morte ao tempo morto

Dei uma pausa no roteiro que estou escrevendo e vim aqui conversar com vocês sobre o que costumo chamar de tempo morto. Para isso vamos partir do pressuposto de que todos nós gostamos de assistir as aulas da universidade e gostamos também de trabalhar. Sei que existe uma ou outra disciplina chata, e isso acontece em todos os cursos, mas se você não gosta do seu curso em geral, alguma coisa está errada e você tem grandes chances de estar comprometendo negativamente o seu futuro. Também sei que não é todo dia que é prazeroso trabalhar, sempre tem um dia que será muito difícil e cansativo, mas se na maioria das vezes esse trabalho não é feliz, você está caminhando em direção a uma existência vazia.

Deixemos esse parágrafo pseudo-autoajuda-desnecessário de lado, porque eu vim falar de tempo morto e não sei porquê comecei assim, então vou dar outro exemplo. Eu sempre odiei ir à escola, mas quando já estava lá, eu gostava. Gostava dos amigos, dos professores e era tudo muito divertido. Mas de nada adiantava: no dia seguinte eu estava em casa novamente odiando o fato de ter que ir à escola. Hoje eu compreendo que o ódio não era de estudar, e sim de me locomover.

Esse deslocamento diário de casa para a universidade, trabalho ou qualquer outro lugar é o que me esmorece. E não por sedentarismo. É que odeio o fato de estar perdendo um precioso tempo me locomovendo. Você Leitor já sabe o quanto sou paranoico com relação ao tempo, então imagine como é torturante para mim perder horas do meu dia no trânsito, em filas de banco e até em noites de insônia em que preciso dormir e fico rolando na cama.

Exceto quando decido ir a pé para algum lugar, onde sei que de uma forma ou de outra meu corpo tá aproveitando esse exercício, me locomover sempre é uma perda de tempo. Então tento fazer algo para transformar esse deslocamento o mais proveitoso possível, embora nem sempre consiga. Todas as saídas para o mesmo local são diferentes, e nunca demora o mesmo tempo, é variável. Embora você se programe, tem de lembrar que o que vem durante o caminho é completamente imprevisível. Como odeio chegar atrasado em qualquer ocasião, tenho que dormir menos para estar sempre adiantado graças a essa imprevisibilidade, tendo também sempre em mente que não há nada tão ruim que não possa piorar.

Uma das opções mais usada pelas pessoas (e não por mim) para aproveitar esse tempo morto é a famosa leitura de ônibus. Fico extremamente feliz quando vejo alguém lendo dentro do coletivo. Exceto quando descubro que o livro é de autoajuda ou religioso. São esses consumidores de livros ruins que alimentam a gana dos escritores ruins a lançarem mais livros ruins no mercado. Perdoem esse meu desabafo aleatório, mas vivemos na era do gosto literário duvidoso.

Mesmo sabendo que ler em ônibus/carro em movimento não desloca a retina, eu prefiro ouvir música. Não dá para planejar ler sempre que sair de ônibus. Nem todas as vezes vou conseguir uma cadeira para sentar (já vi gente lendo em pé, mas ou eu me seguro, ou leio e caio), e nem sempre vou estar livre de barulhos aleatórios que não me deixam concentrar na leitura. Então ouvir música é o que faço. Em pé ou sentado, ela vai poder estar ali comigo e com ou sem barulho eu vou conseguir curtir o som.

Cazuza costumava dizer em entrevistas que artistas como Rita Lee, Caetano Veloso e Gilberto Gil revolucionaram sua vida. Que depois de comprar os discos deles, ele se tornou uma pessoa melhor. Pena que não dê, falando por mim, para conhecer discos novos nessas andanças. Gosto da magia do primeiro contato e não aceito que o momento de ouvir um disco pela primeira vez aconteça no trânsito. Por isso que nos deslocamentos sempre escuto o mesmo de sempre.

Outro hábito que tenho é o de ler no banheiro para tentar fazer do que considero um tempo morto, algo proveitoso. Faço isso mesmo depois de ver um estudo que diz que ler no banheiro pode ser prejudicial à saúde por conta das bactérias presentes no ambiente. Até hoje finjo que não li esse estudo. Quero mesmo é aproveitar o máximo de tempo possível. Para você ter noção, já escrevi até textos para esse blogue enquanto estava no intervalo de uma aula e outra.

Portanto, me parece que, considerando tudo isso, a solução é trabalhar em casa e não precisar dormir menos por causa da distância. Já sei que nem sempre vai ser possível para mim este feito, mas enquanto eu não compro uma bicicleta, sigo enfrentando transporte público lotado, trânsito interminável e correndo o risco de ser assaltado, sequestrado e esquartejado, quando tudo o que eu queria era matar o tempo morto.

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2 Comentários

  1. Oi! Adorei sua forma de escrever, ótimo texto.

    Curtido por 1 pessoa

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