livros sebosos

Eu sou mais um capitalista sem capital. Enquanto isso, as editoras seguem lançando cada vez mais livros interessantes e relançando títulos importantes em edições especiais ou comemorativas. Eu não consigo adquirir tudo, pois compro bem menos do que gostaria. Pesa em mim também o fato de ser materialista e só querer comprar exemplares novos. Poucos cheiros no mundo são melhores do que o de um livro novo, recém-saído do invólucro.

Acontece que há pouco mais de dois anos eu descobri, mesmo que tardiamente, a magia dos sebos. Quando conheci meu namorado ele era então estudante de letras (hoje já é formado e mestrando em literatura). Os sebos faziam parte da vida dele e passaram a fazer parte da minha também. O primeiro livro que ele me deu era novo, mas não tardou até que ele começasse a me dar edições encontradas em sebos. Ademais, o dinheiro curto não foi o principal motivo para ele me dar livros usados. Ele sempre apontava para o fato de serem edições muitas vezes raras. Coisa que só ele e verdadeiros estudiosos de literatura me parecem capazes de garimpar.

Lembro, por exemplo, quando ele me deu o livro ‘Elite da Tropa’. Ele sabia do meu amor pelo filme e sabia que eu queria ler o livro que o originou. Sabia que, como ele, eu não gosto de livros com capas de filmes, mas que nesse caso eu preferiria a versão nova do livro que vem com uma foto de Wagner Moura como Capitão Nascimento. Acontece que a edição que ele me deu, comprada em um sebo, era a primeira edição do livro. Ele viu um resquício de decepção quando me deu, mas tratou imediatamente de aniquilá-lo com um simples comentário: essa foi a mesma edição que José Padilha leu. Foi o suficiente para que eu nunca mais quisesse saber da segunda edição.

Elite da Tropa

É bem verdade que esses livros de sebo no início me faziam espirrar por três dias seguidos até que eu me acostume com o cheiro. Sou alérgico e isso infelizmente nunca vai mudar, mas é preciso reconhecer que esses livros usados estão me deixando cada vez mais resistente. Lembro que na primeira vez em que fomos a um sebo juntos, tive uma pequena crise de espirros e fiquei esperando por ele na entrada enquanto conversava sobre movimentos revolucionários com o dono do estabelecimento. Hoje consigo ficar no sebo o tempo que for preciso.

Quando bem mais jovem eu tinha o costume de emprestar meus livros e pedir para que as pessoas que lessem escrevessem seus nomes nele com a data que iniciaram a leitura e a data em que terminaram. Ainda tenho alguns livros desse tempo, mas realmente não sei como e quando aconteceu a transição para o meu eu de hoje que não risca livro nem para colocar uma dedicatória, embora atualmente não me incomode mais quando ganho um livro que vem com algumas frases grifadas. Fico imaginando o que a frase teria de tão especial para ter sido grifada por quem o leu primeiro que eu. A edição de ‘Estação Carandiru’ que meu namorado me deu, também comprado em um sebo, veio grifado em algumas páginas. Ao final da leitura percebi que todas as frases grifadas diziam respeito a estatísticas colocadas no livro por Drauzio Varella. O que me leva a crer que alguém usou essas estatísticas em algum lugar. Teria sido em algum trabalho de sociologia? Nunca saberei e a graça está justamente nisso: imaginar.

Estação Carandiru

Meus livros, inclusive, quase não saem de casa para evitar que os outros peçam para “ver”, já que ver significa folhear, ou pior, para que não peçam emprestado. Juro que estou trabalhando para vencer essa obsessão e voltar a emprestá-los, já que não faz sentido nenhum escondê-los do mundo depois que eu os já li. Quando eu morrer não vou levá-los fisicamente comigo, mas ainda estarão no meu cérebro que infelizmente não é um HD externo em que eu possa guardar todos os conhecimentos adquiridos com as leituras. Ele é só mais uma parte do meu corpo que vai virar pó assim como o pó das prateleiras dos sebos que eu aprendi a gostar graças ao meu amor.

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13 Comentários

  1. Bom dia, seu blog é fantástico. Me identifiquei muito com o seu post de hoje. Hoje estou procurando os sebos também, e te compreendo perfeitamente.

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  2. Nossa!!!! Amei seu post. Li com uma fluidez, parecia que estava tomando um copo d’água depois de vagar por três dias vagando no deserto. <3 Continue nos presenteando com textos assim: agradáveis e interessantes.

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  3. *Perdoe os erros :P Esse “vagando” tá sobrando :P

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  4. Compartilho da alergia (demasiadamente alérgica à poeira e afins), mas acho fascinante essas histórias por trás de cada exemplar de um livro. É a vivência que cada leitor tem com seu livro que o torna único e especial. Acho que a “memória embutida” é mesmo o mais legal dos sebos. (Mas ainda sou ainda mais apaixonada por livros novinhos, impecáveis e com aquele cheirinho peculiar! Rs)

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  5. Ah, os sebos, eu também amo/sou. quando viajei para São Paulo nas minhas férias, pude conhecer o Sebo do Messias, um paraíso de três andares cheio de livros maneiros e baratos. No fim levei 3 livros por menos de 40 reais. Infelizmente, às vezes o sebo consegue super faturar nos preços (como fã de cinema sofro para encontrar livros maneiros e baratos sobre o assunto no sebo). Uma das coisas mais legais de comprar em sebo é abrir o livro e ler as dedicatórias dos antigos donos. O que se passava naquela época? Por que a pessoa se desfez do livro? São perguntas que costumo me fazer.

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    • Compartilho com você o sofrimento para encontrar livros baratos sobre cinema. É incrível como os livros sobre o assunto são caros. Até mesmo os usados.

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  6. Martha Ivers: também amo/sou. Chocado :P

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  7. Sempre gostei de comprar livros em sebos bons e bem baratos !

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