enem

Pelas minhas contas, a prova do ENEM que acontece no próximo final de semana é a de número dezoito. Elas acontecem desde 1998. São dezessete anos. Dezessete! O que me admira muito, porque só vim ouvir falar na prova no fim do meu ensino médio, quando a universidade federal da minha cidade decidiu aderir ao exame. Desde aquele tempo, já se falava na realização de duas edições da prova por ano. O que não aconteceu até hoje e, com o MEC reduzindo o repasse de verba para as universidades federais, é algo que não deve acontecer tão cedo. Até porque, sendo o ENEM o segundo maior exame do mundo (o que não é de se impressionar, já que nossa população é imensa), o gasto do governo para a aplicação das provas em 2014 chegou a R$ 453,5 milhões, de acordo com informações do próprio MEC. Esse ano a conta deve ser ainda maior.

Não consegui passar de primeira, nem de segunda. Pois é. E olha que o curso de Cinema nem é um dos mais concorridos. Tudo consequência da minha deficiência em matemática, química, física e biologia. Mesmo tirando boas notas nas provas de redação, ciências humanas, linguagens, códigos e suas tecnologias, não foi o suficiente para ingressar na universidade. Eu me recusava (e nem tinha condições) a pagar uma particular podendo fazer uma de graça. Sendo que tudo era culpa minha. Então desisti. Foi quando ingressei no mercado de trabalho.

Trabalhei como almoxarife em uma construtora e como estagiário em um banco privado. Esse segundo foi onde durei mais tempo e foi uma experiência ótima. É incrível como sua vida muda para melhor quando se tem conhecimento sobre o sistema bancário. Os bancos são um dos maiores males da humanidade, então conhecer suas leis é fundamental para não se deixar dominar pelas altíssimas taxas e juros. É preciso dizer também que foi lá onde tive os melhores chefes e colegas de trabalho até hoje. Como conheço muitas pessoas que trabalham em bancos, posso dizer que isso não é algo muito comum.

Quando não estava trabalhando, aproveitava o tempo livre para ler muito, ver o máximo de filmes possível, desenvolver projetos por baixo dos panos e atualizar um blogue que eu tinha, chamado Escribômano. Nesse meio tempo, eu já havia desistido da ideia de ingressar na universidade. Mas não deixei de realizar as provas do ENEM. É claro que eu não tinha mais esperanças. Não havia passado depois de concluir o ensino médio com todas as disciplinas frescas na memória, não havia passado depois de fazer cursinho pré-vestibular (leia frequentar, porque eu mal assistia às aulas e a única coisa boa que de lá tirei foram os amigos que fiz), e não haveria de passar depois de um ano inteiro academicamente parado. Eu só conseguia pensar que, a cada ano que se passava, o número de inscritos aumentava. Também pudera, o número de vagas é muito inferior ao número de candidatos. E as pessoas que não conseguem passar tentam no ano seguinte com os milhares que alunos que concluem o ensino médio.

Havia madrugado na noite anterior quando fui mais uma vez fazer a prova. Estava com muito sono e zero de motivação. Não queria estar ali. Passar duas tardes da minha vida sentado e realizando uma prova desgastante onde a única coisa boa era o chocolate que eu havia levado. Sem contar que eu só tinha levado canetas de tinta azul. Só tenho canetas dessa cor porque acho que minha letra fica feia com canetas de tinta preta (coisas da minha cabeça). Veja minha falta de atenção. Eu deveria lembrar que só eram permitidas as esferográficas de tinta preta. Lembrei disso quando já havia chegado ao local da prova e lido a informação no cartão de inscrição (parece que esse ano o cartão não será mais entregue pelos Correios e o candidato tem que conferir no site do Inep, o que é ótimo, são menos árvores derrubadas). Acontece que, se não fosse esse cartão de inscrição, eu não teria saído daquele torpor e visto que só eram permitidas canetas de corpo transparente e tinta preta. Na verdade, eu deveria ter lido ele em casa. Enfim, não tinha mais tempo para sair e comprar outra. Foi quando um garoto que estava lá me deu uma caneta para que eu realizasse a prova. Não consegui devolver porque nunca mais o vi. Nem no dia seguinte consegui encontrá-lo. Claro que o agradeci, mas se um dia ele ler esse texto e lembrar, deixo aqui mais uma vez o meu “muito obrigado”.

