glauber rocha em 23 imagens

Não sei vocês, caríssimos, mas tenho muita dificuldade em falar sobre coisas que gosto. É complicado traduzir em palavras o que sinto, o que não acontece quando tenho que falar sobre as coisas que não gosto. Quando não gosto, os motivos estão sempre muito claros. A resposta na maioria das vezes está na ponta da língua e expressar isso é fácil. Mas quando me perguntam por que gosto de tal músico ou tal livro é difícil dar uma resposta. Por mais que eu fale me parece que nunca consigo responder a altura do meu amor pela obra ou pessoa. Se tento ser objetivo, me parece que a resposta nunca é satisfatória para quem pergunta e se preparo um discurso mais elaborado, tenho a sensação de que não passo confiança. Coisa de geminiano (ou não), vai entender.

Se você Leitor acompanha meus escritos desde o início ou não tão desde o início assim, vou tentar deixar mais claro o meu raciocínio. Foi fácil falar aqui no blogue o porquê de não gostar de discos ao vivo, de séries, de acordar cedo, entre outras coisas. Mas quando vou escrever sobre meus grandes ídolos, a coisa fica difícil. Mais difícil ainda é falar do meu cineasta favorito, que se fosse vivo seria hoje meu colega de profissão. É por isso que esse texto é mais sobre minha dificuldade de falar a respeito dele do que um texto sobre ele. Quem foi Glauber Rocha? Eu não sei e acredito que não é possível responder a tão pretensiosa pergunta.

Apontado como o melhor e mais importante cineasta de sua geração, a meu ver ele continua sendo o melhor cineasta daquela e todas as gerações de realizadores brasileiros que vieram posteriormente. Dizem que gostamos mesmo de algo quando queríamos ter feito. E como eu gostaria de ter feito os filmes de Glauber.

O Cinema Novo é um fenômeno dos povos colonizados e não uma entidade privilegiada do Brasil: onde houver um cineasta disposto a filmar a verdade e a enfrentar os padrões hipócritas e policialescos da censura, aí haverá um germe vivo do Cinema Novo. Onde houver um cineasta disposto a enfrentar o comercialismo, a exploração, a pornografia, o tecnicismo, aí haverá um germe do Cinema Novo. Onde houver um cineasta, de qualquer idade ou de qualquer procedência, pronto a pôr seu cinema e sua profissão a serviço das causas importantes de seu tempo, aí haverá um germe do Cinema Novo. A definição é esta e por esta definição o Cinema Novo se marginaliza da indústria porque o compromisso do Cinema Industrial é com a mentira e com a exploração.
Glauber Rocha em ‘A Estética da Fome’

‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’ completou cinquenta anos ano passado, e em dois anos será a vez de ‘Terra em Transe’. É fácil ver os dois filmes e fazer uma ligação direta com o período de ditadura militar que o país enfrentava. Mas também é possível fazer uma ponte com a crise política atual. Se em ‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’, Manuel era o personagem-síntese do povo como massa da manobra, eu vos pergunto: que outro personagem do cinema brasileiro nos traduz hoje melhor que Manuel? O povo continua como massa de manobra. Enquanto a mídia faz cobertura ao vivo dos protestos de impeachment, a Câmara aprova na surdina a redução da maioridade penal. Em ‘Terra em Transe’ o povo de Eldorado não estava pronto para a revolução e quem bate panela pedindo a volta do regime militar também não. Mesmo não tendo votado em Dilma no primeiro turno, e me vendo obrigado a votar nela no segundo por ela ser a menos pior, gostaria de parabenizá-la por ser a primeira a conseguir fazer a classe A colocar as mãos em panelas, mesmo sabendo que é fácil bater panelas que a empregada vai ter que desamassar depois.

Enquanto selecionava as imagens para esse post e me dava conta do quanto Glauber fumava e de como são poucos os registros fotográficos dele se comparados aos outros cineastas de sua época, eu só conseguia pensar nos grandes filmes que ele faria sobre nossa atual situação política se estivesse vivo. Só nos resta ver seus filmes e tristemente constatar que em meio século o Brasil pouco mudou.

Portanto, concluo frustrado esse texto que deveria falar do meu amor por esse cara que junto com Nelson Pereira dos Santos e tantos outros viveram o sonho do cinema brasileiro antes de mim. A sensação é de uma eterna divida de gratidão, em especial a Glauber Rocha que tanto me influenciou e influencia. A ele o meu muito obrigado!

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Não sei quem são os fotógrafos responsáveis pelas fotos, mas se você conhece ou fotografou alguma delas, é só deixar o nome com o número da foto para que sejam devidamente creditados.

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9 Comentários

  1. Muito bom, meu caro. Também compartilho adoração por esse gênio da humanidade! Além de saber lidar com as imagens e com a linguagem, Glauber tinha, em sua própria figura, uma força de expressão muito forte, muito cinematográfica.

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  2. Prrrf! Steven Spielberg pisa nesse aí. :P

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  3. Cara, era só brincadeira. Apesar de não conhecer esse tal Glauber, eu acho seu blog muito interessante. E o texto foi tão bem elaborado que deu vontade de saber quem esse senhor. Parabéns por compartilhar de forma tão singela um pouco do seu gosto conosco.

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  4. Olá, tudo bom? Que texto! gostei muito do seu blog.

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  5. Adorei o texto! Vejo através do seu texto, que quando estudei cinema na faculdade não aprendi absolutamente nada.

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