eterno ignorante, parte 1

Cantar e cantar e cantar a beleza de ser um eterno aprendiz. Gonzaguinha sabia das coisas. Quanto mais estudo, maior é a sensação de que tenho muito o que conhecer. O pior disso tudo é aquele velho clichê de que não vamos ver todos os filmes que queremos e nem ler todos os livros que temos vontade. E ainda vamos morrer sem ouvir o próximo álbum daquela banda nova que gostamos.

Recentemente li um livro chamado Discos publicado pela PubliFolha em 2003, em que sete autores (Arnaldo Cohen, Céline Imbert, Eduardo Giannetti, Lia Rodrigues, Luiz Tatit, Marcelo Coelho e Tom Zé) dissertam sobre os dez discos que levariam para uma ilha deserta. São mais de setenta capítulos e desde o primeiro eu ficava pensando quais eu listaria se fosse convidado para participar de um livro assim. Quantos do Tom Zé eu levaria? Não poderia deixar Os Mutantes de fora. O primeiro ou o último da Pitty? O Rappa com certeza estaria dentro. Raul Seixas não poderia faltar. Qual da Cássia Eller? Como escolher só um da Elis Regina? Como escolher um único de Jorge Ben Jor se gosto de todos igualmente? Nunca me perdoaria se Zé Ramalho ficasse de fora. Nunca mais ouviria Roberto Carlos? E quando batesse saudade de Daniela Mercury, Cazuza, Rita Lee, Capital Inicial, Skank, Vivendo do Ócio, Talma&Gadelha, Vespas Mandarinas, Titãs, Cachorro Grande, Secos & Molhados, Cascadura, RPM, Kid Abelha, Cícero, Los Hermanos, Mallu Magalhães, Raimundos, Megh Stock, Novos Baianos, Tim Maia, Karol Conka, Planet Hemp, Seu Jorge, Alceu Valença, Ave Sangria, Nação Zumbi, Emicida, Chico César, Cartola, Lenine, Criolo, Caetano Veloso. Gente, Caetano! Tão vendo? É uma tortura. Mesmo com toda a liberdade desse post, eu ainda vou me arrepender por ter esquecido de citar tantos outros que eu amo, quanto mais listar só dez. Por isso jamais aceitaria participar de um projeto como esse. Sou fraco demais e isso é para os fortes.

Discos

Esse é apenas o quinto post do blogue, mas se você leu os anteriores já deve ter se dado conta do quanto esse que vos escreve gosta de dar voltas até chegar nos finalmentes. Então, o eterno ignorante do título sou eu, que só vim descobrir quem era Luiz Tatit depois de ler o livro. E ainda tem mais: embora lendo os dez capítulos escritos por ele, só fui procurar sua música depois de ler o Tom Zé dizendo que levaria um de seus discos para a ilha deserta. Foi o suficiente para me despertar interesse. Se Tom Zé levaria um álbum do cara é porque valeria muito a pena. E vale mesmo!

Luiz Tatit vive enclausurado numa prisão agrícola chamada USP. Neguei-me sempre a escrever sobre ele, porque posso prejudicá-lo e a inveja dos deuses agravar-lhe a pena para um cárcere comum. É que o panteão da canção brasileira já tem seu concreto quase empedrado. E os deuses coroados sabem que, com Tatit, ou a gente continua escondendo, ou terá de quebrar o panteão todo.
Tom Zé no livro Discos

Além de também ser escritor, atualmente Tatit é professor titular do Departamento de Linguística da Faculdade de Filosofia, Letras & Ciências Humanas da USP. Seu último álbum lançado foi o Sem Destino de 2010 e, por enquanto, o cantor não teria planos para discos futuros. Entretanto, há três meses, ele publicou em seu canal oficial no YouTube um projeto chamado Voz e Violão, em que canta suas músicas em versões acústicas.

Tatit tem quatro discos de estúdio em carreira solo (ele lançou outros discos com o Grupo Rumo) e um ao vivo. O álbum que Tom Zé escolheu foi um lançado em 2000 chamado O Meio. Eu ainda não sei qual o meu favorito, mas tá sendo uma delícia descobrir aos poucos. Apesar da dor de ter conhecido esse gênio tão tardiamente, está sendo mais sofrido constatar que poucos o conhecem. Todo mundo usa o título da música do Criolo “Não Existe Amor em SP” como legendas de fotos e todos lembram da famosa “São São Paulo” do Tom Zé no aniversário da maior metrópole do país, mas nunca vi “Deu Pane Em São Paulo” do Tatit nas listas de músicas sobre a terra da garoa. Digo isso mesmo com Tom Zé considerando a canção “Esboço”, também de Tatit, como uma das canções mais lindas compostas sobre São Paulo.

“Em todo caso, desejo aumentar a curiosidade de vocês a respeito dele, porque seu escondimento é um prejuízo”, escreveu Tom Zé ainda no livro Discos. Por isso não levem a mal o que vou dizer, mas sinto pena de quem não conhece Luiz Tatit, a mesma pena que sinto do meu eu anterior que desconhecia esse monstro da música brasileira.

Luiz Tatit – Felicidade

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10 Comentários

  1. David

     /  6 de junho de 2015

    Eu sei que aquele que escreve o blog não é fã de DVDs de shows (inclusive já listou um bom motivo para isso neste mesmo blog), ainda assim indico o DVD “TatitWisnikNestrovski”. Se não o conhece ainda, veja. É uma maravilha.

    Abraços.

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  2. A sua escrita é deliciosa ouso arriscar tão deliciosa quanto sorvete, adorei a dica e agora já sinto a necessidade de conhecer Luiz Tatit rs

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  3. Por essas e outras eu fazendo uma espécie, bem pessoal claro, de meus 1001 discos que já ouvi antes de morrer e quem sabe partir para os 1001 que ainda não ouvi. Meu abraço e muito obrigado pela visita.

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  4. anameliacoelho

     /  14 de julho de 2015

    olá! tive aula de linguística com ele… mas imagine que nunca fui atrás de suas músicas? agora vou procurar também ;) legal o blog, abraço!

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  5. rennan

     /  22 de julho de 2015

    Olá! Ainda irá continuar a série dos 1001 discos? Gostei muito.

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