sobre tempo e pessoas-livro

Se tem uma coisa que eu sempre vi e vejo nas redes sociais são as pessoas se dizendo entediadas. Sendo a internet um lugar de infinitas possibilidades, é cômico ver uma pessoa fazer uso dela para tornar público seu tédio quando seria muito mais produtivo usá-la para saná-lo. Faz tanto tempo que não sinto tédio que minhas últimas lembranças desse aborrecimento dizem respeito à mais tenra idade, quando meus dias eram longos, trancados dentro de casa sem o direito de brincar na rua com os outros garotos. Não há imaginação fértil que suprisse essa rotina. Uma hora ou outra o tédio se permitia vencer.

Hoje o tédio se tornou mesmo uma sensação alheia a mim. Como sempre tenho muita coisa para fazer e estou sempre inventando obrigações novas e como geralmente gosto das coisas que faço, acabo sofrendo é com a falta de tempo para concluir todos esses projetos. Sabe aquele tipo de pessoa que respira festas? Para quem final de semana é sinônimo de sair de casa? Que está sempre planejando a próxima saída? Então, eu não sou esse tipo de pessoa. Não que isso seja ruim. Como nunca fui assim, não posso fazer nenhum tipo de julgamento e mesmo se tivesse sido algum dia, acredito que não julgaria. Apenas sigo outro método que funciona melhor comigo. Meu negócio é ficar em casa. Se estudo ou trabalho a semana inteira, no final de semana meu objetivo de vida é ficar no meu quarto, na minha cama, com meus travesseiros, meus livros, meus filmes.

É difícil saber que tenho cada vez menos tempo para ler todos os livros que quero, ver todos os filmes que tenho vontade, viajar, ouvir música. O tempo passa rápido demais. O ano já entrou em contagem regressiva. Todos os dias quando acordo, não tenho mais o tempo que passou e, ao contrário de Renato Russo, mesmo sendo tão jovem, não tenho todo o tempo do mundo. Já falei aqui em outro texto o quanto odeio perder tempo me locomovendo. Talvez seja esse o maior motivo que me faça preferir ficar em casa conspirando contra o mundo e engordando o cérebro e a barriga. Onde cabe o tédio nisso tudo?

Enquanto o tédio é a falta de coisas interessantes para fazer, a procrastinação é o adiamento das coisas a serem feitas (interessantes ou não). Claro que você, Leitor, sabe disso. Mas quero dizer que procrastino pelo prazer de procrastinar. Porque não fazer nada também tem o seu lado bom. É claro que depois eu saio feito louco correndo contra o relógio e chegará o dia em que não terei mais tempo para correr atrás do tempo perdido.

Gosto de festas, principalmente da comida que encontro nelas. Ademais, se passo muito tempo em alguma, já fico com vontade de ir para casa. Não consigo ver muito sentido em passar a noite toda bebendo e dançando. Não dá nem para aproveitar a companhia dos amigos porque todo mundo fica logo bêbado mesmo. Isso pode ser maravilhoso para outras pessoas, mas orgasmos fílmicos e literários me deixam muito mais feliz. Então a verdade é que evito sair de casa sempre que posso. Tenho ótimas desculpas para não ir a algum evento e geralmente fico muito feliz quando desmarcam um passeio para que eu possa ficar no meu aconchego. Detesto ficar pensando no tempo que estou perdendo. Passei a só aceitar convites de saídas de quem considero o que chamo de “pessoa-livro”, que é aquela pessoa que gosta de ler e tem uma conversa tão interessante que vale por uma leitura. Só assim para não sentir remorso por ter saído de casa. É o tipo perfeito para namorar. É por isso que eu sempre digo: namore quem lê, quem te dá livros e quem te apresenta autores que você não conhecia.

Então as pessoas normais chegam para mim e falam: “nossa você tem que sair de casa, se divertir”. O que elas não sabem é que eu me divirto justamente ficando em casa. Passo a semana inteira saindo, vendo pessoas, encontrando os amigos (nem sempre nos lugares mais apropriados para conversar), mas sempre socializando. É no tempo livre (como o próprio nome diz) que eu escolho o que considero ser melhor para mim. Sei muito bem que a vida pulsa mais forte lá fora, e justamente por não banalizar minhas saídas, quando vou ao cinema, numa exposição, à praia, numa livraria, num restaurante, qualquer lugar que seja, essa saída é sempre tão mais divertida. Lembro que quando trabalhava em frente à praia e passava todos dias por lá, ela começou a não ter mais tanta graça.

