eduardo coutinho em 23 imagens

Sem a menor dúvida, Eduardo Coutinho afirmava que o documentário, em todo lugar do mundo sempre foi, é e será um tipo de cinema marginal. Isso não quer dizer que não se possa aumentar a margem. Sou obrigado a concordar com ele, mas esse tímido crescimento do documentário em todo o mundo, no Brasil principalmente, é algo real e que muito me agrada. Os brasileiros produzem os melhores documentários do mundo. Ponto. E Coutinho foi e continua sendo o maior entre os maiores. Já virou chavão dizer que seu nome é sinônimo de documentário e vice versa.

Todos os anos o vencedor do Oscar de Melhor Documentário deveria ser uma produção brasileira. Mas sabemos que gringos, assim como os brasileiros, são preguiçosos e não gostam de ler legendas. Quando um filme estrangeiro faz muito sucesso em seu país de origem, ele é vendido para outros países e dublado (muito pior do que aqui, por sinal) ou refilmado com atores de língua inglesa. Como não existe essa tradição de se dublar documentários, o mundo segue ignorando o fato dos nossos documentários serem os melhores. Apesar do reconhecimento internacional, os gringos jamais vão compreender a verdadeira importância da obra de Eduardo Coutinho. Ele afirmava fazer filmes para o Brasil, pois seu cinema tem como foco as palavras, que na nossa língua são muitas vezes impossíveis de serem traduzidas, como é o caso de alguns exemplos que ele mesmo adorava: ‘presidentinho’, ‘sobejo’.

Eu tento eliminar tudo que eu acho que é perfumaria. O elemento essencial é a palavra humana e o que acontece quando um cara filma outro.
Eduardo Coutinho

Coutinho não gostava de entrevistar pessoas que ele conhecia e muito menos pessoas públicas (que possuem reputação a preservar e muito a perder). Seu interesse estava nas pessoas anônimas, o chamado “peixe pequeno” (sem nome a zelar e nada a perder, e que por isso mesmo podiam contar tudo sem receio). Ele queria saber o que essas pessoas achavam delas mesmas e não o que os outros pensavam delas. Para ele, quase todo o cinema mundial (principalmente o documental) é feito na perspectiva do intelectual. O cineasta que quer mudar o mundo e o mundo que ele vai filmar, e que só procura aquele cuja fala lhe interessa para os fins a que se propôs. Quem não lhe interessa, ele exclui ou auxilia tentando fazer prevalecer seu ponto de vista. Coutinho não discutia com nem discordava de seus entrevistados porque achava que cabia ao público pensar sozinho sobre os assuntos abordados.

Essa vontade de mudar o mundo que se filma torna impossível de conhecer o que está sendo filmado, pois só é selecionado aquilo que previamente se quer mostrar. Coutinho achava que a visão militante podia ser mortal para o filme e que querer mudar o mundo era uma utopia maluca. Como mudar o lugar que está sendo filmado? Como fazer essas pessoas mudarem apenas fazendo um filme? Considerava isso de uma arrogância e um autoritarismo absurdo. Deve ser por isso que seus filmes estão preocupados com a história cotidiana, a história com h minúsculo, a história do povo miúdo. Não lhe interessava fazer filmes contra as comunidades que filmava, fossem elas de suburbanos, pobres, ricos etc. Na verdade, ele não tinha nenhuma pretensão de mudar o mundo. Estava preocupado em conhecer seus entrevistados e não prejudicá-los, pois essas pessoas estavam lhe dando um tesouro, que é a fala. Elas se entregavam diante da câmera, por isso ele não queria que se sentissem traídas ou lesadas quando vissem o filme. Era sua regra de conduta.

A luz do documentário é o enquadramento.
Eduardo Coutinho

Eduardo Coutinho tinha a tese de que duas tragédias impedem o documentário de ser apreciado pelas pessoas menos informadas, sobretudo os jovens. A primeira maldição é a de que documentário deve educar e informar, método que algumas produções do tipo e as reportagens de televisão seguem (embora achasse um tipo aceitável de documentário, não era o que lhe interessava). A segunda é a de que o documentário diz a verdade. Considerava esses dois pensamentos uma tragédia, algo ultrapassado, pois acreditava que documentários não possuem compromissos forçosos com a informação, com a instrução e sequer em dizer a verdade, já que esse tipo de filme apenas joga com a questão da verdade.

