempo em que aceita exibir mulheres seminuas (algumas vezes nuas mesmo), objetificando-as cada vez mais.

Ademais, toda essa discussão começou porque eu estava lembrando um dos meus filmes favoritos (essa lista de filmes favoritos é extensa), que se passa justamente no carnaval: ‘Orfeu Negro’ (1959), do diretor Marcel Camus, baseado na peça teatral ‘Orfeu da Conceição’, de Vinicius de Moraes. Trata-se de uma produção brasileira, falada em português, que ganhou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 1960. Contudo, como o diretor era francês, o Oscar foi para o seu país de origem, o que é um absurdo. Foi com ele na cabeça que lembrei a refilmagem que Cacá Diegues fez em 1999, intitulado ‘Orfeu’. Embora Diegues diga que não é um remake do filme original, não deixa de ser uma refilmagem da peça de Vinicius (o blogue 1001 Livros Brasileiros Para Ler Antes de Morrer fez uma resenha sobre a peça). Vendo por esse lado, o filme de 1999 ficou muito aquém da primeira versão, que é um verdadeiro clássico do cinema brasileiro de todos os tempos.

Por que diabos essa mania de refilmar os clássicos? Parece-me que a única função das refilmagens é para que falemos que o original é melhor. Tudo bem, antes mesmo que vocês venham me mostrar refilmagens melhores que as originais (reconheço que elas existem, afinal, eu mesmo gosto de algumas), é preciso concordar também que a grande maioria delas é ruim (ou menos melhor, se preferirem). Esse é o único caso em que a comparação dos filmes pode de fato apontar um melhor (e, mesmo assim, pode haver discordâncias), já que, embora sejam filmes realizados em datas diferentes, por diferentes profissionais, ainda assim contam a mesma história. Nos festivais de cinema, em que vários filmes competem entre si pelo prêmio de melhor filme, a escolha do melhor é sempre muito subjetiva. Eu posso concordar ou não com a escolha do vencedor, assim como o próprio júri pode divergir sobre quem deve ganhar. Numa maratona, quem chega primeiro vence porque foi mais o rápido, assim como numa partida de basquete vence a equipe que marcar mais pontos. Mas e no cinema? Como comparar filmes tão diferentes e ainda assim dizer que um é melhor do que o outro? Por esse motivo, tenho prestigiado muito mais as mostras de cinemas do que os festivais. As mostras são como um amistoso de futebol que não vale nenhum título, mas ainda assim as pessoas vão para prestigiar o espetáculo. Os festivais são um campeonato oficial, em que a rivalidade impera. Nesse caso vale tudo, inclusive falar mal do filme dos outros em prol do seu favorito. Mas eu estava falando das refilmagens. Continuando:

Deixem os clássicos em paz! Se são clássicos, é porque já são bons, não precisa mexer. É muito melhor que os novos diretores façam seus próprios clássicos. Já imaginou uma refilmagem de ‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’? Não gosto nem de pensar. E uma refilmagem de ‘Cidade de Deus’? Ou uma de ‘Central do Brasil’ com outra atriz no lugar de Fernanda Montenegro no papel de Dora? Felizmente, no nosso país são poucos os casos de refilmagens. Acho ótimo, espero que continue assim. Não é porque os gringos precisam revirar constantemente seu próprio acervo por falta de boas histórias que devemos fazer o mesmo. O público agradece.

Se você chegou até aqui, caríssimo Leitor, você muito provavelmente comemora o carnaval às avessas, assim como eu. Mas saiba que não vou roubar mais seu tempo. Voltarei para os meus filmes. Bom carnaval para quem é de carnaval! E não esqueça: se beber, não dirija e use sempre camisinha. Ah, e se você for homem, respeite as mulheres, nada de beijo forçado. Não é não. Até a próxima, abraçaço

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7 Comentários

  1. Concordo plenamente, nestes dias sabe bem ficar em casa a retomar leituras, começar novas leituras, ver os filmes que estão sempre em lista, escrever e tudo mais. O Entrudo é mais um feriado hipócrita, vendo o rumo que o resto da cristandade toma até à Páscoa. Quanto a mexerm com os clássicos, é como mexer no passado… dá asneira ahah

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  2. Estou lendo, estou sóbria e não me interessa se é carnaval . Tenha um lindo anoitecer !

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  3. rodrigoserrao

     /  14 de fevereiro de 2016

    Nosso Carnaval foi exatamente igual! uehueheh e ainda choveu muito aqui na minha cidade, perfeito para ficar lendo e assistindo séries e filmes! Por mais feriados assim, esse é o único motivo para eu gostar do Carnaval! XD

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  4. Bruno Bucis

     /  14 de fevereiro de 2016

    Adoro sua escrita, você consegue ser ao mesmo tempo ter um texto ácido e divertido. A visita aqui é sempre um prazer, tanto indiquei seu blog para o Prêmio Dardos. Dá uma conferida depois https://atoboga.wordpress.com/2016/02/14/nota-do-autor-premio-dardos/
    Abraços

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