Voltando aos livros: gostaria de ler mais rápido. Muitas pessoas me falam de livros que leram em um final de semana ou até mesmo em um dia. A única vez que li um em um dia foi com ‘A Hora da Estrela’ de Clarice Lispector e ele é bem curtinho, ou seja, não há mérito nenhum nisso. Também tem os roteiros de filmes publicados posteriormente à sua exibição nos cinemas, o que também não levanta minha moral. Mas agora que falei de ‘A Hora da Estrela’, vou contar para vocês como Suzana Amaral decidiu filmá-lo. Ela contou isso em entrevista para o programa Sala de Cinema. Quando cursava a universidade de cinema, seu professor de roteiro lhe disse que, quando fosse adaptar um livro, nunca escolhesse um livro grande e sim um livro fininho, porque o grande é muito difícil de adaptar e o com o pequeno é possível se fazer uma recriação. Adaptar os grandes é se limitar a resumi-lo, fazendo disso um filme pobre. Eu não sei se concordo com ele, mas Suzana seguiu seu conselho. Como ela já tinha lido todos os livros de Clarice e gostava da escritora desde adolescente, decidiu que adaptaria o seu menor livro. Foi na biblioteca ver qual era e se deparou com a incrível história de Macabéa. E assim nasceu um dos clássicos do cinema nacional. Por que eu tô contando isso mesmo?

De toda forma, essa corrida contra o tempo não é o meu único drama. Sofro também com a ideia de que tudo isso não me serve de nada. Se vou mesmo morrer e virar pó debaixo da terra (não adianta tentar me convencer do contrário), para que ler? Ver filmes? Viajar? Eu vou morrer mesmo. De nada vai me servir. Estamos todos de passagem. Por que essa vontade de escrever, de fazer filmes, se eu vou morrer e não levarei nada comigo? Também não saberei e nem me interessa saber que fim levará tudo que deixarei. Certo que fazer tudo isso me proporciona um imenso prazer e, já que estou de passagem, melhor aproveitar da melhor forma que me convêm. Além disso, esse conhecimento adquirido nos livros me propicia um leque maior de assuntos para conversar com as pessoas. Ninguém merece ficar conversando sobre o clima, não é mesmo? Mas e daí? Felizes mesmo são os alienados que não sofrem com o Sistema, que não enxergam essa bancada conservadora que defende a redução da maioridade penal e a “cura” gay, que define como família apenas a união entre homem e mulher e tantos outros absurdos. Sinto-me de mãos atadas e com muito medo do Brasil de amanhã.

Para não concluir, prefiro pseudo-acreditar que um dia encontrarei um sentido para todas essas leituras, todas essas horas diante de uma tela, de tanto tempo dedicado à escrita e a escutar as músicas que insistem cada vez mais em dizer tudo o que quero. Não muito raramente, penso também no tempo desperdiçado escrevendo. Sei que continuarei riscando neste blogue ou em qualquer outro lugar. É terapêutico. Contudo, no fim, a frustração é tão grande… Parágrafos e mais parágrafos quando existem músicas de quatro minutos que se expressam muito melhor. Às vezes penso que devia fazer um blogue em que compartilharia apenas músicas com letras que dizem exatamente aquilo que eu estava pensando em dizer. Não sei se funcionaria, mas hoje deixo algumas músicas e a entrevista completa da Suzana Amaral. Até a próxima, abraçaço.

Legião Urbana – Tempo Perdido

Caetano Veloso – Oração ao Tempo

Pitty – Semana Que Vem

Cazuza – O Tempo Não Para

Pato Fu – Sobre o Tempo

Lulu Santos – Tempos Modernos

Sala de Cinema – Suzana Amaral

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12 Comentários

  1. Jaírlos, um feliz clique me fez parar aqui hoje. Lendo esse texto seu, quase fique em dúvida, pensando se eu havia publicado uma parte dos meus próprios escritos sem saber, rs. Me identifiquei de cara, principalmente quanto à sua paixão pela literatura e pela sua angústia de ver passar o tempo.
    “É difícil saber que tenho cada vez menos tempo para ler todos os livros que quero…” Lembro de ter dito isso para alguém um dia desses. Acordar e ler: se existe algum sentido para a existência, por que não este?
    Sobre os “fins”, o “para quê”, de ler e/ou de escrever (que é quase um vício para quem sente “orgasmos literários”), esqueça-os, não os procure. Bem, é minha visão.
    Ler e escrever podem ser, em si, um fim. Não quero encontrar os outros fins possíveis. As artes em geral e a fruição delas nunca “servirão” para nada, afinal. E é bom que assim seja, é isso que nos faz amá-las.
    Também pode ser interessante não pensar em “ler rápido”, mas saborear cada linha, cada capítulo de um romance. Esquecer o fim e/ou a rapidez com que ele vem, pensar e viver intensamente o caminho.
    Ler as Ilusões Perdidas, do Balzac, durante todo o ano de 2015 me trouxe isso… em determinado momento, quis prolongar cada vez mais a leitura, não chegar no capítulo final, porque o caminho já me preenchia maravilhosamente bem.

