escrever é reescrever

Em entrevista para o projeto Fronteiras do Pensamento, o saudoso Moacyr Scliar contou que era a exaustão que lhe fazia saber quando o livro estava pronto para ser publicado. Disse também que, para ele e para a maioria dos escritores, escrever é reescrever. Nesta perspectiva, não haveria limites para o número de vezes em que um texto pudesse ser reescrito, com seu potencial de aperfeiçoamento sendo absolutamente infinito. Mesmo que a exaustão, o editor ou até mesmo um prazo coloque fim a escrita do livro que será publicado, para Moacyr não haveria texto que não pudesse ser melhorado.

No vídeo, Moacyr usa o jornal como exemplo de escrita urgente, já que ele exige uma entrega mais rápida. Neste caso, os desapontamentos costumam ser maiores. Embora ele tenha citado o suporte periódico, tal situação pode sim acontecer com os blogues. A grande maioria dos blogueiros possui um dia certo ou mais para publicar os seus textos. No caso do Satãnatório, eu tento publicar toda segunda-feira, o que nem sempre é possível. Com o corre-corre da semana, costumeiramente sento para escrever quando já estou quase perdendo o prazo. Essa urgência me faz constantemente me arrepender de certos escritos, principalmente quando deixo passar algum erro de revisão. Tenho de confessar que já cheguei a corrigir e até mesmo mudar frases depois de já ter publicado por achar que ficaria melhor. Sendo assim, quando publico algo, tento não ler mais o que escrevi. Caso eu não finja que aquele texto está morto, o fantasma da reescrita me persegue infinitamente. É crônico.

Como você Leitor pode ver, hoje não é segunda-feira, mas, como estou ausente há quase um mês, resolvi dar um sinal de fumaça. Estou vivo! Estive envolvido na produção de um curta-metragem onde assinei a assistência de direção. No cinema, a função do assistente de direção é fazer a ponte entre direção e produção. Seu trabalho deve estar sempre a serviço da realização do roteiro, da manutenção do cronograma e das melhores condições para o trabalho do diretor no set. Também é sua função realizar a análise técnica do roteiro, do plano e da programação diária de filmagens ou ordem do dia, além de supervisionar o recebimento e distribuição dos elementos requisitados na ordem do dia; coordenar e dinamizar as atividades, visando o cumprimento da programação estabelecida. Trata-se de uma ocupação bastante carregada, já que o assistente de direção começa a trabalhar desde a preparação da produção até o término das filmagens. Muitos dos textos publicados aqui entre outubro e novembro foram escritos quando eu já estava trabalhando na pré-produção, mas conforme as filmagens iam se aproximando, ficou impossível escrever.

As filmagens acabaram domingo (06/12), com uma externa realizada em um terminal rodoviário. Gosto muito de filmar em externas e é sempre curioso ver a reação das pessoas assistindo uma equipe de filmagem trabalhando. Realmente não entendo o encantamento que isso exerce, sobretudo nesse grupo formado por nenhum famoso. Certa vez, Fernando Meirelles comentou algo parecido no blogue-diário de seu filme ‘Ensaio Sobre a Cegueira’: “Não entendo muito o interesse das pessoas em assistir a filmagens. Filmagem é a coisa mais chata se você não está trabalhando. Talvez mais chato do que assistir a um dentista obturando. (Eu nunca liguei para minha dentista para pedir para ir vê-la fazer uma obturação)”.

O que importa é que deu tudo certo e as filmagens acabaram. Hoje, quarta-feira, é o primeiro dia livre que tenho depois que as filmagens foram concluídas, o que me faz ter a sensação de que hoje é sábado. Depois de tantos compromissos, de vários dias dormindo pouco mais de quatro horas, sinto como se tivesse todo o tempo do mundo e justamente por isso nem estou sabendo direito o que fazer com ele. Como segunda-feira ainda vai demorar um pouquinho e eu não queria ter que esperar até lá para voltar a escrever por aqui, resolvi explicar rapidamente o motivo do meu sumiço. Essa é uma escrita urgente, como comecei falando nos primeiros parágrafos, por isso sei que vai me gerar desapontamentos por não ter redigido algo mais elaborado depois de quase um mês parado. Mas a saudade em atualizar o blogue estava grande e, pensando por esse lado, pretendo pseudo-perdoar-me. Dezembro traz o início das férias, então não devo aparecer muito aqui nesses últimos dias de 2015, mas prometo publicar uma saideira antes da virada do ano. Para que não saiam com uma sensação de tempo perdido, deixo com vocês o vídeo do Moacyr Scliar de que eu estava falando. Até a próxima, abraçaço.

Moacyr Scliar – A Escrita Infinita

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8 Comentários

  1. Eu entendo perfeitamente essa “insegurança” que a gente tem de escrever um texto, achar que ficou bacana naquele momento e tempos depois ficar se culpando por conta da revisão. Independente do teor tratado, quando um escritor (amador ou não) se leva a sério (e é perfeccionista, o que não ajuda em nada), a cobrança maior vai ser sempre dele próprio. Quantas vezes, passados alguns meses, eu parei pra reler minhas antigas publicações e senti aquela “vergonha alheia”. Recentemente escrevi um post que fala exatamente sobre isso. Não que meu comentário esteja com o intuito de querer acessos, mas, se você quiser dar uma passadinha por lá, quando tiver tempo, para ver as minhas ideias, fique a vontade. PS: parabéns por todo seu esforço com o curta-metragem e sucesso na sua carreira.

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  2. Essa “infinitude” é ainda mais provocante quando o assunto é autopublicação, como num blog ou e-book. É você e aquela infinitude na sua frente, depois você de novo e aí você quase sai pedindo a opinião dos vizinhos, dos pais, dos amigos pra ver se a coisa fica menos solitária. Eu disse você? Não, essa sou bem eu.
    Como disse Marcelo, parabéns pelo curta. Faz-se trabalho pesado nas artes também, né!?

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  3. Eu tb sou assim. Eu escrevo, faço a correção, mas sempre acho que poderia ter escrito melhor. Por isso, tenho feito a correção em uma única vez e publico. Não volto a ler, se não a auto-correção será quase que infinita, pq tb há as influências de cada dia, do nosso amadurecimento, que contribuem para acharmos que sempre poderia ter sido melhor escrito.
    Abraços, O Miau do Leão

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  4. É, esse é o grande problema dos meus projetos maiores. Nunca estão bons o suficiente antes de chegar ao final (e eu nunca chego, porque sempre caio na besteira de reler). Por isso tomei a liberdade, com meus textos experimentais (únicos que coloco no meu blog), de não reler demais, até porque eles me dão uma ideia dos momentos (talvez essa seja a parte boa dessa “infinitude”, se você deixar como está, pode criar um mapa da sua mente naquele dia, pelas suas palavras).
    Sucesso, e parabéns pelo curta!

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    • Olá, Júlia. Assim como você eu também gosto de ver os textos antigos como um retrato daqueles momentos. As vezes são belos retratos, as vezes não. Só nos resta continuar escrevendo :) Abraço

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