O que aconteceu, caríssimos, eu não vou saber explicar, mas consegui responder a prova muito bem e mais uma vez fiz uma boa redação. Foi então que, quando eu menos quis e acreditei, consegui ingressar na universidade federal mais concorrida do país. Eu tinha tanta certeza de que não conseguiria que nem conferi quantas questões eu havia acertado. Só quando saíram as inscrições do Sisu que conferi minha nota. Não queria sofrer por antecedência.

Ingressar numa universidade nunca foi um sonho de fato. Mas sim conhecer pessoas que também sonhassem em fazer cinema. Deu certo. E foi até melhor. Enquanto estive fora do ambiente acadêmico me tornei um cinéfilo autodidata. Cheguei à universidade com muita bagagem, o que me permitiu não ficar boiando durante certas aulas. Se você Leitor, sonha em cursar uma universidade e vai fazer a prova do ENEM no próximo final de semana, desejo a você um ótimo desempenho. Mas saiba que você deveria estar fazendo as últimas revisões e não lendo esse texto. Faça o que eu digo e não faça o que eu faço. Corre lá que ainda dá tempo de fazer umas redações. E não esqueça: a caneta é de corpo transparente e cor preta.

Até a próxima. Abraçaço.

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18 Comentários

  1. Quando fiz o enem (quatro anos atrás) eu estava tão frustrada com tanta coisa, que nem me esforcei. Acreditei que fui mal e até hoje nunca conferi minhas notas, acredita? A vida sempre me prega peças quando tenho uma prova importante…

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  2. Eu vou fazer esse ano de novo, me arrependi de ter feito a inscrição sendo q n quero mudar de curso. Não mais. Só que sou obrigada pq se resolver fazer outro ano terei q pagar! Creio eu rs

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  3. kkkkkkkkkkkkkk

    Muito engraçadinho, você né? Manda o povo deixar de ler o texto e ir estudar depois que todo o texto já foi lido :P

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  4. Wanderson Dias

     /  20 de outubro de 2015

    No meu caso o hiato entre o ensino médio (que na minha época chamava-se 2º grau) foi de 18 anos!!!! E agora curso letras que foi a minha primeira opção na época do vestibular para a UFC!

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  5. Que legal, que bom que conseguiu entrar no curso que tanto queria. Fazer o que a gente gosta é bom demais. Faço Jornalismo e meu ex namorando sempre me tirou de cabeça falando que o jornal vai acabar e tudo mais. Mas não ligo, eu gosto do meu curso e é isso que me faz permanecer nele, por mais que seja difícil algumas coisas… =]

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  6. Estou pensando ainda, se farei o Enem, claro que não esse ano… Mas eu sempre fui bem nas provas. o que sempre me fode nessas provas e a paciência não tinha ela quando fiz (7 anos) imagine agora……..

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    • Eu acredito que pode acontecer o contrário com relação a sua paciência. Você é bem mais experiente agora e como você mesma disse que sempre se saiu bem nas provas, com certeza se sairá bem mais uma vez.

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  7. Eu adoro a forma como escreve, sem mais e nunca canso de dizer isso. É como se eu sentasse com um velho amigo e o estivesse ouvindo.

    O que você foi muito legal e interessante, se muitos focassem mais em estudar não por causa da faculdade em si, mas por seus sonhos querer ter sede de conhecimento, muitos quando quisessem acrescentar algo mais entrariam na faculdade bem melhor e mais orientado.

    Abraços, ☼

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  8. Fico feliz por ter feito enem numa época em que a prova ainda não era requisito para entrar nas faculdades… Eu sempre tive dificuldades com exatas, mas tive um bom preparo para o enem e para os vestibulares que escolhi prestar. Mas, me decepcionei com o desempenho no exame nacional justamente com a redação. Ao longo dos anos, acompanhando as polêmicas que elas sempre geram, acabei ficando menos frustrada. Fato é que eu nunca pensei que um texto meu seria tão mal avaliado e fico feliz por não ter dependido disso para entrar na faculdade. E, quando falo da má avaliação que meu texto recebeu, não estou questionando os corretores e nem me achando A escritora. É que eu realmente escrevia bem, então me assustei…

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    • Você tocou em um ponto que infelizmente ainda é recorrente no ENEM: a má avaliação das redações. Também sofri com isso em uma das provas. Torço para que esse ano não aconteçam novas polêmicas. É algo muito desgastante para os candidatos.

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      • É frustrante! Claro que, em muitos casos, a redação era ruim mesmo. Vai ver, aconteceu comigo (por mais que isso me surpreenda). Mas, são recorrentes os questionamentos sobre a correção. Tanto que, se não me engano, liberaram acesso ao espelho dessa correção.

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  9. Você escreve muito bem! Parabéns!

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