    Abs!

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    • Olá, Larissa! Muito obrigado pelo comentário. Sobre não ler rápido foi um ponto de vista que eu esqueci de colocar no texto. Mas eu vivo muito bem minhas leituras. Algumas eu até torço para que demorem a terminar para que possamos conviver mais tempo juntos. O desejo de ler rápido é apenas a vontade de viver muito mais leituras. Volte sempre aqui. Abraços :)

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  2. Uma graça de texto, super interessante. Quem lê realmente faz a diferença. Parabéns querido.

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  3. Assim como a Larissa escreveu ali em cima, me identifiquei demais com seu texto.
    Tanto a angústia de saber que não terei tempo suficiente para ler tudo que quero, a ansiedade de querer ler mais rápido justamente pra diminuir esta infindável lista (e quem lê rápido, será que tem prazer mesmo em ler? será que desfruta das palavras da mesma forma? tenho minhas dúvidas), quanto também a perplexidade de achar um sentido para tudo isso, já que temos esta breve existência e não levaremos toda esta bagagem para o túmulo (ou levaremos para além-túmulo? rs).
    Enfim, me resta a reconfortante sensação de que não sou a única! Obrigada!

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    • Oi, Priscila. Assim como você se sentiu reconfortada em saber que não é a única, também fico feliz em saber não estar sozinho nesse “sofrimento”. Também tenho minhas dúvidas sobre quem lê rápido, mas não consigo deixar de desejar isso para viver o máximo de leituras possível. E muito obrigado pelas dicas de músicas, ouvirei todas. Forte abraço.

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  4. Putz, e esqueci de mencionar que tenho uma pasta de músicas que versam sobre o tempo aqui também, além das já citadas tem músicas cujo tema são horas ou minutos como: “Nem cinco minutos guardados” dos Titãs, “3 Minutos” dos Engenheiros do Hawaií, “Horas” de 2min; “O Relógio” de Walter Franco, e assim por diante…

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  5. Muito interessante !

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  6. Ao ler seu texto pude identificar-me de imediato.
    Não posso entender como – nos dias atuais – as pessoas estão deixando de ter este prazer e este hábito tão maravilhoso, enriquecedor e que nos abre para um mundo sem fronteiras, que é o amor pela leitura.
    Eu , desde muito pequena, nunca fico sem um livro para ler, um hábito que me foi ensinado pelo meu já falecido avô. Eu devoro os livros, sou do tipo que começa e não consegue parar. E sofro, sim, eu sofro, com a realidade dessa meninada, que não sabe a maravilha de poder estar em qualquer lugar, situação ou época, através da leitura, e que também pela falta desta não sabe escrever direito…

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  7. Uau! Eu penso exatamente como você. Prefiro ficar em casa, no meu quarto, lendo, ouvi músicas, assistir filmes e seriados. É o que eu faço todos os dias enquanto não estou na faculdade e mesmo quando eu estiver, irei ter um tempo para essa minha vida maravilhosa! Sim o tempo passa muitooo rápido, esses dias eu acabei madrugando porque eu penso que ainda está cedo mas quando vou olhar já é outro dia. Ou também eu penso que preciso acabar de fazer tudo que eu quero na internet e é mesmo muito difícil conseguir fazer tudo em um dia e sim também tenho meus amigos que ficam dizendo que eu preciso sair para me divertir sendo que eu me divirto muito aqui na internet, lendo, assistindo e as vezes tenho livros para ler em minhas mãos e então saio da internet. É muito bom saber que tem alguém que pensa como eu, meus amigos nunca vão entender que eu estou feliz aqui em casa. As vezes eu saio mesmo só para fazer companhia a eles, pois muitos ficam falando que eu só penso em internet e tals e até entendo que preciso também pensar nos meus amigos, mas sim está no meu cantinho é muito melhor, fico em paz e muito feliz. E também as vezes falo com os meus amigos pelas redes sociais que também está ótimo! Sobre livros eu gosto de ler três no máximo ao mesmo tempo, tipo eu leio três capítulos de tal livro, paro um pouco e leio três capítulos de outro livro. Acho que assim consigo ler logo vários livros que eu quero e super consigo entender a história de cada um ^^ Abraços!

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