relógio diabólico

As férias chegaram ao fim, e com isso meu relógio biológico, que está mais para diabólico, deita e rola como bem entende. Depois de um mês inteiro dormindo tarde e acordando mais tarde ainda, tenho que me acostumar a dormir cedo e acordar mais cedo ainda. Fim de férias é sempre assim, essa dificuldade em lidar com meus horários, que estão todos esculhambados, acompanhada da pior de todas as dores: a dor de acordar.

Meu relógio interno tem um cronograma diferente e ignora os comportamentos “aceitos” pelos monstros matutinos. E isso começou cedo, aos dez anos, quando passei a estudar de tarde e comecei a me perguntar: quem em sã consciência estuda pela manhã quando se existe a possibilidade de estudar de tarde? Desde então sonho com uma realidade em que possa ir dormir de madrugada e acordar ao meio dia. Mas a vida é cruel e sigo acordando diariamente as 6:30 da manhã.

Quando tinha dezessete anos de idade fiquei duas semanas internado em um hospital graças a uma pneumonia. Nesse caso, tinha de acordar todos os dias às seis da manhã para tomar café, receber medicação e a visita dos médicos. No quarto onde eu estava, bem ao lado da minha cama, tinha uma janela que me possibilitava ver o sol nascendo. Aquele vislumbre junto da experiência de quase morte mexeu comigo. Quando voltei para casa, passei um mês acordando cedo, apreciando o sol e acreditando piamente que a partir de então eu passaria a ter hábitos vespertinos. Que nada! Logo eu voltei a dormir tarde e a acordar tarde. Até hoje, quando quero ter meu momento com o sol, ele acontece no fim da tarde, quando muito raramente vou à praia para vê-lo se pondo.

A televisão também é uma grande responsável por isso, e sempre brinco que “o Sistema me fez do avesso”. Todos já estamos cansados de saber que os altos preços dos discos e livros têm como objetivo limitar a cultura a famílias de classe média. Isso vem mudando, mas ainda me assusto com o preço que sou obrigado a pagar para consumir arte no meu país. Com a televisão não é diferente, ou você nunca se deu conta de que os melhores filmes passam (quando passam) de madrugada? Que os poucos programas que ainda estão dispostos a discutir temas relevantes passam de madrugada? Entristece-me saber que muita gente ainda depende exclusivamente da televisão para ter acesso à “informação”. E durante muito tempo ela também foi minha única fonte.

Minha doença por filmes começou cedo, mas se intensificou aos dez anos quando passei a estudar de tarde. Para você ter noção de quanto eu gosto de ver filmes, já me aconteceu de estar caindo de sono e ficar de pé durante quase todo o filme para não dormir. Aconteceu também de eu assistir filme até às quatro da manhã tendo que acordar às cinco. Eu assistia a praticamente todos os filmes que passavam de madrugada, exceto quando era um repetido, quando tinha compromisso pela manhã ou quando meus pais acordavam no meio da noite e me obrigavam a ir dormir. Foi quando minha audição se tornou muito aguçada, tendo que assistir com o volume da TV no mínimo e ainda tendo que ficar alerta para qualquer barulho que indicasse que meus pais acordaram. O medo de meus pais acordarem nunca foi de que descobrissem o que eu estava vendo, afinal, eu nunca vi cenas fortes de sexo explícito na TV, com muita sorte aparecia um peitinho aqui ou uma bundinha ali. O medo era da bronca mesmo, eles sempre enxergaram meus hábitos noturnos como uma anormalidade.

Com eles achando que eu era doente por ser notívago, demoraram a colocar uma TV no meu quarto, o que me obrigava a ter que assistir na sala. Não podia ligar as luzes para não acordar ninguém e foi assim que aprendi a me locomover por todos os cômodos da casa no escuro, habilidade que tenho até hoje. Claro que às vezes acontece de alguém mudar algum móvel de lugar e eu acordar até os vizinhos com o barulho do esbarrão.

Outro hábito adquirido foi o de ler de madrugada. Quando passava um filme repetido que não me interessava rever, eu ia ler porque simplesmente não ia conseguir dormir cedo. É por isso que a maioria dos livros que li na vida foram lidos de madrugada. E acredito que esse hábito muito influenciou o fato de eu não conseguir ler em ambientes barulhentos, já que na madruga o único ruído que ouvia era o som tímido do ventilador. Eu também ia ler quando tristemente me deparava com aquela tela colorida que aparecia às vezes quando as emissoras colocavam em manutenção os seus transmissores.

Hoje posso dizer que praticamente não assisto televisão e só vejo filme nela quando é brasileiro, porque não tenho paciência para ver versão dublada. Os hábitos mudam, também encontrei outro horário para leitura. Contudo, parece que, enquanto viver, terei uma saudade imensa dessa época, pois sempre que a responsabilidade falar mais alto, seguirei acordando cedo e respeitando todos os horários que me são impostos.

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3 Comentários

  1. Elvio Franklin

     /  5 de agosto de 2015

    Pelo menos dois dos meus filmes preferidos eu lembro de ter visto pela primeira vez no saudoso Corujão. O Poderoso Chefão e Scarface

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  2. Também sou notívago. A madrugada é o melhor período para ter uma silenciosa conversa inteligente comigo mesmo.

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  3. bekinha11

     /  16 de agosto de 2015

    Gostaria de ter mais tempo na madrugada =/

    Curtido por 2 pessoas

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