O filme de ficção, aquele com atores que são pagos para viver o papel e a paixão dos outros em enredos inventados, baseados em histórias reais ou não, sempre será a corrente cinematográfica principal. As pessoas vão ao cinema para ver isso e sonhar. Para ele, isso é uma necessidade humana e a maioria dos documentários passa a impressão de que não possuem esse elemento onírico. O que difere dos seus filmes, que também ficaram conhecidos como documentários ficcionais. Neles, é possível encontrar um efeito poético e se identificar com seus entrevistados a quem ele chamava de personagens, projetando-se na tela como no “sonho” do filme de ficção. Considerava que documentário não é um gênero cinematográfico e sim um sistema, defendendo também o pensamento de que tudo o que se passa entre quem está diante da câmera e quem está atrás é sempre ficcional, já que a memória é sempre inventada. Por esse motivo chamava suas filmagens de “jogos”.

Acham muitas vezes que a câmera pensa. A câmera não pensa. A câmera é burra, o computador é burro.
Eduardo Coutinho

Coutinho também é responsável pela realização de ‘Cabra Marcado Para Morrer’, o marco maior do documentário brasileiro que, na opinião do também cineasta Vladimir Carvalho, juntamente com ‘Vidas Secas’ de Nelson Pereira dos Santos e ‘Terra em Transe’ de Glauber Rocha, forma a tríade que vai dar o recado para a vida toda do que foi o Brasil do século vinte. ‘Cabra Marcado Para Morrer’ inaugurou um cinema que recupera o passado e o próprio material do passado, no caso, seu material filmado em 1964, e em 1984 elabora um pensamento teórico sobre a história. O filme quebra a ideia do documentário que separa o observador e analista do objeto examinado. Há uma relação direta entre o meio (as ligas camponesas de Galiléia e de Sapé) e o observador (Eduardo Coutinho). Não há distâncias e sim um fluxo entre os dois. Coutinho se desloca, vai até Elizabeth Teixeira, viúva do líder camponês João Pedro Teixeira, para recontar sua história e descobrir o que aconteceu com ela e seus filhos nesses vinte anos.

Esse deslocamento para ouvir pessoas também se tornou uma marca registrada, que se repetiu em ‘Santo Forte’ (moradores da favela Vila Parque da Cidade), ‘Babilônia 2000’ (moradores do Morro da Babilônia), ‘Edifício Master’ (moradores de um antigo e tradicional edifício situado em Copacabana), ‘Peões’ (trabalhadores da indústria metalúrgica do ABC) e ‘O Fim e o Princípio’ (moradores do Sítio Araçás, comunidade rural no sertão da Paraíba). Ademais, ele também se reinventou nos filmes ‘Jogo de Cena’ e ‘As Canções’, onde são as pessoas que se deslocam até ele.

Com suas produções, Eduardo também desenvolveu a chamada “arte do encontro”. Sua equipe de pesquisa entrevistava previamente as pessoas que viriam participar do filme, mas Coutinho só encontrava com esses personagens na hora da filmagem. Só fazia filmes porque não sabia o que ia acontecer. O processo lhe interessava, a fabricação. Com isso, o essencial na hora da conversa era a surpresa e o acaso.

Coutinho é um dos meus cineastas favoritos. Impossível não assistir a uma entrevista dele e não aprender. Uma pena que ele nos tenha deixado de uma forma tão absurda. Sou apenas um de seus muitos órfãos. Mesmo não tendo pretensões de fazer documentários, sua obra é uma das que mais me influencia. Sua teoria de que os melhores filmes do mundo não possuem artigo no título foi seguido à risca por ele (com exceção de ‘O Fio da Memória’, ‘O Fim e o Princípio’ e ‘As Canções’) e que pretendo seguir em sua homenagem. Além das vinte e três imagens, deixo para você cineasta, documentarista, fã de Eduardo Coutinho, cinéfilo, leigo, curioso, o curta-metragem ‘Coutinho Repórter’, em que ele fala sobre os anos em que trabalhou no programa Globo Repórter, em que, durante a ditadura, forjou um estilo e realizou obras de empenho social que, na época, a censura impedia o cinema de concretizar. Até a próxima, abraçaço.

Coutinho Repórter

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Não sei quem são os fotógrafos responsáveis pelas fotos, mas se você conhece ou fotografou alguma delas, é só deixar o nome com o número da foto para que sejam devidamente creditados.

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1 comentário

  1. Muito bom !

    Curtido por 1 pessoa

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