se arrependimento matasse…

É bem verdade que todo mundo diz que é melhor se arrepender de algo feito do que de algo nunca realizado. A justificativa é que se não realizamos, nunca saberemos se teria dado certo ou não. Concordo. Deve ser mesmo terrível chegar a algum estágio da vida com a sensação de não ter realizado certos desejos. Mas é certo também que o arrependimento do erro cometido é tão terrível quanto. É como se os dois doessem iguais, mas de formas diferentes.

Sou impulsivo, esquento fácil, falo demais. Características perfeitas para se conquistar arrependimentos ao longo da vida. Já acumulo alguns. Mas uma professora me disse um dia que é melhor ser do tipo de pessoas que se arrependem, porque nos arrependendo temos a chance de tentar corrigir o erro. Já aqueles que não choram o leite derramado deixam tudo como está para o resto da vida. Eu devia ter por volta de doze anos quando ela me disse isso. Se tais palavras me influenciaram a me arrepender mais dos meus erros, eu não sei, mas são palavras que nunca mais esqueci.

Aprender a identificar qual leite merece ser chorado é que é o segredo. Lamentar uma prova mal realizada pode te fazer estudar mais para a próxima. Mas lastimar o jarro de flores favorito da sua vó que você quebrou não vai trazê-lo de volta. Então melhor não verter lágrimas e muito menos perder noites de sono nesse caso. Isso na teoria é muito simples, como em quase toda teoria. Na prática o bicho pega e tenho me atrapalhado muito nos últimos tempos. Principalmente quando me arrependo e acho que não deveria ter me arrependido de ter dito sozinho coisas que carecem ser gritadas em conjunto. Parece ser pior do que as ofensas berradas em brigas. Toda palavra dita não volta atrás, mas qual delas é possível “corrigir”? A princípio, nenhuma. Contudo, numa briga, você pode se arrepender e pedir desculpas para o ofendido. Por maior que seja o dano, a partir do pedido de desculpas você joga a responsabilidade para a outra pessoa. Vendo por esse lado pode parecer algo injusto, mas cabe ao insultado perdoar ou não, e decidir se os laços serão reatados. Ao contrário do solitário grito contra os opressores quando todos os oprimidos deveriam fazer coro. Isso é tão desmotivador que na maioria das vezes me arrependo por ter me inflamado sozinho.

Sempre amei e odiei pessoas caladas com a mesma intensidade. Fico muito puto quando algo errado acontece e as pessoas não falam nada por medo. Detesto quem não se manifesta e se permite ser massa de manobra. Apesar das consequências imediatas, lutar é um ótimo investimento em longo prazo. Nas aulas, apenas para citar um exemplo, seja na escola ou na universidade, sempre existiu um ou outro professor que fez algo com que a turma não concordava. O silêncio dos alunos era algo que me irritava e me irrita até hoje. Eu falo. Bato de frente. Fico mal na fita com eles e já me prejudiquei algumas vezes por falar o que os professores não queriam ouvir. Para cada cinco professores incríveis que eu tive, havia um arbitrário. O sistema educacional é só uma versão em miniatura da sociedade com suas leis muitas vezes injustas e seus governantes que nem sempre fazem o que é melhor para o povo. Simplesmente não consigo não falar. E é aí que está o meu amor por quem é calado. Queria saber me controlar e ser calado por opção. Não por omissão, como é o caso de praticamente todas as pessoas que conheço.

Não é questão de coragem me impor contra tudo que julgo opressor. É mais uma questão de impulsividade. Quando vejo, já tenho dado a cara à tapa e estou no olho do furacão. Talvez bem lá no fundo eu nem esteja errado como chego a acreditar algumas vezes. É que gritar sozinho sempre faz você parecer do contra. É como se você se queimasse por nada. Entrementes, quem sou eu sem minhas ideologias? E uma delas me diz que ficar com o rabo entre as pernas enquanto uma minoria decide o que seria bom ou ruim para a população não é o ideal a se fazer. Não admito essa intimidação que faz o coletivo ficar calado e aceitar opressões disfarçadas de democracia. De toda forma, eu já me acostumei com o fato de ser chamado de revoltado, rebelde, teimoso, subversivo… Enfim, enquanto não inventam pílulas do dia seguinte para arrependimento, sigo colocando os litros de leite na balança para ver qual deles vale ou não a pena ser chorado.

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5 Comentários

  1. Amei o texto!
    “Sempre amei e odiei pessoas caladas com a mesma intensidade.” Será que tu me amas ou me odeia? hahaha

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  2. “Tudo se pode dizer ao amigo e ao sábio.” Quando você não se controla ou escolhe bater de frente, criará automaticamente resistência na parte adversa. Se souber quando ficar calado, quando falar e como apresentar suas ideias (o que costuma fazer muito bem, a exemplo deste blog, que tenho prazer em acompanhar), provavelmente colherá maior aceitação dos outros. Digo isto como professor e advogado.

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  3. Seu blog é melhor que o do Agaynaldo Silva, aquele chato só posta bobagens. Ele deve morrer de inveja do seu talento pra expressar sua opinião.

    Quanto aos professores, eu prefiro não bater de frente, gosto de ganhar o carinho de cada um deles ღ Sou mesmo de ficar calado. Nota 9 pro post dessa semana :D

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  4. Olá Jaírlos tudo bem? Te indiquei para a Tag da Irmandade dos Blogueiros do Mundo e esqueci de te avisar antes! Se estiver interessado aqui está o link https://diariodecarola.wordpress.com/2015/10/03/mais-uma-tag-da-irmandade-dos-blogueiros-do-mundo/ Bjs :)

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  5. Muito bom !

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